Montemor-o-Novo - Matriz

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1758 - Matriz
Memória Paroquial de Matriz, Montemor-o-Novo.
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 24, nº 198, pp. 1429 a 1454]

/p. 1429/

Discripsão da villa DE Monte mor o Novo, pello que pertence a
igreja matris


A villa de Monte mor o novo está cituáda na provincia de Alentejo, Comarca, e
Arcebispádo de Evora em dés gráos, e doze minutos de longetud., e trinta, e outo gráos,
e trinta e quatro minutos de latitud.. No tempo dos Romanos foi povoação insigne, para
o que he fundamento irrefragavel a pedra que se acha no extrior parede do ádro da
Igreja Matris de Nossa Senhora do Bispo, que ainda hoje existe dentro da cerca da
antíga villa, em que se fás memoria d huma Flaminia de toda a Luzitannia difrente da
Eborence, como se vé da inscrição de que estando tão publica, nenhum dos nossos
historiadores fes menção.


MEMORIAE. G. F. CAL — / CHISIAE. FLAM. PROV. / LUSI. II. FIL. PIISSM. ET. /
MAR. L. E. SIDONIAE. / NEPT. DULC. ET APON. / LUPIANO MAR. MER — /
ENT. FABRIC. QUA MI —

/p. 1430/ / SER. MATER. IUN. LEONICA. KARIS. SU — / IS. ET.
SIBI


Outras memorias se achão que mostrão a sua antiguidade, respeitada dos idólatras, e
veneráda em todos os seculos por huma das memoravens da nossa Luzitania. Foi
celebrada com o nome de Castra Malianna, pela abundancia nativa de seos frutos, e pelo
inexpugnavel castelo com que se fazia timivel. Nela estava pregando a fé São Mancio
primeiro Bispo de Evora, e dicipolo de Christo, que tãobem foi Bispo regionario de
Lisboa, quando o prenderão, e o conduzirão a prezença de Validio, que rezedia em
Evora, e nesta cidade alcançou a hauréola do martirio, como se refere na primeira lição
do 2° nocturno do officio, que canta a Igreja Eborence na sua festividade, a 21 de Mayo,
quá propter a gentilibus comprihenditur in vico, cui nomen erat Castra Malianna.
jactace de que nella pregace primeiro a fé este Dicipolo de Cristo, que outros Santos a
viessem pregar a Hespanha, e que os seos habitadores fossem primicias cathólicas da
sua pregação.

Não faltão noticias, e tradições que El rey D. Afonço Henrriques na invazão que fes
aos Mouros nesta Provincia conquistou neste Citio o Castelo, e depois sendo alguns
annos outra vez prezediádo dos Mouros para cujo refugio tinhão os mesmos fabricado
huma ponte chamada de Alcaçar do Sal; a tornou a restaurar D. Sancho 1º no anno de
1239 que he o anno de Christo de 1201: e então destruída e dezemparada a mandou
povoar de novo, e são notavens as palavras do foral que lhe deu no mesmo anno, não só
por expresar que a queria povoar em honrra de Deos, de Santa Maria, e de todos os
Santos. mas tão bem pela ordem, com que se nomeão seos filhos, e sua moller a Rainha
D. Dulsse: In nomine Patris, et Filii,

/p. 1431/ et Spiritus Santi, Amen. Ego Rex Sanctius Magni
Alfonci Regis Filius una com filiis meis Rege Alfonço, Rege Petro, et Rege Fernando,
ed Regina Blanca, et Regine Dulcissa ad honorem Dei, et Santa Maria semper virginis,
et omnium santorum Montem-Mayorem volumus pupulare.
Foi seu principal povoador e primeiro Alcaide mor Pelágio Peres e lhe concervou o
nome do citio, e para distinção de outra villa do seu nome, quis se chamace Monte-mor
o novo. O Senhor D. João filho do Senhor Dom Fernando 2° do nome, Duque de
Bargança teve della o titolo de Marques; e o Senhor Rey dom Manoel a unio para
sempre á Croa em Santarem a 4 de Junho de 1498. Uza das armas de que uzava o
Senhor Dom João seu unico Marques, com o castelo, e ponte, que forma o seu
nobilisimo escúdo.

São seos Alcaides mores os Condes de Santa Crúz por merce do Senhor Dom João 2°
feita ao Capitão dos Ginetes Fernão Martins Mascarenhas na Cidade do Porto a 8 de
Dezembro de 1483.

Nella celebrarão Cortes os Senhores Reys Dom Afonço 5º, Dom João 2° e Dom
Manoel no anno de 1497, em que se determinou a expidição da India, e sahio dom
Vasco da Gama para este dicubrimento, e nella, o recebeo quando voltou. Este mesmo
Rey lhe deu o novo foral em Lisboa a quinze de Agosto de 1503, e o Senhor Rey Dom
Sebastião a fes notavel nas Cortes de Lisboa em 15 de Fevireiro de 1563 de que se lhe
passou Carta a 20 de Março do mesmo anno. Tem vóto em Cortes, e acento no quarto
banco.

He a antiga villa selebrada dos antigos escritores; porque foi fundada em hum soberbo
monte, sem que tenha outro algum de róda por onde foce combatida, e ainda existe
cercáda de fortes muros de fabrica antiga, lizos sem rebelins, ou retirádas, de vara, e
meya de largo, e mil e quatro centas, e sincoenta e outo de Circúito, que fás a conta de
dois mil duzentos e satenta pés geométricos, com quatro portas, e sobre ellas quatro
soberbas torres: huma a que chamão a porta de Evora de que sahia a estrada para a dita
Cidade fica entre o Sul e o Oriente, amparáda com a primeira torre que fortemente a
defende. Ao Nacente fica a Segunda porta chamada de São Tiago com outra grandioza
torre por defeza. Para a parte do Norte, fica a porta Principal a que chamão da Villa com
outra torre mais forte que todas em tal forma que seguindo a entrada da porta as fasses
dela, forma tres retirádas com hum fortim em sima que parece inconquistavel. E a
ultima porta chamáda do Anjo, fica á parte do Occidente com outra nobelissima torre
seguindo a entráda o giro da mesma com duas retirádas, que alem de iminencia do Citio,
se fás impossivel a combates.

Em esta torre com mais eminencia man

/p. 1432/ darão edificar, os Condes de Santa Crúz,
huma Caza de recriação com tres janelas nas tres faces que correspondem ao Norte,
Occidente, e Sul, ficandolhe ao Oriente a porta, e servintia, para a qual vem desde o
palacio dos mesmos, por sima do muro hum passadiço por dilatado espáço, athé chegar
á dita torre, que está em huma tal eminencia que em dias claros se avista della a Corte, e
Cidade de Lisboa em distancia de quinze lagoas, Palmela em distancia de onze, e
Arrayolos em distancia de tres.

Por entre as quatro torres em espaços, e distancias competentes se achão arrimados
aos aos muros huns meyos torriões, com suas ameas que não excedem á altura dos
proprios muros que enchem ao numero, de vinte, não tendo, algum desde a porta do
Anjo pela parte do Sul athé á porta de Evora; mas desta parte tem huma contra murálha
de altura de huma vara athé as ameas, e por dentro destas as vigias para sua defeza. E
esta he a fortíficação antiga, na qual se não ve hoje mais que ruinas e huma aparencia do
que foi:

Os naturais a deixarão, e forão povoando o arrabalde, e querendo o Senhor Rey Dom
Manoel acudir a tal dezordem, e não ver distruida huma villa tão antiga, mandou passar
hum alvara, (estando em Evora) concedendo varios previlegios aos q moracem dentro
da cerca da dita villa, o qual foi passado por Andre Pires a 25 de Outubro de 1508 = e
nelle concedia aos que moracem dentro da cerca da antiga villa, que não pagarião coiza
alguma na impozição do Sal, que era ordenado para apozentadoria do Juis, Meirinho, e
levada aos prezos, mas antes que poderião uzar della comprando, e vendendo, sem que
incorrecem nas pennas que erão postas aos que troucecem sal a dita villa sem licença =
que não pagarião Ciza das cavalgaduras que compracem, ou vendecem, para serviço de
Sua Caza, fazendo saber aos officiáis das cizas = que os homens piões, que vivecem
dentro da cerca da dita villa não poderião ser asoutados publicamente, ainda que o
merececem por seos delitos = e que os escudeiros gozarião de todos os privilegios, e
liberdades que gozão os Cavalleiros de nosso Reyno = que os mercadores não pudecem
ter logeas se não dentro da dita cerca, e os que moravam no arrabalde dentro de hum
anno se recolherião a ella, e o mesmo a todos os mais que puzecem tendas de toda a
qualidade de fazenda = que nenhum oficial de justiça de qualquer oficio, ou governança
da terra que não morar dentro da dita cerca da antiga villa não poderá levar celário
algum dos ditos oficios com a penna de perdelos = que se vagar algum oficio, e
fizermos delle merce, vá logo dentro em seis meses morar dentro da cerca, e se não o
fizer, não poderá levar celario algum, nem servilo com a penna de perdelo, e pagar des
cruzados para o hospital desta villa = que ao Juis de fora se lhe não possa fazer
apozentadoria senão dentro da dita cerca = que os veriadores almotacés, e mais
governança não possam ser eleitos senão daqueles que existirem dentro da mesma = e
que nenhum poderia fazer atafonas, nem desmanchar cazas para uzarem dos meterias no
arrabalde, senão dentro da cerca da antiga vila.

