1758 Julho 13 - Santo Antão
Memória Paroquial de Santo Antão, Évora
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 14, nº 111a, pp. 825 a 864]
Freguezia de S. Antão da mesma Cidade
A Cidade de Évora distante da Capital do Reyno vinte légoas , está sittuada na
Província do Alentejo, e quazi no meyo da verdadeira Luzitânia em lugar plano, mas
alguma couza levantado, e em terreno salutifero pela pureza dos ares, e fertil de todas as
couzas necessarias para o sustento da vida huma porque nelle se crião igualmente flores,
e fructos, estes delicados, e aquellas preciozas, sem cultura nascem nelle os jonquilhos,
as rozas, os lirios, e as açucenas, e com pouca se colhe grande abundancia de trigo o
mais selecto, e não menor cópia de vinho, azeyte, e hortaliças tudo saborozo, e
excellente , parece estar edifficada como outra Modena sobre algum grande lago, ou
caudelozo rio, porque o mesmo he sangrar a terra a poucos palmos, que brotarem della
chorros de agoa pura, e christalina; dizem alguns Authores, que o seu sittio retrata ao
vivo Roma, e que por isso o grande Sertorio encontrou no desterro a patria, e grande
glória seria della equivocarse com a Cabeça do Mundo Christão, porem a pobreza do
Xarrama, e sua distância, e a riqueza, e vizinhança do Tibre impedem, e embaração a
semelhança, que lhe atribuem; supposto, que esta falta a quizerão remediar os Senhores
Reys deste Reyno, obrigando ao Oceano sobir pelo Sadão, mas o custozo, e difficuldade
da obra embaraçou os voos da esperança.
A sua antiguidade he grande porque huns a fazem fundação dos Noemitas, logo depoes
do diluvio // (vio), outros pelos Eborones, ou Eboronisses, dous mil e sincoenta e nove
annos antes da vinda de Christo, porem o certo hé, que já no tempo do valerozo Veriato,
era povoação famoza, poes venceu este junto a dia, sendo consules em Roma Gnes
Cornelio Lentulo, e Lucio Mummio, ao Pretor Cayo Plascio, cento e quarenta annos
antes da redenção do Mundo, como declara a inscripção da pedra do Sepulchro de Ludo
Sabino, que está em S. Bento de Pumares freguezia do seu termo.
Sempre conservou o proprio nome desde a sua origem, e assim o escrevem Plinio.
Pomponio Mella, e Antonino Pio no seu Itinerário; foy em nobressida pelos Romanos,
depoes pelos Godos, e finalmente pelos Augustissimos Reys deste Reyno, que sempre a
estimarão como rica joya da Sua Coroa, com que mereceu ser a segunda delle, e a
primeyra da Provincia do Alentejo. He cidade Archiepiscopal com Tribunal do Santo
Officio, e Universidade, e o seu governo civil se compoem de varios Magistrados,
porque hé cabeça de Commarca, a que estão subordinadas muitas villas, e algumas
nottaveis.
O seu material he formozo, e ornado de egregias fabricas, assim sagradas, como
profanas, as suas ruas são alegres, e direytas com muitas praças, e em algumas
engraçadas fontes de nevados marmores daquella agoa, chamada da prata, que por
distancia de quazi três legoas, lhe traz o celebre aqueducto Sertoriano ; destas praças a
melhor, e mais principal, hé a que chamão grande, não por estar no coração da Cidade,
plano, e assentado della em que dezembocão, ou nascem outo principais ruas, mas
tambem pellos belos edifficios com que se orna; a sua figura he quadrada, mas de
mayor comprimento, está toda cercada de arcos, em cujas columnas, e pillares se
sustentão airozas galarias, da parte do Sul, tem o (Pa) // Palacio da Camera, ornado o
seu frontispicio dos sipos e antiqualhas romanas, postas com bella semitria, que o fazem
vistozo, e agradavel, e junto a estes os carceres, e cadea publica, e entre as duas ruas do
Raymundo, e Cadea, o Palacio Regio chamado impropriamente dos Estaos, que hé hoje
parte do Senado Eborense e parte dos Senhores das Alcaçovas; porem de todos os
edifficios com que se em nobresse esta praça, o mais principal, e magnifico, hé o desta
Bazilica de S. Antão Abbade , huma das sinco freguezias que tem Evora dentro dos seus
muros, que sendo a quarta na ordem das parochias, na grandeza do templo, explendor e
aceyo delle, e numero dos seus parochianos, tem o segundo lugar; esta fundado entre as
duas ruas de Alconcel, e Ru’ancha, m sittio alguma couza eminemte, em que se forma
hum grande taboleiro, ou adro de cantaria com muitas e suaves escadas da mesma
porque se sobe para elle; he o seu frontispicio de excellente arquitectura, e
bastantemente elevado, ornado de huma e outra parte com duas torres, de que se
descobre desde o Poente, ate ao Sul huma grande parte das campinas desta Cidade,
entrasse para elle por três grandes portas, que tem no mesmo frontispicio, há a sua
arquitectura da ordem dorica, todo de abobeda, firmada em des colunas de grande
altura, e corpulência, que dividem as tres naves que elle tem, que corresponde cada
huma a sua porta.
