Memórias Paroquiais

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Évora - São Matias

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1758 Junho 4 - São Matias
Memória Paroquial de São Matias, Évora (Freguesia suprimida, foi anexada à freguesia de N.ª S.ª da Graça do Divor)
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 23, nº 86, pp. 575 a 584]

Respostas aos interrogatórios que por ordem de Sua Magestade Fidelissima serão
enviados a Vossa Excellencia Reverendissima, a qual hé pelo que pertence a Freguezia
de São Mathias termo da cidade de Évora, huma legoa distante da mesma.

Advertênçia
Respondese somente aos interrogatórios que se acharão pertencerem e se puderão
adaptar a esta Freguezia, e seu território; e respondendo aos primeiros que se achão
transcriptos debaicho do primeiro titulo, convem a saber: O que se procura dessa terra
hé o seguinte: prinçipia discorrendo do primeyro athe o ultimo.

Ao 1°. interrogatório Fica esta Freguezia de São Mathias(1) na Província do Alemtejo e
pertence ao Arcebispado de Évora, e todo o território desta Freguezia hé e está dentro
do termo da sobreditta cidade, da qual só dista huma legoa.

Ao 2°. Hé o território desta Freguezia da Jurisdicção Real, assim, e da mesma sorte que
a cidade de Évora, da qual hé termo, e compoemse de vinte e duas herdades, sendo que
algumas dellas, são por extremo pequenas, e são de certos e particulares senhores. //

Ao 3°. Tem ao prezente salvo erro, cento e sincoenta vizinhos, ou pessoas que
separadamente vivem nas cazas das herdades, que se achão no seu território, entrando
nesta conta homens cazados e solteiros, os quais unidos com suas famílias, e filhos
fazem a conta de quinhentas pessoas.

Ao 4°. O território desta Freguezia não tem campina que seja dilatada, porque
conprehende na sua breve extensão mais montes que vales, por cuja razão produzem
suas terras mayor abundancia de senteyo que de trigo; e essa também a cauza porque se
não avista de dentro de seus limittes, salvo engano, lugar ou aldêa alguma.

Ao 5°. Já se disse ao primeiro e segundo interrogatório, que o território desta Freguezia
se compõem de vinte e duas herdades que conprehende com os seus moradores, que são
os fregueses desta mesma, e não contem dentro de si lugar ou aldêa.

Ao 6°. Está esta Freguezia de São Mathias fora da cidade de Évora, e huma legoa
distante da mesma, porém dentro do seu termo como já está ditto.

Ao 7°. Hé o Orago desta Parochia, o Apostolo São Mathias(2), e tem esta trez Altares: o
Altar Mayor hé da Sancta digo deste Sancto e hum dos collaterais hé da Senhora do
Rozario, e o outro do Senhor Sancto António. Não tem naves esta igreja. por pequena,
estreita e pobre, tem somente huma Irmandade e esta hé de Nossa // (de Nossa) Senhora
do Rozário.

Ao 8°. Hé o sacerdote que de prezente governa no espiritual os fregueses desta
Parochia, Parocho emcomendado pelo Excellentissimo Senhor Arcebispo de Évora, do
qual he também sacerdote e apprezentação amovivel, e sem collação, assim como outros
que há deste género nos campos deste Arcebispado que lhe pertençem. Não consistem
suas rendas em dízimos, porque estes se pagão a quem por direito pertencem e
conforme sua instituição, e somente para sua congrua lhe dão os freguezes, certa porção
de trigo de suas herdades digo de suas herdades; e assim achase estar dotada, em três
moyos e quarenta e sinco alqueres de trigo, e hum moyo a quinze alqueres de sevada.

Ao 9°. Nesta Parochia não há mais que o Parocho para ensinar e doctrinar os seus
freguezes e administrar-lhe os sanctos sacramentos.

