Pias, 1758, Maio, 10
Memória Paroquial da freguesia de Pias, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 29, nº 169, pp. 1215 a 128]
Relação dos imterogatórios comtheúdos na lista que oferecce emtregue na mão
própria pello reverendo escrivão da vigairaria da vila de Moura mandada pello
Exselentísimo e Reverendísimo senhor Dom Frey Migel de Távora Arsebispo do
Arsebispado de Évora, emtregue a vinte sete de Março de mil setesento e sincoenta e
oyto.
1 He esta freguezia chamada das Pias, província do Alenteyo, Arsebispado de
Évora, comarqua de Beja, termo de Moura, freguezia de Santa Luzia.
2 E como he termo de Moura toda ella pertence está de bacho do demenio1 do
senhor Infante Dom Pedro Infante de Portugal.
3 Consta esta aldea de vezinhos sento e oitenta. Tem de pessoas de cumunhão
quinheitas e sesenta e seis. Tem de pessoas menores noventa (p. 1215)
4 Está esta aldea situada em huma canpina tendo tam somente dois oyteyros,
hum chamado Castelo e outro chamado Oiteyro povoado com número de vezinhos,
donde se descobre a sidade de Beia destante sinco léguas, como também a Serra de
Ficalho, destante três léguas.
5 Tem esta freguezia o seu termo ou limites pertencentes a ella de território para
a parte do norte passante de légua, pois parte pela Atalaya Gorda pela parte do poente,
tem huã légua de distante e pella parte do sul parte com o termo de Serpa e pela parte do
nassente parte com a freguezia de São Sebastião de Val de Vargo deste termo, tendo de
distância meya légua. Não consta de aldeas com lugares e só sim de algumas herdades
com vezinhos cuios fogos emportão em trinta e oito: pessoas grandes sento e quatroze;
menores vinte e sinco, soma sento e trinta e nove que junto à verba supra da aldea soma
ao todo o que consta a dita freguezia de setesentos (p. 1216) e setenta pessoas, entre
mayores e menores.
6 Acha-se setuda2 esta parróchia fora da aldea das Pias, tem um vale chamado de
Santa Luzia, cuio vale se acha demarcado o oiteyro, haverá sento e vinte annos com a
regalia dos pastos do mesmo se puder utulizar o reverendo párrocho e os parrochianos
em quanto assistem aos offícios devinos podem uzar de comer os pastos com suas
cavalgaduras e nada mais não tendo a freguezia mais que a dita aldea chamada as Pias.
7 He o seu oraguo a glorioza Santa Luzia. Tem o seu templo cuatro altares a
saber, o altar mor em o qual está o senhor Jesus e a Senhora d'Assunpção e o oraguo da
glorioza Santa Luzia, como também o altar das Santas Almas, cuio consta da sistência
do gloriozo São Migel, do gloriozo apóstolo Sam Pedro, do gloriozo apóstolo Santo
André. Tem outro do gloriozo São Luís assestido do patriacha São Francisco. Tem outro
da glorioza Santa Bárbara. Não consta de naves mas sim o teto (p. 1217) da bóbida, he
de abóbida fermada em dois arcos. Consta de três Ir, digo de duas Irmandades leigas, de
que toma conta o doutor provedor da comarca de Beja a saber, huma das Santas Almas,
outra do Senhor Jesus.
8 O párrocho desta parróchia he curato, aprezentação do Exlentíssimo (sic)
Reverendíssimo senhor Dom Frey Migel de Távora, Arsebispo de Évora. Tem de
côngrua e sustentação de trigos cuatro moyos e hum cuarteyro para guizamentos e hum
moyo de sevada pera sustento da sua cavalgadura.
9 Nada.
10 Nada.
11 Nada.
12 Nada (p. 1218).
13 Em a dita aldea chamada das Pias se acha erecta por comseção do
Exselentíssimo senhor Arsebispo huma ermida feita com toda a perfeição de abóbeda de
huã nave. O seu oraguo he o gloriozo Santo António, tendo tam somente hum altar
assestido do orago Santo António, São João, Nossa Senhora da Comseyção.
14 Não consta que seja de romague3 e assim oraguo desta parróchia a glorioza
Santa Luzia no dia da sua festividade e pello descurço do anno tem alguns dias que a
sua devoção os obriga.
15 Os frutos desta freguezia suporta a bondade della são trigos, sevadas,
senteyos, tremezes e não há mais.
16 Tem a dita aldea pertencente ao governo della nomeado tudo pella câmara da
vila de Moura, a saber: juis, a que chamão da vintena, escrivão, alquaide e dois
louvados os quais têm jurdição para emcoimar e condenar e o juis prender no tronco
athé remeça pera a cadea (p. 1219) de Moura, estando sugeitos às detreminaçoins das
justiças da dita vila de Moura.
