Moura - Safara

Domingo, 12 Junho 2011 09:33 André Coelho
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Safara, 1758, Junho, 13
Memória Paroquial da freguesia de Safara, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 33, nº 15 pp. 121 a 128]

 


Notícia geral do que se procura a respeito do lugar de Safara, termo da villa de Moura,
Arcebispado de Évora.
[1, 2] Safara: aldeia na província de Alentejo, Arcebispado de Évora, termo da
villa de Moura e com ella pertence à comarqua de Beja, da Caza do Infantado, de que
actualmente he senhor o sereníssimo Infante o senhor Dom Pedro.
[3] Tem vezinhos sento e noventa e dous, pesoas seiscentas e quatorze.
[4] Está situada em campina que pera a parte do sul se eleva alguo tanto e o
campo que o sercunda pella parte de leste correndo de norte a sul he montuozo, mas não
tanto que deixe de cultivar-se. O que corre por oeste he planice. As povoaçoins que
desta se descobrem são as seguintes: Moura villa que dista três légoas, quazi a noroeste;
Portel, villa que dista outo légoas a nor-noroeste; Amareleja, aldeia que dista huã légoa
a nordeste; Monsarás, villa que dista seis légoas a nordeste; Oliva, villa no reino de
Castela, província da Extremadura, que dista quatro légoas a leste. Santo Alexo, aldeia
que dista huã légoa a sueste. S. Pedro da Diça aldeia que dista huã légoa a sudueste.
[6] A parróquia está dentro do lugar que he huã igreja de admirável arquitectura.
[7] Tem três naveres e a sua abóbeda se sustenta sobre vinte e duas colunas de
fino mármore, outo das quais estão no corpo da igreja, quatro a cada lado e as mais
unidas as paredes della perto da sircunferência. Tem três portas, huã para a parte do
norte, outra ao sul e a treceira e prencipal para o este. Esta he magnífica, com excelente
portado de finos mármores lavrados com todo o primor da arte. Tem sinco altares, o da
capella-mor em que está colocada a imagem da mai de Deus, com o títolo da
Assumpção e he o orago della; na parede da capella-mor, na face que botta para o corpo
da igreja estão dous altares, o da parte do Evangelho (p. 121) dedicado a Santo António,
com a imagem do santo; o da parte da Epístola dedicado à Virgem Senhora Nossa com
o títolo do Rozário e com sua imagem. Há mais dous altares nos lados do cruzeiro: o da
parte do Evangelho he da mai de Deus do Carmo com sua imagem, o da parte da
Epístola dedicado às Almas do Purgatório adonde se vê colocada a imagem de Nossa
Senhora com o títolo dos Remédios. Há mais as imagens de São Lázaro e de São
Francisco de Assis, além de outras exculpidas no entalhado das capellas. Tem três
irmandades confirmadas, a do Santíssimo Sacramento, a das Almas e a do Rozário.
[8, 9] O párocho desta igreja he cavalleiro da ordem real e militar de São Bento
de Avis, aprezentado pela Menza da Conciência. Tem de renda sento e vinte alqueires
de trigo e outros tantos de sevada e vinte mil réis em dinheiro. Tem huo só beneficiado
prefeço (sic) em a referida Ordem com a mesma aprezentação e renda de trigo e sevada
e des mil réis em dinheiro.
[10, 11, 12] Não há aqui conventos, nem hospital nem Caza da Mizericórdia.
[13] Estão no destrito desta freguezia sinco irmidas que são as seguintes: Santa
Anna, pera a parte de oeste; São Sebastião, pera a parte do sul; a terceira dedicada a
Santa Marinha, setuada distante do lugar meia légoa pera a parte do nordeste, a quarta
dedicada a São Brás, distante do lugar dous tiros de canhão pera a parte do sul, junto ao
rio Safareja. Todas têm images dos santos a que são dedicadas. A quinta edeficada junto
ao mesmo rio, distante poucos passos da de São Brás, he dedicada à Virgem Mai de
Deus, com o títolo da Senhora da Ribeira, a qual senhora está em a irmida de São Brás,
porque a sua está muito arruinada e não há meios para se redificar.
