São João Baptista, 1758, Maio, 24
Memória Paroquial da freguesia de São João Baptista, comarca de Portalegre
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 10, nº 222, pp. 1461 a 1476]
/p. 1461/ Freguezia de são João Bauptista
Noticia da muito sempre Leal Nobre Grande e Notavel villa de Castello da
Vide.
1.ª
Está esta villa na Provincia do Alentejo pertence á Comarca e Bispado de
Portalegre de cuja Cidade dista duas legoas.
2ª
Nos tempos antiguos foy unico senhor desta Villa Gonçalo Anes de Abreu que
por sello se nomeya na coronica de El Rey Dom João o 1º Gonçalo Anes de Castello
da vide a quem depois este Rey comprou o senhorio atendendo á importancia de tam
grande villa.
El Rey Dom Afonso 5.º a deu por engano a Vasco Martins de Mello mas
depois se arepemdeo e lhe tirou o senhorio e lhe derão por iquivalente Alcaidaria Mor
de Evora e o povo sesenta mil reis brancos, e para a sigurar na croa lhe deu privilegio
de que nunca mais sahise della nem fose dada a nemhuma pessoa por de mayor
qualidade que fose cuja merce foy feita em capitolo de cortes, e a carta dada depois
em Lisboa em vinte e quatro de Junho de mil e quatro sentos e sesenta e hum, e nesta
carta refere tudo o que esta dito nèsta primeira resposta e deixa a sua bençam a todos
os Reyis suseçores que guardarem este privilegio, e a maldição aos que os cobrarem.
El Rey Dom João o 3º. a deu a seu Irmão o Infante Dom Duarte opos-se a
Villa a esta merce e El Rey escreveo huma carta em vinte e seis de Agosto a os
principáes da Villa ano de 1540 nomeandoos a todos por seus nomes porsuadindoos
com muitas orbanidades a que consenticem a merce visto ser dado a hum Infante seu
Irmão filho de hum Rey de quem receberia muitos favores e honras. A merce
não teve efeito. He tradição que o Povo fes reprezentação a ElRey quanto importava a
croa o ter esta villa, e que o
/p. 1462/ [...] santo justo Rey quando leo a represezentação dicera
=tem rezão= a Carta oreginal se concerva nesta villa e della consta que foy portador
della o Dezembargador Antonio Cardozo, e que trazia Carta de Crença para patear
com os moradores.
3ª.(1)
Toda a Villa tinha no anno de mil e quinhentos setenta e dois 1400 vizinhos
consta do tombo da Cama[ra] fl. 213 vsº. no anno de 1608 tinha mil e seis sentos
vizin[h]os consta do mesmo tombo fl. 316 no anno de 1674 tinha dois mil vizinhos
consta do Alvará de privilegio de Villa Notavel do que se ve se enganou Rodrigo
Mendes da Silva na sua poblacion dandolhe por este tempo 800 vizinhos.
Deminuhiranse estes com a demolição do Bairro da Meyalhada no principio da guerra
da quadruplealiança pois no anno de 1734 tinha toda a villa 1811 vizinhos contados os
róes das confições das tres freguezias dos quaes herão da Matris de sancta Maria 1908
[sic] da de sam João 486 da de sam Tiago 227 e hoje se acha a Povoação com
insencivel diferenca.
4ª.
Está esta villa situada em o alto de hum Monte e da parte do sul lhe fica a alta
serra de sam Miguel mui vezinha desta villa se descobre Castellobranco a 9 legoas de
distancia Villa velha do Rodam a 5 legoas de distancia Monsanto da Beira a 12 legoas
estas da Província da Beira e outras em confuzão em grande distancia porque se vem
as serras da gata, da Estrella, e Placencia, e outras muitas vese tambem da
Estremadura portugueza Abrantes a 11 legoas, da Estremadura castellana sam Tiago a
4 legoas da Provincia do Alentejo Montalvão 4 legoas, Povoa das Meyadas 2 legoas,
Niza a 3, Marvão a 1 legoa, muitos mais se virão desta Provincia se da parte do sul
não ficara a serra de sam Miguel de cujo alto se vem des Arcebispados, e Bispados, e
tres Priorados estes sam o do Crato, Avis
/p. 1463/ [...], e o de Alcantara e por todas as partes
atte perder ao lonje muito a vista.
5ª.
