1758 Junho 15 - Alcaria Ruiva
Memória Paroquial de Alcaria Ruiva, Mértola
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 2, n.º 2, pp. 3 a 7]
Constantino de Alvellos (?) e Gusmão, freyre profeço da Ordem de
Santiago, prior em a matriz de Alcaria Ruyva, juizado da villa de Mertola e seo termo,
certefico que por ordem do Excelentissimo, e Reverendissimo Senhor Dom Frey Miguel
de Tavora por merce de Deos e da Santa See Appostolica Metropolitano Arcebispo de
Évora, e do concelho de Sua Magestade, que Deos guarde, me foi apresentada pello
Reverendo Vigario da villa de Mertola hum quarto de papel de letra redonda impreço,
para responder aos interrogatórios nelle espreçados, e o qual satisfaço com a obrigação
que tenho.
O que se procura saber dessa terra he o seguinte:
1º Ao primeiro interrogatório deste papel respondo que esta freguezia de Alcaria Ruyva
está situada em a provincia do Alentejo, quatro legoas no confim della do Reino do
Algarve, e pertence ao arcebispado de Évora, e he do termo da vila de Mertola comarca
do Campo de Ourique.
2º Ao segundo interrogatório respondo que no temporal he Sua Magestade fedelissimo
Senhor Rey de Portugal, e no espiritual he do Excelentissimo e Reverendissimo Senhor
Arcebispo de Évora.
3º Ao treceyro interrogatório respondo que esta freguezia tem duzentos e cinco
vezinhos, e pessoas de hum e outro sexo seicentos e noventa.
4º Ao quarto interrogatório respondo que esta freguezia está situada em hum alto e della
se descobre a Serra de Alcaria Ruyva que fica em metida pera o nascente do sol.
5º Ao quinto interrogatório respondo que esta freguezia não tem termo mais que aquelle
que comprehende o sitio da mesma freguezia que em sircuito serão quatro legoas.
6º Ao sesto interrogatório respondo que no tempo prezente esta fora do povo a igreja
que serve de matriz parochial que he a ermida de Nossa Senhora da Conceissam; tem na
freguezia duas aldeyas, Algodoor, que dista meya legoa, e João Serra, que dista huma
legoa.
7º Ao setimo interrogatório respondo que o orago desta freguezia he Nossa Senhora dos
Remédios, porém como a igreja matriz há trinta he seis annos está deribada, e como tal
não se pode dizer que tem altares, ainda que tinha quatro, e hoje se concervão na ditta
ermida donde se satisfas aos preceytos as images que estavão colocadas nos dittos
quatro altares que a ditta Igreja velha tinha. E juntamente tem três confrarias, duas de
jurisdição (do) ordinario, que são a do Santissimo Sacramento e a de Nossa Senhora do
Rozário, outra das Almas, que he da Ordem de Santiago de Espada.
8º Ao oytavo interrogatório respondo que esta igreja tem prior aprezentado pela Meza
de Conciencia por opozição, e tem de congrua três moyos de trigo, dois de sevada, e
vinte mil reis em dinheyro. //
9º Ao nono interrogatório respondo que esta freguezia tem hum beneficiado curado,
também freyre da Ordem de Santiago, aprezentado pella Meza de Conciencia de
opozição. Tem de congrua dois moyos de trigo, moyo e meyo de sevada, e des mil reis
em dinheiro.
10°, 11°, 12° Ao decimo, undecimo e duodecimo, respondo que esta
freguezia não tem conventos, não tem hospital nem Caza de Mizericordia.
13º Ao decimo treceyro interrogatório respondo que esta freguezia tem duas ermidas.
Huma que he de Nossa Senhora da Conceipsam, que fica em pouca distancia deste
povo, e anctualmente esta servindo de parochia, e tem hum só altar, em cujo estão
colocadas e aos lados delle em sima de huns caxois as images que exestião na igreja
matriz que está cabida. A outra ermida he do Senhor Sam Lourenço e Nossa Senhora da
Cabeça, distancia de tres legoas deste povo, e confins da freguezia sobre a ribeyra de
Terges e Cobres, que já atrás correm juntos. Tem dois altares, o segundo do Sam
Noutal.
l4º Ao decimo quarto interrogatório respondo que a esta Senhora da Cabeça costumão
concorrer alguns devotos em todo o anno com seos donativos de trigo, e frangos,
principalmente as molheres por enfermas da cabeça. Também a Sam Loureço trazem
algumas oblacois.
