Memórias Paroquiais

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Etiqueta: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa
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Estrela, 1758
Memória Paroquial da freguesia de Estrela (freguesia suprimida), comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 14, nº 98, pp. 677 a 680]

 


Em observância do preceito de V. Excelência Reverendíssima pela carta circular
que me foy notificada em 18 de Março de 1758 pelo Reverendo Manoel da Silva Borges
, escrivam da vigairaria da villa de Moura respondo aos interrogatórios nella insertos
pella forma seguinte:
Ao 1 que esta freguezia he Nossa Senhora da Estrella, termo da villa de Moura,
Arcebispado de Évora comarca da cidade de Beja.
Ao 2 que esta freguezia com todo o termo de Moura sam terras do Infantado e
pertencem ao sereníssimo Infante D. Pedro.
Ao 3 que esta freguezia tem trinta e sinco fogos, herdades com gente que nellas
habittam dezouto e seis que se não mora nellas, por estarem arruinadas. E tem pessoas
adultas duzentas e des e por velhas ou menores vinte e outo.
Ao 4 que está situada em outeyro e que della se descobrem a vila de Mourão,
que dista desta freguezia duas légoas e meya, a villa de Monsarás, que dista desta
freguezia três légoas e meya, o ronquam de Sua Magestade que Deos guarde, sitto na
freguezia de Sam Marcos do Campo termo da villa de Monsarás, que dista desta
freguezia huma légoa, a freguezia da Póvoa, termo da villa de Moura, que dista desta
freguezia huma légoa, o termo da villa de Portel. E perto desta igreja está hum alto que
descobre a ditta villa de Portel, que dista desta freguezia sinco légoas.
Ao 5 nada.
Ao 6 que a Paróchia está dentro da freguezia e tem junto a ella alguns vezinhos,
porque a principal parte consta de montes.
Ao 7 que o seu orago he Nossa Senhora da Estrella e tem (p. 677) quatro altares,
que sam o altar mor, onde estam Nossa Senhora da Estrella, a imagem de S. Pedro da
parte direita, a de Sam Joam Baptista da parte esquerda. Os collateraes, o da parte
direita Nossa Senhora do Rozário e o da esquerda Nossa Senhora do Carmo e outro de
Santo António. Não tem a igreja naves nem irmandade alguma confirmada senam a de
Sanctos (...) por devoção.
Ao 8 que o párocho he cura e da aprezentaçam do muito Excelentìssimo e
Reverendíssimo Senhor Arcebispo de Évora (...) o meu prelado e tem de renda três
moyos e (...) alqueires de trigo, para sua côngrua e sustento e para sua besta quarenta
alqueires de sevada.
Ao 9 nada.
Ao 10 nada.
Ao 11 nada.
Ao 12 nada.
Ao 13 nada.
Ao 14 nada.
Ao 15 que os frutos que nesta freguezia se recolhem sam trigo, sevada, senteyo e
mais meuças (?) mas (...) mais em abundância se colhe sam trigo, senteyo e sevada.
Ao 16 que esta freguezia nam tem juiz por estar subor(dina)da e sugeita ao juiz e
justiça do lugar da Póvoa termo de Moura.
Ao 17 nada.
Ao 18 nada.
Ao 19 nada (p. 678).
Ao 20 que nam tem esta freguezia correyo e se serve do correyo da villa de
Moura, que parte na quinta-feira e chega no sábado e dista esta freguezia da villa de
Moura duas légoas e meya.
Ao 21 que dista esta freguezia da cidade de Évora cabeça do Arcebispado, nove
légoas e de Lisboa, cabeça do Reyno vinte e seis e meya, a saber, vinte e três e meya por
terra em thé à Mouta e três por ágoa em thé à corte.
Ao 22 nada.
Ao 23 nada.
Ao 24 nada.
Ao 25 nada.
Ao 26 que esta igreja e algumas cazas desta freguezia padeceram algumas ruínas
de pouca concideração, mas ao prezente se acham redeeficadas.
Ao 27 nada.

