1758 Maio 29 - S. Bento do Mato
Memória Paroquial de S. Bento do Mato, Évora
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 23, nº 92, pp. 617 a 620]
Excelentissimo e Reverendissimo Senhor
Vossa Excelência me manda responder a huns interrogatórios, cujas respostas lhe fez a
saber sua Magestade, que Deos guarde ser do seu real agrado o sabellas; e obedecendo
ao preceito, guardando a ordem dos títulos e números, que nelles se contem, respondo
ao primeiro que consta de vinte e sete números à margem, cujo título he:
O que se procura saber dessa terra, he o seguinte:
1. Ao número primeiro respondo que esta freguesia de S. Bento do Matto(1) fica na
Provincia d’ Alentejo, no Arcebyspado de Évora; a mayor parte della he termo da dita
Evora cidade e a menor, em que está a igreja he termo de Evora Monte, de cuja matriz
he filial segrada e parte que he termo de Evora cidade desta mesma he comarca,
segundo a parte que he termo da villa de Evora Monte, he comarca de Villa Viçoza.
2. Ao segundo, que esta freguezia consta de herdades, cada huma de seu senhor, que a
[tem de posse] por título de morgado, capella, herança, doação ou compra.
3. Ao terceiro que a dita freguezia tem cento e noventa e hum vizinhos; e pessoas de
hum e outro sexo, nove centos e vinte e huma, a saber: menores de dez annos, duzentos
quarenta e quatro, mencionados do termo infante de hum só dia athé à dita idade; e seis
centos e settenta e sette, que excedem a referida idade de dez annos.
4. Ao quarto, que a igreja(2) da dita freguesia está situada na fralda de hum pequeno
monte, e rodeada de outros de tal modo, que nada he visto senão quando perto della se
chega, nem della se descobrem outros lugares.
5. Ao quinto, que não tem a freguezia termo, porque he inteiramente rural, antes ella he
termo , como se diz numero 1.
6. Ao sesto, que tem duas aldeyas; huma se chama Venda das Brosserans(3) em que há
estalagem, e consta de dezouto vizinhos; outra se nomeya Fóros d’ Arazucha(4), e consta
de quarenta. // e outo vizinhos; de ambas está separada a Igreja que junto a si só tem
quatro vizinhos, entrando neste número o Cura e o sacristão.
7. Ao séttimo que o Orago da igreja he o Patriarca S. Bento. He esta de huma só nave.
Tem sette altares, três na frente ou cabeça, e dous por cada lado no corpo da igreja; no
do meyo da frente, que hé o altar mor está a imagem do Orago, que he de madeira em
vulto. Nos dous collaterais da mesma frente, no do lado do Evangelho está a Imagem de
Nossa Senhora do Rozário, no do lado da Epístola a Imagem de Nossa Senhora da
Encarnação; os dous que no corpo da Igreja estão do lado do Evangelho são hum de S.
Braz, Bispo e Mártir, outro do Arcanjo S. Miguel; os do lado da Epístola são hum de
Santo Amaro Abbade, outro de Santo Agostinho Bispo, e Doutor da Igreja. Há nella
duas Confrarias, huma do Rozário outra das Almas.
8. Ao outavo, que tem hum só Cura ou Capellão curado, que tendo todas as obrigações
de pároco, para o ser inteiramente só lhe falta o ser perpétuo; a este manda passar carta
de Cura em cada hum anno o Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Arcebispo de
Evora, a quem pertence prover de Cura a tal freguezia. A sua congrua, que não sahe dos
dizimos, mas dos freguezes, a carta, e [obrigatória ...] as herdades he de duzentos e seis
alqueires de trigo e para a cavalgadura cento e treze alqueires de cevada, a contigente
[incerto]; porque se he dos vizinhos que podem em hum anno mais em outro menos: o
sermão a que tem chegado he a cento e settenta alqueires de trigo. O pé de altar que
tãobem he contigente dará hum anno por outro em trinta mil reis.
9. Ao nono, que não tem beneficiados.
10. 11. 12. Ao décimo, undécimo e duodécimo, que não há na freguezia convento
algum, nem Hospital, nem Caza de Misericórdia.