15º Ao decimo quinto interrogatório respondo que esta freguezia o que recolhe em si em
mayor abundancia de frutos he trigo, e recolhem tambem sevada e senteyo.
16° Ao decimo sexto interrogatório respondo que esta freguezia tem Juiz ventaneyro, e
está sujeyta à Câmara da villa de Mertola.
17° Ao decimo setimo interrogatório respondo que esta freguezia não he couto nem
cabeça de concelho.
18° Ao decimo oytavo interrogatório respondo que não tenho noticia que desta
freguezia sahice varão algum que florecese em armas nem em letras notaveis.
19º e 20º Ao decimo nono interrogatório e ao vigecimo respondo que nos lemites desta
freguezia não há feyra nem correyo e se serve do correyo da villa de Mertola que dista
duas legoas.
21º Ao vigecimo primeyro interrogatório respondo que esta freguezia dista dezoyto
legoas à cidade de Évora, capital deste arcebispado, e trinta a Lisboa, capital deste
reyno.
22º Ao vigecimo segundo interrogatório respondo que não tenho noticia que esta
freguezia tivece alguns privilegios, nem antiguidades, só sim há memoria que tenho
descoberto que antigamente foy vila com coytos, e que foy juizado da Ordem.
23º e 24º Ao vingecimo treceyro interrogatório e vigecimo quarto respondo que nesta
freguezia não há fonte nem lagoa memorável, nem he porto de mar. //
25º Ao vigecimo quinto interrogatório respondo que esta freguezia não he murada nem
praça de armas. Porém, no seo destrito se achão vestigios de hum castelo no sitio aonde
chamão os Castelos, em sima de huma rocha sobre a ribeyra do Alvacar, em distancia
de huma legoa deste povo pera a parte do sul, e he tradição que foy de mouros.
26º Ao vigecimo sexto interrogatório respondo que esta freguezia não padeceo ruina
memoravel no terremoto do primeyro de Novembro de mil settecenttos e cincoenta e
cinco annos, só sim alguns possos lhe fugio a agoa e em outros rebentou com
abundancia.
27º Ao vigecimo setimo interrogatório respondo que não tenho couza memoravel de que
dar noticia, so sim que na estrada que vay da vila de Mertola para a cidade de Beja,
pella Cova de Molher, ha tradição tomara este nome por andar naquelle sitio huma
molher feita saltiador e que hum almocreve se detreminara que vendoa roubar, a matara
e enterrara, e então conhecera ser molher. Ainda hoje concerva o nome de Cova da
Molher e por verdade me asigney, o Prior Constantino de Alvellos (?) e Gusmão.
O que se procura saber dessa serra he o seguinte:
1º Ao primeiro interrogatório respondo que esta serra se chama a serra de Alcaria
Ruyva, sendo seo antigo nome a serra de Danes, por tradição nome Turquesco.
2º Ao segundo interrogatório respondo que esta serra tem huma legoa de comprimento
e de largura a menos de meya legoa. Tem seo principio defronte deste povo pera a parte
do nascente e asim vay com muita altura a distancia ditta. Entre este povo e a serra está
hum posso com sua nacedias brota agoa para dentro de huma horta bastantemente
grande, e rega algumas de suas arvores, e rega as plantas de tal horta que tem seo ramo
de olival, frutos de ameixas, figos, romans, marmelos e çham de boas frutas e couzas
comestives. Logo passace a horta, principia a crescer a serra e finda para a parte de
Matafilhos, pera o Nascente.
3º Ao treceyro interrogatório tenho respondido em segundo próximo.
4º Ao quarto interrogatório não tenho que responder.
5º Ao quinto interrogatório não tenho que responder.
6º Ao sexto interrogatório nada.
7º Ao setimo interrogatório nada.
8° Ao oytavo interrogatório, respondo que as ervas que os naturais, procurão na serra
são: malvaisco bravo, tom (sic.), douradinha, e plantas: murta; estevão e medronheyras.
Em a serra se cultiva por huma e outra parte, e dá bom de, frutos de trigo, senteyo e
sevada, mas mais abundante de trigo.
9º Ao nono interrogatório nada.
10º Ao decimo interrogatório respondo que a serra he de bom temperamento por ser
muito cavada do Norte. //
11º Ao undecimo respondo que na serra há criaçoins de cabras e animais, lobos,
rapozos, gatos brabos, coelhos, mais perdizes menos lebres.
12º Ao duodecimo interrogatório respondo que não há lagoa memoravel, mas fojos no
fim da serra. Pera a parte do nascente tem bastantes agoas fontainhas e hum fojo, que
todo o verão brota agoa corrente; de todas se aproveitão os ganadeyros e caçadores.
