Moura - Santo Agostinho

Domingo, 12 Junho 2011 09:34 André Coelho
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Santo Agostinho, 1758, Julho, 2
Memória Paroquial da freguesia de Santo Agostinho, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 25, nº 234, pp. 1713 a 1740]

 


Reposta aos enterrogatórios que por parte do Excelentíssimo, Reverendíssimo
senhor D. Fr. Miguel de Távora, Arcebispo metropolitano, me forão entregues a
respeito da parochial de Santo Agostinho desta villa de Moura.

 

N.º 1º He Moura notável e fermoza villa na província do Alentejo neste reyno de
Portugal, sufragânea ao Arcebispado de Évora, comarca de Beja.
Fundada pelos gregos tebanos companheiros de Hércules pelos annos de mil e
seiscentos e quarenta da creaçam do mundo, foy chamada em outro tempo Aroche a
Nova para deferença de outra do mesmo nome, que na Andaluzia tinhão já fundado os
mesmos gregos. Foy destruída e arruinada quando se perdeo Hespanha e a possuirão os
Mouros, thé que por ordem do senhor rey Dom Affonço Henriques primeyro de
Portugal a ganharão e recuperarão os famozos Dom Álvaro e Dom Pedro Rodrigues
pelos annos de mil cento e setenta (...) vinda de Christo. Foy defendida por huma
varonil moura por nome Salúquia, filha de Buaçom, senhor de muytas terras de
Alentejo, thé que capacitada da valentia e esforço dos nossos soldados e daquelles
cavalleyros christãos se rendeo e entregou a villa e daqui em diante se intitulou Moura,
tomando por armas a mesma moura vencida, offerecendo da genella de huma torre as
chaves, como precipitando-se della. Assim o diz o P. Fr. Joam dos Santos, chronista
geral de Sam Joam de Deos.
N.º 2.º Foy algum dia esta villa da Coroa e o Senhor Rey D. Deniz lhe singio os
muros com que se fortalece, thé que se deo em doaçam ao Sereníssimo ( p. 1713)
Infante o senhor Dom Luís, filho do senhor Rey Dom Manoel, tendo cido em seu
princípio dos famosos Rodrigues, que a ganharão de á muytos annos a esta parte. Sam
senhores della os sereníssimos Infantes de Portugal e hoje a possue o sereníssimo
senhor Dom Pedro que Deos nos guarde.
N.º 3.º Conthem esta villa ao prezente mil e trezentos fogos, não obstante que o
referido chronista lhe deu o número de dous mil e o da religiam carmelitana lhe dá dous
mil e setecentos, o que poderia assim ser naquelle tempo e faz-se verosímil que poderia
ter naquelle tempo e assim porquanto se acham muytas moradas de cazas arruinadas e
postas por terra, além de muytas cazas que tem a villa que seriam povoadas no tal
tempo, e também porque depois que se lhe formarão os muros ficou muyto deminuta a
povoação e com menor circunferência do que era, como affirmam pessoas antiguas. A
primeyra opiniam he a mais certa, porque consta dos róys dos confessados das
paróquias e dos mesmos que os tais mil e trezentos fogos conthem, mil e novecentas
pessoas obrigadas aos preceytos da igreja.
N.º 4.º Acha-se cituada esta villa na encosta de hum monte entre dous rybeyros
que a lavam, regam e fertilizam chamados Brenhas e Lavandeyra. Della se descobrem
várias povoaçois, como sam a cidade de Beja, de que dista sete légoas, a villa de Serpa
quatro, Portel seis, Vidigueira sinco, Mourão sinco e Monsarás seis (p. 1714).
N.º 5.º Tem termo grande e dilatado, de tal sorte que para partes se estende a sete
légoas, quatro e cinco, contendo em si muytas povoaçois e aldeyas, como são Safara e
Santo Aleyxo que sam as principaes, pelo grande número de vizinhos com igrejas da
appresentaçam de S. Magestade, como governador e perpétuo admenistrador da Ordem
de Aviz. Cada huma destas tem prior e hum beneficiado, freires da dita ordem e as mais
povoaçois são as seguintes: Aldeya da Póvoa, da Amareleja, de Santa Luzia das Pyas,
Sam Sebastiam de Val de Vargo, Sam Pedro da Adissa, Nossa Senhora das Neves da
Coroada, Santo Amador, Nossa Senhora da Estrella e Nossa Senhora da Orada. Todas
actualmente da apprezentaçam do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Arcebispo
de Évora, com o título de curas ad nutum amovivies. Conthem mais a igreja de Nossa
Senhora de Montalvo da apprezentação do Illustríssimo e Excelentíssimo Conde de
Óbidos, com o título de prior colado. Pelo que respeyta ao número de vizinhos que