13. 14. Ao décimo terceiro e décimo quarto que em hum sítio inculto e montuozo
cercado de azinheiras, e sobreiras, cujos frutos são sustentação de animais [variados]
separada e distante das referidas igreja e aldeias meio quarto de légoa pouco mais ou
menos se descobriu no anno de 1754 huma imagem de Nossa Senhora do Monte do
Carmo, pintada no pequeno nicho da parede interior de huma cazinha toscamente
fabricada de pedra e barro por huns eremitas, que fazendo vida solitária nella habitaram
athé o anno de 1754, em que de todo a dezampararão. Descobrio-a huma mulher que
chegando a este sítio e cazinha, sem saber o que nella havia, assim que viu a Imagem da
Senhora a venerou e lhe pedio remédio para huma enfermidade que padecia; e
sentindosse melhor logo, e dahi a poucos dias inteiramente sã, publicou o sucesso, que
divulgado concorrerão e concorrem ainda hoje varias pessoas não só dos lugares
vizinhos, mas ainda dos distantes, huns pedindo remedio das suas deformidades e de
seus animais, promettendo esmolas para a fabrica da sua ermida: outras offerecendoas
em agradecimento das mercês, que confessão ter recebido; outras dando-as
deliberadamente para o mesmo fim. //
Deu-se parte de tudo isto ao Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Arcebispo já
nomeado, em cujo Arcebispado estava e está o dito sítio que logo deu providência para
que se arrecadassem com segurança as esmolas e oblações que para a fabrica da Ermida
se dessem e oferecessem. Teve disto [conhecimento] o senhor da herdade em que estava
sita a dita cazinha que he morador na cidade de Elvas e se chama Martinho Lopes Lobo
Saldanha, moço fidalgo da caza de sua Real Magestade e Capitão de Granadeiros [...] e
Excelentissimo e Reverendissimo Senhor por sua petição, que ele queria doar a area
necessária para se edificar a Ermida e [... prir] de sua fazenda aquillo a que não
chegassem as esmolas e oblatas, pedindo que lhe desse faculdade [...] em seu nome
receber e dispender o que para a dita edificação fosse dado e oferecido e prontamente
[...] de o fazer Padroeyro da sobreditta Ermida. Tudo conseguiu de sua Excelência
Reverendissima deixando para si e seus sucessores reservado chamar-lhe [...] e ficarlhe
a ermida sujeita [...] confinar na dita herdade chamada Arazucha seis mil reis em cada
hum anno para a fabrica da Ermida [...] mandou em seu despacho se fizessem as ditas
obras. Com este despacho entrou o dito senhor da herdade a cuidar da Ermida, e se
começarão e findarão as paredes e abóbada da mesma no anno de 1757, e de prezente se
continuão na perfeição do [...] não cessando o concurso das esmolas e gentes, que
publicão ter recebido da Senhora muitas [...] que testificão com as oblatas de cera, que
são em grande número [...](5).
15. Ao decimo quinto, que os frutos que na freguezia se colhem em mayor abundancia
são trigo, e cevada e centeyo menos, porque […] de todos os generos se semeam.
16. Ao decimo sesto que está sujeita no governo das justiças da cidade de Évora e da
Villa de Evora Monte, segundo a parte que ao termo de cada hum pertence, porque nella
não há juiz ordinário nem comarca.
17. Ao décimo settimo que não he couto, termo, cabeça de concelho, nem honra, nem
behetria.
18. Ao decimo oitavo que se consta ter sahido dela insigne em letras e virtude o muito
reverendissimo Padre Provincial […] da Companhia de Jesus, o Doutor João Henriques.
19.. 20., 21. Ao decimo nono, vigesimo e vigesimo primeiro que não tem feira alguma,
nem correio, serve-se do da Cidade de Évora, capital do Arcebispado, de que dista de
que dista trêz legoas e de Lisboa capital do Reino dista vinte e huma legoas dezouto por
terra e três por mar.
22., 23. Ao vigesimo segundo e vigesimo terceiro, que não consta ter privilégios ou
couzas dignas de memória. Não tem lagôa alguma, nem couza célebre nas agoas de suas
fontes e poços.
