1758 Junho 6 - Santiago de Escoural
Memória Paroquial de Santiago de Escoural, Montemor-o-Novo
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 14, nº 15, pp. 399 a 406]
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Fica esta freguezia de Santiago do Escoural na Provincia do Alentejo, pertence ao
Arcebispado de Evora, Comarca da mesma cidade, e termo da villa de Montemor o
novo. He Paroquia do Campo, sem Donatario, a principal freguezia do dito termo, e
ainda das mais famozas do Arcebispado.
Consta de duzentos, quarenta e dous fogos.
Pessoas mayores outo centas e quarenta; menores cento e trinta; que vivem espalhadas
por varios Montes, Pumares, e Aldeas de que se compoem a dita freguezia. As aldeas
sam duas: a primeyra em que esta a Igreja Paroquial, chama-se de Santiago e consta de
vinte, digo consta de secenta visinhos; a segunda Aldea chamada Biscaya, e consta de
vinte visinhos, que todos entrão no referido numero de fogos, ou casaes de que consta a
dita freguezia.
He orago dela o gloriozo Apostolo Santiago, cuja sagrada imagem esta na Igreja
Paroquial; tem esta huma so nave, Altares sinco, todos dentro do cruzeyro. No Altar
mor esta em sacrario o Santissimo Sacramento; ao lado direyto huma imagem de Nossa
Senhora da Esperança, ao esquerdo à do sobredito Apostolo, tem sua tribuna de entalho
toda dourada, e no throno della emquanto o Sacramento não está exposto, esta huma
imagem de Santa Anna.
Dos quatro Altares colateraes, dous ficão a face: ao Lado direyto o de Santa Catherina
em que esta huma imagem da dita Santa, como tambem as sagradas images de Sam
Francisco de Borja Padroeyro do Reyno contra os terramotos, a de Sam Gregorio, e a de
Sam Bras. Na face do lado esquerdo esta otro Altar de Nossa Senhora das Brotas com
huma imagem da mesma Senhora, otra de Sam Joam Baptista e otra de Santo Antonio.
Nos lados immidiatos a estes, estão otros dous Altares:
/p. 400/ na parede do Lado dereyto, o da
Nossa Senhora do Rozario, em que esta a mesma May de Deos com seu bendito Filho
na arvore de seus gloriosos ascendentes, como tambem Sam Bento, e Sam Pedro Martir.
Finalmente a Cappella do lado esquerdo he das Almas tem no meyo do Altar huma
imagem de Christo Crucificado Milagroza, e as de Sam Miguel, Sam Pedro, e Sam
Sebastiam. Todas as referidas images desta Igreja estam em vulto, e estofadas de ouro.
Tem a freguezia tres Irmandades: a primeyra do Santissimo Sacramento, a segunda de
Nossa Senhora do Rosario, a terceyra das Almas.
O Paroco desta freguesia tem o titulo de Cura, he da aprezentaçam do Excelentissimo
Ordinario Prelado do dito Arcebispado. Nam come Dizimos; tem huma congrua de sete
moyos de trigo, e quatro, e meyo de sevada, que lhe pagam os freguezes, por lhes dizer
missa, e administrar os sacramentos.
Alem do Paroco, tem esta freguesia hum Cappellam de missa Coditiana no Altar das
Almas de huma Cappella, que nelle institui Constantino Borges de Carvalho: tem de
renda o Cappellam quatro moyos de trigo, e dous de sevada, que lhe pagam Manoel de
Myra, e Gaspar de Myra Lavradores desta freguezia, e administradores da dita Cappella
aos quais pertence a nomeação do Cappellam da mesma.
Tem a freguezia duas Ermidas: huma de Nossa Senhora do Rosario em huma Quinta
dos Lobos e Gamas de Evora Cidade, junto á sobredita Aldea de Biscaya, na qual se
venera hua imagem da mesma Rainha dos Anjos, que trouce Luis Lobo da Gama da
Cidade de Evora com tão excessivo zelo, que se fes foreyro a Irmandade do Rozario do
Convento de Sam Domingos da dita Cidade em tres mil reis cada hum anno, obrigando
asim aos Irmaos
/p. 401/ daquella Confraria a lhe deyxarem trazer para a sobredita Ermida á
referida imagem antiga daquelle Santuario para a sua Ermida, na qual a collocou em o
primeyro Domingo de Outubro do anno de mil ceiscentos outenta e tres como refere o
Santuario Mariano tomo 6. Lib. 1. tit. 99. pag. mihi 345. Ainda que na cituação da dita
Ermida hove engano em quem informou o Autor; porque a Ermida sim fica á parte do
Sul da Villa de Montemor, como tambem á freguezia; dista porem da dita villa so huma
Legoa, e tres quartos de otra; e não duas Legoas e meya como affirma o Santuario
Mariano: da freguezia dista hum quarto de Legoa a dita Ermida, e nesta em o mesmo
dia, Domingo primeyro de Outubro, em que Luis Lobo da Gama collocou aquella
Sagrada imagem he todos os annos solenemente aplaudida por seus nubelissimos
descendentes a mesma May de Deos, e Senhora do Rozario.