He o referido templo mui claro, e dezafogado ornado de diversos altares,
primorozamente aceados, e compostos; tem no cruzeiro sinco, o Mor dedicado a S.
Antão Abbade orago da Igreja em que se venera a Imagem do mesmo Santo tão devotta,
e de tal // (tal) estatura, que bem dezempenha o sobrenome do Santo, que reprezenta;
tem hum notavel retabolo todo de talha dourada, que na grandeza poucos o igualarão e
na bocca da tribuna, que he huma das milhoras obras, e de bom gosto, que ha nesta
Cidade, hum admiravel painel da Cea do Senhor, obra do insigne Bento Coelho.
No cruzeiro do lado da Epistola, tem os altares do Santissimo Sacramento, no qual a
riqueza e aceyo de que se compoem, formão senão digna, ao menos decente morada da
Suprema Magestade, que nelle se adora, e o altar de S. Roque com \as/ estatuas do
mesmo Santo, e S. Barbara e no retabolo hum painel de S. Sebastião, S. Romão e S.
Christovão. Da parte do Evangelho em capella, que corresponde à do Sanctissimo, o
altar da Senhora dos Prazeres, e em outra, que corresponde à de S. Roque o altar da
Senhora dos Remedios, em cujo retabolo, tem hum excellente painel de S. Agostinho, e
na branqueza de vulto as estatuas de S. Anna, e S. João Nepomeceno.
Na nave da parte da Epistola, entrando pela porta, que lhe corresponde, tem três altares
na forma seguinte, o da Senhora das Candeas, o do Senhor Jesus, e o das Almas; e da
parte do Evangelho, entrando pela outra porta collateral, o altar de S. Eloy, o altar dos
Santos Chrispim e Chrispiniano, e o de Nossa Senhora da Alegria; estão todos os
referidos altares em capellas grandes com bellos retabolos, e ornados com decencia e
aceyo.
Tem esta Igreja hum grande coro alto, e duas excellentes Sanchristias, huma que serve
aos Padres della, e a Irmandade do Santissimo a outra: alem de outras cazas necessarias
para serviço da mesma Igreja; foy fundada pelo Serenissimo Senhor Cardeal D.
Henrique Arcebispo desta Metropole., e depoes \Rey/ deste Reyno e // e se acabou em
1563 e arruinandose parte da sua abobeda com o terremotto de 17 de Abril 1568, tempo
em que passava a [coroarse] com a Mitra de Lixboa a devoção que tinha ao gloriozo
Santo Orago della, e o amor desta filha primogenita do seu generozo espírito, fizerão
com que da penção que tinha reservado na de Evora, a mandasse reedifficar, gravandose
na porta principal para memoria dos vindouros a seguinte letra:
D. Antonio Archimandrita Sacrum
D. Emmanuelis Lusitanea Regis Pii Felicis, Invicti Filius Henricas S.R.E. Probiter
Cardinales: Primus Eborensis Archiepiscopus, priore directo novum hoc, longe
capaesius, forma, structura que augustius, religionis ergo erexit.