Ao 10°. Tem esta Freguezia no seu distrito hum convento de Religiosos Eremitas de
São Paulo(3), pobre, dizemos religiosos que não tem Padroeiro e que só fora concedida a
terra em que se acha edificado por certo homem pio, por esmola, e para sua fundação, e
que se movera a fazer esta doação, por ver a pobreza e aperto com que vivião aqueles
eremitas primeiros fundadores deste Convento, os quais antes da sua fundação existião
em huma pequena caza fabricada na costa de hum outeiro, que fica pouco // (pouco)
distante deste mesmo Convento.

Ao 11 e 12°. Não há couza alguma do que se procura.

Ao 13°. Tem esta Freguezia dentro nos seus limittes certas Ermidas, sendo a mais
principal e a mais nobre de todas pella grandeza do seu artefacto, a Igreja chamada de
Nossa Senhora de Agoa de Lupe(4), a qual se acha situada no mais plano de hum pequeno
monte, e junto das margens de huma grande Ribeira, que se denomina com tantos
nomes, quantos são os sitios por onde passa, ainda que sejão de pouca distância e
porque corre junto desta Parochia de São Mathias, se chama a Ribeira de São Mathias e
em chegando a Igreja de Nossa Senhora de Agoa de Lupe, mudando logo o nome se
intitula com o mesmo que o hé da Senhora. Hé esta Ribeira no tempo somente do
Inverno, bastantemente caudeloza, e nella tem succedido muitas disgraças, porque
atravesando-se na estrada direita que vai de Évora para Lisboa, não dá então passage
livre aos pobres caminhantes porque não tem ponte nesta estrada. Fazem as agoas desta
ribeira emquanto durão, e dentro dos limittes desta Parochia ou Freguezia, moer sinco
moinhos successivos, e são os únicos que no seu destricto há, e também há dentro em
seus limittes, trêz lagares de azeite, porém não são de agoa, ou impellidos pella mesma.
A terra em que está situada a Igreja desta Sagrada Imagem de // (de) que aqui se tem
tratado, pertence a Câmara da Cidade de Évora. Hé esta Imagem sagrada muito celebre
pelos innumeraveis prodigios, que dizem tem obrado e entre estes não hé o menor haver
livrado a cidade de Évora e suas vizinhanças, do contagioso mal da peste, ao mesmo
tempo, que tambem ardia com elle a cidade de Lisboa, que dizem ser livre della por
intercessão da mesma Senhora, com o título de Penha de França.
Em distinctos tempos do anno se fazem a esta Imagem várias festas, pelas octavas do
Espírito Sancto, a solemnizão os moradores da Villa de Arraiolos e cidadãos de Évora, e
em Setembro, mas sem dia determinado a festejão os vizinhos da sobreditta Ribeira. A
segunda Ermida que há dentro desta Freguezia, he a da Senhora de Monte Serrate(5), a
qual se acha junto de huma quintinha e em terra que possuem os Religiozos Eremitas de
São Paulo. Dizem que estes Religiozos ali viverão algum tempo, em forma claustral, e
que a ditta Imagem fora milagroza, porém esfriando-se com o curso dos tempos a
devoção, apenas hoje se sabe o nome da ditta Imagem, mas ainda se lhe faz huma festa
no mêz de Setembro, no dia que para isso e assigna, porque aliás he também incerto.
A terçeira Ermida he a de Nossa Senhora da Conceição sitta na Quinta chamada do
Chixorro, de que [é] Senhor, hum Morgado da cidade de Évora chamado Manuel Lobo
Cordovil(6).
A quarta Ermida // (Ermida) ou Capelia hé a de Nossa Senhora do Rozário sita em
huma herdade chamada a Fiúza a Fiuza (sic), de que hé Senhor o Reverendo Deão da Sé
de Évora(7).
A quinta Ermida hé a de Nossa Senhora da Conceição sita no Pátio do Azinhal, em
huma quintinha de Dom António José de Mello, e a esta Imagem se lhe faz a sua festa
no dia octavo de Setembro(8).

 

 


 Ao 14°. A nenhuma destas Imagens ou suas Ermidas, acóde romagem, menos o que de
cada huma dellas está ditto, ao deçimo terceiro interrogatorio.

