Avis
Memória Paroquial da freguesia de Avis, comarca de Avis
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 5, nº 63, pp. 925 a 936]
/p. 925/
N. 63
Sobre o que se procura saber desta villa de
Aviz, se responde, com clareza, e brevidade
possivel, o seguinte.
Interogatorio 1.º
Respostas Hé a villa de Aviz, cabeça de toda a Ordem, deste nome. Fica quazi no
meyo da Provinçia de Alentejo. Pertençe ao Arcebispado de Evora; comarca, e termo de
si mesmo. He a sua freguezia ou igreja parochial a Matriz de Aviz.
2.º He de El Rey, como Gram Mestre, e se ve largamente de deffinição desta Ordem, da
primeira folha, the a vigessima.
3.º Este anno de 1758 ouve pessoas de comunhão na villa 646. menores de confissão
somente 102. Fogos na villa 260, estes dispersos por vinte ruas de que se compoem. A
sua figura he redonda. Tem esta freguezia de Aviz no campo 49 erdades. 18 hortas. 30
montes. E nestes lugares, tem 130 fogos. Pessoas de comunhão nelles 403. Menores de
confissão somente 42.
4.ºEstá cituada em hum monte. Vem-se desta villa as de Estremoz, distante seis legoas.
A de Fronteira quatro. Alter do Cham sinco. Alter Pedrozo sinco. Cabeço de Vide sinco.
Galveas duas. Seda tres. e Monteargil tres. Ve sse a cidade de Portalegre, e a villa de
Marvão, aquella a dez legoas, e esta a honze. Quando se bateo Albuquerque, via sse
desta villa, o fogo da artilharia. Ve sse tambem hua grande parte da Serra da Estrella,
que dista daqui 35 legoas.
5.ºTem Aviz termo seu, comprehende o lugar do Ervedal, a aldeya de S. Martinho, que
hé dos freyres conventuaes desta Ordem, e tem dez vizinhos, e dista duas legoas de
Aviz. Junto a ella está a aldeya do Maranhão, que he do Duque de Cadaval, e tem 50
vizinhos. A Caza Branca tres legoas, deste povo, e tem pouco mais de çem vizinhos.
6.º Esta Matriz está no coração da villa. Não tem aldeya ou lugar algum, a que acuda
com sacramentos, preçizamente; e só os administrão, os beneficiados desta Matriz,
naquelas partes, quando lhe falta, por algum inçidente, parocho.
7.º Hé o seu orago, Nossa Senhora da Orada, cuja imagem he devotissima, e milagroza;
hé de dez palmos, e feita de alabastro. Está colocada no altar-mór cuja
/p. 926/ cuja pedra de que todo he formado, he sagrada. Tem huma primuroza tribuna, toda
dourada. Tem no altar coleteral da parte da Epistola, imagem de Nossa Senhora da
Conçeição. No altar da parte do Evangelho S. Jacynto. Desta mesma parte das ilhargas
da igreja, está a capela de S. Isabel, que hé da Ordem Terçeira de S. Françisco, e no seu
altar está o Santissimo Sacramento; por ser esta capela a mais aseada. Segue se lhe o
altar das Almas, tem hua grande irmandade, e comprimisso. Hé irmandade rica, e hoje
bem governada. Tem capelão, que dis \ missa / quotidiana, com dois moyos de trigo, e
dez mil reis, cada anno. O mesmo capellão, tem obrigação de dizer a missa da Alva, nos
domingos, e dos santos de goarda. e sincoenta dias livres, pela instituição da capella. Da
outra banda, tem a capela de S. Tiago, com comprimisso, e pouca irmandade. Segue çe
a esta a capela de S. Antonio tem renda, que basta para se lhe asender todos os
domingos, e dias santos, a sua alampada. A Irmandade do Santissimo, hé numeroza,
mas pobre. A da Nossa Senhora da Orada tambem hé de muitos irmaos, e rica. Ambas
tem comprimisso, aquella aprovado pelo ordinario, e esta pelo Tribunal da Meza da
Conçiencia. Não tem mais irmandades.
8.º Tem esta igreja hum prior, que poem El Rey, por opozição na Meza da
Consiençia; e tem de renda vinte mil reis, pagos no almoxarifado, da Meza Mestral de
Benavente; e tres moyos de trigo, e dois de sevada pagos no çeleiro, dos freyres
comendadores, da Comenda desta villa.
