Águias, 1758, Abirl, 12
Memória Paroquial da freguesia de Águias, comarca de Évora
(ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 1, nº 61, pp. 421 a 432)
/p. 421/
Resposta que sua Excelência Reverendissima me manda dar aos interrogatorios
seguintes:
O que se procura saber dessa terra hé o seguinte:
Interrogatorio 1º: Em que provincia fica, a bispado, comarca, termo e
freguezia pertence?
Resposta: A villa das Aguias, tão celebre pella pequenhez, como pella
antiguidade, está situada em a provincia do Alem-Tejo no arcebispado de Evora, em a
comarca da mesma cidade, no termo que hé proprio seu, e pertence à freguezia de Nossa
Senhora dos Brottas que hé sua paroquial ou matriz.
2º Se hé d’el-Rey ou de donatario, e quem o hé ao prezente?
Resposta: Hé d’el-Rey na jurisdição das justissas; não tem donatario. Mas ella,
e todas as terras do seu termo, são morgado da caza dos Excelentissimos Condes de
Atalaya, a quem pagam forro e reconhecem dominio.
3º Quantos vizinhos tem, e o numero das pessoas?
Resposta: Tem a dita villa vinte vezinhos, e sincoenta pessoas de Sacramento,
pouco mais ou menos.
4º Se está situada em campina, valle, ou monte, e que povoações se
descobrem della, e quanto dista?
Resposta: Está situada em terra baxa, mais montuoza que campina. /p. 422/ Della
se não descobrem povoações, senão do alto de hũa torre, que está nella; a villa de
Arrayolos em distancia de três legoas, e a de Pavia que lhe dista mais de legoa e meya.
5º Se tem termo seu, que lugares ou alde[i]as comprehende, como se
chamam, e quantos vezinhos tem?
Resposta: Tem a ditta villa termo seu proprio, e demarcado, o qual se fez e
formou da parte do termo da villa de Coruche em o anno de 14611, governando o Reyno
o Infante D. Pedro na menoridade d’el-Rey D. Affonso 5º, a requirimento e delligencia
de hum cavalleiro chamado Lopo Affonso, pessuidor então da dita villa e suas terras,
em que houve pleyto contencioso entre o dito fidalgo, e o concelho da dita villa de
Coruche; mas ficando este vencido, persistio o dito termo, e o conservou sempre a dita
villa até ao prezente; o que consta do cartorio da camera da ditta villa de Coruche.
Confina o dito termo das Aguias com o de Coruche, de que foy separado pello
Poente; com o de Arrayolos pello Sul; com o de Pavia pello Nacente, e pello Norte com
o de Mora. Não consta da antiguidade desta villa, nem da origem do seu appelido
Aguias.
Tem em seu termo huma só alde[i]a, ou lugar, com o nome de Barroza de Nossa
Senhora das Brottas, por estar nelle situada a igreja da mesma Senhora, orago desta
freguezia, ao Poente da dita villa, em distancia de hum quarto de legoa. Consta o dito
lugar de Barroza de sesenta vezinhos; e cento e settenta pessoas mayores de Sacramento
ao prezente.
6º Se a paroquia está fora do lugar ou dentro delle, e quantos lugares ou
alde[i]as tem a freguezia, todos pellos seus nomes?
Resposta: A paroquia desta freguezia está dentro do dito lugar da Barroza, a
qual hé tão funda, que as barreiras que a rodeam terão mais de trinta covados de altura,
e de largura na superficie, ou abertura será um tiro de pedra, e de extensão no
1 Este ano só se pode reportar à Era Hispânica, o que significa (1461-28) 1433.
cumprimento hum tiro de bala. No assento /p. 423/ della está a povoação em huma rua só
principal que corre do Sul ao Norte, ficando a igreja no nacimento da mesma Barroza
em o mais profundo della com as portas para o Norte, e fronteira à mesma povoação.
Não tem mais alde[i]as ou lugares esta freguezia.
7º Qual hé o seu orago, quantos altares tem, de que santos, quantas naves
tem; se tem irmandades, quantas e de que santos?
Resposta: Foy antigamente patrão da villa das Aguias e orago desta freguezia o
apostolo S. Pedro, cuja imagem se diz, hé a mesma que ainda agora existe em esta igreja
da Senhora. Estava a dita igreja de São Pedro situada na dita villa das Aguias. Era da
Ordem Militar de Aviz, e filial da de São João, matriz da villa de Coruche. Cahio a dita
igreja de São Pedro, e como houve descuido em se reparar, começou a carecer de
parocos para a cura pastoral dos freguezes.
