1758 Maio 28 - Nossa Senhora da Tourega
Memória Paroquial de Nossa Senhora da Tourega, Évora
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 37, nº 87, pp. 951 a 965]
Notícia e [ge]ografia da Freguezia de Nossa Senhora da Assumpção da Tourega(1) termo
da cidade de Évora.
Na Provincia do Alentejo comarca termo e Arcebispado de Évora cidade que hé de El
Rey Nosso Senhor Dom Jozé primeiro, que Deos guarde , em campina raza, na
distância de duas legoas para a parte do poente e dezanove a capital do Reino , sítio
donde se descobre a Villa das Alcaçovas e a Villa de Vianna que lhe [dista] três legoas a
parte do Sul e Sudueste está situada a Freguezia de Nossa Senhora da Assumpção da
Tourega, Parochia que comprehende trinta e quatro herdades, cinco quintas , sete
moinhos de água e doze fornos que estão a ocupar cento e doze vizinhos e noventa e
sete são os cazeiros que vivem nas herdades em que não moram os [lavradores] porque
as cultivão da cidade e de outras partes os que as [trazem por sua conta]. Tem pessoas
maiores quatrocentas e vinte e duas e menores trinta e três.
O seu districto tem de comprido duas legoas e meya, e de largo duas legoas. Vezinha
da parte do Nascente tem a freguezia da Sé de Évora, da parte do Norte com a de S.
Mathias, que lhe dista legoa e meya, a Poente lhe ficão a freguezia de Nossa Senhora da
Boa Fé e a de S. Brissos huma legoa a de S. Braz do Regedouro à parte do Sul huma
legoa, e a matriz da Villa de Aguiar duas legoas a Sueste e outras duas a freguezia de S.
Marcos da Abóbeda.
Hé huma das mais antigas freguezias de todo o termo da cidade de Évora. O Pároco
tem o nome de cura [...] apresentação do Excelentíssimo e Reverendissimo Senhor
Arcebispo de Évora. Dão os freguezes ao cura huma congrua [de sustentação arbitrada]
// e posta nas herdades e prédios a que chamão bolo do pároco e este bolo são obrigados
a pagar os lavradores que cultivão as herdades ainda que nelas não morem e não tendo
lavradores o pagão os mesmos senhores delas. Hé o bolo que se paga das herdades trêz
moyos e quarenta e oito alqueires de trigo, de cevada pagão hum moyo e quarenta e
nove alqueires que faz cinco moyos e vinte sete alqueires de trigo e cevada das
herdades. Pagão mais cada hum dos cazeiros dous alqueires que faz o bolo ao todo com
a cevada oito moyos e nove alqueires.
Junto à Igreja e Cazas do Pároco há hum passal a que chamão a [Calada] que semeão os
párocos que della estão emposse tão antiga, que quando o Sereníssimo Cardeal Rey
Senhor D. Henrique deu cinco herdades desta freguezia para património do Real
Collégio da Purificação (em huma das quais está o dito passal) e dellas são
administradores os Reverendos Padres da Companhia do Collégio da Cidade de Évora,
já estavam os párocos de posse e nella se tem conservado e conservão. Tem mais humas
cazas na rua dos Mercadores da dita cidade que lhe deixou Maria Ferreira para pouzada
do dito pároco, que hoje estão com obrigação de quatro missas que se dizem por alma
da mesma que deixou hum [cruzado] para as quatro missas em huma vinha de que não
há notícia de quem a possue e como possue o paroco as cazas diz as quatro missas.
Nesta Igreja há hum benefício simples com o títullo de Prestimonhio sem evidência nem
penção, cuja aprezentação he humas vezes dos Excelentíssimos e Reverendissimos
Arcebispos de Évora, e outras do Papa por ser a data alternativa. Cobra o beneficiado
que o possue a renda da herdade do Freixo desta freguezia a de hum pomarinho que esta
na mesma herdade. Rende esta cento cincoenta alqueires de trigo e setenta alqueires de
cevada e varias pitanças, rende o Pomarinho dez mil reis e desta renda se tira o [...]. He
o orago desta freguezia Nossa Senhora da Assumpção com titulo da Tourega que parece
tomou este nome com pouca correição da cidade de Tourigia que dizem aqui foy situada
nos tempos antigos hoje commumente se chama Ourega(2). He a Igreja(3) de huma nave,
tem três altares, o altar mor he fechado por cima a dita capela com huma abobeda de
feitio de concha; nele está collocado o tabernáculo do Santissimo Sacramento feito de
talha e madeira dourado, o retábollo hé taobém de talha, mui antigo e dourado com seu
nicho donde está a soberana e bem feita imagem de Nossa Senhora da Assumpção
estofada de ouro com sua coroa imperial. A parte da Epístola está huma linda imagem
de Santo António com o Menino Jesus sobre o livro estofado de ouro com sua diadema
de prata e da mesma parte a imagem de S. João de Deos da parte do Evangelho está a
imagem do menino Deos de vestidos com sua coroa de prata e o gloriozo São Sebastião.