[15] Os frutos que os moradores desta terra recolhem em maior abundância são
trigo e sevada (p. 122).
[16] He governado este povo por huo juis de vintena, porém destengue-se este
entre os das outras aldeias, porque os destas são eleitos pellos ofeciais da câmera da
villa de Moura, ou das villas a que respectivamente pertencem e o juis de Safara, por
antigos previlégios dos senhores reis deste reyno, he eleito por votos do mesmo povo.
Tem este escrivão do judicial e nottas; cazas do senado, cadeia e relógio público, o que
tudo a fas destinta entre as mais aldeias. Não he couto, nem cabeça de concelho.
[18] Temos fundamentos sólidos para querer que desta aldeia sahirão alguns
sugeitos iminentes em armas e letras. Entre todos se fas mais memorável o
Iminentíssimo Cardeal Maldonado, sugeito bem conhecido em todo o orbe pello vasto
dos seus escrittos e he tradição constante ser filho desta aldeia, porém a incúria dos
abitadores della, só aplicados à cultura dos campos e esquecidos das glórias da pátria,
deixarão perder os monumentos em que se poderião conservar estas memórias, sendo
hum dos motivos desta falta verem-se precizados nas ocazioins de guerra, en que esta
povoação he das mais exposta às inumanas acçoins dos inimigos e retirarem-se para
praças mais defensáveis, levando consigo os escrittos en que poderião perpetuar-se as
memórias de suas antiguidades e muitas destas nunca mais voltarão à pátria, acrecendo
a este motivo outro, o qual foi que na guerra da Aclamação pegarão os inimigos fogo a
esta povoação, en cujas xamas pereceu a maior parte della, que nunca mais se redificou
e os moradores que ficarão nesta e nas outras ocazioins são os mais pobres e rústicos,
que só conservão na tradição de pais e filhos estas notícias e na falta de outras mais
seguras damos asento a ellas. Em huo manoescrito autenticado que se acha em Moura
vemos confirmada a notícia ser natural (p. 123) de Safara o Cardeal Maldonado e
cardeal de títolo de Santa Balbina.
[21] Dista de Évora capital do seu arcebispado doze légoas e de Lisboa capital
de todo o reino trinta légoas.
[25] Foy murada em outro tempo, de cujos muros ahinda se percebem muitos
vestijos, vendo-se ahinda enteiros alguns dos seus baluartes, que por todos herão doze e
tinha três portas, das quais a principal vimos poucos annos he capas de usar-se della.
Porém os dittos muros herão de pouca fortaleza e só no tempo da Guerra se destacava
da praça de Moura pera aqui huã pequena guarnição de soldados pera com os paizanos
da terra obstarem às invazoins dos inimigos, os quais invadirão, na Guerra da
Aclamação com grande número de gente, não podendo a guarnição suportar o seu furor.
Despois de huma profiada rezistência forão obrigados a render-se ao inimigo que
entrando lhe pegou fogo. E na Guerra da Aliança se acabou de arruinar, despois da qual
nunca mais se cuidou em repará-la, como tem susedido às mais praças desta fronteira.
Os rios que aqui perto correm são os seguintes: Safareja , nasce em
huã serra distante desta aldeia duas légoas pera a parte do su-sudueste no síttio a que
xamão as Alpedras. Não he capas de navegar-se porque além de ter pouco fundo , só he
corrente no Inverno. Nascendo pella parte do su-subdueste, daqui corre quazi a
nordeste e xega perto deste lugar pella parte do sul e logo voltando por leste lesnordeste,
e nordeste sempre distante dous tiros de canhão desta aldeia, entra no rio
Ardila pela parte do norte, já distante meia légoa deste povo. Cria os peixes seguintes:
barbos pequenos bordallos, (p. 124) bogas e pardellas. Pesca-se nelle todo o anno , as
suas marges em poucas partes se cultivão por cauza da sua fragozidade e tem alguãs
árvores silvestres, como são azinheiras, sovereiros e zambugeiros. Conserva sempre o