Foi confirmádo este alvará pelo Senhor Rey Dom João 3° como consta de huma carta
feita em Lisboa a 20

/p. 1433/ de Julho de 1528 passada por Ayres Fernandes com a clauzula de
pagarem jugadas. No anno de 1642 por alvará do Senhor Dom João. 4° passado em 31
de Julho se mandarão reformar os muros, e que se reidificace a villa, confirmando os
previlegios que os moradores tinhão; mas não consta que cazas algumas se reidificacem,
contentandoce o Cenadores, e moradores, com mandarem fabricar hum poço de
espaçosa largura e altura de hum homem, e entre o poço, e muro alguns rebelins em
distancias compasádas em forma triangular, e pela parte de fora do poço huma serventia
de duas varas de largo, com parapeito por diante feito de terra de altura de peitos de
qualquer homem, olhando mais a ivadir os prigos da guerra, que utelidade politica.

E ainda que dezemparáda de todo a antiga povoação, arruinados os muros, e povoado o
arrebalde, sempre se conservão ainda dentro dos mesmos muros tres Parochias, o
Convento das Relegiozas Dominicas, o relogio, e o palacio dos Alcaides móres, e
algumas Cirternas de agoa, e huma que jámais se seca, e tudo o mais por dentro da cerca
dos mesmos tudo são ruinas. Antigamente se contavão nella dois mil vizinhos, hoje os
que existem no arrebalde chegão a 936, com 3861 pessoas, isto he nesta freguezia
(«fogos» na margem) da Matrís sómente, que das outras dirão os seos Párochos as que
dezobrigão cada hum anno.

Ao Oriente do Castelo, e dahí pelo Norte athé o Occidente, fica o arrebalde, ou para
milhor dizer toda a villa, que nelle se comprihende, e principiando do mesmo Occidente
em huma larga rua que se continua por espaço de tiro de mosquete e um lugar bacho, no
fim della se alarga com tres ruas (entre as quais fica a Irmida de São Lázaro) das quais
nascem varias ruas para muitas partes subindo por huma meya ladeira athé o fim da
villa, que fica em huma planice á parte do Ouriente, aonde lança dois braços, hum para
a parte do Sul mostrando querer rodiar o monte do Castelo, ou antiga villa, outro ao
Nordeste com bastante extenção; ficando nesta forma, e por estas partes acompanhando
as raizes do mesmo monte.

Tem esta villa termo proprio, e confina com outro de outras tantas povoações que
arrodeão: e principiando pela parte do Ouriente, a confinar com o termo de Evora pela
herdade da Bandarra duas legoas e meya desta villa vái caminhando para a parte do Súl
athé a herdade da Anta freguezia de São Brissos, na distancia de tres legoas desta villa,
e de Confins de termos duas legoas e meya, ahi deicha o termo de Evora pelo das
Alcaçovas voltando para o Súl, servindolhe de baliza a ribeira de São Brissos athé a
herdade da Terra das Freiras, da onde, da onde comessa a voltar para a parte do
Occidente, athé a herdade do posto da estala onde

/p. 1434/ deixa o termo das Alcaçovas pelo de
Alcaçar do Sal em distancia de tres legoas, e meya desta villa, e de confins de termos
tres legoas, e continuando para o Occidente com a comfinação do termo de Alcáçar do
Sal pela herdade da Fugeira (?), se vái extendendo athe a herdade dos fartos em
distancia de quatro legoas desta villa, e tornando arrecolher vái continuando athé a
herdade de Valdásna de Sima aonde largando o termo de Alcaçar do Sal em distancia de
tres legoas desta villa e de confins do termo quatro legoas, se une ao termo da villa de
Cabrela pella parte do Occidente, e dahí continuando as estremas athé a estrada de
Lisboa por ella continua athé as Vendas novas dando ao termo desta villa quatro legoas,
e de confins de termos quatro legoas e meya, aonde daixando a estráda com o termo de
Cabrela principia a confinar pela mesma parte do Occidente com o termo da villa de
Canha athé a herdade de Vai de Boi que fica junto às correntes do Rio Canna servindo
este de baliza aos dois termos, e tão bem ao da villa de Lavre onde confina o de Canha
dando ao desta villa sinco legoas, e de confins com o de Canha legoa, e meya que a
todos tres devide o mesmo rio; e de Val de Boi sobe a estrema, ou rio que devide o
termo desta villa do de Lavre, chega a herdade da Confraria distancia de tres legoas pelo
rio asima, atravessa o rio, e vái continuando athé a herdade do Espargal, dando de termo
nesta parte a esta villa legoa, e meya; e carregando para a parte do Norte passa a estrema
pela herdade da Aseiceira onde se ve no meyo da Caza da dita herdade o marco que
devide os termos, e chegando a herdade do pinheiro distante desta vilia tres legoas, e
meya em direitura do Norte, e de confins de termos sinco legoas, e meya, ahi deicha o
termo de Lavre, e se ajunta ao de Coruche, e voltando ao Oriente chega a Serraportas
duas legoas e meya desta villa, e de confins de termos huma legoa, e meya, aonde larga
o termo de Coruche, e se une ao da vilia de Arrayolos daonde vai continuando athé a
herdade da Bandarra ao Oriente em que principámos dando de confins ao dois termos
duas legoas, e meya. E nesta forma vem a incluir a circunferencia do dito termo vinte e
sinco legoas: e tem do Oriente a Occidente sete legoas, e meya; e de Norte a Súl sete
legoas não obstante algumas deminuições que a extenção do termo fas em algumas
partes.

No distrito de todo este termo se achão erectas doze parochias curá das (menos as
quatro da villa de que mais adiante faremos menção) e sem se fazer memoria de outras
que estando fundadas em diverços termos uzurpão parte do desta villa, e se deichão
conhecer pelos seos orágos na forma seguinte

Distante duas legoas, e meya desta villa, à parte do Oriente está fundada a Parochia de
Nossa Senhora da Repreza dos Freires de São Tiago da Espada, e da aprezentação da
menza da Conciencia.

Outros duas legoas ao mesmo Oriente se acha fundada a Parochia de Santa Sufia.

E inclinandoce mais do Oriente ao Sul outras duas legoas da villa foi erecta a Paro

/p. 1435/ chia de São Brissos.

E em direitura do Súl distancia meya legoa da villa fica a Parochia de São Matheos.

E pela mesma parte em distancia de duas legoas se acha huma Aldea com hum
sumptuozo templo que se denomina São Tiago do Escoural

Tres legoas da mesma villa e para a mesma parte se vé outra aldea com outro templo
chamádo São Christovão.

E da dita freguezia para esta parte huma legoa, em distancia da villa de duas legoas
com mais inclinação ao Occidente está a freguezia de São Romão.

E em distancia desta villa legoa, e meya para a parte do Occidente se acha a Parochia
de Nossa Senhora de Safira.

E uma legoa desta villa para o Occidente fica a Parochia de S. Gens.

E voltando para o Norte em distancia de duas legoas, está a Parochia de São Giráldo
que paréce se quer dar mais a conhecer pelo nome de Nossa Senhora do Rozario da
fonte Santa, pelos muitos prodigios, e milagres que a dita Senhora obra.

E tãobem pela parte do Occidente em distancia de legoa e meya está fundada a Parochia
de Santo Aleixo.

E continuando pela mesma parte do Occidente tres legoas, e meya de villa se vé a
Parochial de Santo Antonio das Vendas novas, nos tempos passádos chamáda de São
Fernando, onde está o Rial palacio de Sua Magestade.

Todas estas Parochias se governão por hum prior, e todas são da aprezentação do
Preládo Deocezanno menos a primeira: e como os Priores das mesmas se encarregarão
tãobem de suas noticias, poriço não continuo a dallas, e só o faço da freguezia da Matrís
que he a que me pertence.

Tem esta villa dentro em si Parochias quatro, e principiando pela mais antiga daremos
de todas huma breve relação, por pertencer aos Parochos da mesma dar noticia do que
se compriende em cada huma dellas.

Nossa Senhora da Villa, fundáda por Domingos Pelágio, filho do novo povoador
Pelágio Peres no anüo de 1234. He Igreja Sagrada, e della Comendador o Ilustríssimo, e
Excelentissimo Conde da Ponte. Tem seis Benefeciados, e o Reytor que a governa; nella
esta a Irmandade dos Clerigos que teve principio no primeiro de Agosto no anno de
1405. A propria Igreja se acha totalmente arruináda, pèlo que serve de Parochia a
Irmida de São Vicente Sufregania a mesma.

No alto monte, ou antiga villa á par

/p. 1436/ te do Occidente foi fundada a Parochia de Nossa
Senhora do Bispo nos annos de 1300 pelo Bispo Deocezano, constituindoce Prior da
mesma, e erigindo a Matris, e nomiando Reytor della, ao Arcediago da Sexta, dandolhe
dos dizimos da dita Igreja a sexta parte com obrigação de Cura, irigindo quatro
raçoeyros, que rezacem as oras Canónicas no Coro com moyo e meyo de trigo por seu
trabalho cada hum anno para cada hum; e asim se sirvio a Igreja com rezidencia pessoal
do dito Arcediago de Sexta e Doutor Rodrigo Annes Conego na Sé de Evora pedio ao
Ilustrissimo Senhor Dom Vasco... Bispo da mesma Cidade que o relevace do curato
repartindo o pelos quatros raçoeyros dandolhe das mesmas rendas do Arcediagádo hum
moyo de trigo a cada hum, o que com ifeito conseguio concentindo nisso os dittos
racoyeiros, e ficando nesta forma o Arcediago sem essa penção concervando sempre a
Reytoria.