Nas faces do arco da capella mor e dentro do cruzeiro aquem formão humas fortes e
bem feitas grades de ferro estão duas capellas collateraes ambas com retabolos de talha
dourada. Da parte do Evangelho esta huma perfeitissima imagem de Christo
Crucificado com seu resplendor de prata. Neste altar da parte do Evangelho está a
imagem do glorioso Archanjo S. Miguel estofado de ouro muito bem feito e no meio do
altar a gloriosa Santa Comba e da parte da Epístola a imagem de Santa Catherina de
estofo dourado; estão estas trêz imagens sobre a banqueta.
Na outra capela da parte da Epístola fica o altar do Rozário que em hum nicho tem a
imagem de Nossa Senhora do Rozário estofada de ouro, com sua coroa de prata e o seu
menino Jesus que tem nos braços. Tem na parte do Evangelho huma perfeitissima
imagem do Menino Jesus com sua coroa imperial de prata, e da parte da Epístola o
Senhor S. Jozé // (S. Jozé) muito bem feita e estofada de ouro. A irmandade que ha
nesta Igreja he prezente de Nossa Senhora do Rozário.
A parte principal da Igreja fica ao poente, a porta travessa a nascente ambas debaixo de
huma alpendroada de telhado de madeira sobre treze colunas de pedra parda e algumas
de mármore com suas bazes e capitéis que se diz forão dezenterradas deste sítio como
tãobem huma pedra de mármore enforma de campa de sepultura(4), de que faz menção o
P. Rezende.
Tem a inscrição em letras romanas ou latinas na forma seguinte:
D. M. S.
Q. lulio Maximo V.
Quaestori Prov. Silicia
Trib. Pleb. Leg.
Prov. Narbonens
Galia Prat. Disig.
anno XLVIII
Calpumia Sabina
Manto optimo
Q. Iulio Claro C. V.
IIII viro viarum
Curandarum
Anno XXI
Q. Iulio Nepotiano C. I.
IIII viro viarum curandarum
anno XX
Calp. Sabina Filis
Sahindo do dito alpendre para a parte do noroeste em distancia de duzentos passos
estão humas ruinas de edificios antigos, que hoje chamão as Martas(5), mostrão que
foram antigamente lagos ou tanques de banhos que uzavão os romanos; porquanto a sua
forma he de tanques grandes e piquenos, o mayor tem cento e vinte palmos de comprido
e de largo vinte e dous; os mais os cercão de redor, todos argamassados de seixinhos e
não se lhes conhece porta, contígo aos tanques que se ve as ruinas de huma torre e
parece foy arruinada com polvra, em circuito de todas estas ruinas se mostrão e
discobrem os alicerces de cazas como tãobem quantidade grande de bocados louza
argamassas queimadas que se parecem com escumalha de ferreiros.
Para este sitio em distância de duzentos passos para a parte // (A parte) do norte está
huma fonte o mays do anno prene, que tem o nome Fonte de Santa Innominata(6) para a
qual vem agoa por hum cano subterrâneo e corre em hum ambito de ferro da fonte
quadrado de pedras de cantaria que bem mostra a sua antiguidade, por muito gastas que
estão da mesma agoa.
Da igreja para a parte do nascente em distancia de quatrocentos passos está a Irmida da
glorioza Santa Comba(7), não muito grande, he de huma nave, tem somente hum altar e
nelle a imagem de Santa Comba de gloria estofada de ouro com seu diadema de prata
dentro em hum nicho com huma fina vidraça; o retabolo he de talha dourado. Ao lado
direito fica seu Irmão o gloriozo S. Jordão Bispo que foi de Évora, e a parte esquerda
está sua irmã Santa Inominata ou Anónima, em pintura bem feita nas próprias taboas do
retabolo.
