Moura - São João Baptista

Domingo, 12 Junho 2011 09:39 André Coelho
Versão para impressão

São João Baptista, 1758, Julho, 2
Memória Paroquial da freguesia de São João Baptista, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 25, nº 234a, pp. 1741 a 1760]

 


Resposta
Ao interrogatório que por ordem do Excelentíssimo e Reverendíssimo senhor Dom Fr.
Miguel de Távora, Arcebispo Metropolitano de Évora, do concelho de Sua Magestade,
que Deos guarde se mandou ao reverendo prior de S. João Baptista, matris da villa de
Moura sobre a matéria que contém em ordem à mesma villa naquela freguezia.

 

1.º A villa de Moura, que pella sua grandeza tem voto em cortes, alcançou
recomendação de notável e mereceo que El Rey Dom Denis lhe concedesse todas as
graças, foros e previllégios que cncedeo à corte e cidade de Évora. Está cittuada na
província de Alemtejo, na zona temperada setemptrional, quatorze graos desviada do
Trópico de Câncer, em trinta e seis graos e meyo e trinta e seis minutos do Equador, ou
linha equinocial. Neste sítio a edificarão os gregos thebanos, companheyros de Hércules
no anno da creação do mundo dous mil setecentos e quarenta antes da Encarnaçam do
verbo divino mil e duzentos e vinte e hum, dando-lhe pella sua grandeza o títullo de
cidade com o nome de Arouce a Nova. Didicaram-na os seos fundadores ao mesmo
Hércules e nella lhes levantaram soberba státua. Entre as várias revolluçoins que houve
naquelles tempos na Lusitânia conservou a pás muytos tempos, pella grande sabedoria,
prudência e capacidade de Marco Atterio Paulino, cidadam da mesma cidade e em
agradecimento a tanto benefício lhes levantam os naturaiz státua tam magnífica como
levantaram a Hércules. No castelo da villa se descobre hum padram em huma quina do
convento das relligiozas de Nossa Senhora da Assumpção com esta inscripçam: Julia
Agripina Neronis Caesaris matri nova civitas Arucitana. Desta inscripçam se vê que
sobre o mesmo padram levantaram os moradores státua à may de Nero para eternizarem
agradecidos nos sécculos futuros a memória de algum grande beneffício que lhe
devecem. Quando os mouros conquistaram as Hespanhas ficou senhor de muytos povos
de Alemtejo com o título de Alcayde hum mouro potentado chamado Boaçom, o qual
deu o senhorio desta grande povoaçam a sua filha Salúquia com o título de Alcaydesa.
Como a senhoria era moura e a cidade com o tempo perdeo o splindor. Primeyro trocou
o título e o nome: pellas ruínas do tempo ficou somente com o título de villa; por ser
moura a senhoria, ficou com o nome de Moura. Dizem outros que lhe ficou o nome de
Moura porque Dom Álvaro e Dom Pedro Rodrigues, cavalheyros que servirão de tronco
(p. 1741) à famillia illustre dos Mouras, foram os que a (res) gataram do poder dos
mouros, reynando em Portugal o grande Dom Afonço Henriques. Ambos os pareceres
(...) probabillidade igual, porque as armas da villa sam huma moura precipitando-se de
huma torre. E como os Mouras foram causa do precipício da moura ou da moura
(pre)cipitada, ou dos Mouras que foram cauza do precipício, (he) certo que ficou à villa
o nome de Moura. Pertence ao A(rce)bispado de Évora e a comarca de Beja, honze
légoas distante da cabeça da Diocese e cete da capital da comarca da (Or)dem de Sam
Bento de Aviz, governada por hum juiz da mesma ordem, que he o prior da matris da
villa, ao p(re)zente o reverendo Doutor Frey Theodózio Freyre Lameyra, varam singular
em letras e vertudes, freyre conventual da Ordem, comissário do Santo Ofício, vigário
geral (pro)vizor e juis das justificaçoinz de genere das duas villas de Noudar e
Barrancos, Nullius Diocesis. Em muitos lugare se tem feyto justíssimo acredor (?) de
mais avantejados e(m)pregos.

 

2.º De prezente pertence o domínio desta villa à sereníssima Caza do Infantado e della
he senhor actual o sereníssimo Infante Dom Pedro que Deos guarde.

 

3.º Tem a villa na freguezia desta matris de Joam Baptista oitocentos e vinte e oito
vezinhos, duas mil trezentas e trinta pessoas de sacramentos.

 

4.º Tem a planta no declívio de hum monte, cujas (ra)izes banha o piqueno rio Branhas,
célebre pellos muytos (po)mares, vinhatarias e ortas com que se adorna e pellos
m(uytos) lagares, asenhas e moinhos com que serve ordinariamente (o) povo em huma
légoa de carreyra desde a fonte de que n(asce) athe morrer com pouco cabedal no
perene rio Ardilla (para) a parte do norte em distância de meia légoa da villa. (Da) villa
se discobre a cidade de Beja em distância de sete lég(oas), a villa da Vidigueyra em
distância de sinco, as aldeyas (de) Amareleja e Safara em distância de três e a de Santo
A(leixo) em distância de quatro.

 

5.º He dillatado o termo da villa, de sorte que ocupa (...) légoaz da parte do oriente para
o occidente; para o nor(te) (p. 1742) e para o sul occupa somente duas. Comprehende
sete aldeyas e sinco freguezias. Sam as aldeyas a Póvoa, Amareleja, Safara e Santo
Alexo, Val de Vargo e Pias. Sam as freguezias a de Nossa Senhora da Estrela, a de
Santo Amador, da Senhora da Choroada, da Senhora da Conceyção de Montalvo e da
Senhora da Orada, das quais dirão seos párocos todas as circunstâncias que lhes
pertençam.