24., 25. Ao vigesimo quarto, e vigesimo quinto, que não há nella mar, nem muros, nem
praça de armas, nem torre, nem castello.
26. Ao vigesimo sexto, que no terremoto de 1755 não (hou) // houve ruina notavel,
apenas se abrirão de novo algumas pequenas fendas, ou rachas nas paredes, ou se
alargarão as antigas, o que facilmente se reparou.
27. Ao vigesimo séttimo, que não me consta haver nesta freguesia couza alguma mais
digna de memória, fóra da referida.
Ao segundo intérrogatório, que contém treze números marginais, cujo título hé:
O que se procura saber de sua Serra hé o seguinte:
Respondo que nesta freguesia não há serra alguma, ainda que he montuoza, e aspera da
parte do Nascente e Norte. Os frutos que produz a terra são os declarados no número
15. do primeiro interrogatório. Crião-se nella vacas, ovelhas, cabras e animais imundos
[de cada] couza pouca, e ainda munta de caça, lebres, coelhos e perdizes; e nada mais
há digno de memória sobre o segundo interrogatório e seus números.
Ao terceiro interrogatório, que consta de vinte números marginais, cujo título hé:
O que se procura saber do Rio dessa terra hé o seguinte:
Respondo que nesta freguezia não há Rio algum mas só duas ribeiras com o nome de
ribeiras, chama-se huma a ribeira de Fonte Boa, na qual há huma ponte de pedra e cal;
chama-se a outra a ribeira de Pardielas. Correm ambas do Norte para o Sul; aquela na
distância de huma legoa, esta na de trêz pouco mais ou menos entrão na ribeira chamada
Odijebe, onde tomão este nome, perdendo os que sempre antes de nella entrarem
conservavam. Das agoas destas duas ribeiras se uza livremente e tãobem livremente
se pescaão huns pequenos peixes, nam pouca quantidade chamados bordallos e
pardelhas. As margens da ribeira de Fonte Boa são cultivadas, e produzem trigo,
mellões e mellancias. As margens da ribeira de Pardielas são incultas e fragozas, e o que
produzem são mattos de azinho e sôbro. Nada mais há que responder digno de memória
sobre o terceiro interrogatório, e seus números.
Isto, e nada mais, hé o que pude saber acerca do interrogatório que Vossa Ecxelência
me manda responder e tudo o mais que me ordenar cumprirei com a mais rendada
obediência.
São Bento do Mato 29 de Mayo de 1758.
De Vossa Excelência O mais humilde e obediente subdito O Cura Braz Mendes
Varregoso
(1) S. Bento do Mato: Freguesia rural do Concelho de Évora. O principal núcleo populacional e sede da
freguesia é Azaruja. Área: 6 655ha. População presente: 1 447 hah. (Censos 1991). O seu nome parece
estar ligado a devoção popular a S. Bento, protector das pestes, mordeduras de víboras e lacraus que
existiam abundantemente nesta região.
(2) A Igreja Paroquial (junto ao cemiténo é um edificio construído ou reconstruido no século XVI, mas que
sofreu profundas alteracões no XVIII, subsistindo do primitivo apenas a capela-mor, a sacristia e o
arcobotante que serve de escada para o campanário; na parede exterior da capela-mor são visíveis os
esteios de uma anta desmantelada.
Apesar de estar classificada como “Imovel de Interesse Público” (1957), encontra-se bastante arruinada e
desprovida de imagens religiosas.
(3) Morgadio das Brosseiras foi instituido pelo Doutor Alvaro Cardoso e já existia em 1420.
(4) Nos meados do século XVI já existia neste local uma ribeira denominada “Razucha ou Alarucha”, que
deu o nome a uma herdade, propriedade, em meados do séc. XVIII, de Martinho Lopes Lobo de
Saldanha. Este proprietatio aforou uma determinada área, originando o aparecimento dos primeiros fogos
habitacionais. “Alarucha é, provavelmente, um hidrotopónimo dc origem árabe, como existem tantos
outros no Alentejo.” - Marta Ângela Beirante, Évora no Idade Média, tese de doutoramento, pág. 8.