conthêm estas povoaçois daram individual notícia os seus reverendos párocos.
N.º 6.º Tem esta villa de muros adentro duas paróquias, primeyra Sam Joam
Baptista que he a matriz e a que anda anexo o juizado da ordem de Aviz desta
comarcada qual dará notícia o seu reverendo pároco. A segunda he a de Santo
Agostinho da qual direi o que poude achar por notícia de pessoas antiguas, por não
haver inscriptis mais memórias do que as que dam os livros dos baptizados, defuntos e
cazamentos (p. 1715).
§ No lugar em que se acha ao prezente cituada a Igreja paroquial de Santo
Agostinho havia huma ermida do dito santo em que assistiam certos monges da ordem
do mesmo, se bem que era muyto limitada e de pouca duração. Crescendo a povoação
de Moura, no anno de mil e quinhentos e noventa e quatro se erigio nova paróquia para
administração dos sacramentos e se erigio na tal ermida, ainda que tam limitada, por ser
a que havia naquelle tempo dentro na villa com mais commodidade para o dito
menistério. Em o anno de mil seiscentos e outenta e no mesmo lugar da antigua, se fez
nova igreja mais avultada do que era, mas ainda sem a grandeza que pode huma
paróquia tam crescida que comprehende quinhentos fogos, com mil e seiscentas pessoas
obrigadas aos preceytos da Quaresma e sem ter capacidade para paroquial de huma villa
tam notável e de tanta gravidade. Foy feita de esmollas e com o concurso do
comendador, que então era o Excelentíssimo Conde de Villar Mayor. Entrarão para esta
obra alguns dinheyros das fábricas e irmandades, prior, beneficiados e mais pessoas da
dita paróquia, cujo complemento deveo muyto ao Reverendo prior da igreja, que então
era Fr. Gaspar Rodrigues Velho.
N.º 7.º He orago desta paróquia Santo Agostinho, que derivou este nome da
ermida em que se erigio. Tem trez altares decentemente ornados com retábolo de talha
dourada (p. 1716).
Tem trez capelas. A capela-mor com o sacramento, tendo da parte do Evangelho
o senhor Santo Agostinho e da parte da Epístola o senhor Sam Bento. A segunda capela
tem trez imagens: a primeyra, de que se intitula a mesma capela he a Senhora do
Socorro, tendo da parte do Evangelho a Senhora da Conceyção e da parte da Epístola a
Senhora Santa Marta, se bem que esta pertence a huma ermida do campo, sugeita a esta
paróquia, com o título da mesma santa, a qual ermida se acha hoje arruinada e posta por
terra. A terceyra capela he do Senhor Santo Amaro e lhe fazem nella sociedade o senhor
Sam Bartholomeu da parte do Evangelho e da Epístola o senhor Santo António. No alto
desta capela se acha colocada a imagem do menino Deos, o qual se festeja todos os
annos no primeyro dia de Janeiro com a breve esmolla que para este effeyto lhe deyxou
o Reverendo Padre José Martins.
Na bocca da tribuna da capella-mor se acha colocada a imagem do Senhor Sam
Thomé apóstolo, o qual se festeja todos os annos em o seu dia com huma leve porçam
que para este effeyto lhe deyxou o Reverendo Padre José, digo, Thomé Martins. Todas
estas imagens são muy prefeytas e se achão decentemente colocadas, porém não tem
couza expecial ou que se possa fazer memória. He a igreja de huma só nave com todas
as paredes e ainda o mesmo tecto (p. 1717) da capela-mor ajulejados. Esta capela he
tam somente de abóbada e todo o mais corpo em lugar de abóbada forrado de madeyra.
Tem huma só irmandade, que he do Santíssimo Sacramento e duas confrarias,
huma dos estudantes e pessoas literadas, que festejam o senhor Santo Agostinho e outra
da Senhora do Socorro, que festejam muytas pessoas graves e que compoem a tal
freguezia.
N.º 8 O pároco desta igreja he prior collado e da apprezentação de Sua
Magestade, como governador e perpétuo administrador a que pertence. A sua renda he
muito limitada, porque apenas chegará a cento e secenta mil réis, não entrando nesta
quantia a esmola se sua missa. Tem havido nesta igreja desde a sua erecçam thé ao
prezente nove priores, todos freires de Ordem de Avis, dos quais o primeyro foy o
Reverendo Fr. António Rebello, como consta do seu jazido, que mandou fabricar na
capela-mor, instituindo por sua alma huma capela de sincoenta missas, cuja esmola he
imposta em hum olival que deyxou, a que chamão do Rebello, de que são
administradores os reverendos priores da dita igreja.