 

6.º Ficca a matriz dentro dos muros da villa, próxima dos mesmos para a parte do norte.


7.º O seu orago he Sam João Baptista. Templo magnífico que mandou edificar El Rey
Dom Manuel de glorioza memória. He o tecto de abóbeda repartido em três corpos
sustentados em oito ellevadas collumnas de cantaria, quatro por cada lado. Tem trez
portados magestozos, todos de mármore. Para o occidente fica o principal, os dois, para
norte e sul. Sam nove os seos altares: o mayor, quatro collateraes e quatro lateraes. No
meyo do mayor está a Senhora com o títullo de Madre de Deos, em hum formozo nicho
de talha sextavado, cuberto em huma cúpula de matéria semilhante, que remata em
huma choroa imperial. Ao lado do Evangelho está Sam Joam Baptista sobre huma
piquena pianha, que nasce do retábollo. Do lado da Epístolla está Sam Brás collocado
em semilhante lugar. O retábollo, camarim e trono sam magestozos, todos de talha, com
muytas targes e lizos, sendo todo o lizo pedra fingida. Sam os frizos e a talha tudo
dourado, que pela diversidade das matérias e bem ajustado dellas faz huma prespectiva
admirável. Dentro da capella está o choro, de que se servem os padres, deyxado outro
alto espaçozo e bastantemente cheyo de lus por sima da porta principal do qual não
uzam por não ser tam acomodado para as funçoins da igreja. No primeyro altar colateral
da parte do Evangelho está collocada Santa Catharina, virgem e mártir. Debaycho do
altar está huma caza de abóbeda a que se desce por quatro degraos de mármore, que
serve de jazido a Frey Diogo Vaz Paschoal, mercetíssimo prior que foy nesta matriz,
por cuja alma se cantava antigamente missa no mesmo altar todas as segundas feyras (p.
1743) do anno. Mas como a fazenda que deixou pa(ra) este efeyto se tem deteriorado
sensivelmente, de prezen(te) somente se canta nas segundas feyras cada quinze dias. No
segundo altar collateral do mesmo lado está collo(ca)da a Senhora do Rozário, imagem
prodigioza e em vulto, (es)tofada de ouro que na estatura, semetria das feyçoins (e) em
todos os accidentes, mostra na realidade ser o exempl(ar) que teve Salamam na idea
fallando da mulher forte.
Ao lado direyto está o Senhor dos Terços, em huma cruz (ma)gnífica, que todas
as noutes sahe com decência e gravidade nas maons de hum sacerdote acompanhado de
muy(ta) parte do povo naquella devoçam. Ao esquerdo está hu(ma) imagem antiga da
Senhora do Rosário vestida de rou(pa) e ornada com decência. Foy instituidora e
padroeyra (des)ta capella Dona Felipa de Moura, descendente dos m(esmos) Mouras
que resgataram a villa. Tem a mesma cape(lla) missa cotidiana pella sua alma. Deyxou
oito alqu(ei)res de azeyte para estar sempre a capella illuminada e os seos sucessores no
padruado da mesma tratam de (to)dos os ornamentos e aseyo della. He seu padroeyro
(ao) prezente o conde de Val dos Reys. Debayxo do altar (há) huma grande caza com
genella gradeada de ferro (para) o norte que servio de jazido à fundadora e está porém
(...) para todos seos sucesores. A primeyra capella late(ral) do mesmo lado tem no meyo
a imagem de Sam Ben(to) meu patriarcha e pay vestido em hum hábito de seda (...)
nossa hordem. Ao lado direyto está Santo António, (ao) esquerdo Sam Bento de
Pallermo. Debayxo do altar está o grave jazido de Pedro Calvo, sua mulher e filhos, he
huma bastante caza de Abóbeda. Foy esta capella (ins)tituhída pello mesmo Pedro
Calvo. Está sempre il(umi)nada e tem trez missas rezadas cotidianas pellas al(mas) dos
fundadores e em todas as terças feyras missa can(tada). Tem festa solemne de Sam
Bento no próprio dia do (san)to. Na segunda capella lateral do mesmo lado (es)tam os
dous santos Chrispim e Chrispinianno em (...). Ao direyto lado Sam George deffençor
do reyno. No (...) do a Senhora com seu preciozo filho na acção da (fu)ga do Egipto,
todas ellas tratadas com suma descênc(ia). na primeyra capella collateral da parte da
Epístola (es)tam as trez imagens de Jesus, Maria, José em (p. 1744) vulto todas,
stofadas de ouro. Na segunda capella do mesmo lado está o Corpo de Christo
sacramentado em hum sacrário excellente de talha, com fingimento de pedra, com os
frizos todos dourados, forrado por dentro de boa seda, guarnecida de ouro. Nelle está o
sacramento em depózito em cofre magnífico de pratta com capa cuberto de precioza
tella. Está no mesmo huma bulla de prata, sobredourada também com capa de tella, em
que está o sacramento para se destrebuhir diariamente aos fiéis e hir aos enfermos da
freguezia como viatico.
Por sima do sacrário está a Senhora das Neves, em nixo dourado, cuberta de
hum vollante (?). Ao lado direyto a Senhora da Conceyçam, ao esquerdo Santa Luzia
virgem e mártir. Todas estas imagens sam em vulto, de talha e stofadas de ouro. Por
bayxo da capella está o grave jazido de Ruy Lourenço da Sylveyra e sua mulher, em
huma caza de abóbeda com genella gradeada de ferro para o sul. Tem hum capellão
perpétuo com missa cotidianna e he hum freyre da mesma hordem de Avis. tem duas
missas cantadas todas as semanas nas segundas feyras e sábados e tem festa solemne
com sermam nas quatro solemnidades da Senhora: Natividade, Purificação,
Aprezentação e Encarnaçam. Está sempre illumminada e tem sinco mil réis todos os
annos para ornato e aseyo da capella, doze alqueyres de azeyte para a alampada, tudo
obra do ilustre fundador. Na primeyra capella lateral do mesmo lado estam collocados
os dous santíssimos coraçoinz de Jesus, Maria em hum vistozo retábullo de talha
moderna. Nos lizos tem fingimento de pedra com a talha e frizos dourados. Na segunda
está huma corpullenta e (res?)pectiva imagem de Christo Crucificado. Havia na mesma
capella missa cotidiana que não há de prezente porque tiverão descaminho as fazendas
que deyxarão os fundadores para este effeyto.
Há nesta igreja nove irmandades: A do Santíssimo Sacramento, dos Santíssimos
Coraçoins de Jesus e Maria, da Senhora Madre de Deos, da Senhora do Rozário, de Sam
João Baptista, dos Santos Chrispim e Chrispinianno e das Almas. As últimas duas
irmandades sam da Senhora dos Remédios, erecta no convento das religiozas do
Castello desta villa e da Senhora da (p. 1745) Charidade, erecta no Recolhimento do
Espírito San(to), ambas da jurisdição do juiz da Ordem. Todas estas irman(da)des fazem
suas funçoins solemnes no anno, que consiste(m) em festa solemne aos santos a que
serve e ofício com m(is)sa solemne pellos irmaonz defuntos de cada huma. E(n)tre
todas excede a das Almas que todos os annos passam (de) duas mil as missas que
manda dizer pellas mesma(s), por xigar o seu rendimento huns annos por outros quaz(e)
a dous mil cruzados. A expensas da Irmandade se a(l)cançou ser o seu altar
previllegiado, que he o segundo co(lla)teral da parte da Epístolla a honde está o
Santíssimo Sacramento. Além destas nove se erigio de novo na mesma igreja a
irmandade dos escravos do Senhor dos Terços, que tem feyto as suas funçoins com toda
a pompa, aparato (de) devoção possível. Há em todo o corpo da igreja duzentas e (ou)to
campas de mármore, mostrando ultimamente este famozo templo em todas as suas
partes que he produto de seu autor.