No mesmo lugar em que está hoje esta Igreja, estava antigamente huma mui pequena do
mesmo Santo, na qual se punha hum cura para administrar os Sacramentos, com mayor
commodidade a que se dava certa congrua, ficando os Perlados percebendo os fructos, e
dizimos com o titolo de Abbades, que depoes mudarão em Priores, no anno porem de
1380 sendo Bispo desta Diocese D. Martinho quinto do nome, fundou nella huma
Vigairaria com seus Beneficiados simplices para se celebrarem com mayor solemnidade
os divinos officios, e perserverou nesta forma ate 28 de Abril de 1565, em cujo anno o
Vigario que então era, renunciou o seu Benefício nas mãos do Senhor Arcebispo D.
João de Mello, que abolindo a Vigairania, instituio das suas rendas hum Reytor, e três
Beneficiados curados, para todos quatro administrarem os Sacramentos e com os seis
Beneficiados simplices resarem as horas canonicas no Coro.
Donde se ve, comporse a Gerarquia desta Igreja de hum Prior que he o Excelentissimo e
Reverendissimo Senhor Arcebispo, hum Reitor e tres Beneficiados todos (qua) // quatro
curados e seis Beneficiados simplices.
O rendimento do Priorado, era antigamente de doze mil cruzados, hoje pela
dismembração que se lhe fez para a Patriarchal, rende já muito menos, ficando sempre
com a obrigação de paramentar plenamente o grande corpo e maquina desta Igreja.
como o tem feyto o seu Excelentissimo Prior actual, que tem gasto nella huma grande
parte do seu rendimento.
Os mais beneficios são de tenue rendimento certo, supposto, que mais rendem com o
incerto: rende o Reitorado outenta mil reis cada anno; os beneficios curados sessenta
mil reis, e os simplices quarenta mil reis cada anno; todos são de alternativa do Papa
com o Prior, o qual tambem appresenta a Thesouraria em hum Presbitero.
Ha nesta Igreja sinco confrarias, que são a do Santissimo Sacramento, a do Senhor
Jesus, a de Nossa Senhora dos Praseres, a de S. Chrispim, e a das Almas; celebrãose
nella muitas festividades com grande custo, e magnificiencia, e no discurso do anno
sahem della muitas procissões, e entre estas a da Bulla, que se recolhe na Sé de grande
concurso, e em todo o anno he a mesma Igreja de muito por ficar na parte mais nobre da
Cidade, e constar de huma grande porção della composta de mil cento, e outenta e sinco
fogos, com quatro mil duzentas e quarenta e sette pessoas entre mayores. e menores.
Nella ordinariamente pela sua grande capacidade administrão os Perlados o Sacramento
da Confirmação: nella se fez aquella celebre junta dos principais Senhores Eborenses
para passificar o povo nas bem sabidas alterações: da cidade, principio felice da
restauração do Reyno, que com o nome supposto do doudo Manoelinho ameaçavão a
ultima [...], e finalmente no seu grande taboleyro, se celebrarão os quatro grandes autos
da Fé, que houve desde 1706 ate 1716.
Defronte deste Templo estava hum pórtico romano(1), com três arcos triunfais, ornado de
diversas ordens de colunas alquitravas, frizos e (ni) // nichos, e estátuas de preciozo
marmore, que occupava com pompoza prespectiva todo o largo da Praça, o qual
transformou em fonte El Rey D. João Terceyro, dirigindo a elle o curso da agoa da
prata, que principiou a correr no mesmo em 1535, e porque esta grande fabrica com a
sua corpolencia impedia a vista, ou eclizava o prospecto da magestoza fabrica do
mesmo Templo, o mesmo Serenissimo Senhor Cardeal Rey fundador delle, mandou
demollir tão honrada antigalha, de que só se approvetarão as grandes colunas, que hoje
estão no grande refeytório dos Padres da Companhia desta Cidade, as da Igreja do
Convento de Valverde, e as que estão no tranzito da Sanchristia do Convento de S.
Francisco, e para que se não estranhasse a falta desta precioza memonia, o mesmo
Principe mandou fazer para substituir em seu lugar, a soberba fonte, que nelle se vê
chamada da Praça, que hé a melhor de todas as da Cidade; hé esta de finos marmores, e
a tassa principal, que hé de huma só pedra, tem de circunferência sincoenta, e hum
palmo com outo carrancas de bronze, que vomitão outo rios de agoa, numero
proporcionado às outo ruas, que tem a Praça; está coroada com coroa imperial como
imperatris das fontes, o que vendo El Rey Felippe Primeyro, admirando a sua beleza,
dizem, que dicera bien meresse ser coronada.