N.º 9 Tem esta paróquia dous beneficiados curados, freyres da dita Ordem de
Avis e também da apprezentação de Sua Magestade (p. 1718). A sua renda he limitada,
porque apenas chegará a setenta mil réis, não incluindo nesta a esmola da missa.
N.º 10 No destrito desta paróquia há dous conventos de religiozos e hum de
religiozas. O primeyro de religiozos he o do senhor Sam Francisco, o qual sendo o
vigésimo quarto da província dos Algarves, foy fundado no anno de mil e quinhentos e
quarenta e sete. Não consta de padroeyro algum que o fundase e só sim que de esmolas
lhe dese o privilégio no dito anno. Grande parte teve nestas esmolas para a tal fundação
o sereníssimo senhor Dom Joam terceyro, o qual pelo grande afecto que tinha à religiam
seráfica e com expecialidade a esta Província dos Algarves, concedeo para esta
fundaçam, a rogos do povo hum certo bosque, o qual sendo vendido com o seu producto
e com as mais esmolas que puderão haver se deo princípio ao tal convento e estando
ainda em prencípio e sem se finalizar, entrou a habitar-se pelos religiosos da dita
província e com tam pequena comodidade que ainda para vinte religiosos era muito
limitada habitaçam e assim o dice o Reverendíssimo padre mestre Fr. Francisco
Gonzaga, chronista geral da mesma religiam. No anno de mil quinhentos e setenta e
quatro, vindo (p. 1719) em vizita a este convento o Reverendíssimo Padre Provincial Fr.
Álvaro de Olivença, deyxou comissão ao Reverendíssimo guardiam que nesse tempo
era neste convento Fr. António Barradas, para que com António Gomes, homem-bom
dos desta villa e dos mais abastados della, ajustasse as condiçoins com que havia fazer à
sua custa os dous dormitórios que com effeito se fizerão com a esmola que pela grande
devoção poz prompta o dito António Gomes. Quais fossem as condiçois não se sabe,
nem tive quem me desse notícia dellas.
No anno de mil quinhentos e quarenta e nove se fez a caza que hoje é capítulo do
convento, com sua capela, ainda que pequena muy decente, a qual naquelle tempo ficou
servindo de igreja emquanto se não fez a que hoje tem, que he magnífica e hum dos
melhores templos que há nos conventos desta província. Na tal capela se celebrou a
primeira missa e foy feita à custa de António Penalvo e sua molher Mor Garcia e forão
os primeyros que por esmola fizerão obras nesta caza. Assim o diz huma inscripção que
se acha em huma pedra posta no tal capítulo que dizemos ter cido a primeyra igreja
deste convento do qual não houve quem me desse mais notícia alguma.
O segundo convento he o de Sam Joam de Deos, o qual foy fundado em o anno
de mil seiscentos e quarenta e foy deste modo: (p. 1720) Certo homem por nome
António Gonçalves carreteyro, pela grande e expecial devoção que tinha a Nossa
Senhora, mandou fabricar huma imagem sua com o título da Glória e depozitando-a na
igreja de Sam Pedro desta villa, cuidou em lhe fabricar hum templo em que a colocasse,
para dezempenho da sua grande devoção. Assim o fez com grande parte da sua fazenda
e esmolas que pedia para a dita fábrica pelos seus amigos e devotos de Nossa Senhora.
Feyta a igreja, que he onde hoje se acha, no rocio de Nossa Senhora da Glória, daonde
tomou o nome, despoz huma solemne procição e a colocou no dito templo, que na
verdade he magnífico e sumptuozo. O Reverendo prior e mais padres do senhor Santo
Agostinho ambiciozos santamente da tal igreja para sua paróquia pela pequenhes da sua,
entrarão a querer transferir a paróquia para a igreja da Senhora da Glória e darem para
se colocar esta imagem à igreja do Senhor Santo Agostinho. Para este effeito obtiverão
licença do Excelentíssimo e Reverendíssimo Ordinário de Évora e estando já em termos
de se pôr em execução a tal mudança sem ser ouvido o dito António Gonçalves, este
tomou a rezolução de queyxar-se ao senhor Rey Dom Joam o quarto, o qual mandou o
seu Secretário de Estado que então era visse os papéis e lhe deferisse com justiça.
Assim o fez o dito Secretário de Estado (p. 1721) que entam era Gaspar Severim e (...)
pela muyta razam que tinha António Gonsalves, sahio sentença a seu favor contra os
reverendos padres do Senhor Santo Agostinho.
Em agradecimento deste benefício que tinha recebido de Sua Magestade por