Hum meo anteçor antigo quis tomar estas agoas e fazer hum pizão, ainda existe asude e
caza de paredes descobertas, a cujo sitio chamão o ribeyro do Pizão.
13º As decimo terceyro interrogatório que me não consta couza digna de memona mais
que tão somente proximo ao fim da serra, asima destes fojos, mais pera nascente, está
huma fonte de boa agoa a que chamão a fonte de Matafilhos. Dizem alguns ser asim
deste nome porque naquelle sitio huma may matara seos filhos. E na serra Danes desta
Alcaria Ruyva ha forma de cazas demolidas, dizem ser dos mouros. Tem esta serra
muitos zambugeyros pella parte da zembria (sic), que alguns são tão bons que delles se
aproveytão e adoção pera comer. Só na sualheyra tem couza de quinze oliveyras, e por
verdade me asigney o Prior Constantino de Alvelios (?) e Gusmão.
O que se procura saber do rio dessa terra he o seguinte:
1º Ao primeiro interrogatório respondo que não há rio, mais (sic) que tão somente perto
deste povo passar (sic) Alvacaseyro, e logo mais adiante Alvacaraquele, tendo principio
de hum lago no sitio de Santa Barbara, termo dos Padrois, distancia de ires legoas. Este
tem principio de hum ribeyro em par de Santa Barbara, pera o Sul, na mesma distancia
pouco mais ou menos.
2º Ao segundo interrogatório respondo que não nascem caudalozos nem correm todo o
anno.
3º Ao treceyro interrogatório nada.
4º Ao quarto interrrogatório nada.
5º Ao quinto interrogatório respondo que quando chove muita agoa arrebatados correm.
6º Ao sexto interrogatório respondo correm do poente pera nascente.
7º Ao setimo interrogatório respondo que crião e trazem em si bastante peixe, picois,
bogas, perdelhos, eyrozes, cagaços, e em mayor abundancia excelentes bordolos.
8º Ao oytavo interrogatório respondo que há nelles pescarias quando há enchentes de
inverno, e de verão nos pegos, com redes e canas em hum e outro tempo.
9º Ao nono interrogatório respondo que as pescarias são livres.
10º Ao decimo interrogatório respondo que quando sucede se cultivão de siaras // suas
marges e alguns meloais.
11º Ao undecimo interrogatório nada.
12º Ao duodecimo interrogatório respondo que por esta freguezia, nos confins, passa
Cobres chamada ribeyra, e antigamente há tradição chamarce o rio Cobrim que he
tradição correra dias sangradas de homens que morrerão na batalha do Serenissimo Rey
o Senhor Dom Afonço Henriques, no sitio de Sam Pedro das Cabeças, junto à villa de
Castro Verde.
13º Ao decimo treceiro respondo que está junto com Terges, morre no rio Guadianna
junto às Pias, freguezia da vila de Mertola.
14º Ao decimo quarto interrogatório nada.
15° Ao decimo quinto interrogatório nada.
16º Ao decimo sexto interrogatório respondo que todos têm moinhos pera pam e o mais
nada.
17º Ao decimo setimo interrogatório nada.
18º Ao decimo oytavo interrogatório respondo que as agoas são livres
para todos.
19º Ao decimo nono interrogatório respondo que o Cobrim nasce em distancia de seis
legoas e passa pela vila de Almodouvar, aonde tem huma ponte, e estreito vem a parar
no sitio que dito tenho no Guadianna.
20º Ao vigecimo interrogatório não tenho couza notavel. Esta freguezia tem em si hum
oytero que chamão Cabeço do Porco e a serra de Nossa Senhora de Aracelli, pera a
parte do Norte, e pelo o Sul tem a serra do Gatto e mais asima, como pera o Norte, a
serra da Alva. E não tenho mais do que dar noticia, só sim que em esta freguezia se
crião ovelhas, porcos e rezes vacaas, e na charneca se crião javalis.
E por verdade me asigney, Alcaria Ruyva, quinze dias do mês de Junho de mil
settecenttos e cincoenta e oyto annos.
O Prior Constantino de Alvellos (?) e Gusmão.
Transcrição: Joaquim Ferreira Boiça e Maria de Fátima Rombouts Barros
BOIÇA, Joaquim Ferreira; BARROS, Maria de Fátima Rombouts – As Terras as Serras
os Rios: As Memórias Paroquiais de 1758 do Concelho de Mértola. Mértola: Campo
Arqueológico, 1995.