Ha dentro dos limittes desta freguezia seis conventos, três de religiozos, e de religiozas
outros tres, e hum recolhimento de terceyras do carmo, que são os seguintes
O Convento de S. Francisco de religiozos do mesmo Santo observantes da Provincia
dos Algarves; foy fundado ainda em vida do Serafico Patriarcha pouco mais de dous
annos antes da sua morte, porque se lhe deu principio no anno de 1224: dotarao-no os
Cidadãos de Evora de muitas rendas; e lhe derão para sua habitação todo o espasso que
vay da porta do Raymundo até // (até) à do Roxio; e cresceu a fabrica com tanta
magnificência, que era chamado o Convento de ouro, tinha três claustros, dous grandes
refeytorios, era celebre a sua livraria pela grandeza, e copia de livros, há memoria de ter
três igrejas, e de outras tantas ruinas e de huma consta que tinha sette naves, foy
Metropole, e cabeça da Provincia com caza de estudos, em que se occupavão outenta
entre os quais havia letrados famozos, tendo porem chegado ao auge desta grandeza,
principiarão a padecer os religiozos grandissimos apertos desde o tempo de El Rey D.
Affonso quinto, que fazendo do Convento Palacio o reduzio a Capucho, ate que se
acabou esta vexação no tempo dos Felippes; os primeyros religiozos desde a sua
fundação, erão claustrais até que no anno de 1513 passou a observantes, unindose as
suas rendas ao Mosteyro de Santa Clara desta Cidade de Religiozas do mesmo Santo
urbanas. O Convento, que hoje tem \hé/ notável, e mui grande, por estarem nelle
incorporadas muitas cazas do Palacio Real, a sua Igreja foy a primeyra Capella Real,
que houve neste Reyno, e hé huma maravilha da arte, por que sendo de grande altura, e
tendo de largo não entrando o vão das Capellas, sessenta palmos, e duzentos e dezouto
de comprido sem haver parede, que exceda a grossura de tres palmos, nem passando as
semalhas das Capellas demais de dous terços de altura, parece se firma no ar a sua
abobeda por falta de acompanhamento; edifficoua El Rey D. João Segundo, e a acabou
El Rey D. Manuel; hé o Convento o segundo da Provincia, tem caza de estudos, e
grande numero de Religiozos, e tem florecido nelle muitos sojeitos em virtudes, e letras:
he Padroeyro deste Convento El Rey.
O Segundo convento hé o de S. Domingos de Religiozos do mesmo Santo, fundado no
sittio em que antigamente estava a Ermida da Victoria no anno de 1278; o Senado lhe
deu o sittio, que occupa toda // (toda) a sua cerca, e Martim Annes fidalgo Eborense e
sua molher D. Catharina, lhe doarão toda a fazenda de que erão Senhores, que era
muita, sem mais encargo, que huma missa quotidianna, com cujo legado, se aperfeiçoou
o Convento e fes a Igreja; porem porque esta era pequena para o numero dos sojeytos a
que depoes cresceu o Convento, os dous patricios Eborenses D. Pedro de Sousa, e D.
Joanna de Mello primeyros Condes do Prado, a augmentarão, pello que em signal de
agradecimento, se lhe deu jasigo na Capella Mor, em que estão sepultados; o Convento
hé mui nobre com hum ayroso e alegre claustro, e no meyo huma fonte de agoa da
prata, que foy a primeyra, que concedeu El Rey D. João 3°. por fazer este obzequio ao
grande Lucio Andre de Rezende Religiozo desta Religião, e só depoes, que se lhe
concedeo a este semelhante graça, a alcançarão os mais Conventos da Cidade. Tem
florecido neste Convento muitos religiozos de grandes virtudes e letras, e entre elles o
venerável P. Fr. Luis de Granada, que nelle se perfilhou, e viveo muitos annos; hé casa
de estudos com muitos religiozos.
