Casa Branca, 1758, Maio, 15
Memória Paroquial da freguesia de Casa Branca, comarca de Avis
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 10, nº 235, pp. 1587 a 1588]
Nº 1161
Caza Branca Vigararia de Sousel.
Termo de Avis
Exmo. e Reverendissimo Senhor
Em cumprimento do mandato que por Ordem de V. Ex.ª me foy apresentado para
responder ao que se procura no papel incluzo digo que esta freguesia chamada da Aldea
da Caza Branca he sita na Provincia do Alentejo pertencente ao Arcebispado de Évora;
da comarca e termo de Aviz.
He de ElRey como governador, prepetuo administrador que he da Ordem, e cavalaria
de São Bento de Aviz.
Tem vizinhos dentro da aldea noventa a seis; e fora da aldea dispersos pelos montes
setenta e dois: pessoas mayores dentro da aldea duzentas e trinta; menores setenta e seis.
Fora da aldea pessoas mayores duzentas e setenta, e menores sincoenta e duas.
Está situada esta aldea em campina; dela se descobrem tão somente a Vila do Canno
que fica ao Nordeste distante meya legoa: A Vila de Estremos, que fica ao Nascente
distante três legoas: e a Vila do Vimieyro, que fica ao Sul distante duas legoas.
Não tem próprio termo, porque esta em termo de Aviz.
Tem a igreja parochial nesta aldea, cujo orago he Nossa Senhora da Graça a quem se
faz festa aos quinze de Agosto. He de huma nave so; tem quatro altares excepto o
mayor; dois são colateraes; os outros dois de lado. Os colateraes hum he de Nossa
Senhora dos Preses; outro de Santo Christo. Os de lado hum he de Nossa Senhora do
Rozario; e o outro das santas almas.
Tem as irmandades seguintes. A de Nossa Senhora da Graça: a do Santissimo
Sacramento a do Rozario, e a das Almas.
O parocho desta freguesia intitulase capellão curado: he da apresentação de El Rey
como governador, e prepetuo administrador do Mestrado e Ordem de São Bento de
Aviz. Tem de renda dois moyos de trigo, e moyo e meyo de sevada pagos pela
Comenda de Aviz; e mais quinze mil reis em dinheiro pagos pello Almoxarifado de
Benavente; não tem beneficiado algum.
Tem esta freguesia duas ermidas que lhe pertencem: huma dentro da aldea, outra fora;
a que esta dentro intitulase de São Miguel; e nesta esta tambem huma imajem
prodigioza em milagres, que he hum Santo Christo de pedra. A que esta fora chamase
de São Bras, e ao seu dia concorre a ela muita gente em romagem; no mesmo dia se fas
ali no campo proximo a ermida hum mercado, o qual he livre. Esta ermida ainda que
pertence a esta freguesia com tudo esta em termo da Vila de Pavia.
Os frutos desta freguesia são algum trigo, sevada e senteyo, e bolotas, porque a mayor
parte della he charneca.
Não tem juiz ordinario, porque esta sugeita ao governo das justiças de Aviz, e
somente tem aqui na aldea um juiz chamado de vintena.
Não tem correyo; porem se he preciso valese do correyo de Aviz, que dista daqui
duas legoas. Desta aldea à cidade capital do Arcebispado distão sete legoas; e a cidade
capital do Reyno vinte e huma.
Padeceo ruina no Terramoto de 1755 a igreja parochial de Nossa Senhora da Graça e
a igreja ou ermida de S. Miguel; e posto que não foy muito concideravel, ainda se não
reparou, porque os moradores desta freguesia são todos pobres.
Tem esta freguesia dois rios pequenos, que se juntão ao depois em hum: ambos tem
seu principio no Campo do Ameyxial termo de Estremos: hum na Orta da Granja, e
chamase Almadafe Seco; o outro que se chama Almadafe Molhado principia à Fonte da
Talisca: vem estes dois rivulos unirse nesta freguesia por bacho da Ponte da Dourada e
com o nome de Almadafe vai continuando the os moinhos da Ribeira de Cabeção onde
morre, e finaliza: e não tem mais pontes que tão somente a da Dourada, a qual he de
pedra.
Correm do Nascente ao Poente; são arabatados em tempo de chuvas; e correm
somente no Inverno; e neste tempo crião alguns piscicullos chamados pardelhas, e
badalos.
No Almadafe Molhado esta hum moinho por bacho da Erdade das Barrochas desta
freguesia; e depois que a este se junta o Almadafe Seco tem mais dois moinhos hum
junto ao monte da Erdade do Tindeiro; e o outro por bacho da Erdade do Maronoto tudo
nesta freguesia; e desde o nascimento destes dois regatos the a ponte da Dourada aonde
se unem deitão duas legoas; e daqui the os moinhos os moinhos da Ribeira de Cabeção
onde finalizam outras duas legoas.
Sobre os mais interrogatorios que no papel se procurão não tenho que dizer cousa
algum [sic], e para asim constar me asinei Caza Branca 15 de Mayo de 1758.
O Parocho –Fr. Jozé Lopes Gracia
[Assinatura autógrafa]
(1) O número parece estar riscado.
Transcrição: António Carlos Paixão
Revisão: Fernanda Olival