 

8.º Tem o párocho títullo de prior. He da aprezentação (de) El Rey como Gram
Mestre das hordens militares. E tem de rendimento ao todo duzentos e quarenta mil réis.

 

9.º Sam quatro os beneficiados que a servem, da mes(ma) aprezentação que o
prior e fará de renda ao todo cada (hum) de elles athe cento e vinte mil réis.

 

10.º Há no destricto desta matriz douz conventos de relligiozos, hum de
relligiozas e hum recolhimento de terceyras (car)mellitas calçadas. O primeyro
convento de relligiozos (he) o de Santo António dos Capuxos, em pouca distância da
villa para o occidente, no princípio dos olivaes. Lançou (a) primeyra pedra o
Illustríssimo senhor Dom Frey Domingos de Gusmam, Arcebispo metropolitano de
Évora, (aos) dezoyto de Junho de mil e seiscentos e outenta e quatro (com) assistência
do clero seccullar, regullar, nobreza e povo (desta) villa. Os fundadores e padroeyros
deste convento foram douz irmaonz Pedro Ferreyra de Moraes e o Capitam (An)tónio
Ferreyra de Moraes, naturaes da villa de Portel (assis)tentes que forão na de Moura. De
prezente he padroeyro (p. 1746) o Capitam Rodrigo Loppes de Moraez, das famíllias
illustres que tem a villa. Todos elles têm na capella mayor do convento magnífica
sepultura. Em humas cazas grandes dos padroeyros que ficão em huma ponta da villa
para o occidente acestirão muyto tempo algunz relligiozos como em hospício, donde
administravão os sacramentos e servião de consollação aos moradores da villa. Porém,
ahinda que se conservarão muyto tempo neste lugar, depois de se habitar o convento
vieram a cavallo recolhendo-se para o seu convento de todo, por lhe ficar o hospício
muyto devassado dos muros. Tem a igreja três altares: o mayor e dous colateraes
tratados todos elles com todo o aseyo. Tem três dormitórios bem lavados dos ventos por
ficarem mais levantados que os olivais. Hum jardim aprazível para recreyo dos padres e
horta muytto bastante para a sua comunidade. Nelle louvão os padres incessantemente a
Deos com fervorozo spirito e edifficação do povo.
O segundo convento he o dos religiosos carmellitas calçados edificado pellos
cavalheyros de Sam João de Malta junto aos muros da villa para a parte do norte no
lugar em que estava huma devota ermida da Senhora da Lus, que hoje serve de capella
na igreja do convento, na qual está collocada Santa Anna. Quando El Rey Dom Afonço
Henriques conquistou esta villa aos mouros fez della doacção aos cavalheyros de Sam
João (...) rosolomitano, hoje chamados maltezes para que a deffende(ss)em como
património legítimo. E como os ditos cavalheyros tinham trazido da Pallestina alguns
carmellitas por missionários e padres spirituais, para lhes agradecerem a boa sociedade
lhes fundaram este convento pouco depois do anno de Christo mil duzentos e sincoenta
e hum para que nelle pudecem viver com o socego e recolhimento que o seu estado
pedia. Dotaram-no os seos fundadores com copiozas (re)ndas, as quais cresseram a
tanto por mercês dos príncipes (de) Portugal e devoção dos fiéis, que chegaram a ter
tantos (a)lqueyres de pam de renda annual, como horas tem o anno, (q)ue vem ajustar a
quanthia de cento e quarenta e seiz moyos de trigo, não fallando nas mais rendas de
dinheyro (e) differentes géneros, que cobrava o mesmo convento todos (p. 1747) os
annos, que herão copiozíssimos. De sorte que sustentava naquelle tempo quarenta e
dous relligiosos do choro, com a quantidade de relligiozos leygos e ser(vos ?) que pudia
huma comunidade tam avultada. Constantemente se vê que estam ao prezente as rendas
do convento mais deminutas, mas não tanto que não seja o convento dos mais ricos que
conservão os carmellitas em Portugal. Foy o primeyro convento desta hordem que vio
nosso reyno e de hum monumento antiguíssimo que anda na Chrónica da hordem.
Consta serem portuguezes dous dos carmellitas que vierão da Pallestinna na companhia
dos cavalheyros, hum chamado Frey José Bitriado, superior aos mais, e foy o que
cantou a primeyra missa que se cellebrou no dito convento. Outro Frey Jaques (...)mas
Caliabra, que pregou o sermam da mesma festividade.
O templo he magestozo e sustentado em doze columnas de mármore, seis por
cada lado. O tecto (he) de madeyra e dos trez corpos que forma a igreja o do meio he
todo estradado, o dos lados e o mais corpo de igreja sam lagiados, com cento e vinte
campas magníficas de mármore com as armas de seos donos e várias inscripçoins, entre
as quais se lê em huma (es)te epitáfio céllebre: Aqui jaz João de Abril que morreu por
se rir. Tem dez capellas com a mayor, (to)das ellas estam sempre ilumminadas e têm
missas (co)tidiannas pellos seos instituhidores, as quais têm m(agni)ficas sepulturas
para si e seos herdeyros em cada (huma) dellas e lhe deyxaram todos por estas pençoins
muytas (ren)das ao convento. Sam padroeyros da capella mayor Rodrigo de Sá capitam
e alcayde-mor que foy (des)ta villla e sua mulher, Dona Guimar (sic) de Noro(nha).
Tem no meyo da capella sepultura para si e seos (des)cendentes e de prezente anda o
padroado da me(sma) na Caza de Óbidos. Tem o convento douz claustros, hum alto e