Tem esta villa termo proprio; no tempo antiguo o teve mayor porque se lhe
dezanexarão os termos das villas das Meadas, e Povoa das Meadas, o das Meadas em
23 de Julho da hera de Cezar de 1345 e o da Povoa annos depois e por esta razão a
Igreja das Meadas hera filial da Matris antigua desta villa, e a da Povoa filial da de
sam Tiago e por isso hoje todas as tres Freguezias desta villa tem dízimos da Povoa
aonde se ajuntam os dos dois termos dezanexados.
6ª.
As tres Parochias de Castello da vide estão dentro dos muros e no termo desta
villa so ha duas pequeninas povoações chamadas huma o vallador por currução de
Lavador por haver ahi hum grande nascimento de agoa em que se lava a roupa desta
villa e tem 12 fogos e esta da parte de ca da serra de sam Miguel e outro se chama o
monte da cazada e tem 11 fogos e está da parte de la da serra e dista da villa hum
quarto de legoa e ambos estes montes sam da Freguezia de sam João.
Quanto ao espiritual ha hum Montinho no termo de Portalegre chamado
Monte do Andreu que pertence á minha Freguezia e tem 8 vizinhos poucos annos há
que o cura das Carreiras requereo a Vossa Excelencia lhe anexase o tal Monte a sua
Freguezia alegando se lhe tinha desmembrado della na guerra da Aclamação por estar
vizinhos a esta Praça e medrozos da guerra se vierão meter na sua Freguezia porem
foram achados nos livros desta Freguezia muitos termos de Bauptismos de meninos
deste Monte muitos annos antes da tal guerra.
[...]
/p. 1464/7ª.
A minha Igreja de sam João Bauptista foy no tempo antiguo huma Hermida de
santa Maria Madgalena e a Matris outra Hermida de santa Maria edificada na era de
Cesar de 1349 que he o anno de 1311 por Lourenço Pires e Domingas Joanes sua
molher como se ve de hum Letreiro gotico escrito em huma pedra marmore que esta
debaxo da pedra dara do Altar Mayor a Matris antigua desta villa se desfes e em seu
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lugar se eregirão as duas Freguezias Matris, de santa Maria da deveza, e sam João e
porque estas ambas nascerão daquella Matris sam hoje a primeira, e segunda Paroquia
e sam Tiago que hera a segunda ficou sendo a terceira forão as ditas Freguezias
edificadas nas duas hermidas fes-se a de sam João de sorte que o Altar Mayor ficou
dentro da hermida de sancta Maria Magdalena parte da hermida ficou da parte do
Evangelio servindo de samcristia e a outra parte da banda da Epistola he a parte
infrior da torre dos sinos em ambas se vem arcos e portados e antigoas cantarias da
hermida antigoa e se ve sam remendos da nova Igreja.
8ª.
O Paroco de sam João se chamava antiguamente Vigario como se ve dos livros
antiguos dos Bautizados hoje se chama Prior he da prezentação do Gram Prior do
crato a renda della serão seis sentos mil reis de que levão as Religiozas Maltezas de
Estremos dois terços e o Prior hum.
Aditamento ao sétimo 7ª.
Hé o Orago hoje sam João Bauptista que está no Altar mor no alto do Retabolo
e em baxo a dereita sam Domingos e a esquerda sam Gonçalo de Amarante fora da
capella mor no lado direito está a capella de santa Maria Magdalena a qual dotou e
poz fabrica o Prior
/p. 1465/ [...] Frey Antonio Rodrigues sarzedas em hum vincolo que fes da
parte da Epistola fica o Altar de sam Bras cuja Imagem festejão huns devotos no seu
dia abaxo deste fica a capela de nossa senhora do bom soseço que foi mandada fazer
por Francisco Carrilho de Carvalho Prior da dita Igreja no anno de 1694 e não tem
mais Altares tem a dita Igreja tres naves não tem hirmandade alguma.
9ª.
Não tem beneficiados e só tem hum cura a quem pagão as Freiras ditas e o
Prior da Igreja.
10ª.