A porta desta Irmida fica para o Poente com seu alpendre de tres arcos e frontespicio
com hum campanário e seu piqueno sino, aos lados da porta tem duas janellas com
grades de ferro por onde se ve o altar da Santa, em que já dito estão em pintura os dous
Irmãos da glorioza Santa Comba, glória e honra desta freguezia pois nella nascerão e
forão martirizadas as duas irmãs em tempo da persecução de Daciano no anno de
trezentos e tres da Redempção, cuja verdade a tem das memórias que [...] a comprova o
Auctor do Agiólogo Lusitano, principalmente o autor do seu comento em o primeiro dia
de Mayo, em que trata do martirio dos nossos Santos. Confirmase com o testemunho do
M. Rezende in Epist. [ad Barth Kebedium] fl. 15. O Padre António de Vasconcellos
[...Lusitanae] pag. 553 n°. 14. Francisco Luiz dos Anjos no Jardim de Potugal [...] os 20
de Julho pag. 183. O Padre Alvaro Lobo Cap. 14. O Licenciado Jorge Cardozo […]
Luzitanos 16:1°. Cap.8 // e finalmente huma relação breve in certi Authory impressa em
Lisboa no anno de 1644.
Corroborase com os milagres que Deos Nosso Senhor tem feito e faz por intercessão
destas gloriosas Samtas a todos os que se vallem do seu patrocínio de que são
testemunhas as paredes da sua Irmida que estão cubertas de milagres, como trofeus da
sua glória. Alguns tempos foi muy frequentada esta romagem, hoje se acha muito
deminuta.
Por dita de hum pobre romeyro que veyo vizitar a Santa Comba no anno de 1704 se
descobrio entre huns penascos huma vaya de agoa que mostra vir dos alicerces da
Irmida que lhe dista secenta passas, descuberta a fonte em hum pequeno charco ou cova
se conservou por algum tempo, levando agoa a varias doentes, forão evidentes os seus
milagres renovandose a devoção começarão a concorrer romeyros e augmentarse os
prodigios. Hoje está feita huma fonte no sitio aonde se descobria a agoa das mays bem
feitas que se vem nos campos; está debaixo de huma abobeda quadrada com sua cúpula
ou claraboya, servindo-lhe de entrada hum arco sobre o qual tem formado seu
frontispicio, está a agoa no meyo da caza com hum bocal de pedras lavradas, e a caza
ladrilhada, e corre por bayxo do ladrilho por hum cano para hum tanquinho, que está de
fora do arco, tendo de roda hum como atrio para onde se desce por dois lanços de
escadas.
Na distancia de hum quarto de legoa desta Igreja, indo della para a cidade de Evora
fica a Herdade do Barrochal que he huma das cinco que já disse: são administradores os
Reverendos Padres da Companhia do Collegio de Évora. Tem hum sumptuoso e bem
feito edificio em quadro; nelle assistem com rezidência material dous padres do mesmo
Collegio que (al) // alternativamente vem estar nesta nova residência pessoal(8). Tem
huma admirável e bem feita capella de regoroza e moderna talha dourada e pedra
primorozamente fingida, em que está collocada a imagem de Nossa Senhora da
Conceição feita com todo o primor da arte de escultura estofada de ouro com sua coroa
imperial prata da parte do Evangelho tem o gloriozo S. Jozé e da parte da Epístola S.
Ignacio tãobem feitas e estofadas como a Senhora.
Junto a este edificio tem huma nobre e singuliar quinta cercada de hum alto muro que
dentro em si tem vinha tão grandina que alguns annos passa de dar dous mil almudes de
[mosto] e continuão com grande quantidade de novo bacello. Tem varias e muitas
árvores frutíferas de toda a casta e por fora deste tem feito outra grande tapada de
soubro portada de estacas de oliveiras e zambujeiros e pegadas a estas duas tapadas tem
huma de bastante grandeza a que chamão orta com muitas plumagens novas que nella se
vão criando com as esperanças de hum bom pomar.