A segunda Ermida que tem a freguezia fica pouco mais de meya Legoa afastada da
freguezia, ou Igreja Paroquial, na estrada, que vay della para a villa de Monte mor em
huma Quinta de Manoel de Villa Lobos da dita Villa; o Orago deste he Sam
Chrystovão, e o Padroeyro o dito Manoel de VilIa Lobos; mostra esta Ermida ser ainda
mais antiga, do que a primeyra bem asim pella sua architetura, como pellas
antiquissimas, e nobres cazas com sua Torre, que junto a ella estam na dita Quinta, e
mostrão claramente ser tudo munto antigo, e feyto no mesmo tempo; não tem mais
imagem, que a de Sam Christovam.
Os frutos, que os moradores desta freguezia colhem em mayor abundancia, he senteyo;
trigo e sevada menos; tem porem em grande quantidade Laranja da China, doce e azeda,
Limão de todas as castas, Ameyxa, Maçam, e Pera, na mesma forma; por se compor
esta freguezia de muntos Pumares, e Quintas
/p. 402/ de Regadio com muntas, e boas agoas de
fontes, que nellas nascem, do que junto com certa propriedade da terra rezulta ter a mais
saboroza fruta de todo o termo de Montemor, e particularmente a Laranja doce deste
Pays he particular no gosto em todo Alentejo: motivos que fazem esta freguezia a mais
amena, e deliciosa de todas as Paroquias do Campo do dito Arcebispado.
Dista esta freguezia quatro Legoas da Cidade de Evora; da Corte e Cidade de Lisboa
quinze; da vilia de Montemor o novo duas.
No terremoto do anno de mil settecentos sincoenta e sinco padeceo ruina a Igreja
Parochial desta freguezia, abrindo-se por todo o comprimento della á abobeda da
mesma, cuja ruina ao prezente se acha reparada.
A couza mais digna de memoria, que acho nesta Igreja he ser o pulpito della o mesmo
em que, vindo a este Reyno o grande Sam Francisco de Borja no anno de mil
quinhentos e secenta, pregou na Sé de Evora á rogo do Serenissimo Senhor Dom
Henrrique Cardeal Rey, en aquele tempo Cardeal Infante, e ja Arcebispo daquella
Deocese; o qual pulpito, fazendosse depoes otro mais rico para á Cathedral foy dado
para a Igreja das Reiligiosas de Santa Monica da dita Cidade, donde depoes o
comprarão os moradores desta freguezia:
he tradição comunissima, ainda que não pode achar nos Livros da fabrica o anno em
que se fes esta preciosa compra; mas uniformemente mo asentaram asim Logo que vim
para esta freguezia ha des annos pessoas antigas noticiosas e dignas de credito da
sobredita Cidade, e desta freguezia donde desde o tempo da compra se conservou por
tradição de huns a otros, a memoria della.
Está a freguezia rodeada de varias serras todas pequenas, em termos que por quer dos
lados, so se ve a Igreja Paroquial, a Aldea della, quando se esta junto a mesma; da parte
do Norte tem sua abertura entre as mesmas serras por donde he munto lavada [...] vento,
e por isso mesmo sadia.
/p. 403/ Das serras, so huma se fas memoravel, e se chama Serra de Monfurado; veo-lhe a
propriedade do nome de se verem na mesma serra muntas covas, e algumas, que
atravessão por bayxo delia, por cujo motivo lhe chamavam Serra de Montefurado, e
curupto vucabulo se veyo chamar Serra de Monfurado: a princiapl concavidade destas,
que nella se acha he huma, a que chamam a Cova Santa; por esta entra hum homem de
ordinaria estatura direyto, e vay caminhando por bayxo da serra espaso de des, ou doze
varas (segundo me aseverou pessoa fidedigna, que entrou e andou por ella) no fim da
qual distancia se encontra huma grande pedra, que impede o Caminho, deyxa porem
boraco, pello qual não cabe homem; mas por elle se deviza ser ainda a dita serra oca por
diante. O motivo de charem digo de chamarem a esta Cova Santa, he por afirmarem
ouvirão sempre dizer, que naquella Cova fora sepultada Santa Quitheria martirizando-a
em defensa da fe na Vilia de Montemor, mas eu não pode averiguar a verdade do
motivo desta tradição, que he antequissima nesta frequezia.
