Moura - Coroada

Domingo, 12 Junho 2011 09:25 André Coelho
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Coroada, 1758, Junho, 21.
Memória Paroquial da freguesia de Coroada (freguesia suprimida), comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 11, nº 383, pp. 2585 a 2592]

 


Notícias da freguezia da Coroada, termo da villa de Moura

 

[1] A freguezia da Coroada he huma das mais limitadas do termo da villa de
Moura: Fica na província do Alemtejo, no Arcebispado de Évora, na comarca de Beja e
no termo da dita villa. Parte esta freguezia pello nascente com terras da freguezia e lugar
de Safara, pello norte com terras da freguezia de Santo Amador chamada a Barrada,
pello poente com terras da freguezia de Montallvo e pello sul com terras da freguezia de
São Pedro de Adissa, todas tão bem freguezias do termo de Moura.
[2] Assim desta freguezia como da villa de Moura e todo seu termo são
donatários os sereníssimos senhores infantes de Portugal e ao prezente o he o
sereníssimo senhor Infante Dom Pedro. Porém todas as terras desta freguezia são de
senhorios particulares e só o dito senhor percebe os dízimos que pertencem ao seu terço
no celeiro real da villa de Moura para onde se conduzem os desta freguezia.
[3] Consta esta freguezia de quatorze herdades e huma horta, que por estarem
algumas sem casas se achão somente nella treze fogos e nelles cento e cinco pessoas
mayores e menores.
[4] A igreja desta freguezia está situada em huma campina que he huma das
partes mais baixa della por cuja cauza, do lugar em que se acha situada se não discobre
povoação alguma, mas apenas algumas cazas das herdades da mesma freguezia.
[5] Não tem esta freguezia termo separado porque ainda que as terras que
comprehendem as referidas quatorze herdades de que consta se dão (p. 2585) por lemite
a esta freguezia pertencem ao termo da villa de Moura.
[6] A igreja desta freguezia se acha situada como fica dito em huma campina e
não há nella povoação alguma e só contíguas à dita igreja se achão duas casas térreas
para rezidência do sanchristão, porque ainda o párocho as não tem, pella pobreza e
limitação da freguezia.
[7] O orago desta freguezia e igreja he Nossa Senhora das Neves, imagem de
glória de sete palmos de altura. A igreja he de hum só corpo e de madeyra, porém a
cappela-mor he de abóbeda antiga em cujos remates se achão três pedras com as armas
das três ordens militares, Christo, Santiago e Avis. E he de tradição que esta freguezia
fora por muitos annos desta última ordem e a curava hum freire que tinha rezidência no
lugar de Safara, distante della huma légoa e que por ser tão limitada a deixara a dita
ordem. Tão bem no altar da cappela-mor (que há somente nesta igreja) se acha a
imagem do gloriozo Santto António, tão bem de glória e de três palmos e meyo de alto.
E não há nesta igreja irmandade ou confraria alguma.
[8] O párrocho desta freguezia he cura aprezentado ad nutum pello
Excellentíssimo e Reverendíssimo senhor Arcebispo de Évora e tem de renda dous
moyos e vinte alqueyres de trigo e quarenta alqueyres de sevada.
[15] Os frutos que produz esta freguezia em mayor abundância em quanto aos
das terras são trigo, cevada, senteyo e em quanto aos dos arvoredos he boleta, de que
algumas herdades são bem providas, por terem bons montados (p. 2586).
[16] Está esta freguezia sujeita às justiças da villa de Moura e os seus moradores
alistados na Companhia da Ordenança do lugar do Sovral, freguezia de S. Pedro de
Adissa, termo da mesma villa.
[20] Serve-se esta freguezia do correyo da villa de Moura distante della duas
légoas e meya.
[21] Dista esta freguezia da cidade de Évora capital do Arcebispado doze légoas
e meya e da Lisboa, capital do reyno vinte e sete légoas e meya.
[22] A antiguidade que se discobre nesta freguezia são huns vestígios em hum
outeyro que fica defronte da porta desta igreja para o poente em distância de hum tiro de
canhão, onde dizem por tradição fora a primeira igreja desta freguezia. E com effeyto se
têm tirado delles algumas pedras e colunas para augmento desta. E que ficando esta
freguezia dezerta por cauza das guerras se destruíra e que hum cavalleyro, senhor da
mayor parte das herdades desta freguezia que assistia em huma dellas chamada a
Coroada, mandara fazer distante das cazas da mesma quarenta passos huma capella que
por não ser capax de acomodar toda a gente da freguezia, a acrescentarão os mais
moradores. porém não há notícia do tempo em que sucedeo esta destruissão e mudança.
[26] No terremoto do anno de mil setecentos e sincoenta e sinco padeceo alguma
ruína o telhado desta igreja, porém já se acha reparada.