Na mesma estrada que vai desta freguezia para a cidade de Evora, mais adiante do
Barrochal hum quarto de legoa fica a quinta do Pomarinho que he da Caza do
Meretissimo e Excelentissimo Marquez de Valença; entrase por huma espaçoza porta de
cantaria para hum grande pátio, que tem no meyo huma bem feita fonte de mármore.
que he suposto hoje se vejão desconcertadas as suas pessas, são de vistoza arquitectura,
para a qual vinha ágoa por hum cano de repucho de huma fonte que está em huma
grande tapada, povoada de azinheyras, e oliveiras. Fica a tapada a parte do norte da
quinta e as portas en conrrespondência huma de outra, e entre ellas passa a estrada que
vem da Cidade para esta Igreja e para a Villa das Alcaçovas(9)
Tem a quinta humas nobres cazas junto às quaes (den) // dentro as quaes digo dentro da
mesma quinta está hum grande tanque para o qual vem agoa de fonte da tapada que já
disse. Tem huma grande nora com abundancia de agoa, que se tira para o mesmo tanque
e com ella se rega hum laranjal que tem e algumas árvores de outros frutos, algumas
oliveiras e seus pinheiros.
Em distancia de meia legoa desta freguezia a parte do norte está a quinta de Valverde(10)
que he dos Excelentissimos e Reverendissimos Arcebispos de Évora; he sitio na
verdade delicioso enobrecido com hum grande Pallacio formado de salas e galerias.
obra do Serenissimo Senhor Cardeal Rey e augmentada com outros edificios pelos
Excelentissirnos Arcebispos, Cabido em Sé Vacante, e novamente edificado pelo
Excelentissirno Reverendissimo Arcebispo Dignissimo D. Frei Miguel de Távora.
Forma hum espaçozo pátio pera o qual se entra per huma porta de bayxa de ayroso
frontespicio tem neste pateo huma fonte prene todo o anno, e tem defronte da porta do
Pallacio em distância de vinte passos, he de mármore e de primoroza architetura, tem
sobre huma bella tassa hum escudo de armas do Excelentissimo Arcebispo D. Frei
Domingos de Gusmão, sobre elle assenta hum chapeo Episcopal e da parte superior da
capa sabe agoa, que cahindo por toda a circunferência das abas, forma hum vistozo
chuveyro, que cahindo sobre a taça por quatro bicas, se recolhe em tanque da mesma e
sahindo desta por hum cano sobterraneo vay fertilizar hum jardim interior do Palacio,
laranjeiras da China e limoeyros que em si tem.
Em distância de seis passos estão em correspondência de huma e outra parte, ficando a
fonte no meyo, duas pedras de mármore de figura quasi quadrada com notaveis
mulduras, tem nas faces que estão para a fonte humas inscripçoens romanas em letras
latinas, de que falla o P. Rezende. A Igreja ou Capella do // (ou Capella) do Palácio tem
a porta para o dito pateo e em huma das ditas fica huma tribuna para a Capela que he de
abobeda com hum bem feito arco, que lhe devide a capela mor que tem retabolo de talha
dourada antiga, e nelle huma bem feita cruz. Tem por orago a Santa Cruz, da parte do
Evangelho está a imagem de Santa Roza de Lima, e da parte da Epístola a de S. Jacinto,
ambas de glória estofadas de ouro.
Tem a quinta três capellas, huma a que chamão Santo João do Dezerto, porque nela se
venera a imagem de S. João do Dezerto. He esta capella muy bem feita e ayrosa de
abóbada. Na distância de quarenta passos está outra capella fundada sobre huma lagem
e dentro da Capella a imagem de S. Theotónio. Mais adiante na distância de quinze
passos se vem humas capelinhas formadas entre rochas com singular architectura, huma
dellas he pequena em forma redonda, não tem sinal de ter tido altar he como gruta. Tem
a entrada dous nichos, como que servião de ter nelles algumas imagens, por cima he
cuberta de grandes penedos em forma de penhasco.