Pouco afastado da dita Cova Santa otras covas na mesma serra, a que chamavam Covas
infernaes, por serem munto horrendas, e cauzarem pavor ainda de dia a quem chegava a
ellas, tendo receyo grande ainda os pastores de passarem por ali com o seu gado. Para
estas covas veyo havera perto de sincoenta annos hum homem natural da Cidade de
Evora officiai de Caldereyro chamado Joam de Deos, e trouce huma imagem pequena
de Nossa Senhora, a que deo o titolo do Castello, e a colucou em hum nixo, que fes na
gruta de huma daquellas covas, guarnecendo o nixo com cascas de aMejoas, donde
principiaram hir logo em romagem varias pessoas, e a May de Deos a mostrar as
maravilhas de seu poder.
/p. 404/ O dito Joam de Deos vivendo naquella cova em hum habito pardo de Donato, pes
descalsos, cabeça descuberta, ainda quando sabia fora, comendo ervas cruas, e alguma
fatia de pam que lhe davam de esmola, e fazendo otras muntas penitencias com
edeficaçam grande de todos que o viam, mudou o nome a estas covas, e fes perder o
medo, que o mundo tinha de chegar a ellas; agregaram se lhe pouco depoes tres
companheyros: hum dos quais se chamava Joam pecador, otro o Irmam Xavier, vivendo
todos, cada hum em sua cova, com a mesma penitencia, e edificação; mas o Demonio,
que nam se descuida, sofrendo mal que aquellas covas se trocassem de infernaes em
Santas, fes tam forte guerra ao mais velho, que finalmente o venceo, deixando Joam de
Deos aquelle Ermo, e voltando ao seculo.
Dos tres que ficaram entrou o Irmam Xavier por mais velho a ser, o que dominava os
mais, e no tempo do seu governo, sendo na era de mil settecentos e dezouto, pouco
mais, ou menos veyo para estas Covas de Monfurado o Irmam Balthezar da Corte e
Cidade de Lisboa, e retirando-se pouco depoes o Irmam Xavier a fazer da mesma forma
vida Eremitica em huma serra junto a Ribeyra do Sado no termo de Alcacere do Sal do
mesmo Arcebispado em huma Ermida de Nossa Senhora da Conceyção, deixando os
que ficarão nas covas na direção e obediencia do Irmam Balthezar, varam bem
conhecido neste Reyno pella sua extraordinaria penitencia, e grande espirito, que tem
mostrado nos seus sermoes sendo homem leigo sem estudos, e com espesialidade no
sermam do Juizo, que deo ao prelo.
O dito Irmam Balthezar mandou fazer de esmolas a Igrejinha, que hoje esta na dita
serra, em que colucou a sobredita imagem de Nossa Senhora do Castello tirando-a do
nixo em que a tinha posto e deixado Joam de Deos, e he a mesma que ainda hoje nella
se venera, e pella qual a May de Deos tem obrado muntos milagres, e mandou tambem
fazer naquella algumas pobres cazas para
/p. 405/ acomodaçam das munias pessoas, que
deixando o mundo concorriam de varias partes do Reyno a fazer vida Eremitica debaxo
da sua direçam naquellas covas, donde chegaram a juntarse quarenta.
Elle foy o que fundou a Congregaçam dos Monges das Covas do Monfurado, que hoje
existe na dita serra, descalsos com habitos pretos seguindo a regra de Sam Paulo
primeyro Eremita, debayxo de protecção do senhor Infante Dom Antonio, que Deos
haja em gloria, o qual aceitou ser Padroeyro Augusto da dita Congregação mandandolhe
fazer pellos Reverendos Padres Neres seus estatutos para governo dos Congregados,
os quais aprovou o ordinario, a quem the ao prezente esta sujeita a dita Congregação, e
vivem os Monges della com toda a honestidade, e exemplar vida; e não ha pessoa que
nam sahia edeficada entrando na Igreja, ou Convento destes Irmaos, vendo tudo
pequeno, no meyo de huma serra, e debaixo das concavidades della, as covinhas tam
pequenas que tem o comprimento de hum homem deitado, e de altura quanto caiba o
homem em pé; a cama huma cortissa, a cadeyra hum trapacelo e sobretudo em cada
Monge que se encontra, se admira o melhor retrato do desprezo do Mundo, e da perfeita
penitencia.
He o que posso informar das noticias desta freguezia; aos mais interogatorios respondo
con o silencio, por nam haver que diga e sobre elles e o referido he so o que eu achey
memoravel, e digno de credito, pella informação exacta, que neste particular tirey, de
que fis a prezente, que asigney. Santiago do Escoural 6(1) de Junho de 1758(2).
O Paroco Dr. Jozé da Cunha e Sylva
(1) Sublinhado no original.
(2) Sublinado no original.
Transcrição: Jorge Fonseca