9.º Tem sinco benefiçiados curados, tambem providos por opozissão no mesmo
tribunal. E hum beneficio simples, que como o subprior do convento desta villa; por
exerser o cargo de juis da ordem; pello prior mór. A rrenda de cada benefiçiado, são dez
mil reis em dinheiro, no sobredito almoxarifado; e dois moyos de trigo, e moyo, e meyo
de sevada, tambem pagos no çeleiro da comenda
10.º Não há nesta villa, mais convento, que o dos freyres desta ordem. Cujo
padroeiro he hoje El Rey, como perpetuo administrador delle. E os lugares dos freyres,
que são vinte e sete, os dá ad Libitum, o prior mór.
11.º O hospital hé da proteção rial. He administrado pelo provedor, e irmãos da
Mizericordia. Hé izento de qualquer jurisdição
/p. 927/ jurisdição, e so responde perante o Desembargo do Paço.
12.º Á Caza da Mizericordia, está sugeito o hospital, como fica dito. Tem de renda a
Caza trezentos, e setenta mil reis. Não consta da sua origem; pelo pouco cuidado, que se
pos em goardar livros, e memorias antigas. Tem igreja, com hum só altar, e nelle
antigamente /como ainda hoje/ se venera em grande painel, a Vizitação da Nossa
Senhora a Sancta Izabel. De quarenta annos a esta parte, tem por padroeira, a Nossa
Senhora dos Remedios; cuja imagem em vulto, e esta fada, lhe deu o beneficiado desta
Matris o D.or Fr. Manoel Gomes Moutozo. A sua irmandade hé numeroza, por
reçeberem nella, muitas pessoas, que não tem as qualidades, e çircunstançias, que
manda o comprimisso. Neçessita nesta parte, de grande reforma.
13.º Há fora da villa, quatro irmidas. No roçio está a de S. Sebastião de que hé
protetora a Camara. A de S. Matheos 150 passos, fora do povo. E a de S. Bráz, pouco
mais perto. A de S. Anna, que está mais afastada, çita em hua quinta ou herdade, de
Jozé Falcão de Gamboa, morador em Lisboa. Tem esta irmida capellão, com obrigação
de missa todos os sabados, e alguns dias mais, como o dia de Santa Anna, Conçeição, e
Espirito Santo. Por cujo trabalho, reçebe hum moyo de trigo. e dois mil reis para
guizamento. Não consta da ereção de alguma dellas. Todas estão sugeitas, a jurisdição
no Espiritual ao prior de Avis.
14.º Não vem a ellas romagens algumas, no tempo prezente.
15.º Os frutos em que abunda esta terra, são trigo, sevada, e senteyo, e muito azeite. E
carnes de porco. E qualquer destes generos, são exçelentes.
16.º Tem ouvidor, e juis de fora, postos por El Rey. E Camara que governa o povo.
17.º He cabeça de comarca, com o nome de Aviz.
18.º Dizem os naturais que aqui naçeo o P.e Soares Luzitano, e asinão as cazas em que
nasçera, e são na esquina da Rua de S. Roque, em que viverão seos paes; e hoje as
pesue Xavier Ignaçio de Souza Telles, morador em Setuval. Naçeo nesta villa o D.r
Antonio Soares de Tavia, e nella faleçeo com opinião de justo; e fama de insigne
medico; foj na guerra passada fizico mór do Exerçito. Nunca cazou. Sempre foi tido por
casto. Tambem aqui naçeo outro D.r Antonio Soares, que foj
/p. 928/ foi da mesma sorte medico. Este compós, em exçelente verso heroico latino, hum
admiravel livro de mediçina. Muitas vezes ouvi a meu pae o D.or Françisco Xavier
Leitão, cyrurgião mór deste reyno, que aquelle livro era mereçedor da mayor estimação.
Não \ só / pelo bem tratado das materias; mas tambem pela valentia dos versos. O
prelado Fr. Manoel Soares religiozo da Terçeira Ordem de S. Francisco, he natural
desta villa. Conhecido não só na sua religião, mas em todo o reyno pelo Mestre Aviz.
Foi Provençial da sua ordem, e muito douto na sagrada theologia.
O prelado Fr. Antonio das Chagas, religiozo agostinho descalsso,
nasçeo em Aviz, foi vigairo geral da sua ordem; e da mesma procurador geral em Roma.