mediação do dito Secretário de Estado, lhe fez offerta do padroado della, que aceytou
Gaspar Severim e ambos para que a Senhora estivesse com mais decência e veneração
fizerão entrega della aos religiosos do senhor Sam Joam de Deos. Era neste tempo
Provincial da religião no nosso reino Frey Bento Paes, a quem fizerão avizo para que
em nome da religiam viesse tomar posse da igreja e de tudo o mais pertencente a ella (e)
não teve dúvida o dito provincial e mandando fazer huma imagem do senhor Sam Joam
de Deos, com ella hum estandarte, com mais quatro companheyros chegou a Moura e
depozitando-a no convento do Castello, que he de religiosas dominicanas, derão parte
de sua chegada, entregarão despachos e licenças que trazião e convidando assim
nobreza, clero e religiozos se fez huma solemníssima procição, levando o santo para ser
colocado na igreja de Nossa Senhora da Glória e tomando posse della. Derão logo
princípio à fundação do Hospital e para este effeyto tomarão humas moradas de cazas
circumvizinhas em que (...) enfermaria e mais officinas necessárias (p. 1722), tudo por
conta de Sua Magestade o senhor Rey Dom Joam o quarto. Foy o primeiro prior deste
convento Frey António de Afonceca, sacerdote e grande pregador neste reyno. Hoje se
acha muito adiantado este Hospital e he dos melhores da Religião.
O terceyro convento he o de Santa Clara, tam antiquíssimo que se lhe não sabe o
tempo em que principiou ser habitado de religiozas. Somente se pode colligir sua
antiguidade em ter o undécimo lugar entre os conventos de Santa Clara desta província
e de ser reedificado no anno do Senhor mil quinhentos e outenta, por se achar já neste
tempo ameaçando grandes ruínas. Assim o diz o Reverendo Padre Mestre Frey
Francisco Gonzaga. Consta também que antes deste convento pertencer à Ordem de
Santa Clara o fora da Ordem de Cister e que as religiosas do mosteyro de Aroca vierão
fugindo à peste e forão amparadas de Dom Rodrigo de Essa, alcayde mor desta villa. E
havendo peste dahi a tempos e falecendo as mais das religiosas, as poucas que
escaparão fugirão ao mal e o mosteyro ficou dezerto. A estas religiosas socederão outras
de Santa Clara claustraes (...)vada vida que habitarão este convento thé o anno de mil
quinhentos e outenta e chegou o (p. 1723) mosteyro a tal estado, pelas grandes ruínas
que experimentava, que veyo outra vez a ficar dezerto. Neste tempo o Reverendo Padre
Fr. Manoel Cuchilha, provincial desta província, por aproveytar o cítio, mandou huma
Dona Felipa de Mello com algumas religiozas de Santa Clara de Évora e outras de
Monforte, as quais tomarão parte do mosteyro por parte da observância. Florecerão
neste convento religiozas de conhecida virtude, como forão a madre Soror Mónica da
Trindade, a madre soror Paula de Santo António, huma das que veyo de Monforte e a
madre Mariana da Annunciação.
Como era muyto doentio o cítio deste convento e com tanto excesso que morrião
as religiozas todas no mais florido de sua idade, cuydou o P. Frey António de Mendoça,
ministro provincial desta província de lhe pôr o remédio e para este effeyto elegeo hum
cítio na Boa Vista, entre Santo Agostinho e Sam Francisco, no alto do Rocio Grande,
chamado hoje de Santo Agostinho. Nelle derão princípio à fundação do convento no
anno de mil seiscentos e dez e no mesmo anno, a dezaceis de Septembro, véspera das
chagas de S. Francisco se passarão do mosteyro velho do Salvador, que assim se
chamava, ao novo do título de Santa Clara, como ainda hoje se intitula. Fez-se esta
mudança do mosteyro velho para o novo com grande solemnidade e pompa,
concorrendo para este luzimento multidão de gente, não só eclesiástica, mas secular (p.
1724).
A primeyra abbadeça que houve neste convento foy a madre soror Clara de S.
Francisco, natural de Setúval, que com o título de fundadora no anno de mil seiscentos e
nove foy conduzida para o mosteyro velho, quando se cuydava já da fundação do novo
e veyo conduzida do convento de Araceli de Alcácer do Sal, por grande afeyção que
dela fizerão, ainda estando no seu convento, as religiosas do Salvador, pela grande
notícia que tinhão da sua virtude e prudência. No anno de seiscentos e treze, no
outavário de todos os santos se tresladarão os ossos das religiosas defuntas em o
