Memórias Paroquiais

  • Aumentar o tamanho da fonte
  • Tamanho padrão da fonte
  • Diminuir tamanho da fonte
Início Lista de Memórias Crato Crato - Flor da Rosa

Crato - Flor da Rosa

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

1758 Setembro 28 - Flor da Rosa
Memória Paroquial de Flor da Rosa, Crato
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 15, nº 90, pp. 557 a 564]

/p.557/

N.90

Flor da Roza1

 
Respondendo aos interrogatorios inviados pelo Reverendissimo Provizor deste Grão
Priorado do Cratto, em observancia da real determinação de Sua Magestade fidellissima
que Deos guarde, direi o que me consta emquanto a esta freguezia de Nossa Senhora de
Flor da Roza, sita no arebalde da vila do Cratto, e com isso pellos interrogatorios da
terra satisfazendo individualmente a cada hum delles.
Ao 1º. que aqui hé a nova freguezia de Nossa Senhora de Flor da Roza, erecta
em parochial por decreto do Serenissimo Snrº. Infante Dom Pedro, que Deos guarde, de
vinte e hum de Setembro de mil setecentos e quarenta e nove, sita em huma pequena
povoação, chamada Flor da Roza, e reputada por arebalde da vila do Crato, em cujo
termo está, distando da mesma villa meyo quarto de légoa; a dita freguezia se acha na
Provincia do Alentéjo, como tambem a vila, a qual hé cabessa de comarca de ouvidoria
para esta povoação, e outras terras, pertencendo aliás á cidade de Portalegre emquanto á
Provedoria a mesma vila, e este seu arebalde, ou termo.
Ao 2.º que a vila do Cratto, e este seu arebalde são dos Serenissimos Grão
Priores do Priorado do Cratto, cujo emprêgo tem actualmente o Serenissimo Snrº.
Infante Dom Pedro que Deos guarde.
Ao 3.º que nesta povoação, e districto pertencente á freguezia, há cento, e
quarenta fógos, quatrocentas pessoas de confissão e comunhão, quarenta só de
confissão, e cem innocentes, que não estão ainda obrigados aos preceitos.
Ao 4.º que está situada em valle este arebalde, e que de dentro delle nẽhuma
povoação se ve.
Ao 5.º que já se affirmou ser termo do Crato, e agóra se acrescenta que esta
freguezia álem da povoação, em que está a sua parochial igreja, não tem lugares, ou
aldeas no seu distrito.
Ao 6.º que a dita igreja está no fim do lugar para a parte do norte, e emquanto ao
mais fica a resposta no antecedente interrogatorio.
Ao 7.º que o orágo he a dita Senhora de Flor da Roza, a quem alguns acrescentão
o titulo das Neves, quando se festeja a sinco de Agosto, que he o dia da Senhora das
Neves, fazendo da circunstancia do dia novo titullo para o objecto, se bem, averiguada a
verdade, a senhora