17 Nada.
18 Nada.
19 Nada.
20 Os que têm dependências se valem do correio de Moura, cuio chega da
comarqua de Beia no dia sábado e parte no dia quinta-feyra distando sinco léguas da
sidade de Beia a Moura, donde chega.
21 Dista da sidade capital do bispado à sidade de Évora doze léguas a Moura e
de Moura à capital sidade de Lisboa, vinte sinco léguas.
22 Acha-se a freguezia atendendo Sua Real Magestade aos grandes discómodos
e roubos e mais penas que padesserão no tempo da guerra comseder-lhe a imzenção e
alojamentos pera soldados (p. 1220).
23 Nada.
24 Nada.
25 Há na dita aldea junto à hermida huma atalaya.
26 Na ruína do tarramoto do anno de mil e setesento e sincoenta e sinco, tanto na
parróchia como na hermida foy de pouco (...) e a que teve se acudio logo a repará-las.
27 Não há mais que dizer digno de memória deste premeiro emterrogatório.
Emterrogatório segundo pertencente às serras desta freguezia:
1 Nada.
2 Nada.
3 Nada. (p. 1221).
4 Nada.
5 Nada.
6 Nada.
7 Nada.
8 Nada.
9 Nada.
10 Nada.
11 Há só na mesma huma charneca, na qual se alementão cabras e bois e de
cassa coelhos e lebres e perdizes e de lobos com abundância.
12 Nada.
13 Não haver mais que dizer a este emterrogatório (p. 1222).
Emterrogatório tersseyro pertencente aos rios que ouver nesta freguezia:
1 Há na mesma hum ribeiro chamado da Moreyra, cuio tem a sua origem nesta
freguezia nos lemites de Val de Vargo, destância de huã légua.
2 De Inverno ou tenpo de chuva caudelozo e de Verão se seca , tendo na estrada
de Moura duas pontes a saber, huma chamada do mesmo rebeiro e outra do ribeiro da
erdade da Carreyra.
3 Junto à erdade da Terra da mesma freguezia se ajuntão os dois ribeiros e de
Inverno fazem rio caudelozo.
4 Nada.
5 Nada.
6 Corre este ribeiro do nassente pera o poente (p. 1223).
7 O tal rebeiro os peiches que cria são bordalos, pardelhas, alguns (...) estes com
abundância prencipalmente nos pegos nasedios (?).
8 São libertos pera quem os quer pescar em todo o anno.
9 Não tem senhorio que empeça a leberdade de os pescar.
10 Passa este rebeiro por marges munto abundantes de pam cem nelas haver
arvoredo de fruto ou silvestre.
11 Nada.
12 O dito rebeiro sempre comservou o nome com o mudar do ribeiro da
Moreyra.
13 Corre do nasente pera o ponente entra na Ribeira de Guadiana (p. 1224).
14 Nada.
15 Está respondido no emterrogatório tersseiro.
16 Tem este ribeiro distante desta parróchia três cuartos de léguas águas
nasedias das cuais se regão três pumares como também tem outro junto às suas marges
de donde a mayor cantidade de água da qual se utelizão os ditos pumares e moy hum
moynho. Em sertos mezes de Verão lhe pruhibem a moenda pera ficarem os ditos
pumares com mais abundância de água e com as ditas àguas na erdade do Pizanito
trabalhava hum pizão ao que hoie está arruinado.
17 Nada.
18 Não consta que estes pumares para uzarem das suas águas tenhão (p. 1225)
mais penção do que a comseção do enlustre segnado da vila de Moura, segundo me
asegurão.
19 Desde a sua origem athé a donde acaba tem três léguas, cendo a sua origem
nos fins da freguezia de Val de Vargo e pasando por toda esta e pela freguezia da Orada
fenaliza na rebeira de Guadiana.
20 Não tenho mais clareza nem notícias que poça dar sobre os emterrogatórios
que se me aprezentarão.
Exselentíssimo, Reverendíssimo senhor, remeto a vossa Exselência com aquela
emdevidual clareza que pude dar sobre os emt, digo, sobre os três emterrogatórios que
por ordem de Vossa Exselência me forão emtregues, dando satisfação a elles no tempo
emtimado de dois mezes e de (p. 1226) não hir com aquela edevidual clareza e o meu
affecto dezeiava e comferir com a vontade e gosto de Vosa Exselência, me ficará esse
dissabor, ficando serto o breu, o verdadeiro o séo. Guarde a Vossa Exselência dilatados
annos para nossa comsolação e aubmento da igreia cathólica, Santa Luzia, de Mayo dés
de 1758.
Exelentíssimo e Reverendíssimo Senhor
de Voça Exselência o mais enutel súdito
Manuel de Vargas Bravo
(1) domínio.
(2) situada.
(3) romagem.
Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa
in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2003, pp. 65-69.