Foi o primeiro lente, de Felozofia, e Theologia, que a sua religião teve. Era theologo do
Nunçio deste reyno. O Pontifeçe o mandava chamar; quando chegou a ordem era
faleçido. Tinha muitas virtudes moraes. Seu irmão carnal, religiozo na dita ordem, Fr.
Christovão de S. Agostinho; foi batizado nesta matriz. Floreçeo em virtudes, e na
predica.
Nasçeo nesta villa D. João da Silva, que foi
general da cavalaria na guerra pasada. As cazas em que viverão seos paes, ainda hoje
existem, na rua do convento desta villa. São hoje de D. Catherina Machada Sacota,
moradora na villa de Fronteyra.M anoel Mendes Saransana, naçeo humilde, em Aviz.
Morreo sargento mór da cavalaria, junto a villa de Serpa. Foi mandado picar o inimigo,
fe llo com tal valentia, e rezolução, que mereçeo as [sic] os naturaes de Serpa, porem
hua crux no lugar da sua morte, para eterna memoria do seu valor.
19.º Tera duas feiras no anno, ambas francas. Durão so hum dia. A primeira, a
21 de Março dia de S. Bento. A segunda em sinco de Agosto, dia de Nossa Senhora das
Neves.
20.º Não tem correo proprio, serve çe por hum estafeta, que reçebe as cartas
em Estremos, em mala, que a traz Aviz, ás quintas feiras à tarde, e parte na sexta ao
jantar. Dista desta terra, seis legoas Estremox.
21.º Esta villa esta no Arçebispado de
/p. 929/ Arçebispado de Evora, dista desta cidade nove legoas. E de Lisboa capital do reyno
vinte e tres.
22.º Não consta tenha privilegio algum espeçial. Da sua antiguidade, falarei
no terçeiro intorrogatorio, no numero quinze.
23.º A villa tem duas fontes. Hua chama çe, a Fonte Nova. No terremoto de
1755, perdeo as agoas; porem com as muitas deste Inverno, tornou a rebentar.
Corre como antigamente. Dela bebem os freyres, e algumas pessoas do povo. Há
outra chamada o Posso da Frandina. O seu feitio he oval. Corre perenemente
para fora. Não há memoria lhe faltaçe agoa, em tempo algum. Hé admiravel,
qualquer natureza a abraça com gosto. Não consta, que estrangeiro algum a
estranhe. Observa çe, que não há em Aviz, a perigoza queixa da pedra;
benefiçio, que se atribue a esta agoa. No terremoto de 1755, rebentou hum
grande olho de agoa, em hua grande pissara, que está junto, ao ultimo arco da
ponte de Seda; e fica este a parte do Norte. O seu gosto, hé a ferro. Tras o seu
naçimento de baixo para sima. Cobre çe com a enchente da ribeira; mas pelo
cachão que levanta, bem se deixa ver, honde está.
24.º Não hé porto de már. Mas esta ribeira, que corre junto da villa, hé
capaz de se navegar, sinco ou seis mezes do anno. Pode admitir, todos os barcos
de Riba Tejo. Fragatas, e escaleres; e os casilheiros na força do Inverno. Não hé
navegada, por cauza do furadouro, que tem abaixo da villa de Mora. Tirado
aquele pignasco fica navegavel, the esta villa, lugar do Ervedal, villas de
Fronteyra, e Figueira.
25.º Toda esta villa, he em roda murada. O seu muro tem 50 palmos de alto. Hé
admiravel para se fazer della, huma praça regular. Não pode ser batida, mais que
da parte do Sul. Nas guerras passadas, lhe fizerão dois fortes, para cobrirem as
duas portas mais prinçipaes, que são a de Evora, e a de S. Antonio.
Tem seis torres de grande altura. Destas derubarão
duas, para com a sua pedra fazerem aqueles fortes; e vierão a ficar na altura dos
muros. As outras estão em pé. Chamma se, a da menage, da porta de S. Antonio,
da porta de S. Roque, que era a do rebate
/p. 930/ rebate; e a ultima dos Mestres; por nella viverem os que aqui morarão. Serve de
prezente de carseres dos freyres, está muito aruinada.
Tem seis portas a villa. Cujos nomes são, a de baixo, a do Anjo, a
de Evora, a de S. Antonio, a de S. Roque, e a do Postigo. Toda a villa he çercada de
huma ribeira, que já diçe. Não só por este fosso que lhe pos a natureza, mas tambem,
pellos inacçesiveis penascos, que a rodeão, se fosse praça regular, seria inconsquitavel.
