Memórias Paroquiais

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Campo Maior - Nossa Senhora dos Degolados

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Nossa Senhora dos Degolados, 1758

Memória Paroquial da freguesia de Nossa Senhora dos Degolados, comarca de Portalegre

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 13, nº 9, pp. 55 a 56]

 

/p. 55/

A freguezia dos Degollados he filial da Matriz da Villa de Arronches, e está no seu

termo distante tres legoas della e sete da cidade de Portalegre, cabeça do mesmo

Bispado, e Comarca na Provinçia de Alentejo, distante trinta e tres legoas da Corte de

Lisboa. O orago da Igreja he Nossa Senhora da Graça dos Degollados, naõ me consta da

Origem deste appelido, como taõ bem da sua fundaçaõ /supponho por se queimarem

os archivos da Villa de Arronches, no tempo da guerra da Acclamaçaõ; por ser ali a

praça fórte que Castella occupou nesta Provinçia, no tempo que durou aquella

Guerra/. A Igreja he bastante grande, a Capella mor hé de abobeda de barrete, obra

antigua con seus cordois [sic] no tecto, o telhado do corpo della he de madeira de duas

agoas; foi cuberta no anno de 714, porque na guerra ultima da quadruple aliança, foi

destruida pelos espanhois, e a freguezia desabitada de moradores, por estar sempre,

invadida das entradas; que faziaõ os castelhanos neste Reino. Tem tres altares, o

mayor donde está a Imagem de Nossa Senhora e dous coleteraes, hú de Saõ Jozé, e

Nossa Senhora do Rozario, e outro do Senhor Jezus, e Almas. Naõ tem Irmandades. O

Parocho he Cura adnutum da aprezentaçaõ do Excellentissimo Prelado de Portugal:

tem para a sua Congrua, e substentaçaõ tres moyos de trigo, que lhe pagaõ os

freguezes, porque naõ recebe nada de dizimos. Hé composta de trinta e duas Erdades,

e alguns cazaes, que lhe fazem 42, fógos, e nelles ha duzentas e duas pessoas, de

ambos os sexos; a saber: cento, e quarenta, e sette homens; e cincoenta, e outo

mulheres. Tem de comprimento quasi duas leguas; porque vem acabar partindo com –

o termo de Campo Mayor, que /pertense ao Bispado de Elvas/ em distancia de hum

quarto de legoa, tam sómente daquella Villa, e de largura, terá o mesmo; porque parte

com a Ribeira a que chamaõ de Ouguella, e referta, ou terras a que chamaõ de

duvidas, por serem comuas a Castella, e Portugal, em pastagens, e seáras, pella parte

do Nascente, e de Poente com - o Rio Caya, que devide, os dous Bispados de Elvas, e

Portalegre, por esta freguezia, e a de Santa Catherina daquelle Bispado: metade desta

freguezia, tem matos de azinho, em que se engordaõ muitos porcos, e a outra a

metade, he campo descuberto muito forte fertil de trigo, centeyo, e algúa cevada. Está

a Igreja cituada, no meyo da freguezia, na ponta dos matos, em lugar quazi plano, e

junto della estâ hum val de terra pingue, e abundante de agoas,//

/p. 56/

Porque em pouca distancia, tem cinco fontes copiózas, em que nunca se sentio

esterilidade, inda quando os Veroens saõ rigorozos. Junto da freguezia se vem

vestigios, de tanques, e cânos, que mostraõ a ver ali algú dia fazendas de melhor

qualidade, porque hoje senaõ semeaõ, senaõ trigo. Há no meyo da freguezia tres

vestigios de minas de ferro, que inde hoje conservaõ o nome de ferrarias, e parece

foraõ dos Romanos; porque a pouca distancia dellas, se vem vestigios de huã crusada

/a que aqui daõ nome de alicerse/, muito antiga, que pelo meyo das pedras, tem

azinheiras, muito velhas, e se deixou ver em partes fóra dos caminhos, que hoje tem,

atravessando muitas erdades; porém bem se – mostra, que vaõ dar a huã ponte, que

estâ na passagem do Rio Caya, por baixo de Arronches aruinada, a que chamaõ a

ponte velha, feita de pedra de rosso, que há por aquelle citio, com boa arquictetura, e

lavor; e por estar em outra freguezia, naõ digo nada mais della. O Terramoto do anno

de 1755 naõ cauzou ruina notavel, mais que algumas rachas nas paredes da Igreja, e

telhados, que tudo estâ repairado.

Esta hé amformaçaõ que posso dar da minha freguesia respondendo aos quesitos [sic]

do papel que me foi mandado de Vossa Excelencia Reverendissima.

De Vossa Excelencia Reverendissima

Subdito muito Reverente

O Cura o Padre Luiz Barboza Cordeyro [assinatura autógrafa]

 

Trancrição: Ofélia Sequeira

Actualizado em Segunda, 12 Agosto 2013 15:09  


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