Assim se concervou a Igreja, e o seu exercício pelos quatro Benefeciádos athé o anno de
1561 em que o Eminemtisimo Senhor Cardial Inf ante Dom Henrrique Primeiro
Arcebispo da ditta Cidade, lhe acrecentou outros quatro Beneficiados dando a cada hum
outros dois moyos, e meio das rendas da Mitra, e devidindo por todos outo o Curáto; e
para a prezidencia da Igreja, nomiou Reytor o Padre Bartholomeu Lopes com um moyo
de trigo de congrua, sem obrigação de Cura, e Coro, e sómente de cantar as missas nas
festevidades principáis, e fazer as estações aos freguezes, com prezidencia nas
procições, e actos publicos, rezervando o Preládo para sí a aprezentação delle: e nesta
forma se tem concervádo athé ao prezente, sendo o provimento dos oito Beneficiádos da
alternativa do Pontifece, e Preládo Deocezano

Fica a sobredita Parochia com a porta principal para o Occidente, fundada em tres
naves que se devidem, e se sustentão em catorze culunnas de pedra com tres capelas no
frontispicio. A da nave do meyo, e principal Capela toda feita de emtalhado ao
moderno, com uma tribuna da mesma fabrica, e hum ademiravel trono, tudo fundado
sobré bazas de marmor, em hum planno da mesma pedra que tudo mandou fazer o
Ilustrisimo Senhor Dom Frei Luis da Silva Arcebispo do Arcebispado no anno de 1694.

No altar da dita Capela mór se vé colocáda huma perfeita Imagem de Nossa Senhora
do Ó, chamáda vulgarmente Santa Maria do Bispo, porem o seu orágo he a Senhora da
Expectação, que está pintada em hum primorozo retabolo que tapa a boca da tribuna;
ficando da parte do Evangélho huma imágem do milhor natural deste Povo o Senhor
São João de Deos, e da parte da Epístola outra do Senhor São Brás de quem se venera
na dita Igreja huma reliquia, que toda a gente do Povo no seu dia concorre a bejar; a
qual colocou na dita Igreja em hum preciozo cofre Dom Gonsalo Coutinho, e sua
mulher Dona Izabel

/p. 1437/ Marinha no anno de 1539.


Da parte da Epistola em outra nave se acha com similhante custo outra Capela que
mandarão fazer os Irmãos da Confraria do Santisimo Sacramento, e foi principiáda no
ano de 1658, e acabada de aperfeiçoar no de 1662, renovandoce, e pondoce ao moderno
no de 1701 fazendocelhe tribuna, trono, e sacrario em que está dipozitádo o Santissimo
Sacramento em hum cofre de prata sobre dourádo fabricádo a todo o custo; ficando hum
espaçozo campo de capela e marmor cercádo todo de grades de ferro, e nela se veem
pendentes tres alampadas de desmarcada grandeza em que de dia, e noite se concervão
luzes que estão alumiando ao Santissimo Sacramento; dentro da Capela fica a porta da
Sancristia da Irmandade, feita de poucos annos com duas janellas huma ao Oriente, e
outra ao Occidente que a fazem sobre grande vistoza. Nela se ajunta a Irmandade no
primeiro Domingo depois do Corpo de Deos, e fazem ileição de Juiz, escrivão,
Tizoureiro, e quatro Deputados para adeministrarem os rendimentos da dita comfraria
que chegão a trazentos e sincoenta mil reis livres das penções, os quais distrubuem no
ornáto da dita capella, e o necesario para sahir o viático aos emfermos com toda a
decencia, tendo para isto todas as insignias de práta.

Na nave da parte do Evangelho fica outra Capela, agora vulgarmente chamada do
Santo Christo, que antigamente se chamava de São Jorge, que suposto que não está com
tão custozo ornato, tem aquele bastante para a veneração de hum Senhor Crucificado
que no dito altar está colocádo, ficandolhe a mão direita, a imagem de São Chrispim, e
da esquerda a do Senhor São Jorge.

Na nave da parte da Epistola estão fabricádas duas capelas huma da invocação do
Santo Antonio que adeministrão os decendentes do Dezem- bargador Manoel Vidigal de
Moráis, em que se selebra missa todos os dias, e nella se acha colocada a imágem do
dito Santo. Outra de São Bartholomeu que o Cenádo da Camera adeministra, e
paramenta, tendo a fichada com grades de ferro, toda de entalhado ao moderno que se
fes no anno de 1757 e se acabou de dourar no de 1758, na qual capela em hum secrario
está colocada huma reliquia do Santo Apostolo, que se venera, e beja no seu dia, a qual
se fecha com duas chaves huma que tem o Reytor da dita Igreja, outra o Cenádo da
Camera, a qual colocou na dita Capela Simão de Misquita Cabral sendo cenador nesta
villa: e a mesma mandou fazer Gomes e Annes Carvalho no anno de 1457 com
obrigação de se lhe dizer nella missa cotodianna, para o que deixou varias rendas, e aos
Cenadores, para as adeministrarem, e que paga a penção das missas e mais despezas da
capela tudo o mais se gastace em honrra do Corpo de Deos no seu dia.

Na nave da parte do Evangelho está outro altar á fáce da parede, em que se venera a
imagem de Santa Catherina pintada, e tem no plano huma sepultura com sua campa de
marmor, a qual lhe da adeministração de Lourenço de Carceres Cavaleiro fidalgo da
Caza do Senhor Rey Dom João 2°, e nella se não selebra já missa por lhe faltarem os
adeministradores com o ornáto necesario.


/p. 1438/ Na mesma nave logo a entráda da porta da Igreja está a pia Baptismal a propria aonde
o glorioso São João de Deos foi baptizado, e se custumão a baptizar todos os que
nascem no distrito na dita Parochia, e ainda alguns de outras que por terem a ventura de
serem baptizados na pia onde se baptizou hum tão grande Santo procurão com empenho
licença do Preládo seos Pays para asim o conceguirem: e suposto seja groceira a pedra
de que he fabricáda, o ouro, e tintas com que está gúarnecida a fazem sobresair de forma
que parece muito precioza; está metida em huma capela toda pintáda, e nella a imagem
do Senhor S. João de Deos, fecha esta huma grade de ferro feita com huma tal fabrica,
que parece se empinhou a idéa para esta obra; o que tudo se fes á custa dos naturáis
deste Povo, para que a pia estivece com toda a dicencia.

Na mesma nave junto a Capela de São Jorge está a porta da Sancristia que he huma
caza mágnifica feita de abobada, e com huma janela para o Oriente que não só dá lús a
dita Sancristia, mas tãobem alegra os olhos dos que a ella chegão na vista de todo o
Povo, e campos que se extende a muitas legoas. Da mesma se sobe por huma escáda
para o torre dos sinos que está fabricada sobre os muros da antiga villa, aonde estão
colocados tres sinos, os quais se repicárão pelas mãos dos Anjos no nascimento do
Patriarca São João de Deos como em seu lugar direi.

Na mesma sancristia está outra porta por onde se entra para hum corredor que vái
seguindo o Corpo da Igreja, e tendo esta de vão em largura sincoenta pés, e de
comprimento sacenta e seis, tem equelle de comprimento sincoenta e seis, ficando os
mais que faltão metidos no vão de huma escada por onde se sóbe para o Coro, o qual
seguindo o repartimento das naves, se devidem em tres córos, sendo o do meyo para os
oficios Divinos; neste se ademira a milagroza imagem de hum Senhor Crucificádo
pintádo na parede da parte da Epístola que por título o Senhor dos Romedios, em hum
oratorio de emtálho, com sua vidraça por diante, do qual está espalhando miziricordias
com todos os que devotamente com elle se pegão, dandolhe remedio a seos máles, como
o manifestão os mujtos milagres de sera que na parede se achão pendentes, em sinal dos
que já tem feito.

Tem está freguezia anexas onze Irmidas, e todas pagão pé de altar aos Benefeciados
da mesma, e de todas daremos relação principiando pela mais antiga.

Santo Andre do Outeiro irmida a mais antiga, porque já existia nos annos de 1316,
está fundada em hum alto monte distante da villa hum quarto de legoa, não tem mais do
que hum só altar onde está o Santo Apostolo colocado, cuida nella hum Irmitão que
aprezenta o Arcebispo de Evora.