Estes pello notavel detrimento que tinham emviam em distancia de sinco legoas
a receber os sacramentos à matriz de Coruche, recorreram a Sua Alteza, o Cardeal
Infante Dom Affonso, filho del Rey D. Manuel, que então era bispo desta diocese; para
que os provesse de remedio em tão grande falta, e com consternação. Movido Sua
Alteza das justificadas queixas dos ditos freguezes, veyo pessoalmente em vizita a esta
freguezia, e achando ser assim o que lhe relataram, e vendo tambem que tinha muyta
capacidade para paroquia esta igreja da Senhora das Brottas, foy servido, por provizão
sua, passada na sua Chancelaria em 7 de Abril do anno de 1535, a nomear e instituir por
orago desta freguezia a Sagrada Imagem da Senhora das Brottas e a esta sua igreja por
paroquia della, assinando-lhe os mesmos cazaes, lemites e destricto; e ficando-lhe
subordinada a villa das Aguias, e desanexada da antiga paroquial de S. Pedro.
Creou por primeyro paroco da inovada freguezia ao padre Bras Alvarez, com o
titulo de capellão curado, por imposição do barrete, com collação perpetua para elle e
seus sucessores, ficando desde então até presente feita paroquia esta igreja, que naquelle
tempo era capella; e ella e o seu curado na nomeação, e sojeição Excelentissimos
Ordinarios deste arcebispado. Tudo o referido consta /p. 424/ do archivo da matriz da
villa de Coruche, aonde estão estas noticias. E a mesma criação desta paroquia, e
tambem letigio que houve neste particular com a Ordem.
Tem esta igreja da Senhora e orago da freguezia huma nave só, com bastante, e
proporcionada grandeza; porque tem de cumprimento pella parte interior cento e dez
palmos entrando nesta medida a capella-mor, que esta, por si só, tem trinta e dous
palmos; e de largura tem vinte e outo palmos, pouco mais ou menos. Toda ella e as
sancristias são de abobeda, hé [a]zolejada, e o pavimento todo lageado em sepulturas de
pedra branca de Estremoz. Tem sete altares: o da capella-mor aonde está em sacrario
fechado a angelical imagem da Senhora das Brottas; e no lado do Evangelho a imagem
acima referida [do] Apostolo S. Pedro, e do lado da Epistola a imagem de S. Bras.
À face nos pés do arco da capella-mor tem dous altares, hum de Santo Antonio à
parte do Evangelho, o outro de Nossa Senhora do Rozario à parte da Epistola. Tem duas
cappellas fundas, huma à parte do Evangelho, aonde está o Santissimo Sacramento,
instituido e colocado nella em o anno de 1750. Em o mesmo altar está collocada hũa
imagem de Christo Cruxificado de jaspe, de cujo nome se apellida, feitio de relevo e
antigo, mas primorosamente feitas assim a imagem como a cruz, a qual tem de altura
três palmos. Foy collocada esta imagem na dita cappella no anno de 1720, em cujo anno
se achou enterrada no lugar fronteiro, que se preparava para cappella das Almas, sem
deffeito, nem se pode averiguar em que tempo nem porque motivo foy ali enterrada;
sem embargo do exame que o Illustrissimo Cabido, em Sé vacante, mandou fazer por
um dos seus dezembargadores, o reverendo conego Manuel Guerreyro de Britto. Ficou
sendo muito veneradas dos fieis a dita imagem, e della recebem muitas mercês. Estão
mais no dito altar, aos lados delle duas imagens, huma da Senhora da Assumpção e
outra da Senhora do Carmo.
A outra cappella funda à parte da Epistola, em como já disse, se achou enterrada
a imagem do Senhor de jaspe, hé da irmandade das Almas. Nella está em tribuna outra
formoza imagem de Christo Crucificado de esculptura de madeira; ao lado do
Evangelho está a imagem do Archanjo S. Miguel, que hé patrão da dita irmandade; e da
parte da Epistola está hũa imagemsinha de S. Bento; esta cappella se fez no anno de
1720. Está outro altar moderno que se fez há três annos no corpo da igreja da parte da
Epistola, defronte do pulpito, o qual hé da /p. 425/ Senhora Soledade.
