Albergaria, 1758.
Memória Paroquial da freguesia de Albergaria, comarca de Beja
(ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 1, nº 66, pp. 467 a 472)
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1º Hé a villa de Alvergaria da provincia do Alentejo, comarca da cidade de Beja
e do arcebispado de Evora; tem termo e freguezia propria.
2º Hé esta villa de donatario e o hé de prezente o Illustrissimo e Excelentissimo
Duque do Cadaval.
3º Tem esta villa quarenta e quatro vizinhos; e duzentos e vinte três mayores e
menores pessoas.
4º Está situada em hum monte não muito levantado e para a parte do Poente tem
a sua mayor extenção; delle se descobre a villa de Villa Alva que dista meya legoa; a
villa de Villa Ruyva, que dista outra meya legoa; e a villa de Alvito que dista huma
legoa pequena.
5º Tem termo proprio, e nelle não tem lugar algum nem aldeya; e sómente
comprehende o lemite desta freguezia quatorze herdades, quatro hortas, e dois moinhos
de agoa.
6º A parochia está fora da villa mais de setecentos passos, o que hé de grande
incomodo para os moradores por cauza das chuvas e das calmas.
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7º Hé o orago da parochia, Nossa Senhora do Outeyro; tem dois altares: o da
Senhora do Outeyro, e o da Senhora do Rozario; hé só de huma nave. E tem três
irmandades: a da Senhora do Outeyro, a da Senhora do Rozario e a das Almas.
8º O parocho hé cura e o aprezenta o Excelentissimo Reverendissimo Senhor
Arcebispo de Evora; e tem o cura a lemitada renda de dois moios de trigo que cobra no
celeiro dos dizimos, e mais doze alqueires de trigo, que lhe pagam de bollo algumas das
herdades da freguezia; e nada mais.
9º Não tem beneficiados, nem na freguezia há mais sacerdote que o cura.
10º Não há nesta villa e freguezia convento algum de religiozos nem religiozas.
11º e 12º Não tem hospital, nem caza de Mizericordia, nem medico, nem
sangrador, motivo porque os pobres passam com a mayor mizeria nas suas
enfermidades, e os mais delles morrem por falta de remedios.
13º Não tem ermida alguma, e em toda a freguezia não há mais igreja que a da
parochia.
14º Não hé a igreja frequentada de romagens, mas na primeyra sexta feyra de
Março hé grande o concurso de gente, que vem a ella das villas e lugares
circumvizinhos, porque há tradição que no tal dia fizera Nossa Senhora do Outeyro hum
grande milagre, mas não se sabe qual fosse pella sua antiguidade. E neste dia se
costuma fazer festa à Senhora do Outeyro.
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15º Os fructos que os moradores desta villa recolhem em mayor abundancia hé
vinho e azeite. E deste segundo genero hé as terras tão natural que se não planta estaca
de oliveyra que não pegue, e em poucos annos se cria; mas a pouca curiozidade dos
moradores se aproveita pouco desta fecundidade.
16º Tem juis ordinario, dois veriadores, e hum procurador para o bom ou mau
governo da Republica, que como pessoas totalmente leigas administram a justissa,
conforme a sua intelligencea.
17º Não hé couto, nem cabeça de concelho, honra nem behetria.
18º Não há memoria que desta villa floressece nem sahice pessoa alguma
vertuoza, nem insigne em letras porque ordinariamente não sabem ler, e menos em
armas porque só têm uzo das pastoris.
19º Não tem esta villa feira, nem franca nem cativa.
20º Não tem correyo e se serve do de Vianna do Alentejo, ou do de Alvito, que
huma e outra villa distam desta huma legoa.
21º Dista esta villa da cidade de Evora, capital deste arcebispado, seis legoas, e
da cidade de Lisboa, capital do Reino, dezoito legoas.
22º Não há nesta villa antiguidade alguma digna de memoria; e só tem o
privilegio de se não pagar siza do que se compra ou vende, excepto os bens de rais
porque destes se paga siza.
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23º Nesta villa não há mais que huma fonte a que chamam da Pateyra, e não tem
as suas agoas virtude, nem quallidade especial.