Em pouca distancia desta villa, em outro elevado, e soberbo monte se acha fundada a
sumptuosa Irmida da Senhora da Vizitação, e há bastantes indicios de

/p. 1439/ ser fundada nos
annos de 1378, e outros, de que se conjectura não se dilatar o seu ambito mais que ao
que ocupa a sua capela continuandoce em outros annos athé o de 1606 a mangestoza
fabrica, que ademiramos, cercáda de torriões, a que dá entráda hum espaçozo átrio. He
toda de abobada, rematada com varios fexos, e tem a Capela da Senhora de
comprimento dés passos, e outo de largo, sendo o comprimento do Corpo da Igreja de
vinte, e de largura dés. Está pintada com o primor daqueiles tempos, ficando sobre a
porta principal tãobem de pintura a arvore, de Jassé. Tem esta Irmida a porta principal
para a parte do Occidente, e entrandoce por ella se vêem tres altares; o altar mayor todo
de emtalhado moderno dourado com espicioozidade com sua tribuna, onde por entre
finisimas vidraças se venera a maligrozisima imagem da mesma Senhora que a tradição
constante afirma ser encarnada por mãos Angelicas: pois em outros tempos, ordenando
o Capelão aos mordomos da mesma Senhora mandacem fazer outra, por ser esta antiga,
e estar maltratada, como estes se não rezolvecem, atirou elle mesmo do altar, e a
recolheu na sancristia; e no dia seguinte, abrindo a porta o Irmitão, a vio tão
resplandecente, que deu parte ao Povo, e todos notarão estar novamente emcarnáda,
renovada, e sem o menor sinal de imperfeição; e há poucos annos, que dezejando os
seos devótos ocultar, e pulir hum crespozinho, que tem na frente o não puderão
conceguir, por não admetir a Santa imágem as tintas. no mesmo altar se venera tão bem
a im(a)gem de São João Baptista e Santa Comba.
Em todo o tempo foi este santuário venerádo dos naturáis e estranhos que concorrião em
certos dias com cirios, e ainda hoje he frequentádo com romarias, e festejáda a Senhora
pelos devotos, que com licença do ordinário Deocezano fizerão novos estatutos no ano
de 1734 para com o titolo honrrozo de seos escrávos exercitárem a sua piedade, e
devoção, os quais aprovou o mesmo ordinario em Evora a 4 de Setembro do mesmo
ano; tendolhe já concedido a Santidade de Clemente XII as graças, e indulgencias que
se contem nas suas letras Apostolicas dadas em Santa Maria Mayor de Roma a 5 de
Janeiro de 1734 de que foi Juis Apostolico o Reverendo Doutor Manoel Guerreiro de
Brito, Conego prebendado da Santa Sé de Evora, Menistro do despacho, Juis Comisario
da Bula da Santa Cruzada, que então servia de Próvizor, e vigario geral do Arcebispado.

Esta Irmandade dos escravos da Senhora, he governada por hum Juis, escrivão, e
Tizoureiro, que adeministrão os pequenos rendimentos da mesma Senhora, com as quais
ornão, e paramentão a dita Igreja, ajudando para isto a esmolas dos fiéis, que todos
concorrem para o ornáto da mesma Senhora, e a festejão em o dia dois de Julho.
Da parte direita da Capela mayor, está outro altar com hum oratorio de emtalhádo ao
moderno onde está huma perfeita imagem de hum Senhor Crusoficado, com o titolo do
Senhor do Bom fim.

Da parte esquerda está outro altar tão bem com outro oratorio de entalho dourado
onde se venera a imagem da Senhora do

/p. 1440/ Pilar que no anno de 1691 a 24 de Fevireiro foi
foi levada desta villa em procição para a dita Igreja, e colocáda no dito altar, e se lhe fes
huma grande festa.


Da parte do Oriente desta villa está o formozissimo, e dilatádo Rocio, todo cercádo de
muitos idificios, e Cazas ilustres, que inobrecem; e fazem vistoza a entrada da mesma;
como tão bem algumas Irmidas que a devoção dos fiéis ali fundou, para mayor culto, e
honrrade Deos: sendo huma dellas...

A Irmida de São Sebastião tão antiga que se não pôde discubrir sua fundação, he de
abobada, e toda cercáda de hum alpendre que serve de abrigo aos pobres que por
dezemparados a elle se acolhem; nella se não acha mais do que hum so altar de entálho
muito antigo, que apennas se dá a conhecer que foi dourado, e nelle está hum sacrario
aonde com três chaves que estão na mão do Reytor da Matris, se acha fichado hum
cofre, onde está depozitada huma reliquia do mesmo Santo, que em sima do mesmo
sacrário está colocádo: e no seu dia se festeja concorrendo para isto, alguns devótos, e
se leva a reliquia da Igreja Matris em procição para a dita Irmida, que acompanha o
Cenádo da Camera, e gente do Povo debacho de Suas bandeiras segundo seos oficios, e
nellas se venera, e beja concorrendo para isto hum grande concurço.

Junto a esta em distancia de quinze páços se acha fundáda a Irmida do Calvário, onde
se acha a celebre Confraria das Almas, anexa a Archiconfraria da Caridade de Roma, de
que tratão alguns Autores, e confeção não haver outra em Portugal similhante, senão a
de Santo Antonio de Lisboa, pois abrio os tizouros da Igreja, a Santidade do Papa Leão
desimo para conceder aos Irmãos e Confrádes da dita confraria hum sumario de
indulgencias, previlegios, graças, favores immunidades, liberdades, indultos, e outras
diversas conceções asim espirituais como temporáis fundada debacho da invocação do
Archanjo São Miguel, por união, e comonicação da Santa, e venerável Archiconfraria
da Caridade de Roma, a extinção de seus privilegios dos quais goza como membro seu
huma imágem do Archanjo São Miguel que se acha colocada no altar mor da dita
Irmida ficando previligiáda não só neste altar se não outro qualquer onde colocárem a
dita Imagem.

Tinha esta Irmida tres altares; o altar mór todo de entálho dourádo com sua tribuna,
onde estáva huma perfeita Imagem de hum Senhor Cruçoficádo de demaziáda grãdeza,
acompanhando o ao pé da Crús Sua May Santissima da Soledad. e o Evangelista, e da
parte de fora da parte do Evangelho huma perfeita imagem da Senhora da Boa morte, e
da Epistola o Archanjo São Miguel; e os dois altares em tosco, em hum estava a
Imágem do Senhor dos Paços, e no outro a Senhora do Carmo: porem vendo o Juis,
escrivão, o Tizoureiro, e quatro Deputádos de que se compõe a menza da dita Confraria,
haver poucos comodos na dita Irmida, para se preparar com aquelle ornáto,

/p. 1441/ que pede o
grande rendimento com que hoje se acha, que sempre chega, a tres mil cruzádos, não só
de fazendas proprias, mas tão bem de esmólas dos fiéis; se rezolverão a mandar derribar
a pequena Irmida e fazer de novo hum sumptuozo templo, indo a obra em tal aumento,
que se acha na abobada, e se vai continuando com toda a preça, não se bulindo na
sanchristia por ser huma caza magnífica, toda de zolejo, com sua janela rasgada para o
Oriente, e seo caxão de angelim todo ao moderno; e na parede hum oratorio onde está
huma Imagem de hum Senhor Cruçoficádo feito com tal perfeição, e arte que asim na
encarnação como no imbutido das chagas parece muito semilhante ao verdadeiro Deos
que morreo no Calvario.

Nesta mesma Irmida se ácha erécta a Irmandáde dos Páços, que no anno de 1592 irigio
o Padre João Rebelo da Companhia de Jesus vindo a esta terra pregar mição, a quem o
Povo era notavelmente afecto pelo fruto que tirava de suas pregações, e zello com que
cuidava no bem espiritual de todos; para o que propondo o seu piadozo intento aos
Confrades da dita Confraria das Almas, todos uniformemente convierão na sua eréção,
trazendo para isto huma Licença do Preládo Deocezanno Dom João de Bragança
antevendo, ou conhecendo que os devótos animos não encontrarião o seu dezignio, e
conciderando a falta de rendimento para as funções da dita Irmandade a unirão a
Confraria das Almas que ainda hoje concorre com as despezas necesarias. E convindo
todos em huma obra de tanta piadade logo forão com o dito Padre medir os paços para a
procição, e fazendo o primeiro na Igreja do Hospital continuarão os outros pelas ruas
ficando o ultimo páço do Calvario no Rocio defronte da Igreja de São Sebastião. Em
este lugar mandárão fazer os Irmãos da Confraria das Almas hum cruzeiro cercádo com
qutro culunas de pedra, e no meyo outra culuna de pedra onde com toda a devoção
colocarão huma Imagem de hum Senhor Cruçoficádo, de huma pedra, muito clara, e
branda; e nas quatro colunas que estavão de roda formarão quatro arcos que servião de
fundamento a huma abobada que, cobria a coluna do meyo por módo de piramide.

No anno de 1728 começou esta Imagem a fazer muitos milagres, e tão bem a
concorrer inumeravel gente com suas esmolas, e lhe derão a invocação do Senhor das
Nececidades, as quais recebendo o Reytor, e outro Padre desta Igreja Matris as forão
distribuindo em huma Irmida que hoje se acha feita, onde se festeja, e venera a mesma
Imagem; na qual se acha de novamente erecta a Irmandade da Caridade com Licença do
Prelado Deocezanno neste anno de 1758, ocupandoce os Irmãos desta Irmandade em
tirar esmolas por este Povo que repartem com enfermos, viuvas, prezos, e mais pessoas
onde conhecem haver necesidade, sahindo todos em certos dias com alcofas para
receberem as esmolas, e com toda a devoção rezando o terço de Nossa Senhora.