Há outro altar fora do corpo da igreja, nas costas do coro, por cima da porta
principal em huma varandinha da abobeda, que hé cappella de doze missas, que com
Indulto Apostollico instituio hum cavaleiro de Coruche, Manuel Gonçalvez Farinha, em
o anno de 1667, o qual serve de se dizer missa nella, quando em Setembro há hum
concurso grande de festas, e romeyros, a que chamam Novena de Coruche, para cujo
fim o impetrou fora da igreja o dito instituidor.
Como a Senhora das Brottas hé o orago desta freguezia, e huma das mais
affamadas imagens deste Reyno, será obrigação minha dar em esta resposta huma breve
noticia das que há da sua origem e prodigiozo apparecimento em esta Barroza.
Hé constante e firme tradição, conservada até ao prezente, que hé angelical a
imagem desta Senhora, e a mesma que se achou milagrosamente formada em esta
Barroza, quando nella fez aquelle sabido milagre de dar vida a huma vaca, que
despenhada do mais alto da barreira cahio morta em o mais profundo desta gruta.
Buscando-a seu dono a achou sem vida; e ao tempo, que a estava esfollando, e lhe tinha
já despido huma mão da pelle, lhe appareceu a May de Deos em vizão em cima de hum
pinheiro, que estava em o meyo, vertente da dita barreira distante do lugar da queda da
vaca 80 ou 90 passos, o qual haverá 80 ou 90 annos, que cazualmente se queimou, de
que não há já rasto algum delle. Mas fallei ainda com homens velhos, que ainda o
alcançaram verde. De cima do dito pinheiro lhe fallou e disse que queria remediar a sua
necessidade, alivia-lo na sua magoa, que fosse à villa das Aguias a chamar aquelles
moradores, para que viessem e testemunhassem o milagre de verem a sua vaca morta
tornada à vida; e que em reconhecimento desta mercê queria que em seu obsequio, e
culto lhe fizessem neste mesmo lugar do milagre caza, em que fosse venerada, e
servida.
Assim o fez aquelle venturozo homem; foy ao dito lugar das Aguias, deo parte
àquelles moradores do sucedido, e vindo todos a ver a maravilha, entraram na Barroza,
até então deserta, e inhabitada, e encontraram não hum, mas dobrados milagres: viram a
vaca viva e sem mais lezão do que o faltar-lhe hum osso, ou a cana da mão esfolada;
depois a este admiraram-se com outro mayor prodigio, que foy acharem ahy esta mesma
/p. 426/ imagem da Senhora, que aqui veneramos, formada milagrozamente do mesmo
osso que faltava na mão da vaca.
Adorando todos a angelical imagem a foram collocar na igreja parochial de S.
Pedro das Aguias, e conta a mesma tradição, que indo os mesmos freguezes vizita-la no
dia seguinte, a não acharam, mas voltando a esta Barroza a vieram achar no mesmo
lugar, aonde então concordaram todos e fizeram voto de lhe fazer ermida, para ser aqui
festejada e assistida. Assim o executaram, e daquelle tempo até ao prezente existe a
Senhora em esta Barroza. Primeiro na primeira ermida pequena que então se lhe fez, e
dahi a annos em este sumptuozo templo que se lhe dedicou em o mesmo lugar.
Hé a imagem da Senhora pequena, que não chega a ter hum palmo de esculptura
lavrada no mesmo osso, com a mão direita só manifesta, e a esquerda encuberta na
esculptura da mantilha; e assim com mysterio, por que querendo-se-lhe pôr mão
artificial a Senhora a não consentio. Está em hũa formoza custodia de prata dourada, e
fechada em sacrario com muyta veneração.
Não consta com certeza, em que seculo nem em que anno foy aqui o milagre, e o
aparecimento da Senhora, porque nem em esta igreja, nem fora della sei que haja
memoria e evidencia disso. Porem hé certo que pellos annos de 1453 já aqui havia
ermida da Senhora com o titulo das Brottas; o que consta de hum titulo antigo da
demarcação do termo da villa das Aguias, que eu vi quando aqui no anno de 1743, por
ordem do Excelentissimo Conde de Atalaya, veyo o Doutor Miguel Francisco Martinz,
juiz de fora de Evora, a reformar a demarcação deste Morgado das Aguias, em cujo
titulo ly por estas, ou similhantes palavras:
«Demarco tal, que vay ter ao caminho que vem de Mora para Santa Maria das
Brottas».