A outra capella he sobterranea, a entrada della he per entre penhas bem apertadas; e na
primeira penha está hum globo de pedra marmore que [...] se move em redondo figura
do Mundo, que mostra deve deixar quem entra para o dezerto. Assim se chama o sitio
desta capella. Antes de entrar nella está huma bem feita porta a que serve de patim hum
reducto de quatro arcos, que fazendo debayxo delles concavos fechados de abobadas
com muitos buracos para cima formão huma agradável vista; e entrando por hum
tranjeto entre rochas tão apertado? que em trabalho cabe hum homem, se ve a capella
que he redonda tem huma tão singular abobada em forma de concha com relevos muy
fundos, tem huma larga janella para o norte com // (com) suas grades de ferro. No altar
desta Capella está a imagem do gioriozo S. Miguel, a qual mandou fazer e collocar
nesta capella o Excelentissimo e Reverendissimo Senhor D. Miguel de Távora, e
mandou reedificar todas estas capellas que estavam muito arruinadas e sem culto e
outras mais obras que de novo mandou fazer na quinta.
Tem esta quatro lagos ou tanques de bastante grandeza, hum delles que está junto a hum
quarto do Palácio, he de forma redonda com fortissimas paredes, tem de circuito cento e
vinte passos e de fundo quatorze palmos; no meyo do qual fica huma como colluna
cercada de quatro satiros de mármore e faz da fonte de quatro bicas huma boa
prespectiva. A este lago se ajuntão as agoas, que de diversas e várias fontes que estão
fora da quinta em dystancia de mais de mil passos, se conduzem, por aquaductos sobre
arcos, e alguns de cantaria, até chegarem ao dito lago; como tãobem a agoa de hum argo
poço de cantaria, que tem a quinta com hum engenho de nora, que lança agoa a huma
grande altura da qual busca o aqueducto dos are os que trazem agoa das fontes ditas ate
o lago, donde para outros se reparte para milhor ser regada a quinta, cujo âmbito he
muitas vezes grande.
Cruzão várias ruas de arvoredos e latadas de parreyras que a devidem em quadras de
laranjas, vinhatarias e árvores de vários frutos e silvestres; destas há huma espaçoza rua
cercada de altissimos freyxos, que de huma a outra parte a povoão sem desconcerto de
deziguaes.
Fronteira à porta do páteo do Palácio em distância de duzentos passos fica a porta de
huma grande tapada cercada de altos muros, segue as margens da ribeira de Valverde
em bastante distância e volta cercando huns altos montes em o mais alto delles fica hum
grande pinheiral; e mais centro da tapada he matos silvestres.
Por coroa deste delicioso sitio se ostenta o Convento dos Religiozos da Província da
Piedade que tem por Orago O Bom Jesus de Valverde, obra tão regullar na architetura,
que ainda que pequena, não tem a arte nas obras claustrais, em que possa por nota na
sua fabrica. He a da Igraja unica por singular no Reyno da architetura: Compoemse de
cinco zimbórios formados sobre trinta e duas colunas de pedra mármore e forma huma
regullar figura de cruzeiro de tal sorte, que de qualquer parte que se veja se acha no
feitio a mesma correspondência.
Tem o zimbório do meyo mais levantado o seu ponto, na sua cupula, e sobre ella huma
claraboya com seis luzes resgadas de vidraças de que a Igreja recebe luz. Fica a capela
mor a parte do poente ocupando o âmbito de hum zimbório e os colateraes os dois da
silharga e o do meyo com que fica ao nascente compoem o Corpo da Igreja; deste se
devidem as capellas com humas bem feitas grades de páo, que feichão em oito colunas,
Tem no altar mor de finissima pintura huma devotissima imagem de Christo
Crucificado com a Sagrada invocação do Bom Jesus de Valverde, de tão devoto
aspecto, que infunda devoção a quem o ve. Neste mesmo altar está o tabernáculo do
Santissimo Sacramento. Da parte do Evangelho está o Patriarca S. Francisco e da
Epístola S. António.
No colatral da parte do Evangelho está hum retábulo da mesma pintura a Ascenção de
Christo Senhor Nosso e a imagem de Nossa Senhora da Conceição e na outra Capela no
retabolo pintada a Adoração dos Pastores e em vulto a imagem de Nossa Senhora da
Esperança e outro do Menino Jesus(11)
He esta obra tão singular, que nella mostrou //o braço régio do seu fundador Padroeyro
o Serenissimo Senhor Cardeal Arcebispo D. Henrique, que depois foy Rey que em área
tam pequena pode acumullar grandeza tanta sendo tanto do agrado de Deos este
Conventinho que somente tem quatorze cellas em trez dormitorios, tudo de abobadas,
que por serem continuas nos religiozos as enfermidades a dezempararão por mandado e
ordem do seu Provencial que então era a instancia de huma carta que escreveu o
Arcebispo de Évora o Senhor D. Alexandre filho do Duque o Senhor D. João e da
Senhora D. Catharina, a hum capitulo que se celebrou em o Convento de Santo António
de Coimbra pelos annos de 1607 pedindo quinzesem deixar aquella Caza de Valverde
tirando della os Religiozos. Admitirão os frades o concelho, o que logo se poz em
effeito, largando no mesmo anno a Caza.