outro bayxo, ambos com genellas para o norte, bastante dezafogo e bem lavadas dos
vem(tos). Sam douz os dormitórios e ambos elles sam g(ran)diozos: o mais antigo com
genella conventual para o ocidente, o moderno para o oriente. Tem (p. 1748) muytas
vezes sido caza de estados e de noviciado. Deste convento têm sahido varoenz
eminentes em letras e virtudes: O ilustríssimo Dom Frey Christóvão Moniz, bispo
titullar de Reona e coadjutor do bispado de Évora, quando delle hera perpétuo
administrador o sereníssimo Cardeal Infante Dom Afonço, Arcebispo de Lisboa. O P.
Mestre Frey Diogo de Sande que tem na Província honoríficos empregos. O Doutor
Frey Nuno Viegas. O Padre Mestre Frey Gonçallo Fialho que nesta Província fo(r)ão
provinciais. Outros muytos filhos asinallados sahirão deste convento, que pella multidão
fora importuno o número dos mesmos e de prezente não cessão de louvar a Deos e em
letras e virtudes são exemplares de todo este povo.
Na hermida da Senhora da Luz em que se edificou o convento havia huma
milagroza imagem da Senhora com o títullo da Lus, primorozamente lavrada, na qual se
conservava hum grandiozo sino do qual nem da ermida se sabe a origem pella muyta
antiguidade. Sabe-se (u)nicamente que antes de entrarem os mouros nas Es(p)anhas era
venerada a Senhora naquella ermida, sendo certíssima protectora nas suas adversidades.
Como os moradores deixaram a villa pella invazão dos mouros lastimando-se que a
Senhora e o sino viecem ao poder dos mesmos. Com a possível dessênsia esconderão a
imagem e o sino em hum posso que estava sem água naquelle tempo, a que depois
chamaram a Fonte Santa por força do (p)rodígio que ali se vio, nome que ainda hoje
conserva, ficcando perto da villa na estrada que sahe da mesma para a villa da
Vidigueyra, para que Deos descobrice este thezouro quando foce servido. Quando (os)
mouros deixarão as Espanhas purificaram-se os tem(p)los e querendo o céo que a
Senhora se venerace na sua caza por meyo de hum millagre maravilhozo descubrio
aquelle grande thezouro, encuberto de tantos annos. Passando por aquelle lugar ao
romper do dia (h)um virtuozo homem, ouvio debayxo do xam huma (b)em concertada
música. Certificou-se mais e advertindo que não hera illuzão voltou a dar parte ao bispo
diocesano que nesse tempo estava na villa. E vindo (o) prelado ao lugar acompanhado
de muytas pessoas (de) autoridade e ouvindo todos os circunstantes a mesma (p. 1749)
melodia, mandou cavar no sítio e a pouca d(e)ligência encontrarão a Senhora e o sino
sem que mais escutacem a música. Conduziram anbas as couzas em huma procissão
sollemne por todo o p(o)vo, sendo ultimamente a Senhora collocada com o sino na sua
ermida. E crescendo a ermida ao templo, grande(za) que vemos hoje, por superior
destino do céo trocou (a) Senhora o título da Luz pello do Carmello e he a Sen(ho)ra do
Carmo que está collocada no altar mayor (imagem) prodigioza em quem todos os
naturaes e o Rey (...) têm experimentado os favores mais avultados (e) em todas as
affliçoins deste povo he a mesma Senhora o seu mais seguro asilo. Há mil e tan(tos)
annos que esta Senhora se conserva neste povo e (se) admitir pintura artificial, se
conserva com tanta galla como se estivera sempre sahindo das maons dos anjos para
inveja da natureza e maravi(lha) do céo. O sino he o grande que se conserva hoje na
torre do convento, por meyo do qual obra a Senhora continuamente muytos prodígios,
afugenta(ndo) as tempestades e fazendo bem sucedidas nos seos (par)tos todas as
mulheres que em aperto (se)milhante a invocam com devoção.
Há nes(ta) freguezia hum convento de relligiozas domínicas que não têm inveja
aos melhores do reyno (no ...?) material da clauzura e formal da comunidade. Tem tam
copiozas rendas que somente com o(s) juros dos dinheyros que tem por diversas maonz
sustenta a comunidade com abundância. Foy edificado por Dona Ângella de Moura,
mulher (de) João Gramaxo e hera descendente daquelles mesmos Mouras que
resgataram a villa, a qual (fez) a fundação no anno de mil quinhentos e seten(ta) e três.
Sendo a mesma matrona padroeyra do convento que o deyxou abundante de
rendimen(tos). Vieram quatro relligiozas do convento de Nossa (Se)nhora do Paraízo de
Évora dar princípio à comunidade e com ellas se clauzurou a (p. 1750) padroeyra no
mesmo convento, por mercê de seu marido, no dia seis de Outubro de mil quinhentos e
setenta e outo, em cujo dia de tarde se fechou ultimamente a clauzura. He orago da caza
a Senhora da Assumpção, cuja primoroza imagem se venera na capella mayor da igreja.
O templo he magestozo. Tem quatro altarez, todos de talha primorozamente lavrada: o
mayor, douz collateraez e hum lateral, de cuja capella he padroeyro o conde de Val dos
Reys, administrando-lhe o percizo para o aseyo, com capellam perpétuo de missa
cotidiana. A hum lado desta capella última está erigido hum mausoléo soberbo de
mármore embutido na parede, com esta inscripção formal: Aqui jazem os cavalheyros
que resgataram e ganharam aos mouros esta terra em tempo de Dom Rolim. Tem douz
choros, hum alto e outro bayxo, ambos magníficos e está edificado dentro do castello da
