Moura - Amareleja

Domingo, 12 Junho 2011 09:23 André Coelho
Versão para impressão

Amareleja, 1758, Junho, 2
Memória Paroquial da freguesia de Amareleja, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 3, nº 60, pp. 471 a 478]


Seria faltar à obediência nam pôr em eszecussam a ordem de quem num império
senhoria e manda e como quem pode assim o ordena, nam rejeito trabalho de emquerer
e relatar o que se pede antes sim com toda a vigilância e cuydado me pus a saber com
indeviduassam e curiosidade o mencionado na ordem descubrindo imformassoens do
mais antigo para aformoziar o moderno, que suposto na pequenhes do lugar se nam dam
notíssias que fassam ademirassam e pasmo, cuntudo no curto estrito (?) de seu ser se vê
a mayor ademirassam do mundo, que he a Senhora da Conceisam por orago desta
freguezia e só basta dizer isto para acompanhar os mais que muito digam. E já que se
dignam ocupar-me a dar relassam do que pude alcansar nesta parochia acharam em
minha obediência hum fiel rendimento a seus preseitos.


Primeiro interogatório:

 

1 Amareleja se chama este lugar, cuja freguezia he de Nossa Senhora da
Conceisam sitta no termo de Moura, província do Alentejo, Arcebispado de Évora e
comarca da cidade de Beja.
2 He senhor della o senhor Infante D. Pedro, que Deos guarde, por ser senhorio
da villa de cuja he termo.
3 Sam seos vizinhos sento e settenta e cinco. Consta ter homens dusentos
outenta e cinco; mulheres dusentas e vinte e três; menores machos sento e três; menores
fêmias sento e vinte, cujo numero fas soma de setesentos e trinta e huma pessoa (p.
471).
4 Está este lugar sitto em campo plano e de três appartes comunicável, boas
entradas e estradas largas e espassozas. Sendo hum lugar tem sua devizam na trêssa (?)
parte pello devedir hum ribeiro que só conserva ágoa em tempo chuvozo. Descobre-se
do tal lugar a villa de Moura que dista três légoas, o castello da villa de Portel que dista
sette légoas, o lugar de Santo Aleixo que dista três légoas e o de Safara que dista huma
légoa.
5 Nam tem termo, nam porque nam tenha fim mas porque he do termo da villa
de Moura. Chama-se Amareleja, he devidida como disse supra, em aldeya velha e
aldeya nova, que dista huma da outra duzentos passos.
6 He parochia de Nossa Senhora da Conceisam a qual está dentro da aldeya nova
e nam tem a freguezia mais aldeyas a si agregadas, só sim montes dos lavradores do
campo que o cultivam.
7 Tem no orago a Conseisam. Tem o altar mor e dois culatraes, o da parte
dereita da Senhora do Rozário em cuja está a sua imagem e a de Sam Joam Baptista, da
parte esquerda o altar do Senhor Jesus crussificado en cujos lados estam Sam Francisco
e Sam Miguel o Anjo (p. 472). E na capella mor está a Senhora en seu nixo de madeira
sobre dourado e ao lado dereito outra Senhora do Rozário e à esquerda Santo André.
Tem três irmandades aprovadas pello ordinário: a Irmandade do Santíssimo, a
Irmandade do Rozário, e a Irmandade das Almas. He a igreja de huma nave, seu tecto
he de madeira e nam de abobeda por não serem as paredes capazes.
8 He o parrocho desta igreja cura aprezentado pello Ordinário, o senhor D.
Miguel de Távora Arcebispo de Évora. Tem de próprio o rendimento de quatro moyos
de pam, três de trigo e hum de sevada.
9 Nam tem beneficiados.
10 Nam tem conventos.
11 Nam há Caza de Mizericórdia1.
12 Nam ha tambel (sic) hospital.
13 Tem duas ermidas em seu distrito, huma do senhor Santo António, sita entre
o mesmo lugar mas apartada nas devizoens do lugar, outra do senhor Sam Vicente
Ferreira que dista da parrochial meya légoa sita entre huma defeza do senhor duque de
Aveiros e ambas pertensentes ao Ordinário de Évora.
14 A esta ocorrem vários devottos do santo com suas romarias e principalmente
em as primeiras oytavas da festa da Páscoa da Resuriesam e de Espirito Santo (p. 473).
15 He fabrica desta freguezia (...)2 gados por cuja (...) há munto trigo, sevada,
senteyo, mas o mais he trigo. Gados ovelhas, bois, cabras e porcos, que dos gados he a
mayor quantidade por haver muntos montados de azinho.
16 Tem juis da vintena, que este con mais dois louvados governam o povo os
quais por si delegam, fazem posturas para bom regimem dos (...) encoymando,
condenando e absolvendo em audiência as coymas que fazem nos gados, prendendo e
soltando nos cazos de sua jurisdiçam. Estam sujeitos ao juízo da villa de Moura adonde
se comfirma ou absolve o por elles julgado.
17 Nam he couto nem cabessa de concelho, he adito (sic) à villa de Moura de
cuja he senhor Sua Alteza o senhor D. Pedro nosso Infante.
18 Nam ha memória que de tal lugar florecesse homem algum em virtude ou
letras, em armas também nam, ainda que há notícia de ter criado homens munto
alentados e animonos (sic), o que ainda hoje en dia se achará por serem robustos,
corpulentos e animozos e nam rombos do intendimento mas nam inclinados às letras,
por cuja cauza nam mostram suas abellidades, porque para algumas couzas sam águias
mas sem uzo.
19 Nam tem feira.
20 Nam ha correyo próprio mas serven-sem (sic) do correyo da villa de Moura
da qual dista três légoas (p. 474).
21 Dista este lugar da cidade de Évora capital do Arcebispado doze légoas e da
capital do reyno trinta e huma légoas.
22 Nam he privilegiada nem há antiguidades dignas de memória.
23 Está neste lugar huma fonte suposto de que se bebe que se tem observado ser
sua ágoa boa para cobrados porque em o tempo em que tenho asistido nelle tenho visto
muntas (...) quebrarem sendo de peito e chegando a idade de (...) se têm visto livres de
tal queixa. Chama-se a fonte da Ordem por estar em terra da Maltta.
24 Nam tem porto de mar.
25 Nam tem muros nem he prassa de armas.
26 No terremotto de mil e setesentos e sincoenta e sinco nam padesseo ruína
conciderável senam algumas aberturas em as cazas, só sim a igreja parrochial se vio
quaze en terra mas por milagre da Senhora da Conceisam de cuja he orago nam caio
mas ficaram as paredes amiassarem ruína e ainda assim se conservam para cuja
retificassam se fes petissam ao senhor Infante D. Pedro para lhe fazer a esmolla
conceder-lhe o producto das pastajes e boleta de hum baldio sitto na mesma e que era
chamado os Garrosaes, a qual mercê se espera de sua bondade (?).
E nam ha mais do que estas ammendas nestes enterrogatórios (p. 475).