mesmo nome. Tem huã só ponte de pedra distante desta aldeia dous tiros de canhão
pera a parte de les-nordeste e tem alguns moinhos. Terá de comprimento desde donde
nasce athe donde fenece quatro légoas e paça entre as aldeias de Safara e Santo Alexo.
Pouco mais de huo tiro de mosquete distante deste rio pera a parte de leste en
huo síttio xeio de árvores silvestres, se encontrão huãs pedras sobre a superfice da terra
a que xamão sexos, nas quais se vêem como embotidas outras pequenas pedras do feitio
e grandeza de bagos de romãa adonde fazendo refleção os raios do sol se nota huo
resplendor como de diamantes e têm a mesma cor. E ahinda postas em sombras se
adverte alguo luzimento.
Murtigão rio : nasce de huã fonte no síttio a que xamão a
Contenda, distante deste povo seis légoas pera a parte de les-sueste. Não he muito
caudalozo no prencípio, deixa de correr no Estio. Não entrão nelle outros rios
consideráveis, só alguos ribeiros, dos quais o maior se xama Pai Joannes, que corre
junto ao santuário da Tumina. Não he navegável. He o rio de mais rápida corrente em
toda a sua distânsia e as suas ágoas vistas nas praias parecem negras. Corre de lessueste
quazi a norte. Cria os peixes seguintes: barbos, bardellas e bogos, todos negros
mas saborozos. Não se cultivão as suas margens, senão em as terras que no estio se
semeião meloais e tem árvores silvestres, como são azinheiras, sovereiros e
zambugeiros. A fonte donde nasce este rio tem particular virtude de ser deobstruente.
Entra no rio Ardila (p. 125) distante desta aldeia meia légoa, para a parte de lesnordeste.
Não tem ponte alguma ; tem moinhos ; não há tradição de que nas suas areias
se tenha discoberto ouro. Podem os povos usar livremente das suas ágoas pera as
culturas dos campos. Terá de comprimento desde a sua fonte té à sua fos outo légoas de
distância. Paça entre o lugar Santo Alexo e a villa de Barrancos.
Ardilla rio: nasce de huã fonte no reino de Castella, província da
Extremadura distante quazi trinta légoas desta aldeia quazi a leste. Logo no princípio
he caudalozo ; entrão neste outros rios de que nos não pertence dar notícia. He capas
de embarcaçoins pequenas em alguãs partes. He de corrente arrebatada em toda a sua
distância. Corre de les-sueste a les-noroeste. Cria os peixes seguintes: barbos grandes
bordallos, bogas e herós. Pesca-se nelle todo o anno e as suas pescarias são livres. As
suas margens em muitas partes se coltivão e tem muitas arvores silvestres. Não se sabe
se as suas ágoas têm alguma expecial vertude. Desde o seu prencípio thé donde fenece
conserva sempre o mesmo nome, nem sabemos tivece athé agora outro. Não tem ponte
mas tem muitos moinhos e en Castella engenhos. Tem muitas ágoas que correrião todo
o anno se en Castella lhas não diverticem para regarem as suas fazendas e por esta
cauza deixa de correr alguns annos no estio. Dizem que já se virão entre as suas areias
alguns grãns de ouro, mas no prezente tempo não temos experiência com que verificar
esta notícia. Podem os povos usar livremente as suas ágoas. Tem de comprimento
desde a sua origem athé donde morre quazi trinta légoas. Paça, desde que entra em
Portugal, junto a Noudar, entre os lugares de Safara e Amareleja e despois correndo
junto a Moura entra no rio Guadianna meia légoa distante da dita villa para a parte do
es-noroeste.
São as notícias que nesta minha freguezia (p. 126) de Safara pude adquerir que
fielmente copiei. Feyta aos 13 dias de mês de Junho de 1758.
O P. Fr. Pedro Baptista Pimenta.

 


 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa

 

in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo
, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2002, pp. 71-75.

Etiquetas: Memória Completa Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa
Actualizado em Domingo, 12 Junho 2011 18:35