/p. 558/ A senhora só se chama de Flor da Roza, e com este titullo único era festijada
antigamente na primeira sesta feira de Março ou dia da Annunciação, nos quais só falla
o Santuario Mariano, ou Mapa de Portugal, quando excéde a memoria dos velhos
actuaes que sempre virão festejar a senhora a sinco de Agosto, como se pratica agora. A
igreja tem o altar da capella mór, ahonde está a senhora em huma singullar tribuna
dourada, que se fes de esmollas, e custou tres mil cruzados, e duzentos mil reis. Tem
mais dois altares collateraes, hum que fica á mão direita, quando vamos para o altar
mór, e he do Evangelista São Lucas, e o da mão esquerda hé de São Bras; alem destes
há mais dois altares, hum fronteiro ao outro, por se achar cada hũm em seu lado do
grande cruzeiro desta igreja parochial, o que fica para a parte direita quando vamos para
a capella mór tem huma singullar imagem do Snrº. São Jozé pegando com a mão direita
na esquerda do menino Jesus, e o que fica para a mão esquerda tem a imagem de S.
João Baptista. A igreja não tem naves, e tem cem palmos de altura. No meyo do grande
cruzeiro tem huma grande sepultura que dis ser de Diogo Fernandes de Almeyda, filho
de Dom Lopo de Almeyda, Conde de Abrantes, Grão Prior do Cratto, e mimozo dos
senhores reis Dom Manoel primeiro, e Dom João segundo, e foi duas vezes em socorro
de Rodes, morreo no anno de mil quinhentos e oito. Logo á entrada da igreja está outra
magnifica sepultura que se dis ser do Conde Nuno Alvares Pereyra, e tam [sic] há
tradição que a igreja quando foi feita, e este magnifico templo querião os officiaes antes
hum vintem do que hũ alqueire de trigo, e haverá quatrocentos e quarenta annos que se
fes esta obra. Não ha nesta igreja irmandades, só devotos dezignados por elleições
fazem algumas festas, sendo especial a da senhora, para a qual concorrem
alternativamente dois sitios deste arebalde, chamando Radinha a hum, e a outro Outeiro,
e sendo comummente juiz alguma pessoa de caza de Antonio Caldeyra de Abreu actual
capitao mor da vila do Cratto, e ellegendo se para escrivão algum sugeito do sitio a
quem hade pertencer a festa e desta sorte se festejão as Almas, o Santissimo
Sacramento, e São João Baptista.
Ao 8.º que o parocho se chama cura, e tambem reitor cura, e costuma ser
apprezentado pelo Serenissimo Senhor

/p. 559/ Grão Prior, e tem de renda tão somente dois moyos de trigo, vinte e sinco almudes de
vinho á bica, quatro mil reis, e quatro alqueires de azeite.
Ao 9.º que não tem beneficiados, e só tem hum capellão que apprezenta o
Serenissimo Senhor Grão Prior com obrigação de dizer sincoenta e duas missas pellos
instituidores, comemdadores, e bemfeitores da religião de Malta, cujo beneficio tem
actualmente o Doutor Affonco Francisco de Carvalho, promotor deste Grão Priorado, e
da veneranda asemblea, prothonotario appostollico, e procurador do dito Grão Priorado
cujo beneficio lhe rende hum moyo de trigo, e vinte mil reis em dinheiro, alem de duas
moedas de ouro que rendem huns farrajaes que dá ao servintuario, e juntamente
algumas offertas que lhe pertencem dos que morrem.
Ao 10.º e 11.º que nada disso tem.
Ao 12.º que não tem caza de Mizericordia, mas que vem os irmaos confrades da
Mizericordia da villa do Crato a esta freguezia enterrar as pessoas que morrem, e pello
seu trabalho lhe dão hum cruzado novo, e outro de esmolla a Santa Caza.
Ao 13.º que não tem mais do que huma ermida de S. Bento, e está distante desta
freguezia cento e sincoenta passos, e segundo consta da Choronica Benedictina de Aviz,
foi antigamente hospicio de relligiozos da mesma ordem.
Ao 14.º que só no dia de S. Bento de vinte e hum de Março acodem de romagem
algumas pessoas devotas desta freguezia, e da villa do Cratto.
Ao 15.º que se colhe nesta freguezia em mayor abundancia senteyo.
Ao 16.º que ja se disse estar esta freguezia no termo do Crato, e por isso he
sujeita ás justissas da dita villa, e de prezente nem juiz do povo, ou espadaneo tem,
como as aldeas circumvizinhas.
Ao 17.º que nada disso he.
Ao 18.º que sahio Dom Frei Francisco de Santa Roza de Viterbo Bispo de
Nankim, em que falla o Mappa de Portugual, tratando da Ordem de Malta, e mais
largamente a Biblioteca Luzitana, a Choronica da Provincia Serafica dos Alguarves,
alem