convento velho para o convento novo, função esta que se fez não com menor pompa e
solemnidade do que a trasladação das religiozas. Todo o referido a respeito deste
convento consta de hum livro manuscripto que se acha no cartório delle.
No mesmo destricto desta paróquia se acha a igreja de São Pedro, que por bullas
appostólicas foy fundada ou se deo princípio à sua fundação no anno de mil e seiscentos
e dez, para o de mil e seiscentos e onze, como consta de hum acto de vizita, que por
ordem do Excelentíssimo e Reverendíssimo senhor Arcebispo Dom Jozé de Mello fez o
Reverendo Doutor Miguel Jácome Esquível, seu dezembargador e vizitador ordinário.
He a igreja de admirável architectura, de abóbada e com as abóbadas della com as
paredes azulejadas. Conthém três capelas, a mayor em que tem (p. 1725) colocada huma
imagem de hum Christo crucificado com o título do Senhor Jesus da Salvação. Na boca
da tribuna, no meyo do altar em sima da banqueta tem hum nixo em que se vê colocada
a imagem de Nossa Senhora com o título da Consolação. Da parte do Evangelho tem
hum nixo com hua prefeita imagem do senhor Sam Pedro, orago desta igreja e da parte
da Epístola tem outro nixo em que se acha colocada a imagem do archanjo o senhor
Sam Miguel. No corpo da igreja tem duas capelas, huma da parte do Evangelho com o
título de Nossa Senhora da Conceyção do Socorro, a outra da parte da Epístola que he
do senhor Santo António. Ambas estas imagens de que estas capelas tomarão o título
são muy prefeytas e as suas capelas com notável (...) de talhas douradas e de toda a mais
prefeyção necessária para o culto divino. He regida esta igreja de huma nobelíssima
irmandade de clérigos com grandes regalias e privilégios e todos os annos em o dia de
São Pedro fazem eleyção de officiaes, que se elegem de reytor ou juiz escrivão, prioste
e de conselheyros. Tudo consta de papéis que se achão no cartório da mesma caza.
N.º 11 Tem dous hospitaes esta villa, hum que admenistrão os religiosos de São
João de Deos (p. 1726) de que já falámos e tem de renda tudo quanto lhe é necessário,
porque sendo instituído para os militares desta praça he (certo) que há-de ser assistido
com toda a grandeza e profuzão proporcionada (à) Magestade que o protege.
N.º 12 O segundo he o da Mizericórdia , Caza que tem também esta villa sugeita
immediatamente à protecção régia. De sua origem e rendas dará notícia o reverendo
prior da matriz desta villa, por se achar fundada no destrito da sua paróquia.
N.º 13 No destrito desta paróquia e extra-muros desta villa há quatro ermidas, a
saber: do senhor São Christóvão, do senhor Santo André; do senhor São Lourençoe da
Senhora Santa Marta, se bem que esta se acha arruinada e posta por terra e a dita Santa,
como já disse, colocada na paróquia de Santo Agostinho, a que he sufragânea. Todas
estas ermidas pertencem à Ordem de Avis e como tais, pela Meza da Consciência e
Ordens são aprezentados os seus ermitães.
N.º 14 Nada deste interrogatório.
N.º 15 Os frutos desta villa e que os moradores della colhem em mayor
abundância são: trigo, cevada, senteyo, azeyte e algum vinho. Grande abundância de
gados de lãa, muytos e gravíssimos montados de bolota, e que (p. 1727) concorrem para
o seu sustento muytos gados de cabello, não só deste termo, mas ainda de outros muytos
desta província.
N.º 16 Tem esta villa juiz de fora posto pelo sereníssimo senhor Infante
donatário della. Outrossim tem câmara e daquella e desta se aggrava para a ouvedoria
da comarca de Beja.
N.º 17 Não he couto, cabeça de conselho, honra ou beatria.
N.º 18 Nesta villa têm florecido muytos e vários sugeytos insignes em letras e
vertudes e são os seguintes: O Excelentíssimo senhor Cardeal Dom José Pereyra de
Lacerda, que foy baptizado na paroquial de Santo Agostinho aos sete dias do mez de
Junho de mil seiscentos e secenta e dous. Foy filho de Francisco Pereyra de Lacerda e
de Dona Antónia de Brito Nogueyra. Bem notória he neste reyno a literatura e
jurisprudência com que neste século o dotou a natureza e por isso deychando em
silêncio as suas prendas tão avantajadas, continuo a dar relação dos mais varões
insignes. Entre estes tem o primeyro lugar o Excelentíssimo Reverendíssimo senhor