Não se conhece o diplome régio da sua elevação a vila, porém nas Tábuas Topográficas e Estatístisas
(1801) é mencionado “Aldea do termo de Évora criada Vila”; também nos inícios do séc. XIX aparecenos
sob a designação de “Vila Nova do Principe Regente”.
Em 1835, o inglês Tomás Reynolds instalou na Azaruja a primeira fábrica de cortiça, cuja direcção
técnica entregou ao catalão André Camps, que chamou operários da Catatunha para a dita fábrica.
(5) Ermida de Nossa Senhora do Carmo: localiza-se a cerca de 2 km da Azaruja; foi construída em 1757/58
(as construções anexas - pousadas dos peregrinos e casa do capelão privativo foram construídas em 1771.
1781, 1790 e as outras construções existentes são posteriores. Foi construida por Martinho Lopes Lobo de
Saldanha (Padroeiro) e doações dos devotos. Origem: neste local existiu um modesto nicho em barro
amassado, erguido por eremitas filiados na Ordem do Monte Carmelo, que habitaram o local até 1754;
cerca de três anos depois, chegou ao local uma mulher doente que ao ver a imagem da Senhora a venerou
e lhe pediu remédio para a sua enfermidade. Alguns dias depois, sentiu-se inteiramente sã e divulgou o
sucedido, começando logo a acorrer muitas pessoas de lugares vizinhos e distantes; o proprietário da
herdade ao tomar conhecimento destes factos, doou área para a erecção da ermida e propôs-se como seu
padroeiro. Características da Ermida: Estilo rococó, de características rurais, com planta octogonal
irregular, telhado de oito vertentes, 3 portas, sendo a principal soltada a Norte; mede 7.85m × 7,77m; no
interior destacam-se os estuques polícromos e de relevo, a capela-mor de talha dourada, a imagem da
padroeira pintada na parede a têmpera, os dois retábulos laterais - St°. André Avelino e Srª. Ana e a
Virgem e o grande conjunto de pinturas votivas dedicadas à Senhora do Carmo. Romaria: a festa
principal realizava-se no segundo domingo de Setembro e durava três dias; foi considerada das mais
importantes do Sul do Pais e a ela acorriam grande número de pessoas. Na Ermida de Nossa Senhora do
Carmo existe um conjunto muito grande de “quadros votivos” dedicados à Senhora do Carmo, que
inundam e recobrem quase na totalidade as paredes do templo e da sacristia, imprimindo ao ambiente
poesia e religiosidade. São cerca de 1500 “quadros”, sendo um dos mais antigos de 1754, pintado em tela.
Quadros Votivos: são painéis pintados que atestam e celebram admiráveis milagres, proclamando e
perpetuando o reconhecimento pelas graças obtidas; exprimem, pois, a gratidão e o sentimento religioso e
foram concebidos para figurar como exibição votiva em locais de culto. Outros nomes por que são
conhecidos: “milagres”, “retábulo figurativo”, “tabuíae votiva”, “ex-voto”, “retábulo pintado”, etc.
Origem: a maioria dos autores filiam-nos nas “tabulae” ou “tabellae” rontanas, enquanto outros vêm
neles, à semelhança das alminhas, um expediente da Contra-Reforma; o insestigador Carlos da Silva
Lopes considera-os uma consequência do surto retabular, que eclodiu em Portugal cerca de meados do
séc. XV.
Características: Obedecem, geralmente, a 4 regras de figuração: representarão da força natural (do
sagrado), figuração do votante ou daquele que faz o apelo; representação do sucesso que fez a invocação
e legenda (nem sempre existe) que proclama o carácter gratulatório da tábua. Material: madeira, tela,
folha de Flandres, papel, vidro, cortica. Técnica: óleo, sobretudo, com ou sem protecção em verniz,
raramente à têmpera. Artistas: artífices e amadores ocasionais.
Descrição horizontal do cenário
Importância histórico-cultural: são um valioso testemunho da religiosidade popular, que exprime o
sentimento de gratidão para com a intervenção divina. São uma forma de arte popular, sinónima de arte
tradicional e colectiva.
Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado
GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.
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