Asim o ouvi a muitos ofiçiaes, peritos na arte militar. Não tem mais couza alguma,
digna de memoria, que pertença a este numero.
26.º No terremoto de 1755, padeçeo o convento desta villa grande
ruina. O telhado do corredor, ou dormitorio novo, chamado de S. Lamberto, alquebrou.
A parede prinçipal, que dis para o Nasçente, e tem seis palmos de largo, deu d si para
fora, fugindo das paredes interiores, huma polegada. O dormitorio velho, ficou mais
aruinado, porque as suas çelas quazi todas, estão incapazes de se viver nellas.
A igreja que toda he de abobeda, ficou esta partida, desde a porta prinçipal the o arco, imidiato ao
cruzeiro. Estas ruinas estão sem reparo. Só o telhado do dormitorio novo, o tem;
algumas cazas da villa abrirão, mas não cahirão.
Na igreja Matriz, se partio em varias partes abobeda, que está sobre a porta prinçipal, e hé pavimento do
choro. A simalha de sima, da porta prinçipal, se partio pelo meyo, e asim se conserva,
sem cahir. As torres dos sinos, desmontaram das paredes da igreja; cuja sanchristia, que
hé de abobeda, ficou em partes aberta; promete mayor ruina, por se não ter reparado.
27.º Hé digno de espeçial memoria, o santuario, e Caza de Nossa Senhora da Arrabaça. Esta soberana senhora, está em hum sacrario,
ricamente dourado. Tem tres vidraças, pelas quaes, se ve esta milagroza imagem. A
chave deste sacrario, está em meu poder. Por ser aquela igreja annexa desta de Aviz. O
milagre que esta soberana senhora fez a hua mulher, e anda escrito no Santuario
Mariano, honde se pode ver, foi o que deu motivo espeçial aos catholicos, para
venerarem, com suma devoção a esta senhora
/p. 931/ senhora naquele çitio. Está aquele santo templo duas legoas, desta
villa, na freguezia de S. Margarida, da Aldeya Velha. Por estar fora desta
freguezia de Aviz, rezervei a sua notiçia para este lugar. Hé tradição
antiga, que hum prior de Aviz, quis examinar a materia de que esta
milagroza imagem era feita; e fazendo a diligençia, a que o levava a sua
coriosidade, segou; e dezistindo, da empreza, foj esta divina senhora
servida, restituir lhe a vista. Este santo temor, e sumo respeito, que tenho
áquela santissima imagem, me tem cohibido, de fazer semelhante exame.
Não posso afirmar, de que materia seja composta. Hé aquela santissima
senhora da altura de hum covado; tem no braço esquerdo o seu
benditissimo filho. Ambas estas imagens, são estofadas. As tintas não são
vulgares : ainda que as suas cores o sejão. Hé de meyo corpo. Alguns
devotos, lhe tem dado, humas meyas sayas, e mantas ricas, de que uza. O
seu santo rosto hé alegre, ainda, que alguma couza groçeiro. Logo que
suçedeu o milagre, a mulher, e marido, sem mais demora, conduzirão
pedra para se lhe fazer huma irmida, no lugar, e citio, apontado pela
mesma senhora. Muitos annos foi venerada, naquela irmida, the que sendo
prior de Aviz, o prelado Fr. Françisco Barradas; este pode acabar com os
seos freguezes, e fazer huma igreja a esta soberana senhora. Fizerão na
primuroza, e de bom gosto. Hé de tres naves. Toda hé de abobeda, tem tres
altares. O mayor em que está a senhora, e de sima do sacrario, nasçe a
Arvore de Jesé, pelos seos ramos, tem em vulto, os reis, acçendentes da
mesma senhora; toda hé dourada. Como o são tambem os dois altares
coletarais [sic] que tem. Em hum se venera a S. Bento, e no outro Santo
Antonio, que fica no da parte do Evangelho.
No terremoto de 1755, não teve lezão algum, esta santa caza; nem a da irmida
de S. Matheos, de que asima falej, nesta freguezia. Forão os dois templos,
que na distançia de oito legoas em roda, não padeçerão ruina alguma.