Dom Frey Balthazar Limpo, lente de prima e theologia na Universidade de Lisboa,
pregador do sereníssimo senhor Rey Dom Joam o terceyro, (p. 1728) confessor da
sereníssima raynha a senhora Dona Catherina e dos sereníssimos senhores infantes,
Bispo do Porto, Arcebispo e senhor de Braga, Primaz das Espanhas e do conselho
secreto de Sua Magestade. Foy seu pai Ruy Limpo e sua may Ignês da Roza, que o
derão à luz em o anno de mil quatrocentos e setenta e outo e foy baptizado na igreja de
Sam Joam Baptista, matriz desta villa de Moura.
He o terceyro o muito reverendo Padre Frey Balthazar Limpo, filho de Joam
Limpo, sobrinho do ilustríssimo Arcebispo Primaz, Dom Frey Balthazar Limpo e sua
may Catherina de Oliveyra. Nasceo nesta villa no anno de mil e quinhentos e noventa e
dous. Foy provincial na sua religião, foy varão docto nas divinas letras e pregador
insigne na corte.
He o quarto o muito reverendo Padre Mestre Fr. António da Guerra, também
provincial da família carmelitana, natural desta villa, de quem diz o reverendo António
Carvalho da Costa, foy varão docto e dos mayores pregadores que florecerão naquelle
tempo.
He o quinto o reverendo Padre Mestre Fr. Diogo de Sande, baptizado na
freguezia de S. João, matriz desta villa, o qual escreveo hum volume de folha que
conthém vários cermoins que pregou, o qual se acha na livraria do convento do Carmo
de Lisboa. O qual, pela forma em que se acha, assim de índices como o demais mostra
devia ter tenção de o dar (p. 1729) ao prelo o seu autor.
He o sexto o reverendo Padre Mestre Fr. Bento de S. Payo, também provincial
da religião carmelitana, varão insigne na actividade e prudência com que governou a sua
província.
He o septimo o venerável Fr. Estêvão da Purificação que nasceo nesta villa de
Moura no dia décimo quarto do mez de Fevereyro do anno de mil quinhentos e setenta e
hum. Foy este venerável padre filho de António Rodrigues Cotel e de sua mulher
Margarida Rodrigues Sortelha, assim ella como elle de limpas, nobres e honradas
famílias. Foy baptizado na pia de S. João, matriz desta villa e cresceo tanto em letras e
avantejadas virtudes, que mereceo o título de venerável e que no anno de mil seiscentos
e dezoito aos vinte e outo do mez de Novembro concedesse o tribunal do Santo Offício
que se pudece estampar o seu retracto com as seguintes palavras: Véra efigies
venerablis patris, frates stephani à purificatione carmelitae obis anno Domini 1617 e
tatis suo. 7.
Quem quizer mais individuaes notícias destes varões insignes, lea o P. Fr.
Manoel de Sá, religioso carmelitano nas suas memórias estóricas.
He também filho desta villa o muyto reverendo Padre Mestre Fr. Martinho de
Santo António (p. 1730) da nobre família dos Limpos. Foy pregador famigerado e foy
eleyto provincial da província dos Algarves no convento de Xabregas, sendo nelle
guardião em treze de Outubro de mil seiscentos e quarenta e hum e occupou também o
lugar de vizitador da Província de Portugal. Frey Pedro Correa, religioso franciscano,
que imprimio em Évora no anno de mil e seiscentos e trinta e quatro. Garcia Soares
Soto Mayor, Manoel Rodrigues Navarro, os quais ambos escreverão. Clemente
Rodrigues Montanha, mestre de Moral que foy na Ordem de Palmela e prior da
Annunciada de Setúval imprimio. Cid de Almeida (?) que foy Dezembargador no Passo.
Miguel Jácome Esquível, reytor do collégio da Madre de Deos de Évora,
dezembargador da Relação Eclesiástica, juiz executor da Caza do Despaxo e vizitador
ordinário. Vicente Vaz Ramos, vigário geral de Beja e Prior do Salvador da mesma
cidade e finalmente:
Marco Antero Paulino, que por famigerado se lhe levantou estátua, cuja
inscripção se achou em huma pedra de altura de hum homem, a qual estava enterrada
em huã quorela de terra dos religiosos do Carmo desta villa, junto ao porto de Ardilla
que vay para Mourão (p. 1731) aonde se achão vestígios de grandes edefícios1.
N.º 19 Tem esta villa feyra trez dias franca e principião2 estes no dia outo de
Septembro.
N.º 20 Não tem correyo, serve-se por estafeta do de Beja, que dista sete légoas
desta villa.
N.º 21 Está Moura em distância da cidade de Évora, capital do Arcebispado, dez
légoas e da cidade de Lisboa, capital do reyno, 24.
N.º 22 Participa esta villa dos foros e privilégios da cidade de Évora, que lhos