Tem esta villa convento dos Recoletos de sam Francisco fumdado e dotado por
Gaspar de Mattos e sua Mulher Brites de Mattos da principal nobreza desta Villa e
derão para o dito convento se fazer as suas cazas e para serca a sua quinta em 14 de
Março de 1584 por declaração que elle foy fazer á camara em 20 de Outubro tornou a
camara a declarar dava mais 400 000 digo quatrocentos mil reis a quinta se chamava
da Conceição e sobre a porta tinha huma Imagem desta senhora daqui tomou o nome
e orago o dito convento e sobre a porta da Igreja está a mesma Imagem que estava na
porta da quinta; deixou gaspar de Mattos o padroado a seu sobrinho Diogo Cardozo
de Mattos con certas penções em seu testamento que naó aprovou e por sua morte
houve contenda entre ouito sobrinhos e se anulou seu testamento e os Religiozos
tomarão por padrueira a camara desta Villa em segunda feira 20 de Mayo de 1589 se
lançou a primeira pedra na obra em 2 de Agosto de 1592 se disse a primeira missa tem
a Igreja sinco altares a couza mais notável que há neste convento he hum retrato e
Imagem verdadeira de Cristo a qual está fixada na porta do sacrario a qual trouse de
Roma Frey Diogo sarrano Mouzinho
/p. 1466/ [...] Frade Clau[s]tral a pintura he de
adimiravel primor em lamina de cobre e por baxo tem huma inscrição com letras de
ouro que dis o seguinte = Retrato, e Imagem verdadeira de IESUS Christo salvador e
senhor nosso o qual foy tirado de Amiralda pello gram Turco e mandado de prezente
ao Papa Innocencio VIII para efeito de resgatar hum hirmão que tinha cativo.
11ª.
Tem esta Villa caza de Mizericordia e Hospital tem de renda hum conto de reis
seus adeministradores são os mesmos hirmãos da Mizericordia.
12ª.
A caza da Mizericordia que está junta com o Hospital foy fundada na antigua
Hermida de santo Amaro e por isso he hoje este santo o seu Orago tem a Igreja tres
Altares a couza notável he os muitos milagres que este santo ob[r]ou no tempo
antiguo cujas autenticas estão no Arquivo da Caza.
13ª. e 14ª.
Tem a minha Freguezia sete hermidas e sam as seguintes, intra muros, nossa
senhora da Alegria que he antiquisima do tempo da primitiva cristandade e he a
Padrueiro [sic] desta villa e festejada com grande devoção pellos moradores della, e
extra muros as hermidas de sam Joze edeficada no anno de 1620 por Gonçalo Mendes
e sua mulher Anna gomes a de santo Antonio da ribeira edeficada no
/p. 1467/ [...] anno de
1700 por sebastião Fernandes Ramillo e sua molher Anna gomes a hermida de sam
Miguel no alto da serra de que esta toma o nome a de sam Paulo Apostolo na ponta da
serra, a da senhora da Penha edeficada em hum pinhasco da mesma serra no anno de
1570 he esta senhora de muita devoção e tem em seus braços a Imagem do senhor
morto concorrem todos os sabados do anno muita gente deste povo e ainda fora delle
tem mais a hirmida de nossa senhora das virtudes.
15ª.
São os frutos da terra alguns trigos, sevada, senteyo, e milho meudo, vinho,
azeite, castanha frutas temporans como peras, macans, sereijas, ginjas, e tambem da
mesma qualidade frutas de guarda de excelente gosto e abundancia.
16ª.
Tem esta Villa Juis de fora desde que primeiro se eregirão neste Reino tem
camara tres vereadores Procurador do conselho, e Escrivão que tem grandes regalias
aprezentão dois Morgados e os ofícios de Juis vedor, e Escrivão dos panos Juis, e
Escrivão dos Órfãos Escrivão da Almontacaria e tambem os ofícios de Enqueredor
[?], Distribuidor, e Avaliadores.
17ª. nada
18ª.
Sendo vezinha desta Villa huma legoa distante Norba Cesaria cujos moradores
na sua roina vierão abitar castello da vide e inda durante Norba Cesaria hera castelo
da vide hum arrebalde della se podem contar por naturaes santa quiteria e suas ouito
hirmans o Padre Goncalo de siqueira da Companhia de JESVS Bauptizado na Matris
a 25 de Dezembro de 1641
/p. 1468/ [...] foy varão ilustre como consta do anno gloriozo da
companhia de IESVS fl. 191 o Padre Manoel de Mattos da mesma companhia
tambem ilustre Consta do mesmo livro fl. 736.