O çitio, a que esta senhora dá o nome, e se chama a
Rabação, hé alegre, tem hum largo arial defronte da igreja. Neste há muitas
sobreiras, debaixo das quaes, se abarrachão os romeiros. No fim do arial,
que fica ao Poente, corre todo o anno, hum ribeiro; a que chamão o ribeiro
da Rabaça. O prior de Aviz, tem junto a igreja duas cazas, para seu
cómodo nas festas da senhora. Duas são as que se fazem alj de grande
concurso. Huma na primeira sesta feira de Março, e hé só de hum dia. A
outra hé a sete, oito, e nove de Setembro. Nestes ultimos dias
/p. 932/
ultimos dias, festejão a senhora, a villa de Monteargil, no primeiro : a de Aviz no
segundo, dia da Natividade da Santissima Senhora. No terçeiro, a freguezia de S.ta
Margarida, em que está fundada aquella igreja. O concursso da gente, he infinito nestes
dias. E no discursso do anno, apenas se conta, que não vão devotos a ver a senhora. Hé
esta de infinitos milagres; como testemunhão as paredes daquelle santo templo. Tem a
entrada tres alpendres, em que tambem se recolhem os romeiros. O corpo que se fes de
novo nesta igreja, pega imidiatamente, com a capela mór, que hoje he a mesma, que os
benefiçiados da senhora fundarão. E os freguezes de Aviz só lhe fundarão o corpo
daquelle templo, como já diçe. Não tem irmandade espeçial. Fazem se as festas, com
mordomos, e esmolas de devotos.
O que se procura saber de serra.
Como aqui a não há, com as circunstançias apontadas, não digo nada sobre os seos
interrogatorios.
Ao que se procura, e quer saber, do rio que passa por
esta villa, respondo o seguinte
Interogatorio 1.º
Respostas
Chama çe a ribeira de Aviz. Nasçe na Alhanoura, que dista seis legoas desta villa.
Corre todo o anno. No Inverno, hé mui caudeloza, e arebatada a sua corrente. Se não
tivera, junto á villa de Mora, o impedimento do furadouro / que façilmente se pode
tirar / e o obstaculo de 7 asudes de moynhos, seria navegavel, quazi seis mezes do anno;
com utilidade grande desta villa, a de Mora, a de Fronteira, o lugar do Ervedal, e villa
da Figueira. Vai parar a Benavente, e ahj, se mete no Tejo. Há mais a quinhentos passos
desta villa, outra ribeira, a que chamão de Seda. Ajunta çe com a de Aviz, perto desta
villa, em hum citio, a que dão o nome de quatro rodas. Como hé de muitas agoas, junto
a esta nossa; forma hum grande rio. Por baixo de Santo Antonio do Couso, se lhe mete a
ribeira do Sor; e todas tres se fazem formidavies [sic], na de Aviz.
2.º O nasçimento desta segunda ribeira, não
he logo caudelozo, mas pelos muitos ribeiros, que se lhe ajuntão, fica sendo grande.
Com qualquer chuva, se não passa a váo. Todo anno corre, mais ou menos, conforme o
rigor da estação.
3.º Vaj dito asima.
4.º
/p. 933/ Não hé navegada, pelos impedimentos, já ponderados, mas tirados aquelles, o ficaria,
com grande utilidade publica, navegando nella as embarcaçoens que diçe.
5.º O seu cursso, he arebatado, em toda a villa.
6.º Corre do Nordeste, para o Norte.
7.º He abundante de barbos, e muitos de extraordinaria grandeza.
Tem infinitas bogas, e bordalos; estes e as pardelhas, que tem muitas, são de expiçial
gosto.
8.º Não tem pescarias algumas particulares. Só hum pego, hé
aqui vedado, e a pesca a Camara em Agosto. Fora deste mez, a pesca toda, quem quer;
com redes, ou canas.
9.º Vaj dito na anteçedente.
10.º As suas margens, que podem admitir o serviço do arado, são cultivadas, e produzem
bem. Não tem bosques, ou arvores sylvestres, de sorte que sejão gratas à vista. Em
partes, tem algumas, mas poucas, e sem boa vista; por nasçerem sobre rochas, muito
deziguaes. As que tem de fruto, que tambem são poucas; dão tudo o que produzem
exçelente. O mais em que floreçe a margem desta ribeira, hé nos montados. Vem se
nella, azinheiras, e sobreiras, de extraordinaria grandeza, e boa produção.
11.º Não consta, que tenha virtude alguma particular, as suas agoas.