 

 

Ao 15°. Os fructos que os moradores desta Freguezia colhem em mayor abundânçia são
senteios, como já se disse ao quarto interrogatório, e isto pela incapacidade das terras,
que se achão dentro dos seus limittes, que são menos aptas para a produção de trigos.

Ao 16°. Porque dentro dos limites desta Freguezia não há lugar ou aldea alguma, e fica
esta huma só legoa distante da cidade de Évora e só consta das herdades já referidas ao
segundo interrogatório, com todos os seus moradores, apenas há nella juiz da vintena, e
assim vive sugeita às justiças de Évora.

Ao 17°. Fica respondido // (fica respondido) com o que se disse já para o primeiro
interrogatório.

Ao 18°. Por hora não há lembrança de que floreçesse em tempo algum neste território
desta Freguezia, pessoa insigne em virtudes, letras ou armas.

Ao 19°. e 20°. Não há que responder, porque o que se pergunta, só o há na cidade de
Évora, da qual corno está ditto dista esta Parochia huma legoa.

Ao 21°, Fica esta Freguezia distante da cidade de Lisboa dezanove legoas, a de Évora
capital do Arcebispado, o que assima se diz.

Ao 22°. Quanto a todo desta Freguezia não se sabe tenha privilegios dignos de
memória.

Ao 23°. Não consta que haja no districto desta Freguezia fonte ou lagôa celebre.

Ao 24°. Não há que responder.

Ao 25°. Há no districto desta Freguezia, ou para melhor dizer nos confins da mesma,
hum castello antiguo. em o sitio chamado Monte Muro, junto da herdade chamada (a
Proven) // a Provença, o qual castello de denominação o Castello de Giraldo(9), e está
posto em o cûme de hum elevado monte, porém no tempo prezente apenas se diviza
nelle o que antiguamente foi. Não se descreve aqui quem foi este Giraldo, e o princípio
daquele castello, porque sendo comum a todos os cidadãos de Évora a notíçia do
mesmo, pareçeo superfluo introduzir nesta breve resposta, o progresso da sua vida,
fama, e obras, as quais se [...] largamente narradas na resposta que por parte da mesma
cidade se expedir, e assim parece desnecessária a repetição do que na mesma hé
infalível se dirá.

Ao 26°. Não fez impressão notável no que toca a esta Parochia e seu districto, o
terremoto do anno de mil e settecentos e sincoenta e sinco.

Não se achou mais que responder, pello que toca a esta Freguezia de São Mathias termo
da cidade de Évora, da qual e pelo que pertençe a mesma emana a prezente resposta,
que vai feita e assignada por mim Parocho emcomendado desta mesma Freguezia de
São Mathias termo dajá referida cidade de Évora, aos quatro dias do Mez de Junho, de
mil e sette centos e sincoenta e outo.

O Emcomendado Jozé Gomez de Figueiredo

Declarei (se hé neçessária mayor // (mayor) declaração) que eu Parocho emcomendado
respondi aos prezentes interrogatorios nesta mesma Freguezia de São Mathias, donde
actualmente assisto, e por verdade me assignei, no mesmo dia, mêz e anno supra.
O Parocho Emcomendado José Gomez de Figueiredo


(1) S. Matias: Extinta freguesia rural do Concelho de Évora, já existente no séc. XVI. Fica situada a 10 km
de distância de Évora, do lado Norte da estrada nacional 114.

(2) A Igreja de S. Matias conserva ainda no seu exterior elementos arquitectónicos da época manuelina,
apesar da sua frontaria apresentar profundas tranformações que lhe modificaram a traça original. Nas suas
proximidades existe um cemitério de pequenas dimensões que foi benzido a 1 de Novembro de 1907, e
que foi construído com verba de subscrição pública dos paroquianos da freguesia.