O terceyro Convento hé o de Nossa Senhora das Merces de Religiozos Agostinhos
descalços, que primeyro morarão na rua, a que chamão Fria, junto ao sittio dos
Castellos, \ com humas cazas / que para sua habitação lhe deu o Reverendo Bacharel
desta Sé de Évora Luis Conforte Correa, nas quais assistirão desde 18 de Dezembro de
1669, até 6 de Julho 1680, em cujo dia se mudarão para o Palacio que tinhão comprado
aos Senhores de Bobadella sitto na rua do Raymundo, em que agora está este Convento,
que he de bom dezenho, mas tem ainda muitas officinas incompletas, tem huma bella
Igreja, da qual hé orago a Senhora das Merces, que he a mesma, que com o titolo do
Presépio, tinha no seu oratorio a Rainha D. Luiza, hé de muita devoção, e millagroza,
como diz Fr. Agostinho de Santa Maria no seu Sanctuario Mariano. Dizem ser (Pa-) //
Padroeyro deste Convento El Rey; he caza de estudos: e tioressem nelle bons sojeitos.
Convento de Religiozas
O Convento de Santa Clara, sittuado na rua de Alconchel; foy fundado no anno de 1440
pelo Eborense D. Vasco Varella Perdigão Bispo desta Diocese, que lhe assignou das
rendas pontificias hum pingue dotte, mas porque lhe faltou o consenço Pontificio,
esteve esta fundação a perigo de sufocar no berço. Succedeo na Mitra o grande Cardeal
Alpedrinha, D. George da Costa, que não só confirmou a instituição de seu predecessor,
mas lhe procurou a confirmação Apostolica, a que não obstante ainda se lhe moverão
varias duvidas, que se acabarão pela sentença, que ultimamente pronunciou o Infante
Cardeal D. Affonso ultimo Bispo de Évora. He a fabrica deste Convento muito regullar,
e excellente, e a sua Igreja huma das mais bellas da Provincia e dos Conventos mais
bem dottados della, foy de Religiozas claustrais ate ao anno de 1535, em que passarão a
observantes, e são sojeitas ao Padre Provincial da Provincia dos Algarves; crescerão
muito a suas rendas com as que se lhe unirão dos Religiozos claustrais Franciscanos
extinctos, e com as perpetuas, que lhe doarão Garcia de Menezes, e D. Izabel de Castro,
por cujo beneficio; e reedifição da Capella Mor da Igreja com approvação do Papa lhe
derão o padroado della, onde estão sepultados, em nobilissimo mausoleo; e tem
florecido neste Convento muitas Reliozas de que rende observancia e virtude.
O Segundo Convento há de Santa Catharina: teve a sua origem em 1400 no Palacio dos
famozos Estaços junto ao adro de S. Domingos por certas senhoras da mesma familia a
que se agregarão outras donzellas, que por espasso de 85 annos fizerão nesta habitação
huma exemplarissima vida dezejosas porem de mayor \ perfeição / no anno de 1485, por
conselho dos seus confessores os Padres Dominicos, doarão as que existião todos os
seus bens ao Recolhimento, e professarão a 3ª. regra de S. Domingos, no que
perseverarão ate ao anno de 1519, em que alcançarão da Sé Apostólica (lic-) // licença
para professarem a primeyra ordem e como este Recolhimento, que há hoje o de Santa
Martha de Beatas 3ªs. do Carmo \não fosse suficiente /, se fundou o novo Mosteyro no
sittio em que estava huma Ermida de Santa Catharina que para este effeyto lhe doou o
Conde do Vimiozo, e se mudarão as Religiozas para o novo Convento em 24 de Abril
de 1547?,em solemne procissão; foy o seu Padroeyro D. Afonso filho do dito Conde,
com o provimento de dous lugares. O Convento há excellente, e a sua Igreja hum
diliciozo Paraizo, hé sojeito ao Provincial de S. Domingos, tem florecido nelle
Religiozas de grande exemplo, e do mesmo sahirão as primeyras fundadoras do
Conventos do Bom Pastor de Azeytão, e do Sacramento de Lixboa.