Em Letras Dom João de Cazal morreo Bispo em Macao Frei Gonçalo do Crato
Religiozo de sam Domingos inquizidor da meza grande Bautizado em sam João em
23 de Fevereiro de 1641. Sebastião de Mattos a quem El Rey Dom Manoel mandou
estudar no colégio de sam Bartholomeu de Salamanca foi Dezembargador do Paço foi
Pay de Dom Antonio de Noronha Bispo de Elvas Inquizidor geral do Reyno avo de
Dom sebastião de Mattos de Noronha Arcebispo Primas de Braga e bizavo do Conde
de Armamar, = Manoel Delgado de Mattos bautizado na freguezia de sam João em
anno de 1647 foy colegial de sam Paulo de Coimbra Lente de Leis Dezembargador
dos agravos = o Dezembargador Gaspar Mouzinho Barba bautizado na Matris anno de
1584 = seu filho Matheus Mousinho Barba bautizado na mesma freguezia anno de
1620 foi Dezembargador do Paço e foy pay de gaspar Mouzinho de Albuquerque
Procurador da croa = Matheus Gonçalves Mousinho Bautizado na mesma Igreja anno
de 1617 = Manoel Mousinho seu Irmão Dezembargador dos Agravos.
Em armas
Gonçalo Annes de Castello da Vide sérvio bem El Rey Dom Fernando como
se ve de sua coronica escrita por Duarte Nunes de Leão. Continuou a servir a Dom
João o 1º. e foy neste tempo hum dos mais ilustres militares do Reino por ser guerra
de religião e libardade Fernão Lopes dis na 1ª. parte capitolo 159 que gonçalo Anes de
Castello da vide fora discípulo do conde Estavel [sic] na
/p. 1469/ [...] pregação do Evangelio
portugues ao verdadeiro Para [sic] e libardade do Reyno. Asistio como grande e rico
homem do Reyno as cortes de coimbra consta do Capitulo 175. Fes voto na batalha de
Algibarrota [sic] de ser o primeiro que havia de fazer sangue em Castelhanos Consta
da segunda parte capitulo 38 achouse nela e comprio o voto Consta do capitullo 42
antes da batalha o tinha El Rey armado Cavalleiro com muito poucos dos muitos
grandes do Reino pello capitulo 9. E pello capitulo 57 consta se achou na batalha de
val verde e dise muitas grautas [?] a Dom Diogo Fernandes de Cordova Alcaide dos
Donzeis de Castella de que se infere que antes desta batalha se tinha já visto en tres
con elle que serião a de Algibarrota, Atoleiros e outra, con este gonçalo Anes de
Castello da Vide forão tantos os filhos de castello da Vide a guerra e deu este povo
tam grande socorro para ella que o dito coronista do Capitullo 162 da primeira parte
fas progunta a Cidade de Lisboa quaes forão os povos fieis que ajudarão na sua
aflição a hum tam forte negocio e a fizerão clara entre a gentes Confeçando
verdadeiro Papa e defendendo o Reyno e respondendo por Lisboa e nomeando os
povos aponta so quarenta e seis que lhe asistirão e hum delles he castello da vide e
todos os mais povos do Reino herão Antepapistas e seguião ao Antipapa Clemente e
por esta razão ficou castello da Vide com o titulo de muito sempre Leal vese de huma
reprezentação que fes a Marvão em vinte e hum de Fevereiro de 1473 e principia
assim = Dizemos que asim he verdade que nos dito concelho da muito sempre Leal
Villa de Castello da vide =
O Titolo de sempre nobre e grande Villa lhe deu El Rey Dom afonço 5º na s
cortes de Tomar.
Antonio de Mattos desta Villa paçou no de 1500 a India na companhia do
Grande Afonço de
/p. 1470/ [...] Albuquerque e hia tam recomendado por El Rey Dom
Manoel e hera de tanto merecimento que quando aquelle governador tirou a Manoel
de Laçerda e a outros Fidalgos as capitanias de suas Naos por lhe falarem arrogantes
en favor de Rui Dias de Alenquer que elle mandava degolar deu huma capitania a
Antonio de Mattos con que ficou servindo em todos os grandes susceços foy em
companhia de Nuno vas de Castello branco buscar mantimentos da Angediva para
Gôa que estava Cercada sofrendo grandes tromentas no coração do inverno achouse
com sua Nao com o mesmo governador na segunda tomada de goa e foy disfazer a
fortaleza de socotorá vejão as decadas de Barros, e Castanheda livro 3º. capitulo 29,
33, e 42. = Gaspar Rodrigues Mousinho foy servir a Africa com cavalos e criados a
sua custa e foy armado cavalleiro em Arzilla por asoes, e sua nobreza, que obrou
contra os infieis consta de justificação que fes seu filho Frei Hi[e]ronimo Mousinho
em 1566. Pedro Fernandes Barba paçou a Índia na armade [sic] de Dom Antam de
Noronha achouce na thomada de catifa e dezembarcou pelejando dandolhe agoa
pellos peitos e por suas asoes e nobreza foy armado Cavaleiro em 9 de setembro de
1552 con[s]ta do alvara. João Rodrigues Mousinho natural desta Villa paçou a África
com cavallos e criados a sua custa e por acções que obrou contra os infieis e sua
nobreza foy armado cavaleiro por Dom Francisco de Almeida governador de Tangere
por alvara de 24 de Mayo de 1584. Lourenço Mouzinho Barba bautizado na Matris
em 18 de Agosto de 1590, foy capitão de Mar guerra achouse no naofragio da armada
do anno de 1626 consta da Epanafora trafica de Dom Francisco Manoel pelejou no
caminho da India con tres naos de olanda
/p. 1471/ [...] e depois de meyo queimado ficou
prizioneiro Consta do 3º tomo das Azias parte 4ª. no ultimo § cap. 2º.