No anno de 1578 se determinarão algumas pessoas devotas desta villa, congregar, e
instituir huma Irmandade

/p. 1442/ em obzequio da virgem nossa Senhora com o titolo da Luz, e
para esse ifeito se ajuntarão na hermida de Nossa Senhora da Pás, e formarão seos
Estatutos, e modo de governo, e os aprovarão pelo Senhor Rey D. Felipe que então
governava, e conservandoce por tempo de quatro annos na mesma Irmida que por
pequena lhe dava huma grande opreção, pedirão a Camera lhe desse terra no Rocio para
fazerem lhuma Igreja para os cultos da mesma Senhora, o que com ifeito alcansarão, e
lhe derão cem palmos de comprimento de terra, e de largura sacenta na entrada da villa
junto a hum largo chamado portas do Sol, o que tudo confirmou o Senhor Rey Dom
Felipe no ano de 1582, e lhe mandou passar provizão para pedirem por tempo de tres
annos para a dita obra, que se fes com tal fervor que não chegarão nella a completar tres
anos pois tendo principio no dito anno de 1582 se acabou em 10 de Julho de 1585,
sendo hum templo magnifico asim no ambito que ocupa, como na altura athé a abobada,
he toda pintáda do mesmo tempo por hum pintor de ElRey chamádo Fernão Coelho, e o
mesmo dourou o retabolo da Capela mor, onde estava a Senhora, que se concervou athé
o ano de 1718 que estando muito arruinado mandárão os oficiáis da Confraria fazer
outro, e dourar, onde se concerva hoje a Senhora dentro em huma tribuna; tem mais dois
altares hum da parte do Evangelho onde se acha colocada a imagem de São Grigorio
Papa, e o da parte da Epistola se venera a de Santa Catherina, da mesma parte do Corpo
da Igreja está outro altar, todo de madeira liza porem pintado ao moderno onde
colocarão os moços solteiros desta villa huma perfeitisima imagem da Senhora Santa
Anna, que festejão no seu dia e vespera: no anno de 1685 mandarão os Irmãos que então
servião fazer hum atrio a porta da Igreja, para onde se sobe por sinco degráos de pedra
no comprimento de toda a frontaria que não só fás boa a entrada para ella, mas tão bem
ficou dando gála, a mesma Igreja. Tem esta Confraria hoje sete capelas com sete
capelães que na dita Igreja dizem missa que pagos elles lhe fica de rendimento noventa
e sinco mil reis, fora as esmolas com que os fieis concorrem que são avultadas, que tudo
se gasta no hornato da Igreja.

Dentro da vifia em hum largo chamádo a praça velha se acha fundada huma irmida
pequena, com um só altar onde em hum oratório com sua vidraça se venera huma
perfeita imagem de Nossa Senhora com o titolo da Pás.

Na entrada da villa da parte do Occidente está outra irmida chamáda de São Lazaro,
com dois altares, no altar mor está a imagem de hum Senhor Cruçoficado que custuma
sair nos terços alguns dias na semanna por esta villa, e na mesma está eréta huma
Irmandade do dito Senhor sem mais rendimento que as esmolas com que concorrem os
Irmãos para o ornáto e festejo do mesmo Senhor, no outro altar da parte da Epistola se
venera a imagem milagroza da Senhora com o titolo dos Remedios, e São Lazaro; esta
Irmida tem alguns fóros, e rendas que adeministra a Camera, e ainda hoje se concervão
não obstante mandar

/p. 1443/ o Senhor Rey Dom João 3° huma provizão em que mandáva se
vendecem os ditos fóros para Caza de Lázaros, e a Camera lhe desse mil reis cada hum
ano; foi passada em Cintra a 25 de Agosto do anno de 1513 por Damião Dias.

Da parte do Sul junto ao Rio Canna, onde está fundada, huma ponte chamada de
Alcasar do Sal, está outra Irmida chamada de Senhor São Pedro, tão antiga que há
tradições que foi fundada logo depois que se restaurou o Castelo: he de abobada toda
pintáda ao moderno, tem tres altáres, o altar mayor onde se venera o Santo Apostolo, e
nos dois em cada hum se venera huma imagem de Nossa Senhora pintada na pareide;
paramentão esta Igreja os sacerdotes deste Povo, e festejão o Santo no seu dia. Depois
de fazer este Capitolo achei terce fundádo esta Irmida no anno de 1511, pelos fieis de
Deos.

Junto as raizes do monte onde está a irmida de Nossa Senhora da Vizitação, está outro
tão bem elevádo, e no seu cúme outra Irmida do Apostolo São Simão onde em hum altar
se venera huma imagem do dito Santo.

Em distancia da villa meya legoa está huma grandiósa quinta chamáda da Amoreira
que he dos Excelentissimos Condes de Santa Crús, e Alcaides mores desta villa, está
outra Irmida onde se venera huma milagrozissima Imagem da Senhora da penha de
França, que para se explicar o ornáto della, basta dizérce cuida nella os mesmos
senhores com tal grandeza, como manifestão as grandes festas que fazem á dita Senhora
nos dias de Espirito Santo, e alem destas he festejáda por alguns mordomos que para
isto são nomiádos, em o dia 15 de Agosto.

No distrito desta freguezia está o Convento de São Francisco fora da villa em pouca
distancia, entre o Norte e o Oriente; o qual foi fundádo em huma Irmida, de Nossa
Senhora das Graças, e no anno de 1495 já nelle asistião relegiozos. He Seu Padrueyro o
Excelentissimo Conde de Santa Crús: e selebre pelas cabeças do Apostolo São Felipe, e
de outro seu companheiro cujo nome se não sabe, não obstante ter hum letreiro, que por
ser escrito em alemão se não pode ler: que nelle colocou na Capela mor Dom Fernão
Martins Mascarenhas Alcaide mór desta vilia que as trouce na sua companhia quando
veyo do Concilio Tredentino, que se fes em tempo do papa Pio quarto, aonde tinha hido
por Embaixador; as quáis mandou dar o Emparador Fernando Irmão de Carlos 5° da
glorioza memoria, a Dom João Mascarenhas seu sobrinho indoo vizitar da parte do
Senhor Rey Dom Sebastião na Coroação do Rey dos Romannos seu filho
Maximilianno: E estão autenticas com muitos documentos que se achão anexos a hum
compremiço que na entrega das dittas reliquias fez Dom Fernão Martins Mascarenhas,
com Francisco do Regó, e Francisco Caldeira Cavaleiros da Caza de ElRey nosso
Senhor, e veriadores que então erão nesta villa; e as colocarão na ditta Capela mor, em

/p. 1444/ dois meyos corpos, fichados com tres chaves, huma que anda na Caza dos
Excelentisimos Condes de Santa Crús, outra em poder da Camara, e a outra tem o
guardião do ditto Convento; no dia do Apostolo São Filipe vem estas cabeças em
procição para a irmida de Nossa Senhora da Lús onde se venerão, e bejão; a que asiste a
Camera, e clerizia deste Povo, e hum grande concurço de gente; que por muita foi
concedido fazerce huma feira tres dias franca. forão colocadas as cabeças em 23 de
Abril de 1577. No ditto Convento se acha a ordem 3ª da Penitencia que teve capela
própria no ano de 1671.

A este Convento está sugeita huma Capela onde estava antigamente a nôna estação da
Via Sacra em hum pedaço de parede, e nella pintáda huma imagem de Jesus Christo
com a Crús as Costas, a quem a piedade, e devoção dos Catolicos intitulou = Senhor
Jesus dos Aflitos; e com muita rezão. porq’ estando a sobranna imagem, não só istinta;
porq’ ao rigor do tempo exposta, mas tãobem pouco memoravel, porq’ de muitos
esquecida, hoje se ademira já ademiravelmente renovada, e veneráda em huma Capela,
feita a expensas dos fieis devótos, por ser hoje a imagem das mais milagrozas, que das
partes do Alentejo se venera, sendo buscáda de terras muitos distantes, sem que haja
aflição a que o mesmo Senhor não dei alivio, de que são a mais ividente prova, os
inumeravens milágres que estão pendentes em duas cazinhas, e nas paredes da mesma
Capela.

Têm mais no mesmo distrito o Convento de São João de Deus fundádo na propria
caza em que nasceo, no oratorio que tinhão já do anno de 1607 fabricádo os Irmãos João
Pecador, e João Lopes Pinheiro, em que lançou a primeira pedra o Reverendo Vigario o
Lecenciádo Luis Rodrigues Secco, precedendo huma procição, que sahio do Convento
de São Francisco depois de se cantar missa, e haver sermão, a qual fundação não
perceverou com relegiozos por certos motivos athé o anno de 1623, e no de 1625 no
ultimo Domingo de Mayo foi trazida a imágem do Santo para Sua Caza, do Convento
de Santo Antonio dos Relegiosos Dominicos em solemne procição, e em 24 de Junho
Dom Francisco de Mello, sobrinho do Arcebispo de Evora Dom José de Melio, lançou a
primeira pedra a nova fabrica, que benzeo o Bispo Dom Frei Diogo de São Vicente.

Debacho da Capela mayor, está a Caza em que nasceo o mesmo Santo, toda guarnecida
de painéis em que alguns paços da vida do Santo se representão, nella está hum altar
onde se vê hum meyo corpo com huma vidraça no peito pela qual se manifesta huma
reliquia sua; de debacho do altar se tira terra, que bebendoa muita gente se tem visto
livre de queixas que padicião. áh outra reliquia do Santo que metida em huma redoma
de Cristal, esta guardada em hum sacrario na Igreja.