/p. 560/ do sermão das suas exequias pregado pello Reverendo Fr. João de Nossa
Senhora, que era religiozo da mesma Provincia, e se chamava vulgarmente o poéta, no
dia vinte e sete de Outubro de sincoenta e hum. Tambem he memoravel seu irmão o
Reverendo Frei Joze Martins prior da villa de Seda, bispado de Elvas, que ainda vive
com a idade de setenta e sinco annos, pois foi collegial da purificação theologo no Real
Collegio de Evora, e pello seu incansavel estudo he hum dos mayores theologos
misticos, e praticos, que se tem visto fora das religiões, alem de se ter sempre
empregado com disvello especial em doutrinar, e dirigir almas fazendo-se digno de que
por carta do Reverendo Henrique de Carvalho da sagrada Companhia de Jesus, se lhe
desse a escolher hum de tres ultramarinos bispados, a todos os quais regeitou. Tambem
sahio hum Frei Francisco de Nossa Senhora de Flor de Roza, pregador theologo,
sobrinho do dito bispo, e seu secretario, e companheyro, que sempre foi de vida
exemplar, e ainda se hacha [sic] no bispado de Mação convertendo almas para Deos e
missionando sem mais interesse do que a salvação da sua alma. Tambem falleceo nesta
freguezia, sua patria, hum João Vás Tenente militar, insigne na milicia, e de notavel
procedimento.
Ao 19.º que tem tres feiras francas de direitos reaes, e cada huma dellas dura
sómente hum dia, a primeira he na primeira Sesta feira de Março, a segunda a quinze de
Agosto, e a terceira a oito de Setembro, e só nellas se pagão terrados, parte ao
almoxarifado da villa do Crato, e parte á fabrica deste parochial igreja.
Ao 20. que não tem correyo, e se serve do estafeta da villa do Crato que vai no
Sabado buscar as cartas ao correyo da cidade de Portalegre, e leva las na Quarta feira,
cuja cidade dista tres legoas da dita villa, e esta deste arebalde hum quarto de legoa,
como ja fica dito em outro interrogatorio.
Ao 21.º que ja está dito quanto dista da villa do Crato capital deste Grão
Priorado, e de Lisboa capital do reino dista trinta legoas.
Ao 22.º que não tem previlegios, antiguidades ou outras couzas dignas de
memoria.


/p. 561/ Ao 23.º que não há fonte, ou lagoa alguma célebre nesta terra, ou perto della.
Ao 24.º que não he porto do mar.
Ao 25.º que esta terra não he murada, nem prassa de armas, e unido á igreja della
está hum castello tam antigo, como a igreja que foi convento de templarios, e de
prezente se acha ainda em bom estado por beneficios que lhe tem mandado fazer o
Serenissimo Senhor Infante Dom Pedro que Deos guarde.
Ao 26.º que esta terra não padeceo ruina com o terremoto de 1755, e só a igreja
della a padeceo grande, mas ja está reparada por ordem do dito Serenissimo Senhor
Infante. Tambem a ermida de S. Bento de que ja fis menção padeceo grave ruina, que
ainda senão reparou.
Ao 27.º que nesta terra se faz muita e singullar lousa de barro, como tambem
muita madeira de pinho inferior por estar junto a ella hum pinheiral grandiozo do
concelho da villa do Crato, e tambem de algumas pessoas particulares della. E
emquanto á igreja se pode ler o Santuario Mariãno, a Malta Portugueza, e a vida de
Dom Alvaro Gonçalvez Pereyra que se dis ser fundador della.
Nesta terra, nem no seu distrito não ha serra, e por isso senão dá resposta aos
terrogatorios [sic] pertencentes a ella.
Emquanto ao Rio, respondo aos interrogatorios que lhe pertencem pela forma
seguinte/
Ao 1.º que no distrito desta freguezia se une huma