concedeo o sereníssimo senhor Rey Dom Denis como affirma o reverendo P. Fr. José
Pereira Mestre (?), jubilado na sagrada theologia, ex provincial e chronista geral da sua
família carmelitana.
Ao vigésimo segundo, digo, ao vigésimo terceyro e quarto interrogatório não
tenho que dizer.
N.º 25 He esta villa de Moura praça de armas, ainda que irregular, porém guarda
a máxima de se aproximar a regularidade. Nella não há parte que não esteja defendida
de outra. A fortificação exterior he dominada do interior e tem todos os seus baluartes
terraplanados. Consta ella de cinco baluartes proporcionados de flancos faces e de trez
meyos baluartes. Prende a fortificação da mesma na barbacãa do castello, que he hum
dos da fortificação antigua, o que (p. 1732) tem barbacãa e muro cercado de torres de
diverso género, humas de formigão, como todo o muro delle, que mostra ser a primeyra
fortificação e outros de alvenaria com sua enxelária (?) de mármor e outras redondas da
mesma alvenaria. A barbacãa do castello que fexa a praça pela parte do norte he a
dentada e ficão entre dous meyos baluartes, que são o do lago e o do convento do
Carmo.
Deste meyo baluarte que fica entre norte e oeste facemos (?) o dezenho da
ordem como se acha fortificada esta praça e andando nós deste meyo baluarte para a
esquerda interiormente segue-se a quartina em que está cituada a porta chamada do
Carmo, huma das principaes de cervidão da villa e logo outro meyo baluarte chamado
das Fontaynhas, com seu flanco e quartina, que prende no flanco do baluarte novo.
Segue-se o flanco e quartina que nella há de prezente huma grande brexa e na mais parte
está hum rastilho para comunicação da praça, porque se vay para o convento de S.
Francisco. Segue-se o restante da quartina e flanco do baluarte de Santa Clara e fica este
baluarte com o ângulo ao sul. Tem seu flanco e segue-se a quartina em que está a Porta
Nova e prende esta no flanco e baluarte chamado o Alto. Prende em o seu flanco e
quartina e fica quase ao leste esta parte da praça. Segue-se o flanco em que prende (p.
1733) o baluarte dos quartéis. Segue-se o flanco e quortina em que está outro rastilho ou
porta para cervidão da villa. Prende no flanco xamado de Santa Catherina. No fim da
explanada exterior deste baluarte passa hum rybeyro chamado Brenhas e desde o poço
the o dito rybeyro há hum declivio bastantemente rápido. Segue-se o flanco que prende
na quortina do lago, depois o flanco e meyo baluarte que prende no castello da praça, o
qual se chama do mesmo lago.
Tem todo o recinto nos lugares terminantes suas guaritas como também sobre as
portas. Tem seu poço e obras exteriores, posto que todas muito damnificadas, têm todas
as quortinas seus rebelins que as cobrem, excepto a do lago, pela incapacidade como já
dissemos.
Há sobre os muros desta praça 32 peças de artelharia, do primeyro e segundo
género, todas de ferro, excepto duas que são de bronze que he hum sacre e hum
falconete. Finalmente as terraplanas não têm banquetas nem há estrada de rondas, posto
que o circuyto, digo, terrepleno, se pode pacear em circuito.
N.º 26 Padeceo esta villa no terremo (sic) de mil e setecentos e sincoenta e sinco
algumas ruínas de menos consideração exceptuando as que houve no convento do
Castello de religiozas domínicas, que forão não com pequeno excesso ficando
sepultadas nas mesmas ruínas alguãs religiozas (p. 1734). De todas as que experimentou
este convento, se vê hoje inteyramente restabalescido a impulsos da grande e innata
piedade e compayxão do nosso Excelentíssimo e Reverendíssimo prelado o senhor
Arcebispo de Évora.
N.º 27 Ao vigésimo séptimo interrogatório nada mais tenho que dizer do que fica
referido.
Pelo que respeyta aos interrogatórios de Serra, não há que dizer, porque no
destricto e termo desta villa não há serra alguma memorável e tam somente huma de
pouca entidade, a que chamão Serra Alta, tão infructífera, que apenas della se tirão
algumas pedras para cantaria e ainda estas por groceyras e ásperas, se não podem lavrar
como o pede a arte e por isso com menos estimação as obras que se fabricão desta
matéria, a respeito das que se obrão em Montes Claros, nas pedreyras da villa de