Há neste Convento reliquia de São Lourenço Martir, e de Maximo Martir, outras de
São Vicênte e de São Joaquim marteres, duas de Santa Ursula, e de Santa Victoria

/p. 1445/ Virgens, e mais dois santuários com inumeravens reliquias que já hoje não concervão os
nomes.


Fora da villa entre os olivais, da parte do Ocidente está o Convento de Nossa Senhora
da Conceição de relegiozos descalços de Santo Agostinho, fundado em huma irmida da
mesma Senhora q’ antigamente se chamava, da Amieyra em 1671. He seu Padroeyro o
Excelentissimo Conde de Óbidos. Há neste Convento huma Irmandade de Santo
Agostinho, em que governa hum Juis Escrivão e tizoureiro, e dés Deputádos, tem
muitos indultos, e previlegios Apostolicos.

Nasceu São João de Deos nesta vilia a 25 de Março de 1495 festejou o Ceo o seu
nascimento que rompendo gloriozamente aparecerão Luzes e resplandores sobre sua
Caza, e por mistério dos Anjos os repicárão os sinos da Matris sua parochia, o que
cauzou tal alvoroço a todos, e fes tal ruido em Portugal, que com brevidade foi á noticia
do Senhor Rey Dom João 2º que então reinava, que logo com a mesma mandou
aviriguar, o módo de viver dos Pais do Santo, e achando que todo o seu exercicio era
agazalhar pobres, e acudir ás necesidades dos mesmos, com quem repartião parte do seu
cabedal; logo intentou fundar huma Irmandade com o titolo de Mizericordia no seu
Reyno, por ser tanto do agrádo de Deos, e comonicando esta rezolução com sua Prima,
e esposa a Rainha Dona Leonor, e outras pessoas do seu Reyno, a todos pareceo bem, o
que não permetio Deos o puzece por obra, porque morreo no mesmo anno a 25 de
Outubro; porem não morreo a execução de obra tão necesaria, porque ficando o Reyno a
seu Primo o Senhor Dom Manoel Duque de Béja, com a Rainha Dona Leonor sua
Irmãa, e o venerável Padre Frei Miguel de Contreiras fundárão a ditta Irmandade em 15
de Agosto de 1498, e logo no anno seguinte de 1499 mandou se fundace a Casa da
mizericordia desta villa, que dizem ser a segunda de Portugal: que obra a mais heroica
que se tem fundada na Christandade só podia tér principio pelo nascimento de hum tão
grande Santo, que toda a Sua vida se empregou em exercicios de caridade com que seos
Pais o tinhão educádo.

Logo que o Senhor Rey Dom Manoel mandou se fundáce nesta vila a Irmandade da
mezericordia, se cuidou na execução desta obra em huma Ermidazinha que estava na
rua do Cravoeyro / hoje chamada rua direita / da invocação de Santo Antonio, onde já
estava erecta huma Confraria dos fiéis de Deos, da qual era Juis Ruy Mendes Gágo, que
na primeira ileição da menza da Mizericordia ficou servindo de primeiro Provedor, e
ficou a dita Irmandade erecta, concervandoce alguns annos na dita Ermida sem aumento
de obra athe o anno de 1592 que morrendo o ditto Provedor deichou toda a sua fazenda
a Irmandáde, e logo se deu principio a Igreja.

No anno de 1506 mandou o Senhor Rey

/p. 1446/ Dom Manoel agradecer aos Irmãos a
brevidade com que puzerão em execução huma obra tanto do agrádo de Deos, e do seu
rial serviço, e em sinal de agradecimento mandou para os treze Irmãos da menza, treze
balandráos, a que chamão vestimentas pretas; e treze páres de sapátos, e no de 1516 lhe
deu compremiço firmádo por sua mão, e lhe concedeo muitos previlegios.

No anno de 1605 sendo Provedor Dom Fernão Martins Mascarenhas se deu principio
á nobilisima Caza do despacho que acabáda lhe ficou de comprido 51 palmos, e de
largo 40; e no anno de 1700 séndo Provedor o Excelentisimo Dom Martinho
Mascarenhas Conde de Santa Crús se deu principio a renovação da Igreja,
acrecentandoa, e pondoa com a prefeição com que hoje se acha ficando com 114 palmos
de comprido athe o Cruzeiro, e 38 de largo, e o Cruzeiro com 36 palmos de comprido,
ficando este formádo em quádro, e levantandoce em quatro pedrestráis de marmor com
quatro arcos que servem de firmamento a huma meya laranja de abobada, hum trono no
meyo de emtalhádo dourádo feito a Romanna, e atrás desta fica o Coro em que rezão
outo Capelães, e nelle hum altar, em que se venerão as Imagens de Jesus, Maria, Jozé;
no Corpo da Igreja tem dois altares, no altar da parte do Evangelho está o secrário onde
esta em Serrádo o Santisimo Sacramento, e sobre elle está a milagrozisima Imagem de
Nossa Senhora da Piadade huma das mayores maravilhas desta villa; porque sendo de
estatutra de huma molher, e o Senhor que tem morto do tamanho de hum homem, he
tudo de huma só pedra, tão miudamente lavrada que cauza ademiração. Da parte da
Epistola está outra capela onde está colocáda a ademiravel Imagem de Nossa Senhora
da Soledade.

Governace esta caza da Mizericordia por treze Irmãos, dos quais hum he Provedor, e
outro Escrivão, e hum tizoureiro, que adeministrão os rendimentos que há na mesma
que são avultados, que hoje se acha com 125 moyos de pão de renda, e em dinheiro
777631, galinhas de foro 61 azeite 37 2/1 exceto huma marinha que em Setubal tem
com repartição de 191 moyos que he contingente o seu rendimento, e alguns dinheiros
extraordinarios que tãobem são contingentes; o qual rendimento satisfeitas as penções
da Caza repartem por este Povo, acodindo as emfirmidades dos pobres, livramentos de
prezos, e alguns dotes que custumão dar as orfas.
O Senhor Rey Dom João 3° lhe concedeo por hum alvará passado a 5 de Setembro de
1552 o privilegio de poderem mandar citar, e demandar todas as pessoas que deverem à
Caza sendo moradores na Cidade de Evora, Arrayolos, e Mora, parante o Juis de fora
desta villa. E para terem Carniceiro obrigado a dar toda a Carne necessaria para os
emfermos da Caza, gozando este dos privilegios que gozão os do Concelho tanto nas
pastagens como em tudo o mais por alvará de 4 de Mayo de 1553. E que o Cenado da
Camera não possa ajustar pregador para a Quaresma sem ser com obrigação de pregar
na Caza por alvará de 6 de Abril de 1530.

/p. 1447/ O Senhor Rey Dom Manoel lhe concedeo serem izentos os treze Irmãos da menza de
pagarem nas fintas que se fizerem para as pontes de Guadianna, ou outras quáisquer
fintas; por alvará de 17 de Agosto de 1518. E que nenhuma pessoa possa pedir para
vótto algum, salvo com a obrigação de dar a meitade a Caza da Mizericordia; por alvará
de 19 de Setembro de 1513.

O Senhor Rey Dom Sebastião de baçho da tituria da Rainha Donna Catherina Sua
Avó lhe concedeo o privilégio para poderem mandar por quem quizecem para a Corte
as apelações dos prezos, sendo para isso ajuramentadas as pessoas que as levarem por
alvará ds 4 de Mayo de 1560.

O Senhor Rey Dom Felipe lhe concedeo que o solicitador da Caza possa citar no
Crime, e Civel, e que traga insignia de práta. Que os prezos da Caza não possão ser
condemnádos em penna de dinheiro, e o escrivão seja publico quando servir no que for
da Caza. Que os Irmãos da menza não possão ser ocupádos na Republica, nem se lhe
tomem suas cazas para apozentadorias. Que as rendas da Caza se cobrem como as da
fazenda Real. Que nenhuma justiça se entrometa nos negocios da Caza, nem o Provedor
lhe possa tomar contas. Que o Provedor, e Irmãos da mesma possão aseitar, e dispedir
Irmãos sem darem conta porque o fazem, nem a justissa tome de algum modo
conhecimento disso. Que se não tome contas a Caza como se concedeo a Mizericordia
de tomar, e no cazo que se lhes tomem não pague coisa alguma, por alvará de 30 de
Julho de 1621. Que os prezos condemnádos em degredo, ó dinheiro, não possão deterce
na Cadea mais de dois mezes depois de centenciados. por alvará de 28 de Julho de
1624. Que o Provedor, e Irmãos da menza sejão os que elejão Coveiro para abrir todas
as cóvas com tanto que não leve mais que outo vintens. por alvará de 20 de Setembro de
1628.

O Senhor Rey Dom João 5° lhe concedeo que as bestas dos almocreves que carregão
o pão para a Caza, e do andador, e levador dos pobres não possão ser tomadas ainda
para o Serviço de ElRey. por alvará de 28 de Novembro de 1707.

Seguece a Caza do hospital de Santo Andre, de que darei noticia de Sua fundação,
por tudo constar de varios papeis dos quais tirei o seguinte.