villa. Padesceo quasi total ruína no grande terremoto do primeyro de Novembro de mil
setecentos e sincoenta e sinco, morrendo logo trez relligiozas entre as ruínas e muytas
que ficaram incapazes de viver, que acabarão a vida no convento das relligiozas de
Santa Clara da mesma villa, donde se recolherão, por ficar o seu convento inhabitável.
Porém o Excelentíssimo, Reverendíssimo Dom Frey Miguel de Távora, Arcebispo
Metropollitano de Évora, de cujas (sic) jurisdição sam as relligiosas, de tal sorte e com
tam magnífico e piadozo zello lhe reparou as ruínas, que desde os alicerces ficou em
breve tempo innovado todo o convento, a expensas do mesmo Excelentíssimo Prellado,
em termos que para elle voltaram as relligiozas sem susto no mesmo anno. Só entram
em este convento aquellas pessoas que sam de sangue quallificado. Antes de edificado o
convento, era aquella igreja matriz da villa e com licensa de El Rey Dom Sebastião se
edificou ali o convento. Ahinda hoje se conserva na igreja do convento hum capellão da
Ordem, da aprezentação (p. 1751) de El Rey, como Gram Mestre. E com atenção a isto,
sahe ahinda da igreja do convento a porcissão de corpus, não obstante ter-se a matriz
mudado para Sam Joam Baptista. Porém leva o sacramento o juis da Ordem, como prior
da matris.
O comendador paga todos os annos sinco mil para a fábrica da dita capella, por
ser da Ordem. Nelle vivem as relligiozas tam apartadas do sécculo, que não se
encontram na portaria senão as pessoas (fa)milliares ou outras que tenhão no convento
forçoz(as) dependências. Exercitando-se em actos de virtudes são emullação glorioza a
todos os moradores.
Há um recolhimento no destricto da mesma freguezia de que he orago o Spiritu
Santo, porém de(lle) com serteza não se poude saber a origem pella sua (an)tiguidade
demaziada. Consta porém por tradição que foy hospício de padres da Companhia com
obrigaçam de educarem nelle sinco meninos do choro para aseyo delle e mais serviço da
igreja. E depois de vários annos, por ser doentio o sítio foy dezamparado dos padres,
(de)pois servio de hospital, em que a Caza da Mizericórdia mandava curar os enfermos
pobres e em memória disto ahinda a Mizericórdia manda todos os annos (fes)tejar o
orago da Caza do Recolhimento e lhe paga certa pensam. E como os doentes também
naquelle lugar padeciam detrimento, mudou-se o hospital para a mesma Caza da
Mizericórdia, em que o vemos hoje. Viveram no recolhimento passados estes tempos
freiras franciscanas e de prezente acistem nelle terceyras carmellitas calçadas com
louvável exemplo, servindo a Deos.
11.º Tem a villa hospital com expensas reais adem(inis)trado pellos relligiozos
de Sam João de Deos do qu(al) e do convento dará mais exacta notícia o reverendo prior
de Santo Agostinho, em cuja freguezia esta(o col)locados o convento e o hospital.
12.º Há nesta villa Caza de Mizericórdia. Fundou-se (p. 1752) no anno de mil e
quinhentos e setenta e nove, sendo Rey de Portugal o Cardeal Dom Henrique e
concorrendo o mesmo monarca com as expensas. He governada pella irmandade da
mesma Mizericórdia. Tem de renda huns annos por outros perto de setecentos mil réis e
cura todos os annos asima de duzentos e sincoenta pobres enfermos.
13.º Tem a villa trez ermidas no destrito desta freguezia, fora dos muros, todas
ellas de grande devoção para o povo: Santo António do Outeyro, a Senhora da Serra e
Sam Sebastiam. A de Santo António do Outeyro, com a qual o povo todo tem devoção
com mais speciallidade, ficca em pouca distância da villa para o Oriente sobre hum
monte elevado, rodiado de oliveyras por toda a circumferência. Pella rais do monte
passa o piqueno rio Branhas, ficando hum pomar piqueno da parte da villa, immediato
ao rio. E por ditos de homenz que têm discorrido a Ázia e virão este país, consta ser este
sítio piqueno mapa em que se reprezenta ao natural o Ollivate (?), o Cedrone o Horto,
que forão testemunhas dos altíssimos mistérios da nossa redempçam. Pertence o
domínio desta ermida à família dos Ravascos desta villa e na mesma ermida conservão
capellas de missa cotidianna. Desta capella he adeministrador ao prezente Gaspar
Limpo da mesma família e natural da villa de Serpa. A hermida de Sam Sebastiam foy
mandada edificar por El Rey Dom Sebastiam nos subúrbios da villa para o Occidente. A
Senhora da Piedade da Serra fica huma légoa em distância da villa para o norte. Com
devoção a frequenta o povo e que foy capelania curada em tempos antigos, pertencente
à hordem de Avis, he constante fama na villa.
14.º Destaz três ermidaz acode o povo com mais frequência à de Santo António
do Outeyro, em todaz as quartaz-feyras do anno, principalmente naz da Quaresma, em
que he mayor o concurso.
15.º Todo o terreno (p. 1753) do termo desta freguezia he fertillíssimo de
azeytes, vinhos, trigos e toda a mais espécie de gram, s(en)do copizas as colheytas que
fazem os moradores de todas estas quallidades de frutos. He abundantíssima de toda a
sorte de gados, por serem fertilíssimas e (di)latadas as pastagens dos seos baldios, em
que têm grandes entereces os naturaes.
16.º Tem juiz de fora e câmara com subordinação ao ouvidor e provedor da