Sentia isto grandemente a Cidade de Évora, pois era a gente della a que vinha muitas
vezes em romaria ao Bom Jesus de Valverde pela muita devoção que lhe tinha e pedia
muito e suplllicava que tornasem os Religiozos para o Convento de Valverde e
accrescentou mais esta supplica da Cidade hum repetido prodigio que os pastores
daquelle sítio contavão.
Dizião estes que muitas vezes ouvirão tocar a matinas a sina e rezarem-se no curo pela
meya noite ao mesmo tempo que os frades as rezavão que então alli moravão. Huma
noite ajuntandose huns poucos, quizerão examinar este prodigio e supposto que quando
chegarão à porta do Convento ouvirão que se regava no coro, subindo acima parou a
reza e ninguém virão […] assim esteve o Convento desemparado até que aos contínuos
rogos e supplicas da cidade se ajuntou huma carta do Bispo de Miranda D. Diogo de
Souza, primeiro do nome [...] já Arcebispo de Evora por morte do Senhor D. Alexandre,
o qual pedia // pedia ao Provincial que então era Frei Pedro da Penalva, quizesse outra
vez povoallo de frades; porque não era bem se esquecesse huma devoção tão particular
como o Cardeal D. Henrique nelle tinha, nem tãobem deixasse de continuar tanto
serviço de Deus, quanto se lhe fazia naquelle ermo. Por todas estas razões, em hum
capitulo que se fez em Évora no anno de mil seiscentos e dez, o tornaram a aceitar. As
ruinas que nesta freguezia se padecerão foy a maior em hum pedaço de parede que
cahio sobre a capella mor [...troirnento] dos telhados e varias raxas nas paredes da Igreja
e do Convento de Valverde, e Palácio de quinta, e em muitas mais cazas da freguezia, o
que tudo cauzou o terremoto do primeiro de Novembro de 1755 porem hoje está tudo
reedificado.
Os frutos que esta freguezia dá em mayor abundancia são de senteio, trigo e cevada,
azeita que nos annos da novidade chegão a perto de quatro mil alqueires. Tem huma
lagoa de duas varas na herdade a que chamão do Conde, que hoje hé da Caza do
Illustrissimo e Excelentissimo Marquez de Vallença , tem mais três herdades de
montado, porem pequenas. Todas são de boas pastagens para qualquer qualidade de
gados. As cinco quintas que são Barrochal, Pomarinho, Valverde, da Ponte e das Almas
dão bastante vinho, especialmente a do Barrochal, que só por si dá mais que nas mitras
todas desta freguezia.