E era a data do dito titulo a referida Era de 1453; e da posteridade a este tempo
não consta; porque só a tradição foy o historiador deste prodigio.
8º Se o paroco he cura, vigario ou reytor ou prior ou abbade; e de que
aprezentação hé, e que renda tem?
Resposta: Aos parocos desta igreja propriamente lhe compete o titulo /p. 427/ de
capellães curados, por força da creacção desta paroquia, de que já fiz menção, mas ao
prezente só lhe passa carta de cura annual, sem collação. A apresentação delle hé dos
Excelentissimos e Reverendissimos Prelados deste arcebispado, como já declarei
as[s]ima.
Não tem o paroco desta igreja renda propria, mais do que três quarteiros meados
de trigo e cevada, pagas pella Mitra, cujo proprio não consta da creação da igreja, a qual
só assinou por emulumento dos parocos as offertas e votos dos romeyros; e dos
freguezes não recebem bolo ou congrua alguma, senão o que lhe vem do pé-do-altar.
Dos interrogatorios 9º, 10º, 11º e 12º não há que responder porque não [há] aqui, o
que nelles se procura.
13º Se tem algumas ermidas, e de que santos, e se estão dentro ou fora do
lugar, e a quem pertencem?
Resposta: Tem esta freguezia somente huma ermida de S. Sebastião que
antigamente estava edificada junto à villa das Aguias, distante da antiga de S. Pedro,
menos de hum tiro de pedra; mas arruinando-se tãobem se fez de novo no mesmo lugar
e ruinas da de S. Pedro, haverá 60 annos, pouco mais ou menos; cuja hé filial desta
paroquia e pertence ao Excelentissimo Ordinario.
14º Se acode a ellas romagem, sempre, ou em alguns dias do anno, e quais são
estas?
Resposta: A esta igreja da Senhora das Brottas, como ermida na sua origem hé
muito notavel pella fama da sua Sagrada Imagem. Acodem muytas romagens não só
desta provincia, mas ainda de muytas partes des[te] Reyno e fora delle, em quasi todo o
anno; mas com mais concurso pello Verão, especialmente em Settembro; em cujo mês,
logo depois da Natividade da Senhora (em cujo dia se festeja esta /p. 428/ Senhora como
orago da caza) se forma hum arrayal de barracas neste sitio por tempo de nove dias, de
tanta gente, que algũas vezes se chegou avaliar o numero della em mais de doze ou
quinze mil pessoas; e a este concurso chamam Novena de Coruche; mas ao prezente hé
já notavelmente diminuto o dito concurso.
Alem das romagens, concorriam a esta igreja muytas confrarias de cidades e villas
deste Alemtejo e fora delle, que passavam de trinta quasi todas com seus sirios grandes
de cera nesta igreja, que ao prezente não são mais do que dez, e somente desasete ou
dezouto as confrarias de fora que continuam nos seus festejos.
15º Quaes são os frutos da terra, que os moradores recolhem em maior
abundância?
Resposta: Os frutos deste territorio mais comuns, e de que medianamente abunda
hé trigo bom, senteyo e montados.
16º Se tem juiz ordinario, etc, camera, ou se está sojeita ao governo das
justiças de outra terra, e qual hé esta?
Resposta: Tem dous juizes ordinarios, três vereadores, procurador do concelho,
os quaes são feitos a votos pella governança, prezidindo e confirmando o corregedor da
comarca. Não está sujeita ao governo das justiças de outra terra.
Dos interrogatorios 17º, 18º, 19º, 20º não há que responder porque a dita villa não
hé couto, cabeça de concelho, honra, nem behetria. Não há memoria de haver della
homens insignes em letras e virtudes. Não tem feira franca mas somente há aqui no
lugar da feirasinha, no concurso da novena, que hé captiva.
/p. 429/
Não tem correyo e os que mais perto estão, são o de Arrayolos, em distância de
três leguas, e o de Montemor-o-Novo na distancia de quatro legoas.
21º Quanto dista da cidade, capital do bispado, e quanto dista de Lisboa,
capital do Reyno?