cidade de Beja de que (he) comarcam a villa. E nella entram com jurisdição os ditos
menistros, que exercitão nas suas correyçoins e mais delligências particullares que lhe
sam recomendadas por Sua Magestade e pello sereníssimo Infante Dom Pedro, senhor
da villa.
17.º Nam he couto, cabeça de concelho, honra ou behetria.
18.º Tem sido berço lusido de varoinz excellentes em letras e virtudes e ahinda
que o descuydo (dos) naturaes tem sido perjudicial a muytos, que (en)tre os heroes de
Portugal mereciam lugar (des)tinto, deyxando-lhe sepultar os nomes no esq(ue)cimento,
ahinda conserva vivíssimas l(em)branças de muytos filhos, que desde a eter(nida)de
com as vozes da fama lhe estam dillatando a glória. Sam filhos desta villa o nunca assaz
louvado Dom Jozé Pereyra de Lacerda, dezemb(arga)dor da Rellação Ecleziástica de
Évora, deputado do Santo Offício, prior da parrochial de Sam (p. 1754) Lourenço de
Lisboa, prior-mor da Ordem de Santiago em Palmella, bispo do Algarve e cardeal da
Santa Igreja de Roma com o título de Santa Suzana, o qual, depois de assombrar a
capital do mundo com o seu talento, se recolheo ao reyno donde imprimio várias obras
jurídicas que mostrarão em todos os sécculos serem filhas daquelle heroe. O
Ilustríssimo Dom Frey Baltezar Limpo de Lacerda da Ordem do Carmo, que foy
arcebispo em Braga. Frey Baltezar Limpo de Lacerda, provincial da mesma ordem, o
qual imprimio várias obras em mil seiscentos e trinta e nove, em que mostrou
cabalmente egrégio do seu engenho. Frey Bento de Sampayo, que foy também
provincial dos mesmos carmellitas. Frey Diogo de Sande da mesma ordem, o qual
escreveo várias obras que não chegarão ao prello, por se abreviar a vida do seu autor. O
venerável Frey Estêvão da Purificação, que deu à luz várias obras, filhas da sua grande
capacidade, no anno de mil e seiscentos e dezacete. Frey Pedro Correya, franciscano,
que imprimio em (...) em mil e seiscentos e trinta e quatro. Garcia Soares Souto Mayor,
que também deu obras ao prello. Manuel Rodrigues Navarro, Clemente Rodrigues
Montanha, párrocho da freguezia de Santa Luzia das Pias, lente de moral no convento
de Palmella e prior da Anunciada de Setúbal, os quais imprimirão ambos. Sid de
Almeyda, dezembargador do Paço, Heytor de Pinna do Olival, dezembargador de
Agravos e procurador da Coroa. Miguel Jácome Esquível, reytor do Collégio da Madre
de Deos de Évora, dezembargador da Rellaçam Ecleziástica, juis executor da Caza do
Despacho (p. 1755), vezitador ordinário, Padre vigário geral de Beja e prior da igreja do
Salvador da mesma cidade. João da Costa Pimenta, reytor do collégio da Madre de
Deos; António de Almeyda, cónigo da Cé de Évora; Christóvão Lopes, cónego na Cé de
Lisboa; Vicente Vaz Ramos, vigário geral de Beja e prior do Salvador da mesma
cidade; Estêvão Pimenta, collegu(iado) da Purificação de Évora e prior da igreja de
Santo Agostinho desta villa; Frey Manuel da Ressurreição, prior de Santo Agostinho
desta villa, que também foy p(rior) em Santa Maria de Serpa; Gaspar Luís Branco,
Doutor em Theollogia, collegial da Purificação de Évora, reytor no Collégio da Madre
de Deos, lente de moral no convento de Palmella e prior da igreja de São Pedro da
mesma villa; Frey Francisco do Couto, que foy o último párrocho que teve a Ordem de
Avis na freguezia de Nossa Senhora das Neves, em distância de meya légoa de Beja.
19.º Tem esta villa feyra franca que dura por trez di(as) e tem princípio no dia
outavo de Septembro e (se rea)liza no dia décimo.
20.º Tem correyo próprio que sahe na quinta de men(hã) e depois de entregar as
cartas em Beja, cabeça da c(omar)ca em distância de sete légoas, chega a esta villa
sábado ao meyo dia.
21.º Este interrogatório vay respondido no número primeyro.
22.º Os foros e previllégios da villa vam também ditos na resposta do
interrogatório primeyro. Mas he d(igno) de memória ter havido nesta villa perto dos
(nos)sos séculos, homem que contra hordem da natureza, servio de ama para os seus
mesmos filhos cri(an)do-os aos seus peytos e mulher que desmentindo (pou)ca
actividade do sexo chegou a receber na face da igreja treze maridos e viveo pellos annos
de mil e (...)centos e vinte e outo (p. 1756).
23.º Há tantas fontes perenes nesta villa, que sendo sem número as fazendas de
pomares, hortas e quintas, que fazem este povo aprazível, fresco e abundante de toda a
sorte de frutas, mais que muytos outros desta província, he raríssima a fazenda que não
recebe o benefício das águas sem artifício algum. Entre as innumeráveis que há dentro e
fora da villa, he mais célebre a que rebenta no meyo do castello, mais bayxa que o
pavimento altura de três braços, com grosso bocal de mármore, à qual se desce por des
escadas de (i)gual matéria e conserva hum padram embutido na parede com inscripção
arábiga, que por estarem os caracteres consumidos com o tempo, não pode ler-se. Não
se sabe a sua origem, mas he tam céllebre que secando-se muytos annos os outros
aqueduttos (d)a villa sem excepção, esta fonte, e quantas della (i)manam nunca
experimentarão em suas ágoas deminuhição levíssima. Desta fonte corre a ágoa em tam