Nos confins desta freguezia a parte do norte meya legoa fica a Serra de Montemuro,
que disto da Cidade de Evora a parte do poente legoa e meya; he […] do Concelho da
mesma cidade e como os parocos que vizinhão commigo, tenhão nesta montes da sua
jurisdição, e a elles toca, ou pertençe, a discripção desta Serra e so me parece poderey
entrar nesta com a do Castello Giraldo, por estar este muito próximo do sitio de
Valverde desta freguezia. //
He o Castelo Giraldo na sua architectura parte fabricada pela natureza pois da parte da
cidade lhe serve de muralha huma alta rocha que se levanta a prume e continua em
circuito supprindo as suas falta huma parede de pedra e barro da largura de três varas, e
tem de circuito trezentos passos, cercão a este Castello ordenados reductos, como
fossos, desvelho de muralhas grandes penedos em rochas que juntos huns com outros
constituem as suas muralhas. Ha tradição que neste Castello se fazia forte e refugiava o
valente e intrepido Giraldo coni seus companheiros de quem o Castello tomou o nome(12)
Correm pelo districto desta freguezia trêz ribeiras huma a que chamão o Charrama que
não perde o nome senão [...] Peramanca, que conserva o nome até o Diege que começa
com este nome na freguezia de S. Braz do Regedouro, distância desta de huma legoa à
ribeira da Tourega que passando por aqui assim se chama por Valverde de Valverde,
por a freguezia de S. Mathias de S. Mathias e metendose na ribeira do Diege nella perde
os mais nomes; o principal della he da freguezia da Graça do Divor, que fica desta
freguezia a parte do Norte na distância de duas legoas e meya; o Charrama em toda a
parte a parte que tem nesta freguezia, não tem ponte alguma. A da Peramanca a tem de
bom arco de cantaria na estrada que da cidade de Évora vem para esta freguezia e para a
Villa das Alcaçovas. A ribeira da Tourega, que assim tem o nome emquanto aqui passa
e a de Valverde por correr por esse sitio em o qual tem na estrada que da cidade de
Évora vem para Alcaçovas huma ponte de quatro arcos [bayxos …] que facilmente se
cobre com os enchementos das agoas. //
Tem esta rio districto da freguezia seis moynhos , são as suas agoas livres e em todas
se cultivão parte de suas margens de trigo ou senteio. Não são tapadas de arvoredos,
nem de fruto, nem silvestres. O Charrama tem bom moinho.
Aos mais interrogatórios não tenho nesta freguezia que dizer; e por isso nada mais digo
ao que he ordenado na carta que recebi de Vossa Excelência e Reverendissima que Deus
guarde. Nossa Senhora da Assumpção da Tourega. 28 de Mayo de 1758.
O Paroco Antonio Pires da Silveyra
(1) Nossa Senhora da Tourega: Freguesia rural do Concelho de Évora. O principal núcleo populacional sede
da Freguesia é Valverde. O acesso é feito pela EN 380 (Évora- Alcáçovas). Em 1864, sob a designação da
Ourega, a freguesia possuía 576 habitantes; em 1878, já figura com a denominação de Tourega (Nossa
Senhora da Assunção) e possuia 688 habitantes. Nos anos de 1911 a 1920 a freguesia esteve anexa à de
Nossa Senhora da Graça do Divor, tendo, na entanto, sido desanexada em 18/ 10/ 1926 (DL n°. 12 509);
assim no Censo de 1930 possua já 1186 habitantes. Em 1936 (DL n°. 27 - 424) passou a englobar S. Brás
do Regedouro.Área: 19 420 ha.
População presente: 859 hab. (Censos 1991).
(2) Esta região é povoada desde tempos remotos, conforme o comprovam os numerosos e signicativos
vestígios arqueológicos existentes. A origem do seu nome é, provavelmente, romana. “Do nome Turibrici
[…] de uma divindade local, há formas aproximadas como Turobriga (inscrições da Mérida e Medelin)
[…]” - Gabriel Pereira, Estudos Eborenses, Vol. I. pág. 52.
“Ourega, dizem alguns, e em documento dos últimos séculos assim aparece por vezes designado este
sítio. Nos documentos mais antigos diz-se Tourega. D povo hoje diz Tourega; mas uma vez um pastor
disse-me: Tourega é na Charneca, Ourega na Serra.” - ldem, Vol. II, p. 312.
Muitas tradições antigas e populares, modificadas pelos eruditos, andam ligadas a este local.
(3) A Igreja Paroquial é um edifício quinhentista de que subsiste apenas com merecimento artístico a
capela-mor, com interessante retábulo de talha dourada; encontra-se arruinada.
Frei Agostinho de Santa Maria diz “Esta egreja da Senhora é a mais antiga de todas as do termo de Évora,
e querem alguns que seja mais antiga que a mesma sé da cidade [... ] – Santuário Mariano, Vol. 7°., pág.
539.
(4) “S. Viário”: “Na igreja estava um altar sustentado sobre quatro colunetas, e dizia-se ser o túmulo de S.
Viário, bispo. Em 1540, o cardeal bispo D. Afonso teve curiosidade de saber ao certo que santo era este, e
mandou André de Resende examinar o local, a inscrição, o altar; e o notável arqueólogo declarou que não
havia tal santo e mandou entupir o altar.” (Idem, pág. 311). Tratava-se de uma lápide dedicada pela dama
Calpurnia Sabina à memória do marido e dos dois filhos.