João Furtado de Mendo[n]ça bauptizado em sam João em 23 de Julho de 1639
e por sua may dos vidaes e Torres desta Villa foy na guerra da Aclamação Mestre de
Campo do terço do Algarve e com elle e com os de castello da vide, e de campo
mayor ganharão na batalha do Ame[i]xial hum monte dezalojando delles aos
castelhanos e depois ganharão o monte em que estava Dom João de Austria e o
dezalojarão e ganharão a artelharia, e conseguindo avance obregarão a fugir para
Arronches achouse na batalha de Montes Claros com o seu terço que junto com os
mesmos dois que o acompanharão na do Ameixial ficarão no lado direito aonde
sofrerão a força da batalha e obrarão maravilhas a cavalaria castelhana os confondio e
tornandose a refazer pellejarão tão destemidamente que foy principio da vitoria na
guerra da grande liga foy Mestre de campo General consilheiro de guerra e governou
esta Provincia.
Belchior do Crato sargento Mor do Regimento desta Praça morreo na batalha
do Montijo = João do Crato da Fonseca natural desta Villa comiçario da cavallaria
com seis companhias tomou hum comboyo que vinha para Arronches pondo en fojida
a cavalaria que o guardava consta de Portugal restaurado tomo 2º. Livro 6º fl. 424
achouse na batalha do Ameixial morreu 2 General da artelharia do Algarve.
Francisco Mendes homem seu Irmão Foy Mestre de Campo do Regimento
desta Praca e tenente do Mestre de campo general governador de Valença de Alcantara
e de Castello da Vide
/p. 1472/ [...] Matheus caldeira Irmão dos sobreditos foy capitão de
cavallos muito valerozo morreo comiçario da Cavallaria da Corte.
João Rodrigues Mousinho natural desta villa capitão voluntário de sem moços
solteiros voluntarios achouse nas linhas de Elvas e foy o primeiro que as rompeo.
Na guerra da Quadruplealiança Luis de Barros Castello branco capitão de
cavallos valerozo morreo governador de Portalegre Diogo de Barros Castello branco
capitão de cavallos he ao prezente Governador desta Praça com patente de Coronel e
outro[s] muitos.
19ª.
Tem esta Villa feira dia de santo Amaro e dia de sam lourenço francas de hum
so dia cada huma e mercados todas as quintas feiras do anno francos athe o meyo dia.
20ª.
Tem correyo sahe quarta de manham e chega sabado a noite manda correyo a
carta do povo dar e receber as cartas ao correyo de Portalegre.
21ª.
Dista esta Villa da Cidade de Portalegre cabeça do Bispado duas legoas e dista
da cidade de Lisboa 34 legoas.
2 “na batalha” riscado.
9
22ª.
Tem o privilegio de não sahir da coroa e com tanta restrição que em foro de
conciencia a não pode El Rey dar porque sendo esta villa das filhas do Infante Dom
Afonso quando a venderão a seu tio Dom Dinis se
/p. 1473/ [...] estipulou no contrato que a
vendião a elle e seus susesores com condição que nunca sahiria da coroa e El-Rey no
contrato asim o prometeo consta da Monarquia Luzitana tem mais o privilegio dos
seus moradores não hirem á guer[r]a salvo acompanhando El Rey em pessoa e se tem
observado na ocazião dos mayores apertos como se ve no livro do tombo da camara
tem o privilegio de não pagar portage e a todos os moradores da villa o privilegio que
a Elvas se Concedeo so os que morasem na Corugeira tem tambem inzenção de ter
egoas de coudelaria e este hé o único que se tem quebrado.