(3) Sobre este assunto são notória, as referências de Manuel de Castro Nunes em As Covas de Montemuro.
Noticia Princeps, 1993

(4) Nossa Senhora de Guadalupe: Freguesia rural do Concelho de Évora, criada pela Lei n°. 128/85 de 4/
10/1985, quando foi desanexada da Graça do Divor. Situa-se a 13km de Évora, com acesso pela EN 114.
O principal lugar é a aldeia de Guadalupe. Área: 6 685 ha. População presente: 505 hab. (Censos 1991)
A Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe foi fundada em 1609 (se bem que anteriormente já existisse um
oratório) e inaugurada solenemente em Setembro de 1615. O edifício foi gravemente danificado pelo
ciclone de Fevereiro de 1941 e alvo de profanação. Em 1964, a Câmara Municipal de Évora, em
colaboração com a Mitra Eborense, autorizou a sua reabertura e custeou as obras de reparação, no âmbito
das quais foram demolidos os alpendres que serviam de abrigo aos peregrinos.

(5) Ermida de Nossa Senhora de Monserrate (acerca de 1km de Valverde, na Quinta da Provença) edifício
de características arquitectónicas muito simples, todavia encantador; no seu interior existem imagens da
Senhora da Conceição, S. Francisco, Nossa Senhora de Monserrate (séc. XVI) e algumas pinturas votivas,
remontando as mais antigas a 1755.

 (6) Quinta do Chorro (a 7 km de Évora, acesso pela EN 114): casa de tipo rústico solarengo do séc. XVIII.
O corpo nobre fica no primeiro andar e é consittuido por uma fachada e porta com ombreiras graníticas,
do período de D. João V, que deitam para o terraço com arcadas de volumes desiguais, oferecendo um
aspecto pitoresco; numa chaminé virada para o extradorso lê-se a data de 1747, data provável da
remodelação do edifício. Capela existente no local é dedicada a Santo Inácio dc Loiola.


(7) “Do primitivo solar rústico pouco existe digno de menção, além de alguns tectos de madeira, antigos,
de esteiras lavradas em caixotões. A Capela, de invocação de S. José do Egipto, deve-se a D. João de
Bragança, sobrinho do arcebispo D. Teotónio de Bragança, que a dotou amplamente e obteve do Cabido
licença para nela de celebrarem ofícios religiosos em 8 de Novembro de 1597. […] À profanação do
templete, verificada nos últimos trinta anos […] Desde então ficou em completa ruina.” - Túlio Espanca,
Inventário Artístico do Concelho de Évora, pp. 372b)-373a).

(8) O Morgadio do Azinhal foi instituido em 1539. Na 2ª. metade do séc. XIX a propriedade entrou em
poder da família Matos Fernandes, e o Dr. Francisco Barahona Fragoso reconstruiu o solar rural e
enobreceu a herdade com tapadas de veados e outras espécies, tanques e pomares. O corpo principal do
edifício conserva ainda algumas características quinhentistas com fortes cunhais e torre angular.
Na face ocidental do pátio está a Capela dedicada à Virgem da Conceição, de estilo renascença e fundada
na 2ª. metade do séc. XVI; no seu interior existem dois painéis pintados a fresco representando temas do
Apocalipse de S. João.


(9) O denominado “Castelo do Giraldo” localiza-se nos limites da freguesia, nos contrafortes da Serra de
Monfurado. É um “povoado” neolítico/calcolítico, rodeado por uma muralha de pedra solta e quase
circular, com o perimetro de 114m e uma espessura de 3m. Aquando dos trabalhos arqueológicos
realizados por Afonso do Paço e José Fernandes Ventura (l960), encontraram-se diversos vestígios,
nomeadamente machados de pedra polida, pontas de seta de sílex, mós manuais de granito e fragmentos
de cerâmica. Existe a tradição de que neste “Castelo” se abrigava Giraldo Sem Pavor e seus
companheiros antes da reconquista da cidade de Évora aos mouros, assim como lendas de tesouros
escondidos.




Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado


GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.

Actualizado em Segunda, 21 Fevereiro 2011 11:17  


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