grande abundância que della se reparte em torrentes christallinas por vários aquedutos
que sahem em muitas partes. Hum delles rompe dentro do convento dos Castello, em
huma perene fonte que dá bastante ágoa para toda a comunidade. Outro sahe da praça
defronte de Sam Joam, por três canos de bronze e cahindo em huma grande pilheca de
mármore, desce a hum xafaris de matéria semilhante que serve as persizoinz do povo e
depoiz de regar hum delliciozo pomar da Irmandade das Almas den(tr)o dos muros sahe
dos mesmos, servindo a várias hor(tas) da villa. Por outro aqueduto sahe bastante
por(ç)am de ágoa da mesma fonte por trez canos de bronze na mesma praça defronte da
porta do Carmo, que sahe em hum grande cano de mármore e desce para hum grande
xafariz de semilhante matéria que faz a praça igualmente vistoza e aprazível. Também
sahe da fonte do Castello outra repartição de ágoa que rebenta no adro do Carmo por
hum cano de bronze e cahe em huma piquena pia de mármore de que corre para os
campos. Por sima da bicca está huma imagem de Nossa Senhora do Carmo sempre
illumminada em hum vistozo nicho com o resguardo, decência e gravidade possível. Há
outra fonte dentro (p. 1757) dos muros à porta de Sam Francisco que re(ben)ta por hum
bocal de mármore e desce a hum tanque (e) xafariz da mesma matéria. Fora dos muros
(se) discobrem mais duas fontes magníficas e perenes, h(u)ma fora da porta de Santa
Justa immediata aos muros para o nascente e outra na ladeyra do Moscam, (tam)bém
próxima da villa para a mesma parte, ambaz (ellas ?) vistozas com canos e xafarizes de
mármore. Por bayx(o) do balluarte de Santha Catherina para a parte do norte sahe outra
dos mesmos muros e dispenhando-se por hum cano copiozo serve a muytas hortas. No
caminho que vay da villa para Santo António do Outeyro re(s ?)ta outra por sima de
hum penhasco e precipitando (-se) pello mesmo por meyo de várias plantas e flores
fa(z) o sítio ameníssimo e refrigera os devotos do Santo.
24.º Não há na villa porto de mar.
25.º He praça de armas toda rodeada de muros. Por(ém) nas últimas guerras de
Portugal e Hespanha fi(ca)ram arruinados por muytas partes, têm-se reparado as
(ru)ínas quanto he posível e o mais suprem os melita(r)es infantes que continuamente a
vigiam. Tem quat(ro) baluartes principaes: o baluarte alto e o da Boa Vis(ta) que
defendem a villa para o sul, oriente e ocazo am(bos) elles fortalecidos com boa
artilheria. O baluarte de Sa(m) Sebastiam e o de Santa Catherina, igualmente sortid(os)
de artilheria, que defendem a mesma villa para o norte, nascente e poente. Tem três
baluartes menores, hum para o oriente, próximo aos quartéis, outro ao poente, por baixo
da porta de Sam Francisco e o último junto à matris da villa, que cahe para o norte, e
ahinda que com menos artilheria, sempre estam bastantemente sortidos para a defença.
Tem dous fortes fora dos muros, hum para o ocidente, fora da porta de Sam Francisco e
he o forte de Dom Pedro Massa. O(utro) para o sul, fora da Porta Nova para impedir o
(ser) atacada a villa por estas duas partes, por serem am(bas) mais acomodado sítio para
os ataques. He rodea(do) de hum excellente fosso que para o occidente e n(orte) a fas
mais defensável, rodeando-lhe os muros com (hum) ribeyro pelo ocidente e hum
despenhadeyro (p. 1758) medonho pello norte, que fazem a fortalleza inaccesível.
Dentro da villa tem belíssimos quartéis que acomodam hum regimento. Para o norte fica
a Porta do Carmo, para o sul a Porta Nova, ambas ellas magníficas com portados de
cantaria lavrada e portas (?) incontrastáveis. Para o nascente e poente ficam duas portas
menores, mas ambas ellas fortíssimas e bem acomodadas para servir-se o povo. No mais
alto da villa fica o castello que apenas conserva os vestígios da grandeza com que se
ornava. Estava todo cercado de hum jardim ameníssimo em que as fontes e os arvoredos
fazião hum gostozo labirinto para os sentidos. Na entrada do castello havia huma torre
grandioza que chamavam do Cavallinho. Para o occidente fazia a gallaria (sic) do
castello hum palácio excellente em que acestiam os governadores da villa. No meyo
huma pracça de armas bastantemente espaçoza e todo o mais circuito do castello
guarnecido de várias torres, porém tudo ficou arruinado na guerra da aclamação de Dom
Joam o quarto. Ficou sempre illeza a torre da homenagem que serve de trem (sic) para
todos os instromentos mellitares que tem a praça. E não chegou a ser minada pellos
castilhanos em atençam às relligiozas que padeceriam neste golpe o último estrago, por
ficar o convento nas raízes da mesma torre. Para a parte do Carmo tem outra grande
torre o castello. E levantando-se no ar metade da torre com as minas que lhe fizerão,
cahio sobre a metade que tinha ficado fixa, couza que todo este povo atribuhe a prodígio
da imperatriz do Carmo, porque cahindo fora do muro deyxaria o convento todo
arrazado. Nem ahinda no terremoto chegou a precipitar-se, porque a mesma mam a
deteve, padecendo ruína quazi todos os ediffícios da villa, ahinda os que prometiam
mais duração. Porém todos elles nesta villa com a boa delligência dos moradores se
acham inteyramente reparados.