No anno de 1354 em que reinava o Senhor Rey Dom Afonso 4° havia nesta villa hum
Cavalleiro chamádo Dom Ruy Gomes, cazádo com Donna Magdalena, tão zelosos do
bem do proximo, que juntandoce com outro chamádo Pero Esteves, e sua molher
Constança Domingues, consultárão entre todos, como poderião expender seos bens em
serviço de Deos, e utilidade dos pobres, por se acharem sem soceção, e asentarão a fazer
huma albargaria, para comodo dos peregrinos, e emfermos, dando para este ifeito Pero
Esteves humas suas cazas para os comodos, e gazálho dos ditos pobres.

A vista de tanto zello se aferverou o animo dos fieis, de forma que hum Miguel
Domingues mercador,

/p. 1448/ e Domingos da Roza se unirão aos mais, para ajudarem a
concluir tão bom intento, e com ifeito todos unidos fizerão huma Confraria com seos
estatutos, iligendo para prizidente a hum, a quem derão por titolo Imperador, a quem
obedeserião, e o que asim não fizece pagaria certa comdenação para a dita confraria, ou
albargaria.

Asim se conservou a mordomia alguns outenta annos, acrescendo em algumas rendas
que os devótos hião deixando, tomou conta da receita, e despesa o Provedor da
Comarca, e nomiou para adeministradores da ditta Albargaria ao Cenádo da Camara:
neste tempo se eregio a Irmida do Espírito Santo, em o anno de 1465 reinando o Senhor
Rey Dom João 2°, que então se fes com as infermarias, e mais oficinas com a
ocurrencia de dinheiros que o mesmo Rey para ele aplicou, concedendolhe muitos
previlegios, e isenções, e ficando então hospital Rial.

Debacho da Adeministração da Camera esteve athé o anno de 1531, em que o Senhor
Rey Dom João 3° deu a sua adeministração ao Padres Lóyos por hum alvará de 4 de
Julho do dito anno, nomiando por seu primeiro Provedor ao padre Luis de Santa Maria
que o governou athé o anno de 1567, em que se anexou á Caza da Mizericordia por hum
alvará de 28 de Junho do ditto ano; e na adeministração da mesma esteve athé o ano de
1674, no qual indo por procurador deta vilia Felipe Lobo da Silveira asestir as Cortes
que na de Lisboa celebrou o Senhor Rey Dom Pedro sendo regente; pedio para os
Religiozos de São João de Deos Adeministração do dito hospital, o que conseguio; em
poder dos quais ainda hoje existe, onde estão exercendo com os pobres o quarto vóto
que profeção, e imitando no exercicio da hospitalidade aquillo que o Seu Patriarcha Pay
dos pobres exercitou toda a Sua Vida; e aplicando todo o rendimento do hospital para o
Curativo dos emfermos, o qual he avultádo que chega a ter de trigo 1780 alqueires,
sevada 867, senteyo 173, azeite de foros 33 alqueires, em dinheiro 140376 reis, cujo
rendimento reduzido todo a dinheiro he contingente por tão bem o ser o preço de cada
huma especie; e comtudo não chega para o curativo por serem muitos os emfermos que
há anno excedem a 300.

No anno de 1558 sendo Provedor o P. Lopo de São João por ainda neste tempo estar
na adeministração dos Padres Loyos, se deu principio a Igreja que hoje pela sua
grandeza ademiramos, a qual he de abobada de huma só náve com 90 palmos de
comprido, e de largo 44, e de altura 80 palmos, e a capela mor de 20 palmos de
comprido, e trinta de alto. Com tres capelas na capela mayor esta o Senhor Soão João de
Deos, e Santo Andre do qual se venera na dita Igreja huma reliquia.

Neste hospital se acha a róda dos ingeitádos, que o Reverendo Prior manda criar a
custa de rendas do mesmo, não obstante: o Senhor Rey Dom João 3° mandar passar
huma provizão em Lisboa no primeiro de Junho de 1540 por Pedrálves de Landim, para
que passando de dés os ingeitádos concorrece a camera com a meitade do sustento dos
mesmos, a qual não está em observancia, ainda que excedem ao numero que cada hum
anno entrão na roda 25 athé 30 ingeitados, e actualmente se acha o hospital com 53
vivos, que mandou criar o Reverendo Prior.

/p. 1449/ Seguece a terceira freguezia que he a de São João Baptista, a qual foi erécta em
Mestre escoládo, e o primeiro foi Afonço Annes, que tãobem foi o primeiro da Sé de
Evora, e ja se achava fundada pelos annos de 1380; governace por hum Benefeciádo
que aprezentão os Padres da Companhia da cidade de Evora, a quem já está anexa desde
o anno de 1561. Do mais que a esta freguezia pertence dará noticia o Reverendo
Benefeciádo.

Quarta freguezia a de São Tiágo de que se acha memoria pelos annos de 1457
entendece foi da ordem de São Tiago. O Senhor Cardeal Infante Dom Afonço
Arcebispo de Lisboa, e governador de Evora aprezentou nelia Prior pelos annos de
1524. Governace por hum Priol que dará relação do mais que na dita freguezia há.

Nesta freguezia está o Convento das Religiozas Dominícas de Nossa Senhora da
Saudação fundádo por Donna Mecia de Moura pelos annos de 1501 e por beneplacito
do Senhor Rey Dom Manoel, que quis foce hum dos doze Conventos desta Ordem, que
o Summo Pontifece lhe concedeo fundar neste Reyno.

Na mesma esta tão bem o Convento de Santo Antonio de Padua dos Religiozos
Dominicos fundádo por Brites de Negreiros, e seu marido Manoel Fragozo nos anflos
de 1559, asistindo a lançar a primeira pedra o veneravel Padre Frei Luís de Granáda na
Irmida do mesmo Santo, que estáva fundada e tinha Capelas pellos annos de 1316.

No termo desta villa na freguezia de São Matheos está o Convento de Santa Crús de
Riomourinho, o qual he dos Relegiozos Erimitas de São Paulo, que nelle entrarão por
Centença que tiverão contra os de Santo Hieronimo nos annos de 1483 sendo fundádo
pellos de 1436 por Mem Rodrigues de Siábra.

Na freguezia de São Tiago do Escoural está o retiro solitário de Nossa Senhora do
Castello, dos Monges descalços de São Paulo. foi habitádo este Citio em 1710, e em 11
de Fevireiro de 1725 foi benta pelo ordinário, e se disse a primeira missa, e em 4 de
Junho de 1738 aprovou este os seos estatutos. Era o seu Padroeyro o Serenissimo
Senhor Infante Dom Antonio, que lhe fes merce de huma estimavel reliquia de Santo
lenho.

Estes são os Conventos que há nesta villa, e seu termo, que como pertencem a
diversas freguezias, poriço faço delles só esta breve narração, porq’ o mais fica
rezervado para os Priores das mesmas a quem pertencem.

/p. 1450/ Governace esta villa no politico pello Senádo da Camera, que se compõe de tres
Veriadores, hum Procurador, e hum Escrivão da Camera, a que preside o Juis de Fora, e
foi o primeiro o Doutor Francisco Dias pelos annos de 1518; os quais ademênistrão os
rendimentos da mesma, que huns annos por outros chegão a 1:952844 rs.

Tão bem se elegem dos doze Misteres do Povo dois procuradores e hum Escrivão de
Misteres que têm lugar na Camera nos cazos que lhes pertencem. Tem sinco Escrivães
do judicial, tres Tabeliães, hum Enqueredor, Destribuidor, e Contador, hum Alcaide, e
seu Escrivão de armas, hum Meirinho das decimas, e Porteiro. O Juis de Fora tem
jurisdição nas villas de Canha, e Lavre para o lansamento do Cabeção. O Juizo dos
Orfos se compõe de hum Juis proprietário por merce feita a Vicente de Ares em 6 de
Dezembro de 1582, com dois Escrivães, dois Avaliadores, e hum Porteiro.

No Ecleziástico se governa por hum Vigario da Vára, cuja jurisdição compriende tão
bem a villa de Lavre, e seu termo com seus Escrivão, Meirinho, e Porteiro; ele tãobem
juis dos rezidoos.

No militar se governa por hum Capitão mór, que entre villa, e termo tem seis
companhias de ordenança, e duas de Auxiliáres.

Os Senhores Reys tem concedido a esta villa muitos previlegios, porem o Cartório da
Camera está em tal estádo, que apenas se podem ler os seguintes e os mais huns estão
rasgádos, outros com a letra tão escura que se não deichão perceber.

O Senhor Rey D. Afonço em Santarem nos annos de 1449 lhe concedeo se não desse
apozentadoria a soldados: foi confirmádo este previlegio pelo Senhor Rey Dom João 2°
no de 1497: e pelo Senhor Rey Dom Felipe, no anno de 1634, e ultimamente pelo
Senhor Rey Dom Manoel; e este mesmo Senhor lhe concedeo serem os moradores
izentos de pagarem portáge em qualquer parte deste Reyno, por hum foral da Camera
dádo no anno de 1503. O Senhor Rey Dom Afonço no anno de 1432 lhe concedeo o
poderem ir os almocreves buscar pexe a Setubal sem levarem carga.

Ha nesta villa duas feiras francas de tres dias, a primeira no primeiro dia de Mayo, a
qual foi concedida pela muita gente que de toda a parte concorria a bejar as reliquias de
São Felipe, e seu Companheiro, e a Segunda no primeiro Domingo de Setembro.