O terceyro convento hé o do Calvário sittuado na formoza e espassosa rua da Lagoa;
fundou-o a Infante D. Maria filha de El Rey D. Manoel, e de sua terceyra molher a
Rainha D. Leonor irmaa do Imperador Carlos 5° à instancia do Serenissimo Senhor
Cardeal D. Henrique, que vendo aquella Princesa tão inclinada a obra de piedade, e que
nellas despendia o larguissimo patrimonio de que era Senhora, e persuadiu a que fizesse
este convento que se edificou conforme as regras da Santa pobresa, e pella planta, que
tinha ideado o mesmo Serenissimo Cardeal para o que em 1570 fes doação da Ermida
de Santa Elena no monte do Calvário o Senhor Arcebispo D. João de Mello, e com tal
fervor se principiou a fabrica que aos 23 de Outubro de 1574 foy habitada. He este
convento muito bom, e a sua Igreja mui linda, hé sojeito ao Provincial da Província dos
Algarves: o número das Religiosas hé de 24, cuja vida hé viver de esmollas, não comem
carne, nem tem dia que não seja de jejum excepto o de Natal e Domingos, a Camiza que
vestem há de lãa e o habito, çapatos os que lhe deu a naturesa, a cama huma cortissa, o
cobertor huma manta, os exercicios de piedade, e de religião são continuos, as
penitencias, e horas de oração muitas, pelo que tem merecido este Convento da divina
Liberalidade notaveis favores, e privilegios; porque muitas // (muitas) vezes faltando o
provimento para a comunidade se achou na portaria, sem saber quem o trouxera, e não
se ignorar quem o mandava: muitas vezes cresceo o trigo no celleyro; e o aseyte nas
talhas; em todas as pestes, que padeceu Évora; que foram muitas, nunca se atreverão a
contaminar esta Thebaida, nem os corijeos ?? tem perdido o respeito a este Sagrado
domicillio; muitas vezes se a Sanchristáa não desperta, tem os Anjos tocado as Matinas,
e muitas ajudado a cantar os divinos louvores no coro; e finalmente este convento hé
abençoado de Deos pela inalteravel observancia que nelle floresse; deile sahirão em
1707 as primeyras quatro fundadoras do Convento do Louriçal do Bispado de Coimbra,
e se se houvessem de referir todas as que pelas suas virtudes merecem espessial
memoria sem excepção de alguma se escreverião as que tem sido Religiosas deste
Convento.
Ha mais nesta freguezia o Recolhimento de Santa Martha, a que vuigarmente chamão
das Beatas, e foy primeiro habitação das Religiozas Dominicas de S. Catharina, que
depoes de se mudarem para este Convento, ficando dezerto hum lugar em que se tinhão
offerecido a Deos Nosso Senhor tantos louvores por espasso de 147 annos, o comprou
Anna de S. José, e passando a viver nelle com suas irmans, e algumas outras donzellas,
derão de novo principio ao Recolhimento de S. Martha; professão as recolhidas a ordem
terceyra do Carmo, são sojeytas ao Ordinario, resão o officio divino no Coro, tem
muitos exercicios devottos, e vivem com grande observancia.
Ermidas
1ª A Ermida de Santa Martha tão antiga, que se não pode averiguar a sua fundação, mas
de bella arquitectura, e tão rica e custozamente aceada que hé huma das melhores
Igrejas da Cidade, nella tem a sua numeroza Irmandade os veneraveis sacerdotes
eborenses, que tem o titolo das almas hé de nottavel rendimento, o qual se distribue
tambem e // (e) com tanta exacção como mostrão a multidão de sacrificios, que na dita
Igreja se offerecem a Deos, nas muitas pessas com que se enriquesse, e na grande
Caridade que se tem com os irmaos pobres enfermos até os levarem à sepultura, e
suifragios que depoes se lhe fazem; foy esta Igreja antigamente freguezia e serve
tambem de Igreja das Recolhidas de Santa Martha.
2. A Ermida de S. João Bautista vulgarmente chamada S. Joaninha junto ao Convento
de S. Francisco, tambem se ignora o seu fundador, mas pela forma da arquitetura,
parece ser do decimo quinto seculo, e como El Rey D. Affonso quinto viveo tantos
annos em Évora com a Rainha D. Izabel que era devotissima do mesmo Santo
conjecturase ser fundação sua; tambem foy freguezia, e servio de caza de Mizericordia
desde o anno de 1499 ate ao de 1554, em que se mudou a mesma Irmandade para a
grande casa, que hoje tem.