 

Nam tem serra de que se possa fazer menção, só sim algumas carnecas de matos
en que se criam gados brabos como (...), servos e corsos e muntos bixos como lobos,
rapozas, gatos cravos, ginetes, bouroens e munta capa de coelhos, lebres e perdizes.

 

Há nesta freguezia hum rio chamado Ardilla, cujo nascimento he da serra de
(...) reino de Castilla, entre Caleira e Cabesa Lavaca (?), desse pelo termo de Valensa de
Varial, entra nella a parte dereita, extremando com o termo de Vrassa (?) e Boragilho
huma ribeira chamada Godian, e dentro do termo de Boragilho entra nella outra rebeira
chamada a rebeira dos Frades e vem extremando com o termo de Xares donde entra
outra ribeira chamada Borballes (?) e pela parte esquerda extrema com o termo de
Freixinal e entra no termo de Azinhasola e pela parte dereita con termo de Oliva, e
entrando em Portugal vem pella parte esquerda devedindo o termo de Nodar en cujo
termo entra nella a rebeira chamada Murtigua e dessendo extrema da parte dereita e
termo de Mouram e passa do termo de Moura de huma e outra parte adonde entra pella
parte dereita o ribeiro chamado Escaravelho a ribeira chamada Val de Navalo e o ribeiro
de Gonsallo e pella parte esquerda entra nella a ribeira chamada Mortigam e a ribeira
Safareja e a ribeira de Toutaliga e a ribeira de (...) e a de Torrejais e entra em Goadiana
distância da villa de Moura meya légoa (p. 476).
He seu nascimento curto ribeiro mas pellas ribeiras que se lhe acorporão fica
grande, segunda Guadiana e corre quazi todo o anno moendo os moinhos que ensistem
(?).
Cria grandes barbos, munta boga e eyrós de que se fas pescaria todo o anno,
excepto três mezes defezos e he comua para todos e en toda ella sem pensam.
Nam sei que mude de nome em parte alguma porque de seu nascimento athe
meter-se en Guadiana se chama Ardilla. E nam pude descubrir mais notícias das
referidas, que para dar comprimento como dezejo fizera toda a deligênsia por sinal para
satisfazer a minha vontade, que esta he principalmente de obedeser a quem me manda e
Deos guarde por muntos annos . Amareleja 2 de Mayo de 1758.

O Cura Manuel Gomes Mendo

 

 


 

(1) Esta resposta e a seguinte têm a ordem trocada.
(2) Tinta repassada.

 

 


 

 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa


in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo
. Moura, Câmara Municipal de Moura, 2002, 19-22.

Etiquetas: Memória Completa Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa
Actualizado em Domingo, 12 Junho 2011 18:20