O que tem socedido nesta freguezia digno de memória he que vendo-se os
moradores da mesma ameaçados em Mayo de mil setecentos e sincoenta e sinco da
praga dos gafalhotos, que em três annos contínuos fizerão gravíssimas perdas nas mais
das freguezias deste termo, especialmente no passado. Elegirão ao gloriozo Santo
António por seu protector para lhe alcansar de Deus a suspensão de hum (p. 2587) tão
grande castigo, prometendo-lhe festejá-lo todos os annos por este motivo. Secedeo que
entrando estes inceptos nesta freguezia em Julho do primeyro anno, fizerão acento em
huma horta e alguns meloaes que havia junto à mesma; e começando logo seus donos a
implorar a protecção deste milagrozo santo, teve a sua súplica tão felix despacho, que na
manhãa do dia seguinte não só acharão ilezos os frutos e arvoredos mas a todos estes
inceptos mortos, admirando-se que morrendo tantos, não lançassem aquelle fétido que
deitavão nas mais partes em que os matavão. E o anno passado, destruindo estes
inteyramente a freguezia de Montalvo e muyta parte da de Santo Amador, se observou
que apenas chegavão às extremas desta freguezia, logo voltavão para traz. E tendo hum
lavrador duas folhas de trigo místicas em duas herdades, huma na freguezia de Santo
Amador e outra nesta freguezia, a desta freguezia ficou ileza e a de Santo Amador quasi
destruída. Admirando-se tão bem que passando no discurso dos referidos três annos
muytas vezes por esta freguezia nunca acentarão em parte donde pudessem fazer perda,
mas sim nos matos e serras onde dezovando, nunca nos annos seguintes tornarão a
produzir como fazião em outras partes deste termo, por cujo benefício todos os annos no
mez de Agosto no domingo sobsequente à festa de Nossa Senhora das Neves lhe
consagrão huã gesta com aquella grandeza que pode permitir a capacidade desta
freguezia.

 

Notícias da Serra desta freguezia
Há nesta freguezia da Coroada huma serra chamada a Serra Alta e tudo o que na
dita serra se acha ágoas vertentes para o norte pertence a esta freguezia e para o sul à de
São Pedro de Adissa.

 

Tem esta serra de cumprimento huma légoa pequena, três quartos nesta
freguezia e hum na de S. Pedro de Adissa; porque ainda que por outras partes se
continua com mais serras, além de terem estas outros nomes, se achão em diversas
freguezias de que os seus (p. 2588) reverendos párrochos darão mais clara notícia. E
terá esta serra onde mais larga he, hum quarto de légoa de altura para a parte desta
freguezia. Principia na parte do nascente no ribeyro de São Pedro de Adissa, no cítio do
Gargalão, ainda que neste cítio alguns lhe chamão a Serra de Adissa em quanto não
entra nesta freguezia, para onde vay levantando e continuando the o Valle das Ferrarias,
com o nome de Serra Alta e neste valle divide esta freguezia da de Montalvo para onde
continua com diversos nomes e he como braço de outras serras que tem pella parte do
sul e se continuão the a Serra Morena do Reyno de Castella.

 

Não se discobre em toda esta serra ágoa alguma nem couza notável, nem tem
erva ou planta medicinal mais que alecrim e murta. E os frutos que dá são trigo e
senteyo em algumas queimadas que fazem os lavradores quando os seus matos são mais
crescidos e não he em todas as partes pellas muytas rochas e pedras que impedem as
culturas.

 

O temperamento desta serra he summamente cálido no Verão, porém de Inverno
não he muyto dezabrido, pois serve de abrigo ao gado vacum desta freguezia.

