Moura - Montalvo

Domingo, 12 Junho 2011 09:27 André Coelho
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Montalvo, 1758, Junho,13
Memória Paroquial da freguesia de Montalvo, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 24, nº 193, pp. 1403 a 11406]

 


[1] Esta freguezia fica na província de Alemtejo, Arcebispado de Évora,
comarca de Beja e termo da villa de Moura.
[2] He sittuada em terras do Infantado.
[3] Tem treze fogos, com secenta pessoas, entre mayores e menores.
[4] Está em huã campina, com muntos montes e outeiros, dela se descobre a
aldea de Safara, que fica duas légoas ao nascente e a villa de Monsarás, que dista seis
légoas para a parte do norte e a villa de Serpa, distante quatro légoas para a parte do sul
e a aldea das Pias para a mesma parte, na distância de duas légoas. Descobre também a
torre de menagem do castello da villa de Moura e a cidade de Beja entre o sul e o
poente, na distância de sette légoas e meya.
[7] O orago he Nossa Senhora da Conceypção de Montalvo. He igreja de huã só
nave; tem três altares que são: cappela-mor e hum de cada lado, ao direito está São
Romão e ao esquerdo São Luís. Tem de fábrica dous moyos de trigo e des mil réis em
dinheiro para as despezas da festa da Senhora, concertos da mesma igreja, paramentos,
guizamento e mais percizões de que carece. He de abóbeda, tem a porta ao poente com
hum padram de mármore que dis: Esta igreja he do Conde Meyrinho-Mor do Reyno,
Dom Fernando Martins Mascarenhas. Fes-se tudo de novo no tempo do reverendo prior
Manuel Gonçalves Vallasco somente com ajuda de Deos, da fábrica e do Reverendo
Prior, na era de 1700 e tem por sima do arco da capela-mor hum escudo de mármore
com as armas do dito excelentísso conde, por ser do seu morgado.
[8] He priorado que aprezenta o mesmo conde com dízimos de quatro moyos de
trigo e hum de cevada, no celeiro real da vila de Moura e três moyos mais pagos pelos
fregueses.
[15] Os frutos desta freguezia e sítio sam trigo, cevada, centeyo e favas
conforme os annos e he o que cultivão os seus moradores.
[16] Esta freguezia está sugeita às justissas da vila de Moura e sua comarca, tem
(...) guarda que só nela pode encoymar oh1 o juis de fora da dita vila a quem toca o
conhecimento das coymas daquela defeza.
[20] Serve-se do correyo da vila de Moura que dista quasi huã légoa.
[21] Fica distante da capital do Arcebispado que he a cidade de Évora honze
legoas e da de Lisboa capital do reyno vinte (e) sette légoas e da de Beja cabessa da
comarca, outo.
[23] Tem alguãs fontes e possos, mas não sam expeciaes em vertude oh
qualidade (p. 1403).
[26] A igreja padeceo alguã ruína na ocaziam do terramoto, mas já está reparada.

 

Notícia da Serra que há nesta freguezia
[1] O seu proprio nome he Serra.
[2] Tem de comprimento légoa e meya e de largura quazi huã légoa, principia
pello con (...)2 to, ha herdade da Cazinha, the à Serra da Adissa e ao largo na herdade da
Lameira, the (a her)dade de Belmeque.
[3] Os principaes braços que a circulam sam a Serra Alta, o Serro da Abilheira, o
Serro dos (In)fantes, o Serro do Zambujal, o Serro dos Posilgos, o Serro das Pedras,
todos do nasc(ente) para o poente the ao sul e desta parte tem a Serra da Mesquita, a
Serra de Belmeque, a (Serra) das Saves, a Serra da Caeira, a Serra da Preguissa, a Serra
da Pedra Dourada, que vay fin(dar) outra ves ao nascente, a Serra Alta.
[4] Distante hum quarto de légoa desta serra nasce o rio Brenhas que corre para a
p(arte) do norte athe chegar e se meter na Ribeira de Ardila que dista huã légoa no
mesmo norte.
[5] Ao longo da Serra ficam as freguezias de São Pedro da Adissa, de Nossa
Senho(ra) da Coroada e a de Sancto Amador, todas do nascente ao norte e as da parte do
sul sam (as fre)guezias de Sam Sebastiam de Val de Vargo e a de Santa Luzia das Pias.
[7] Na mesma Serra há huã pedreira antiga donde se têm tirado muntas pedras
mármores, mas hoje só se descobre a concavidade e o entulho donde elas se tiraram.
[8] As plantas da serra sam mattos de diferente espécie, entre os quais se a(cha)
alecrim, estevam, murta, rozas albardeiras, que são os que têm virtude e as ervas que a
têm (e se) acham na dita serra são erva montanha, erva arcar, erva dormideira e arruda.
Têm (... ma)ttos e terras capazes de cultivar, mas apennas fazem nelles alguã rossa pelas
faltas de (...).
[10] He esta serra demaziadamente cálida e seca, pela falta de ágoas que
expe(ri)menta, porque não tem em si mais que dous possos, hum chamado o Possanque,
outro o Po(sso do) Judeo, os quais só concervam ágoa no Inverno, em cujo tempo he
abrigada e (...) da que fassam muntos frios, como experimentão os pastores, gados e
cassadores (...) se concervam bem as colmeyas (p. 1404).
[11] Nesta serra só fazem criação bastante de cabras e há abundância de cassa, a
saber, coelhos, perdizes, javalis e algum gado de veação, há munto lobo, rapozas, alguos
gatos cravos e outros montezes e ninhos vardos e outros muntos bichos e animaes. Há
também munta víbora que fazem munto mal aos gados, cães e aos homens que a ela
vam. E nas herdades desta freguezia há abundante criação de gado vacum, ovelhas e
porcos, por terem bastante montado de azinho alguãs delas e nas campinas que estam
perto das ditas herdades há muntas lebres.
[12] As lagoas que há nesta serra se chamam: a das Cruzes, a das Naves, a dos
Vazios, a dos Linhos, a da Lameira, a Loboza, a de El Rey e o Lavajo dos Buyvos e
outras há mais que não têm nome próprio, não conservam ágoas mais que no tempo da
chuva. Também há na mesma Serra muntos algares e sumitérios, donde as ágoas se
somem e rebentam fora desta Serra, huãs ao nascente, outras ao poente, sul e norte.
Para dar esta notícia me informei das pessoas mais verdadeiras e antigas desta
freguezia e assim formando juízo dos dittos de cada huã e sciência que tenho do que
nela há, me parece que estão por este modo na verdade respondidos os interrogatórios
que se contêm no papel que me foi entregue pelo escrivão do Reverendo Vigário da vila
de Moura. Montalvo, 13 de Junho de 1758.

 

O prior Joseph Carrasco Patacas

 

 


 

 

(1) ou.

(2) Não se conseguem ler os fins das frases da margem direita. Entre parêntesis colocamos as
partes de palavras ou frases que presumimos pelo sentido.

 

 


 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa

 

in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo
, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2002, pp. 31-33.

Etiquetas: Memória Completa Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa
Actualizado em Domingo, 12 Junho 2011 18:20