3. A Ermida de Nossa Senhora do Pé da Cruz chamada vulgarmente a Capelinha, nome
que da tambem ao bairro em que esta sittuada, hé pequena, e foy fundada com as
esmollas dos fieis.
4. A Ermida de Nossa Senhora das Brottas junto à porta do Raymundo fundoua o
Conego Francisco Borralho, hé o templo sufficiente, e de muita devoção à Senhora,
5. A Ermida de Nossa Senhora da Ajuda, fundada sobre a porta da rua de Alconchel.
foy feita com as esmollas do povo, hé pequena mas muito aceada, e a Imagem da
Senhora millagroza.
6. A Ermida de Nossa Senhora dos Santos Reys sitta em hum angolo do Real palacio
dos Estaos defronte das grades da cadea, foy fundada pelo Alcaide Mor de Évora seu
cidadão D. Fernando de Mello, o qual reformando aquelles carceres com catholica
piedade a mandou se fazer para ouvirem missa os prezos, e lhe não faltasse este subsidio
espiritual estabelecendo estipendio certo para o Capellão, que lhe diz missa nos
Domingos e dias sanc- // sanctos. Todas as referidas Ermidas são do Perlado, menos
esta ultima que he da Camera.
Há mais no destnicto destricto desta minha freguezia, o Monte da Piedade a que
tambem \chamão/ Celleyro do depozito, ou Commum; foy instituido pelo Senhor
Cardeal Infante D. Henrique com alvará de El Rey D. Sehastião em 1576, e hé o
remedio de todos os pobres lavradores; consiste em huma grossa quantidade de moyos
de trigo, que se guarda em huma salla do Real Pallacio de S. Francisco; unica reliquia
que de tão grande fabrica existe, e se reparte quando se principião as sementeyras com
grande igualdade e rectidão pelas pessoas desta Cidade e termo, que semeão, sem mais
obrigação do que darem hum limitado acrescimo no tempo da colheita para conservação
do mesmo Monte; hé governado por três deputados, hum ecelesiástico, que de três em
três annos nomea o Perlado, hum Ministro secular, e bom Cidadão, e alem destes tem
outros officiais inferiores para boa expedição do que pertence ao mesmo monte.
São os limittes desta freguezia dentro dos muros da Cidade, porque fora delles não tem
caza alguma, e lhe servem os mesmos de baliza desde a porta da Lagoa ate a porta do
Roxio, tem muitas ruas nobres, e as mais principais da cidade com grandes casas, que as
emnobressem e fazem vistozas, nellas alem dos dous palacios reais, de S. Francisco
reduzido a ruinas, e dos Estaos, tem outros de pessoas principais como o dos Mellos,
dos Gamas Lobos, dos Macedos, dos Pesanhas Falcões e dos Mesquitas, e nella
morarão muitas pessoas das mais illustres do Reyno.
Tem sido esta cidade berço felix de heroes famosos, porque os filhos, e cidadões de
Évora em todas as idades, e em todas as artes forão famosos assignalandose igualmente
na pas e na guerra, nas escollas e nas campanhas, no valor e na piedade, no seculo e no
claustro, no Reyno, e nas conquistas; porem porque se não pode affirmar se pertencem
ou não a esta fteguezia de S. Antão, ou em qual das (da) // da Cidade forão bautizados
pela falta de assentos, e de Livros, porque estes só os há desde a era de 500 ate ao
presente, costume que introdosio nesta Diocese o Senhor Infante Cardeal D. Affonso
seu ultimo Bispo, e que depoes abraçou o Concilio de Trento e toda a Igreja Catholica,
não os escrevo por não roubar às outras parochias desta Cidade esta gloria, e por me
parecer ser isto mais proprio do Parocho da freguezia principal; a tem de que são já bem
vulgares, por que o P. Fonseca na sua Evora gloriosa trata dos que pode a sua diligencia
descobrir e assim parece escusado repettillos outra vez.
Ao mais que se pergunta não tenho que responder. Evora 13 de Julho de 1758.
O Reitor Domingos Cardozo
(1) Tratar-se-ia, realmente, de um pórtico romano com as características mencionadas? Porque é que André de Resende não o referiu no seu livro “Antiguidades de Évora”, uma vez que seria uma obra
arquitectónica de grande vulto?
Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado
GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.