(5) Junto à Igreja Paroquial existem importantes vestígios de ocupação romana, que estão a ser alvo de
estudo arqueológico. Existem notícias destas ruinas (“as Martas”) desde o séc. XVI; André de Resende,
Diogo Mendes de Vasconcelos, Manuel Severim de Faria, Manuel Fialho, Cunha Rivara, Gabriel Pereira.
A. F. Barata. Túlio Espanca, entre outros.
(6) “Caminhando para o norte a partir dos tanques, desce o brando decliva da colina e, percorridos cem
metros a “fonte romana”, designação talvez de origem erudita, ou de “Santa Dominaa, dizer que revela
tradicão antiga; “Dominata”, “Inominata”, a “Anónima”. É uma escavação defendida por umas pedras
sem feitio; a água vem por um cano subterrâneo, e tem na crença local virtudes medicinais, salutar
principalmente nas doenças dos olhos. Que alguns desses silhares de granito estão ali há longos séculos, e
foram em tempo muito usados (de há muito que é rara a frequência naquela fonte), parece certo pela gasto
de suas arestas.” - Gabriel Pereira. Idemn. pág. 316.Nas proximidades da arruinada Ermida de Santa Comba encontramos a Fonte Santa ou de Santa Comba, onde, segundo a crença popular tombaram as cabeças degoladas de Santa Comba e de sua irmã Santa
Inominata.
(7) A Ermida de Santa Comba está completamente arruinada. Era uni pequena edifício do séc. XVI. de
estilo barroco, com a fachada voltada a ocidente.
(8) O Barrocal pertenceu ao património da Fábrica da Real Colégio da Purificação, cujos administradores
eram os padres da Companhia de Jesus. Com a expulsão dos jesuítas, a Coroa cedeu a propriedade aos
condes-barões de Alvito.
(9) A Quinta do Pomarinho pertenceu aos Condes de Vimioso e Marqueses de Valença, todavia, poucos
vestígios existem actualmente da grandeza do antigo edifício rural.
(10) Nos princípios do séc. XVI a Mitra Eborense instituiu uma quinta e paço para descanço e retiro
espiritual em Valverde. Em 1554, D. Henrique fundou um convento capucho que designou por “Bom
Jesus”. Anexa ao paço encontra-se o “Jardim de Jericó”, onde existe um grande lago circular, adornado
por bandeiras recurtadas, intervaladas pelos bustos marmóreos, dos profetas Abraão e Elias, e ao centro a
estátua de Moisés. O Convento de Bom Jesus, cuja portaria é antecedida por um alpendre do séc. XVI,
possui uma bela igreja renascentista, de estilo dórico; o templo é formado por cinco capelas octogonais
cobertas de cápsulas esféricas, das quais a central assenta num tambor.
(11) Veja-se o recente estudo de Manuel Branco, “A fundação da Igreja do Bom Jesus de Valverde e o
tríptico de Gregório Lopes” in Boletim A Cidade de Évora, n°. 71-76, pp. 39-71.
(12) Povoado neolítico/calcalítico.
A este local andam associadas várias lendas, como a de ter sida este “Castelo” o local de refúgiu de
Giraldo, “Sem Pavor” e seus companheiros, antes da reconquista da cidade de Évora aos mouros; ao lado
desta lenda medieval, há outras de tesouros escondidos, guardados ou não por mouras encantadas: “No
Castelo do Giraldo há uma mina cheia de ouro, cuja entrada está oculta por uma grande pedra. A pessoa
que quiser tornar conta de toda aquela riqueza precisa sonhar com ela três noites seguidas e depois ir lá à
meia noite, levando consigo um alqueire de milho, que principia a espalhar pelo chão desde a base até ao
alto da monte, aparecendo logo um galo preto que começa a comê-lo com grande voracidade. Todo o
trabalho de subida ao Castelo, procura e desobstrução da mina, bem como a recolha do ouro tem de ser
feito antes que o galo coma o último grão, caso contrário sai de dentro uma serpente que a mata” - Afonso
do Paço e José Fernandes Ventura, Castelo do Giraldo (Évora). I - Trabalhos de 1960, Guimarães, l961,
pp. 6-7.
Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado
GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.