23ª.
Há nesta Villa a fonte da meialhada cuja agoa he excelente remedio contra as
dores Nifriticas a do Manguinhos para diarréas.
24ª.
Nada
25ª.
Hé praça de Armas fortificação irrigular e de médiana força o recinto grande
para a parte do Nascente tem o forte de sam Roque que he de quatro baluartes de
força mediana, no alto da Villa tem o seu castello he talves o mais grande e formozo
que tem toda a raya do Reyno está em hum alto dominante por algumas partes
inasesivel hé castello antiguo e por fora o fortificarão com fortificação moderna
diliniada por Cosmandel se se aprofeiçoaçe hera capas de rezistir a hum poderozo
exercito.
26ª.
Só padeceo no torromote [sic] roinas ordinarias
/p. 1474/27ª.
O Padre Carvalho na sua Corografia escreveo com aserto o estado prezente e a
terra aonde se pode ver o que eu escuso de referir so cometeo dois erros hum foy
dizendo na villa da Povoa que a sua Igreja hera filial de santa Maria desta villa sendo
da de sam Tiago, o outro foy o dizer ser opinião se chamava castello da vide por
dividir castella de Portugal sendo isto historia apocrifa as mesmas armas que lhe da
lhe disfazem o seu dito que he hum castello cercado com huma vide com cachos de
ouro o que lhe vem porque esta villa se chamava so villa da vide athe o tempo de
ElRey Dom Dinis Como se ve da doação de ElRey Dom Affonço 3º ao Infante seu
filho na qual lhe da a villa da Vide com seu castello seus termos e suas pertenças a
villa hé antiquissima no tempo dos gentios havia aqui fabrica das ferrarias que ainda
conserva o nome ainda estão im pe ouito ou nove antas en que fazião os sacraficios, O
Castello he antiquicimo o poço que tem dentro para se beber em tempo de sitio hé de
inorme despeza e bem se ve que em pahis aonde há tantos, e tam grandes nascimentos
de agoas so se faria aquella obra para defenca do Castello chamano [sic] ao poço =
Alvacá = nome mourisco ou os mouros o fizerão ou achandoo feito lhe puzerão
aquelle nome no principio da conquista do Reyno foy o castello acometido e raso [?]
pella parte do norte cuja muralha se ve hoje servindo de trazeira á cadeya e outras
cazas esta ruina quis concertar o Infante Dom Affonço de que El Rey Dom Dinis seu
irmão teve grandes ciumes e veyo por citio a castello da vide
/p. 1475/ [...] o Irmão o Infante
lhe escreveo de Arronches Carta prometendolhe que mandaria derubar tudo o que
tinha concertado nos muros e acrecentado na torre. Do que se ve o erro cracissimo de
muitos Autores que dizem que El Rey Dom Dinis povoara esta terra e fizera o
Castello. El Rey Dom Affonso o 4º alargou o Castello como se ve do letreiro que esta
sobre a porta delle metendo no seu recinto todo o terreno por onde foy acometido o
Castello Velho.
E ficou tão fermoso e grande que deu o nome a Villa tomandoo por armas e
cercandoo com a vide alodindo ao nome da antigua Villa.
He erro cracicimo de Duarte Nunes de Leão dizer que esta villa hera naquelle
tempo Aldeia lugar aberto e cham do termo de Marvão e padeceo este erro porque na
explicação que El Rey Dom Afonço 3º fes á doação que tinha feito por estas palavras
= quod est in termino de Marvão = ali foy o mesmo que dizer junto a Marvão para
diferençar esta villa da Vide da outra vide da cerra da Estrela a que bem se ve das
palavras da doação feita antes en que lhe chama villa da vide com seu castello e seu
termo e suas pertenças. Nem Marvão nesse tempo tinha termo separado como se ve de
sentença pouco depois dada e sempre Marvão foy torruncola [sic].
/p. 1476/Tocante á Serra está dito o que della se pode dizer apenas temo[s] de acrecentar he
hum braço do Herminio menor que aqui acaba os outros braços vão para Marvão,
Portalegre, alegrete tem infinidade de ervas medicinaes ; Rio especial naó o há as
ribeiras piquenas na corografia portugueza estão bem escritas. Castello de Vide 24 de
Mayo de 1758(2)
O Prior Manoel Carrilho Gil [Assinatura autógrafa]
(1) O ordinal aparece repetido.
(2) Sublinhado no original.
Ruy Ventura
[www.nortealentejano.blogspot.com]