 

Cria esta serra quantidade de lobbos, rapozas, gatos cravos e montezes, porcos
javalis, coelhos e perdizes em abundância; e muytas vezes se tem visto nella veados e
servos, mas aseverão as pessoas mais versadas na dita serra que nunca acharão que
criassem nella mas que são alguns veados e servos que vêm doutros matos que há nesta
freguezia e circumvizinhos.

 

Notícias das Ribeyras desta freguezia
Passa por esta freguezia da Coroada huma ribeyra chamada Toutalega, a qual
tem o seu nascimento nas serras da Negrita, lemite do lugar de Santo Aleixo, termo da
villa de Moura, de que (p. 2589) o seu reverendo párrocho dará milhor notícia.

 

Esta ribeyra nasce das ágoas da chuva e ordinariamente por esta freguezia, que
dista do seu nascimento légoa e meya, corre em quanto as chuvas durão.

 

De fronte da igreja desta freguezia em distância de cento e sincoenta passos
entra nesta ribeyra outra chamada o ribeyro de São Pedro , que he no lugar em que se
ajuntão, muyto mayor que ella e de mais ágoas por ter muytas nativas, a qual nasce na
freguezia de S. Pedro da Adissa, no cítio chamado o Gargalão, em huns nascidios que
há neste sítio, que deitão ágoas que regão as hortas e moem os moinhos que há na dita
freguezia. Mas tanto que entra nesta, se somem as suas ágoas e só no cítio onde se
juntão estas ribeyras corre de Verão huma, the duas telhas de ágoa de huns nascídios
que há no tal sítio. E este ribeyro de S. Pedro terá huma légoa de cumprimento do sul
para o norte, meya légoa nesta freguezia e meya na de São Pedro de Adissa.

 

A ribeyra de Toutalega nasce no nascente e corre para o poente the entrar nesta
freguezia, donde vay declinando para o norte.

 

Tanto a ribeyra de Toutalega como a de São Pedro, que nella se mete crião
peixes, como são bordalos, pardellas e peixes machos, sendo estes mayores quanto mais
se vay chegando a ribeyra de Toutalega à de Ardilla, onde entra, porque além dos que
esta cria se lhe cominicão daquella em abundância.

 

As margens destas ribeyras as cultivão os lavradores das herdades por onde
passão e produzem muyto bem trigo, tremezes, feijoens, milhos e outros legumes, como
tão bem meloens e melancias, ainda que se cultivem todos os annos e poderá haver
mayor abundância se ouvera mais cuidado na sua cultura e ambas as ribeyras são
abundantes de freixos, especialmente nesta freguezia (p. 2590).

 

Ambas estas ribeyras conservão e têm conservado sempre os mesmos nomes em
todas as partes por onde descorrem e não há notícia de que alguns tempos tivessem
outros.

 

A ribeyra de Toutalega entra na Ardilla por baxo de hum pego chamado das
Canelinhas, entre as freguezias de S. João Baptista da villa de Moura e a de Santo
Amador deste termo.

 

Nenhua destas ribeyras tem ponte nesta freguezia e só a de Toutalega tem nesta
freguezia hum moinho de hum só aferido, chamado o das Sesmarias, ainda que he mais
conhecido pello nome de Curujeira.

 

Ninguém uza das ágoas desta ribeyra nesta freguezia por não haver para quê,
que se ouvera uzarão dellas livremente como uzão das do ribeyro de São Pedro na
freguezia de Adissa.

 

Tem a ribeyra de Toutalega do seu nascimento the donde acaba sinco légoas de
cumprimento: Porém nesta freguezia terá huma légoa de curso.

 

Estas são as notícias que achei nesta freguezia se podião dar das couzas que
conhecem os três interrogatórios e se de alguns de seus quezitos se não faz menção he
porque não há de que fazer-se. O que tudo aqui copiei em observância da ordem do
Excelentíssimo e Reverendíssimo senhor Dom Frey Miguel de Távora, metropolitano
Arcebispo de Évora, do Concelho de Sua Magestade, que Deus guarde, que para constar
me asigney: Coroada, 21 de Mayo de 1758.

 

O párrocho António Cativo de Almeida

 

 


 

 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa

 

in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo. Moura
, Câmara Municipal de Moura, 2002, pp. 22-28.

Etiquetas: Memória Completa Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa
Actualizado em Domingo, 12 Junho 2011 18:20