12.º Logo, que saye do seu nasçimento, se nomeya, por ribeira de Aviz. Este nome,
conserva the á villa de Coruche, por honde passa; ahj o perde, e toma o de Sorraya. Não
há memoria tivesse, em tempo algum, outro nome.
Tem mais
esta ribeira a aparte do Norte, outra / como já se diçe / a qual corre de Naçente a Poente.
Chama çe de Seda, de quem toma o nome, por passar, pella villa de Seda. Nasçe na
herdade, ou monte da Mariana, que fica para cá huma legoa de Portalegre, e vem a
nasçer oito de Aviz. Corre no Verão, e Inverno, e nesta quadra, toma agoa com mais
preça, que a de Aviz, e cresse em demazia; por ter menos pégos, e ser o seu alvo todo
arial. E a de Aviz, tem muitos pegos, fundos, e medonhos; por cauza das muitas rochas,
de que hé bem inriqueçida. Ajuntão-se ambas, junto de Aviz, em o çitio de quatro rodas,
como está dito.
13.º Vão ambas juntas morrer no Tejo, pello porto da villa de
Benavente.
14.º Não tem cachoeira, repreza, ou levada; mais que os sete
asudes, e furadouros / como diçe / que lhe impedem
p. 934/ impedem o ser navegavel.
15.º Ambas estas ribeiras, tem pontes de pedra, e arcos de
cantaria; admiravelmente bem feitos. A de Aviz, tem seis arcos. A de Seda sinco. A
largura de qualquer dellas, he de 15 palmos. A ponte da ribeira de Aviz, está muito
chegada a esta villa, e vaj terminar na rais, de hum monte, que lhe fica da outra parte,
que se chama, o monte de S. Izabel. Tomou este nome daquella santa, que vindo para
Estremos, não pode passar a ribeira, lá mais abaixo no porto a que chamão de Amarelos,
e parou nelle algumas horas da noite. He memoria, constante dos moradores de Aviz.
16.º Tem sete moinhos a ribeira de Aviz. Não tem pizoens, nem noras. Lagares de azeite, tem hum na ribeira. Hé do capitam mór Jeronimo
Jozé da Gama Pereyra. Tem outro defronte, que moye com agoa do poço da Frandina.
Hé hoje do D.r Manoel Jozé de Simas. Há na villa mais tres lagares, que móem com
bestas. São senhorios destes, Luis da Costa, Jozé Gonçalves da Roza, e Catherina
Ferreira. Cada hum tem seu.
17.º Não consta se tiraçe em tempo algum ouro de suas areas.
18.º Nas partes baixas, ahonde se podem aproveitar de suas agoas, os vizinhos dellas, a
metem em suas fazendas, sem impedimento, ou penção alguma.
19.º Desde Alhanoura honde nasçe, the a villa de Benavente, em que entra no
Tejo, são dezanove legoas. Paça junto das villas, de Fronteira, Figueira, lugar do
Ervedal, Aviz, Coruche, e Benavente, honde morre.
Hé digno de memoria, o saber çe, que nesta villa, no tempo dos mestre
desta Ordem de Aviz, fizerão estes, muitos annos, açento nella. Por este motivo, foi
Aviz bersso das prinçipaes familias deste reyno. Prova çe esta verdade, das muitas
campas, de que está cheya a igreja do convento desta terra. Nellas se vem as armas da
prinçipal nobreza da Corte. Na Matriz desta villa, conto 35, com iguaes escudos. Nesta
capela mór, há mais seis campas de priores antigos desta igreja. E no meyo della, se ve
huma bem feita campa, em que jás Manoel da Gama Lobo, fidalgo da Caza de El Rey, e
capitão, que foi de Sofala. Asçendente da Caza do Excelentissimo Conde da Ponte.
Não
/p. 935/ Não me canso, em escrever, a antiguidade, e fundação de Aviz, por se achar escrita
largamente, nos diffinitorios, desta ordem desde folhas, huma the vinte. Ahj mesmo
consta, dos Mestres, que a governarão, capitulos gerais, que fizerão; e quantos estão
sepultados, neste rial convento.
Fr. Gaspar Xavier Leitão [assinatura autógrafa]
Prior de Aviz.
/p.. 936/ Matriz da Vila de Avis.
Transcrição: David Ribeiro
Revisão: Teresa Fonseca