Está esta villa no meyo de estráda rial por onde se comonica a corte de Lisboa, com
todo o Alentejo, Roma, e muitas partes do mundo, della saye o Conrreyo para a Corte
no Domingo e entra na Segunda feira, e logo na terça saye da Corte com as ditas málas
e entra nesta vilia na quarta feira, onde o estão esperando outros dois Correyos que logo
carregão as mesmas e vão caminhando hum para Elvas, em distancia de quinze legoas;

/p. 1451/ e outro para Beja em distancia de doze, e tornão com as mesmás para esta villa na noite
de Sabado para Domingo, em que vai o outro para a Corte. Tãobem há correyo de
póstas que corre para a Corte athé as Vendas novas distancià de quatro legoas, e para
Rayolos em distancia de tres.

Está esta villa no Arcebispádo de Evora distante da Cidade Capital sinco legoas, e da
de Lisboa Capital do Reyno quinze legoas. E tendo tantas excelencias que a fazem
respeitavel, o seu mayor Lustre he ser Pátria do Senhor São João de Deus, que nasceo
na rua Verde no anno de 1495, cujas vertudes o querer referilas me não cábe no tempo,
por muitas, como claramente o manifesta o autor que escreveo a sua vida: porem basta
que diga he o unico Patriarca em Portugal, e que logo quando nasceo se alegrou o Ceo,
expendendo Luzes sobre sua Caza, e descendo os Anjos a repicar os sinos de Sua
Parochia, sendo estes progueyros de ter nascido hum novo Abrão para com seu
caritativo zello se empregar no exercício da Caridade.

Jactace tão bem de ter nella nascido a Virgem Santa Quiteria filha de hum regulo que
a domináva, padeceo martírio nos annos de 1300 despinhandoa depois de varios
tormentos atáda a huma mó do mais alto da povoação indo parar ao rio Canna, os
Católicos forão dar sepultura a Seu Corpo em huma Cóva que está no Cume de hum
alto monte junto a Serra de Monfurádo, onde está o retiro solutario dos Monges de
Nossa Senhora do Castelo; junto a esta Cóva estava habitando hum Monge da Senhora
do Carmo, que cuidava na alimpação da mesma por fóra, porque ella he tão funda, e
com humas tais voltas, que por mais diligencia que se tenha feito para se ir dentro se
não tem conceguido; hoje estão de posse della os Monges de Nossa Senhora do Castelo,
que expulsarão fóra o outro, e a vão recolhendo dentro da sua cerca; tres images se
vinerão da dita Santa huma na Irmida dos Monges, outra em o Convento de São João de
Deus, e outra na Irmida de São Christovão em huma quinta chamada do Carvalhal.

Tem esta villa produzido muitos varões asinaládos em virtudes, e entre muitos se
nomeão o Irmão Antonio Fernandes da Companhia de Jesus que foi lansádo vivo ao
mar, com outros Companheiros na Ilha de Palma pelo herege Jáques Sorie, os quais
passavão á propagação da fé no Brazil, em a nao São Tiago. O Padre Pedro
Mascarenhas da mesma Companhia, filho de Dom Vasco Mascarenhas, que morreo
tratando dos emfermos na peste grande de Lisboa, tendo alcansádo Licença, para ir em
huma misão a Argel. E outro Padre do mesmo nome, e relegião, que baptizou aos Reys
de Sião, e de Ságuim, pelo que o matarão com veneno.

Nas Letras, e armas teve sugeitos eminentes, e ainda que nas

/p. 1452/ Letras se tenhão ilustrádo os tribunais com muitos sugeitos, tanto no Ecleziástico, como secular, não há
memoria de quem se desse a conhecer por seos escritos senão o Doutor Manoel Banha
Quaresma que passando desta villa para Roma, expos a Ordenação do Reyno. E nas
armas são inumeravens os Capitães de Caválos, e Infantes, que se deicharão conhecer
por suas pruezas, e alguns se adiantarão com seos serviços, que por elles chegarão a ser
neste Reyno tituláres, alem de outros muitos que por humildes se esquecerão suas
heróicas proezas, de que se concervão as tradições nas familias, ainda que se lhe
escuricecem os nomes.

Estas são as grandezas que pude descobrir desta villa no breve tempo que se me deu
para procurálas; e certamente he para sentir o ver destruida a antiga povoação por estar
formáda em a iminencia de hum monte tão elevádo que parecia imposivel o ser
combatido, e igualmente fresco pela pureza, e continua asistensia de áres saudavens. E
povoação que á custa de tanto sangue se empenhou o Senhor Dom Sanxo 1° a restaurar,
e povoar enrriquecendo de tantos previlegios e izenções, que a fes nellas igual a
antíquisima Cidade de Evora.

Este inexpugnavel Castelo, que pella sua grandeza, traça, e architétura excede a
muitos de Portugal, e a quazi todos pela sua cituação, deu o seu novo povoador por
brazão de armas á sua nova povoação, e tãobem, e tãobem a ponte que mandou fundar
sobre a caudeloza ribeira, que cinge, cerca e rega toda a rais do monte pela parte do Súl
que a fás todo o anno delicioza com a corrente de suas agoas.

Este he o celebre rio Canna, que ainda que não he dilatádo o seu nascimento,
contudo he arrebatádo nas suas correntes, por virem por entre pinhascos, sendo estes
mesmos a cauza de não poder ser navegavel.

Tem este o seu nascimento da parte do Oriente, distante desta villa tres legoas, onde
se comessa a formar de muitos ribeiros que vem do termo de Evora, e passa por esta
villa, metendoce sempre nella outros muitos que cada ves mais a fazem caudelóza, athé
se recolher no Tejo junto a Samora Correa, em distancia desta villa doze legoas, pela
parte do Poente; fazendo tãobem caminho pela villa de Canha distancia de sete legoas.

Tem este rio duas pontes hurna chamáda de Alcaçar do Sal por ficar no caminho da
Villa deste nome, e tem de comprido 212 pés, e largo 16 = e a outra he a ponte de Evora
que fica na estráda da mesma Cidade com 224 pés de comprido, e 20 de largo. Tem por
todo o termo desta villa thé a hum citio chamado Castellos Velhos 28 moinhos, fora
alguns que estão cahidos, e dois pizões. e as pontes são de cantaria.

He provida da multidão de seos pexes, com que se divertem os moradores deste povo,
e de diversas especies como são bordálos, picões, e barbos, e outros com diversos
nomes, que por pequenos

/p. 1453/ os não nomeyo; restodo o anno se pescão sem que haja
pescarias obrigadas a algum senhor particular.O Senhor Rey Dom Henrrique fes nella
Coitada desde a ponte de Evora, athé o moinho do Carregal para se não poder pescar
com redes; e o Senhor Rey Dom Felipe confirmou o alvará no anno de 1630.

Muitos são os ribeiros que se recolhem neste rio que o fazem arebatádo no Curço pelo
tempo do inverno; e ainda que os moradores do Povo em poucas partes se utelizão de
suas agoas para a cultura dos pomares, que parece estar formáda sobre muitos máres
doçes esta villa, e seu termo; contudo cortão, e fertilizão os seos dilatádos Campos; por
cuja cauza são fecundisimos de pão, azeite, vinho, cassas, e pástos que sustentão cada
anno mais de quarenta mil cabessas de toda a sorte de gádos, e estes sustentando a terra
de leite e quejos com tanta abundancia que não há necesidade que venham de outra
parte e se vem se desprezão por não serem tão excelentes na bondade da massa, e do
gosto; e ainda na Corte, e Cidade de Lisboa tem tal estimação, que os que se fazem no
seu termo se pregoão com o fingido nome de Monte mor para terem milhor venda;

O grande termo desta villa he hum continuado pomar, ou segundo agradavel Paraizo,
em que na primavera São tantas as flores, como no Verão os frutos, todos de singular
formozura, de exquezito xeiro, sabor, e gosto, e em tanta abundancia, que só estes
sustentão, e regalão o Alentejo quazi todo o anno, e a Lisboa, e Algarve em muitos
mezes; havendo por toda a parte inumeravens fontes, todas de agoas mais salutifras, do
que são as que dentro da villa bebem os moradores, com que regão, as grandes quintas,
e multidão de pomáres, onde a natureza de terreno cria novas plantas, e a industria de
seos cultores colhe todos os annos com copioza abundancia todo o genero de frutas, e
todas singularmente para o gosto, agradavens para a vista, e importantes para seos
dónos.

Pareceme tenho dádo relação de todas as coizas notavens desta minha freguezia, a qual
comprihende a mayor parte deste Povo ficando aos Reverendos Parochos das mais a
obrigação de dizerem das suas; em que me não quis meter por se não dizer metia foce
em siara alhea, ainda que não deichei de tocar nas suas fundações; e agora só me resta
dizer por ultima concluzão, que fazendo nesta terra grande aprehenção o tirrivel impeto
do terramóto, não ouve idificio que exprimentace ruma, nem Criatura o menor. prigo,
atribuindo todo este Povo a milagre do Senhor São João

/p. 1454/ de Deos que como Padrueyro
de sua patria, sempre esta defendendo a ella, e a seos patricios do mayor prigo.

O R.O Pedro Botelho do Vallé

 


Transcrição: Jorge Fonseca

Etiquetas: Memória Completa Jorge Fonseca
Actualizado em Sábado, 12 Março 2011 12:24