 

Os interrogatórios vinte e seis e vinte e sete ambos vão respondidos nos números
immediatos.

 

Não há no destricto desta villa cerra alguma, este motivo porque se não responde
aos interrogatórios que se (p. 1759) fazem nesta matéria. Para o sul sim tem (...) hum
pedaço de cerra fragozíssima em distância de h(u)ma légoa, a que chamam a Cerra Alta,
abundante de cassa de montaria: javardos, corsos, gamos, servos, (ra)pozas, lobos e
infinita cassa miúda. Porém esta não tem couza sélebre que faça precizar de resposta ao
prezente interrogatório. E quando a houvesse aos párrochos em cujo destrito ficca
dariam cabal resposta.

 

A respeyto de rios pouca matéria se discobre também nesta villa para responder
aos interrogatórios que (se) fazem em particullar semilhante. Sim, é cercada (de) rios
que a fazem igualmente amena e vistoza. (He?) de tam deminutas circunstâncias que
não conhe(ço) couza que sirva de admiraçam. Pella parte do O(ri)ente da villa corre o
piqueno rio Brenhas que tem huma légoa de carreyra, das raízes da Cerra Alta (...) que
nasce para o sul, athe morrer no mediano rio de Ardilla para o norte. Pella parte do
occiden(te) corre junto dos muros o piqueno rio da Roda que (de)pois de fazer a villa
aprazível com hum quarto de légoa de carreyra sepulta em Branhas todas as suas ágoas.
Ambos elles sam tam pobres de correntes quanto abundantes de arvoredos, lagares,
asenhas e moinhos, suprindo com esta circunstância a pobreza do cabedal. Em distância
de meya légoa ao norte corre (o) medianno rio de Ardilla, que tem seu nascimento nas
montanhas de Arouche e rayas de Portugal e com des légoas de car(rey)ra perde o nome
em Guadianna, no sítio do Ameyxial. Em (dis)tância de huma légoa para o occidente
corre o Guadianna, rio famigerado nesta província. Tem seu nascimento em (Hes)panha
de huma grande lagoa, nas manxas de Aragam e en(tran)do por Portugal discorre pela
mayor parte das terras da (fron)teyra e enriquecendo a todas com suas ágoas, vay perder
o nome no occeanno do Algarve na barra de Ayamonte. Este rio (...) de Ardilla sam
ricos de fazendas de asenhas e moinhos e abundantes de toda a sorte de peyxes de ágoa
doce: Eyrós, lam(preias), sarmoins, barbos, picoins, sarrellos, e infinito peche mi(údo).
O de Guadianna he perene, tem trez pescarias no seu des(tricto) que pertence a esta
villa. Têm nome de Caneyros e sam dos (...) senhorios particullares da villa. Fora
navegável a não (haverem ?) tantos asudes que o embaraçam. O de Ardilla corre
muy(ta) parte do anno, mas seca-se de Veram. E ambos estes rios só têm paridade neste
sítio para embarcaçoins de remo.

 

He a matéria com que posso responder ao prezente interrogatório. Moura, 2 de
Julho de 1758.
Por moléstia do reverendo prior
O beneficiado Fr. Pedro de Leão e Lima Bastos

 

 


Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa


in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro,  Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo
, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2002, pp.47-62.

Etiquetas: Memória Completa Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa
Actualizado em Domingo, 12 Junho 2011 18:19