Estremoz e Borba. Os reverendos párocos circunvizinhos a esta tal serra poderam
descubrir e dar mais alguã notícia do que a que eu tenho della.
Pelo que respeyta aos interrogatórios de ryos respondo:
N.º 1 Que nesta villa em distância de meya légoa thé dois quartos passa o ryo
Guadianna que nasse quatro légoas de Mon Seél (?) em huma lagoa chamada Roedeyra
na terra de Alhambra (?) e sumindo-se junto a Argamãsilha (p. 1735) resurge dali sete
légoas perto de Daymiel onde chamão os olhos de Guadianna.
N.º 2 Não nasce logo caudalozo, como se vê da resposta antecedente, porém he
certo que corre todo o anno.
N.º 3 Nelle entrão alguãs rybeiras gravíssimas, como são a de Olivença chamada
de outros a de Val Verde, que entra no tal ryo junto ao porto que vay para Elvas. A
gravíssima rybeira de Ardilla ou Ardita junto a esta villa que (...) não só com as suas
águas que são em abundância, mas tão bem com as das rybeyras Brenhas e
Cavand( Lavandeira?) com que se engroça com toda a violência vay es(?)bocar no tal
Guadianna, em distância de meya légoa.
N.º 4 Não he navegável nem capas de embarcaçoins.
N.º 5 He de curso arrebatado, senão no princípio, ao menos depois que entra a
engroçar-se com as muytas águas.
N.º 6 Corre do oriente para o poente e entra em Estramadura. Chegando a
Medelhim muda seu curso para meyo dia the chegar huma légoa antes de Mérida, donde
torna ao poente, banhando os muros do castello de Lobon (?) e cidade de Badajós a
huma légoa do qual e duas da cidade de Elvas divide os termos (p. 1736) de ambas, por
huma parte e o Ryo Caya por outra.
N.º 7 Cria muytos peyxes e de várias castas, sendo os de mayor estimação
eyrózes, cárpios e mugens e barbos, sendo estes últimos os de mayor abundância.
N.º 8 Ao número 8.º e nove nada há que dizer.
N.º 10 Se cultivão as suas margens como costumão são abundantes de trigo,
cevada, milho, meloens e melancias e feyjoães, porém de arvoredos tanto de frutos
como sylvestres he estéril.
N.º 11 As suas águas têm virtude diurética e de obstruente, como dizem os
médicos.
N.º 12 O nome próprio antiguamente foy Anna, derivado como dizem alguns de
Sicano, que dizem ter cido Rey de Espanha, porém desse tempo the o prezente se
intitula Guadianna.
N.º 13 Este ryo Guadianna vay morrer ao mar, junto à praça de Castro Marim e
Aya Monte, reyno do Algarve.
N.º 14 Tem muitas reprezas, levadas e assudes, que lhe embaração o ser
navegável.
N.º 15 Ennobressem-no trez famozas pontes de cantaria, a saber a de Mérida,
Badajós e Olivença. Nesta ponte que foy (p. 1737) magnífica mandou el rey Dom Joam
o segundo edificar huma torre com suas janellas e seteyras que defendião a passagem do
ryo. O senhor rey Dom Manoel depois a mandou reedificar e ficou das mais galhardas e
formozas pontes do reyno, porém no princípio das últimas guerras de Castella a
queimarão os castelhanos e ainda hoje experimenta as mesmas ruínas.
N.º 16 Tem muytos moynhos, lagares de azeyte, pizois e rodetes.
N.º 17 Não consta que em tempo algum se tirasse ouro de suas áreas.
N.º 18 neste destrito os povos por onde as suas águas correm uzão livremente
para a cultura dos campos sem que paguem penção alguma.
N.º 19 Várias são as povoaçois por onde passa desde o seu nascimento the onde
finaliza, como já fica dito no interrogatório do seu nascimento e corrente e por fim
dividindo a antigua Bética da Luzitânia, depois de ter passado por Damiel, Medelhim,
Cidade de Badajós, junto da cidade de Elvas, finaliza no occeano Athlântico entre (p.
1738)Aya Monte e Castro Marim.
Nada mais se me offerece dizer sobre os interrogatórios que me forão
apprezentados para lhe dar reposta na forma das ordens do Excelentíssimo e
Reverendíssimo Senhor Arcebispo nosso prelado, que Deos nos guarde por muytos
annos. Moura, 2 de Julho de 1758.

 

Prior Fr. Francisco António Lameira Miguens

 

 


 

 

(1) Trata-se, provavelmente, de uma lápide romana.
(2) No original a palavra está repetida.

 

 


 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa

 

in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo
, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2002, pp. 33-46.

Etiquetas: Memória Completa Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa
Actualizado em Domingo, 12 Junho 2011 18:19