24º Não hé porto de mar.
25º Não hé prassa murada, hé aberta, e não há nella nem no seu destricto torre,
nem castello, nem edificio algum de antiguidade.
26º Não padeceo ruina alguma com o terremoto do premeyro de Novembro de
mil setecentos e sincoenta e sinco, o que se atribuhio em milagre especial de Nossa
Senhora do Outeyro.
27º No lemitado desta terra e no seu pequeno termo não há couza alguma de que
se possa fazer especial memoria.
Serra
Não há no termo desta villa de Alvergaria serra alguma que se possa descrever,
porque tudo são terras limpas que se cultivam, e não tem couza alguma de especial das
que se pertendem saber nos interrogatorios da menuta.
Rio
1º Devide o termo desta villa, do de Villa Alva a ribeyra chamada de Odivellas.
Nasce duas legoas e meya distante desta villa na herdade da Balça, freguezia de S. João,
termo da villa de Portel, em hum barranco chamado do Inferno; e suponho que por isso
esta ribeyra hé tão endiabrada.
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2º Como este rio nasce entre serras, he caudelozo de Inverno, mas de Verão não
corre; e só conserva agoa em alguns pegos mais fundos, mas a mayor parte do seu curso
fica totalmente seco.
3º No termo desta villa, na herdade da Sesmaria, entra nelle a ribeyra chamada
de Segonha, que nasce no termo da villa de Vianna, e se vai aumentando com alguns
regatos que nella entram, mas de Verão totalmente se seca.
4º Não hé rio navegavel, mas totalmente incapas de embarcações.
5º Hé de curso violento e arrebatado em toda a sua distancia, porque corre entre
montes e muitos rochedos.
6º He toda a sua corrente do Nascente para o Poente.
7º Cria peiches de pouca entidade, e os que no termo desta villa tras em mayor
abundancia são pardellas.
8º Nele se pesca por curiozidade em todo o tempo do anno, mas de Inverno com
mais frequencia.
9º Em o termo desta villa há dois pegos no mesmo rio, hum chamado das Mayas,
outro do Leão, e nelles se não pesca com rede em tempo algum sem licença do
almoxarife do Ilustrissimo e Excelentissimo Donatario.
10º Pouco ou nada se cultivam as suas margens, por correr entre montes, e nelles
não há arvores de fruto nem silvestres.
11º As suas agoas não tem nenhuma vertude particular, que se saiba.
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12º Sempre conserva o mesmo nome em toda a sua distancia e não há memoria
que tivesse outro.
13º Morre no rio Sadão, em huma herdade chamada Porto de Carvalho.
14º Tem muitos asudes, mas a sua incapacidade hé que lhe impede o ser
navegavel.
15º Tem duas grandes pontes de cantaria, huma na estrada que vai de Evora para
Beja, entre o termo de Alvito e Villa Ruyva; e outra no termo de Alvito, na estrada que
vai da mesma villa para a cidade de Beja.
16º Tem muitos moinhos, mas nos lemites desta freguezia tem somente dois,
hum chamado do Adernal, outro das Passadeyras.
17º Não há memoria que se tirasse outto de suas areas, em tempo algum.
18º Como o rio de Verão se seca, não se pode uzar de suas agoas para a cultura
dos campos.
19º Tem este rio outo legoas de distancia, desde o seo nascimento athe onde
acaba. Passa pella villa da Oriolla, entre o termo desta villa e o de Villa Alva, entre o de
Villa Ruyva e o de Alvito, pello termo da Villa Nova, pella aldeya de Odivellas, e
finalmente no termo do Torrão acaba.
20º Finalmente não tem este rio couza notavel de que se possa fazer memoria,
nem dar mais noticia que a que fica expedida.
as) O parocho, Manoel Felix Pereyra
Transcrição: João Cosme e José Varandas
in COSME, João, VARANDAS, José (introdução, transcrição e revisão), Memórias Paroquiais (1758-1759), vol. I [Abação-Alcaria], Lisboa, Centro de História da Universidade de Lisboa e Caleidoscópio, 2010, pp. 352-356.