/p. 562/ ribeirinha chamada Margulhão que nasse junto á aldea de Alagoa do bispado de
Portalegre, com outra ribeirinha chamada do Val do Pezo por nascer junto a huma aldea
deste mesmo nome e a união se faz na ponte de cojancas.
Ao 2.º que nascem pequenas e se seção de Verão.
Ao 3.º que não consta entrarem outras nellas.
Ao 4.º que não são navegaveis.
Ao 5.º que o seu curso sempre he quieto.
Ao 6.º que ambas correm para o poente vindo do nascente, mas a ribeira do Val
do Pezo nasce algum tanto para a parte do norte.
Ao 7.º que crião pardelhas, e alguns bordallos.
Ao 8.º que nellas se pesca livre, e coriozamente ao tempo do Inverno, e
Primavera, e de Verão só nos pegos, que ficão.
Ao 9.º que a resposta se deu ao interrogatorio antecedente.
Ao 10.º que emquanto ao distrito desta freguezia as margens caressem de
arvores, e tam somente tem em partes alguns pinheyros, e sovereiros mas cultivam se
com sementeiras de pão.
Ao 11.º que não consta.
Ao 12.º que conservão o mesmo nome desde o nascente athe este districto, mas
dedes [sic] lugar da união para bacho se chamão cojancas, e não há memoria de que em
outro tempo tivessẽ outro nome.


/p. 563/ Ao 13.º que morre em huma ribeira chamada de Seda, por bacho do sitio do
monte Redondo, e no termo da villa da Cancellaria.
Ao 14.º que tem seis açudes, que lhe haviao de embarassar o ser navegavel se
ouvesse agoa para isso.
Ao 15.º que esta ribeirinha chamada Margulhão tem junto a esta povoação duas
pontes, huma de páo no caminho de huma freguezia chamada o Chamisso, tem mais
outra ponte de pedra sem ser de cantaria no sitio de Cojanquas, ahonde se une esta
ribeirinha com a do Val do Pezo em distancia de meya legoa desta freguezia.
Ao 16.º que esta ribeirinha do Mergulhão junto as primeiras duas pontes
contiguuas a esta freguezia tem dois moinhos de pão, que só moem parte do Inverno por
falta de agoas, e no limite e sitio desta povoação não há mais moinhos nem outros
engenhos.
Ao 17.º que não consta que em tempo algum se tirasse ouro de suas arêas.
Ao 18.º que os povos uzão livremente das suas aguas para a cultura dos campos,
ainda que os senhorios dos moinhos pagão huma pensão de trigo ao almoxarifado da
villa do Crato, que he do Serenissimo Snr. Infante Dom Pedro, que Deos guarde.
Ao 19.º2 que tem quatro legoas desde o nascimento athe o sitio ahonde entra na
ribeira de Seda, e tam somente passa junto a esta povoação, e á de Aldea da Matta,
distante desta huma legoa.
Ao 20.º3 que não há outra couza notavel, de que tenha noticia neste e nos mais
interrogatorios incluzos; e por verdade me assegney Flor da Roza 28 de Setembro de
17584

O Cura João Gomes [Assinatura autógrafa]

/p. 564/ [Página em branco]


(1) Sublinhado no original.

(2) Sublinhado no original.

(3) Sublinhado no original.

(4) Sublinhado no original.


Transcrição: Lígia Duarte

Actualizado em Terça, 08 Fevereiro 2011 18:21  


http://www.seo.mavi1.org http://www.mavi1.org http://www.siyamiozkan.com.tr http://www.mavideniz1.org http://www.mavideniz.gen.tr http://www.17search17.com http://www.siyamiozkan.com http://www.vergi.gen.tr http://www.prsorgu.org http://www.seoisko.net http://www.seoisko.org http://www.ukashhizmet.com http://www.ukashmavi.com http://www.sirabulucu.net http://www.kanuntr.com http://www.kanuntr.org http://www.kanuntr.net http://www.kananlartr.com http://www.kananlartr.org http://www.kananlartr.net http://www.haberbul.org http://www.iskoseo.com http://www.iskoseo.net http://www.iskoseo.org http://www.siyamiozkan.net