Resposta: Dista da cidade de Evora, capital do arcebispado seis legoas, e da corte
de Lisboa doze, até Alde[i]a Galega.
22º Se tem alguns privilegios, antiguidades, ou outras coisas dignas de
memoria?
Resposta: Tem a dita villa das Aguias o privilegio de não pagarem os seus
moradores o direito da portagem, assim compradores como vendedores por foral e graça
d’el-Rey D. Manoel, cujo foral está na Torre do Tombo, e o seu treslado em o cartorio
deste concelho.
Dos interrogatorios 23º e 24º não há o que se procura saber.
25º Se a terra for murada, etc., se há nella, ou no seu districto algum castello
ou torre antiga e em que estado se acha ao prezente?
Resposta: Não hé a dita villa murada, nem praça de /p. 430/ armas. Está nella o
edificio de hũa formoza torre, que hé palacio dos Excelentissimos Condes da Atalaya,
Marquezes de Tancos. Hé antiguissima porque em aquella caza não há rasto, nem
memoria alguma da sua antiguidade. Foy caza forte, pellos vestigios que se viam nella e
ainda se vêem. Hé quadrada tanto nos lados como na altura; porque em cada hum dos
quatro lados tem outenta palmos, e o mesmo tem na altura. Tem quatro andares, e em
cada hum[a] sala de sesenta palmos de cumprido, e trinta de largo, porque todas estão
repartidas ao meyo, e a metade de cada sala repartida em quartos, com boa galeria de
janelas por todos os lados, e huma varanda em cima, donde se descobrem somente as
villas de Arrayolos e Pavia; que por estar em assento muito bayxo por isso se não
descobrem mais terras; He formada em abobedas de insigne architetura, e toda
guarnecida por dentro e por fora, e sem ruina alguma.
26º Se padeceo alguma ruina do terremoto de 1755, e em que, e se está já
reparada?
Resposta: Não houve ruina consideravel na dita villa, nem no lugar da Barroza,
igreja e mais freguezia, pello terremoto de 1755. Nem a sobredita torre ficou com
defeito algum, sem embargo de se abrir por um lado de parede a parede, mas tornando a
unir, e estucando-se-lhe a raxa ficou sem defeito.
Não há mais couza algũa digna de memoria, acerca destes interrogatorios que
possa dizer.
Aos interrogatorios de serra e rio não há que responder porque não há aqui serra
nem rio de nome.
Somente há neste territorio huma ribeira /p. 431/ medianamente grande, a qual corre
ao Oriente das Aguias, em distancia de um tiro de bala, de Sudeste a Noroeste. Tem o
nome de Divor, cujo conserva desde que principia até que acaba; e toma o dito nome do
campo do seu nacimento que hé a freguezia da Graça do Divor, termo de Evora e de
huns montes, aonde tem o seu principio, que lhes chamam os Divores. Tem de extenção
na sua corrente nove até dez legoas; porque dista daqui [a] o seu principio quatro legoas,
e com as voltas serão sinco; e daqui com a corrente de quatro legoas e meia ou sinco se
vay meter na grande ribeira do Sorraya, meia legoa distante da villa de Coruche. Não há
della mais cousa especial que se diga.
Acerca dos mais interrogatorios não há que responder; nem em todos os mais sei
que haja mais noticias dignas de memoria que possa declarar.
Suplemento ao interrogatorio 7º da Terra.
Interrogatorio 7º. Se tem irmandades, quantas, e de que santos?
Resposta: Tem esta freguezia de Nossa Senhora das Brottas, ao prezente três
irmandades ecclesiasticas, e confirmadas authoritate ordinarii, a saber: a confraria do
Santissimo Sacramento; a irmandade de Nossa Senhora do Rozario, e a irmandade das
Benditas Almas do Purgatorio, cujo patrão hé o archanjo S. Miguel.
O que tenho respondido hé relatado com a certeza e verdade, que p[u]de descobrir
à minha curta capacidade.
Barroza de Nossa Senhora das Brottas, em 12 de Abril de 1758.
as) O paroco, Romão Guerreiro de Britto
Transcrição: João Cosme e José Varandas
in COSME, João, VARANDAS, José (introdução, transcrição e revisão), Memórias Paroquiais (1758-1759), vol. I [Abação-Alcaria], Lisboa, Centro de História da Universidade de Lisboa e Caleidoscópio, 2010, pp. 309-318.