 

Em os segundos e terceiros interrogatórios respondo em summa.
Que esta freguezia tem muitas fontes nativas de boas ágoas, mas nam se lhes
sabe de especial virtude.
E que o ryo de Guadianna que passa junto desta freguezia menos de hum
qoarto de légoa, se tem observado que as suas ágoas sam digiritivas e boas para
conservar a saúde e fazem appetência de comer e que nos mezes de Junho, Julho e
Agosto tomam algumas pessoas banhos mandados applicar pelos médicos, com que
experimentam saúde (p. 679) nos seos males. Neste ryo se criam muitos peixes como
sam barbos, heirozes, bogas, bordallos, (...)1 e outros mais. Aqui entra neste ryo (...) a
rybeira de Alcarrache, que nasce em (...), villa de Castella, bispado de Badajoz (...) nove
légoas pouco mais ou menos, donde nasce thé que fenece neste ditto ryo, nesta
freguezia. Como também o Zebro, que nasce junto do (...) Carapetal, sito no lugar de
Amareleja, termo de Moura, perto de Estepa (?) que fenece neste ryo Guadianna, meya
légoa desta freguezia. E terá de comprimento duas légoas e meya mas só de Inverno
corre e nam he ágoa nativa, porém tem muitos pegos que conservam ágoa todo o anno.
Também esta freguezia tem muitos montados (que) emgordam mais de
novecentos enthé mil (...) porcos de vara, pouco mais ou menos (fora as corridas (...)). E
nas suas terras se criam muitos gados, como são gado vaccum, porcos, ovelhas e há
também por aqui porcos javardos, lobos, gamos, zorras, (per)dizes, coelhos, lebres em
abundância.

 

He o que posso informar a Vossa Excelência Reverendíssima, que Deos guarde
muitos annos. Estrella, 13 de (...) de 1758.

 

De Vossa Excelência Reverendíssima
O mais humilde e reverente subordinado
O P. Thomé Gomes Es(barra).

 

 

 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa

 

in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo. Moura, Câmara Municipal de Moura, 2002, pp. 28-30.

 

Pias, 1758, Maio, 10
Memória Paroquial da freguesia de Pias, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 29, nº 169, pp. 1215 a 128]

 


Relação dos imterogatórios comtheúdos na lista que oferecce emtregue na mão
própria pello reverendo escrivão da vigairaria da vila de Moura mandada pello
Exselentísimo e Reverendísimo senhor Dom Frey Migel de Távora Arsebispo do
Arsebispado de Évora, emtregue a vinte sete de Março de mil setesento e sincoenta e
oyto.


1 He esta freguezia chamada das Pias, província do Alenteyo, Arsebispado de
Évora, comarqua de Beja, termo de Moura, freguezia de Santa Luzia.
2 E como he termo de Moura toda ella pertence está de bacho do demenio1 do
senhor Infante Dom Pedro Infante de Portugal.
3 Consta esta aldea de vezinhos sento e oitenta. Tem de pessoas de cumunhão
quinheitas e sesenta e seis. Tem de pessoas menores noventa (p. 1215)
4 Está esta aldea situada em huma canpina tendo tam somente dois oyteyros,
hum chamado Castelo e outro chamado Oiteyro povoado com número de vezinhos,
donde se descobre a sidade de Beia destante sinco léguas, como também a Serra de
Ficalho, destante três léguas.
5 Tem esta freguezia o seu termo ou limites pertencentes a ella de território para
a parte do norte passante de légua, pois parte pela Atalaya Gorda pela parte do poente,
tem huã légua de distante e pella parte do sul parte com o termo de Serpa e pela parte do
nassente parte com a freguezia de São Sebastião de Val de Vargo deste termo, tendo de
distância meya légua. Não consta de aldeas com lugares e só sim de algumas herdades
com vezinhos cuios fogos emportão em trinta e oito: pessoas grandes sento e quatroze;
menores vinte e sinco, soma sento e trinta e nove que junto à verba supra da aldea soma
ao todo o que consta a dita freguezia de setesentos (p. 1216) e setenta pessoas, entre
mayores e menores.
6 Acha-se setuda2 esta parróchia fora da aldea das Pias, tem um vale chamado de
Santa Luzia, cuio vale se acha demarcado o oiteyro, haverá sento e vinte annos com a
regalia dos pastos do mesmo se puder utulizar o reverendo párrocho e os parrochianos
em quanto assistem aos offícios devinos podem uzar de comer os pastos com suas
cavalgaduras e nada mais não tendo a freguezia mais que a dita aldea chamada as Pias.
7 He o seu oraguo a glorioza Santa Luzia. Tem o seu templo cuatro altares a
saber, o altar mor em o qual está o senhor Jesus e a Senhora d'Assunpção e o oraguo da
glorioza Santa Luzia, como também o altar das Santas Almas, cuio consta da sistência
do gloriozo São Migel, do gloriozo apóstolo Sam Pedro, do gloriozo apóstolo Santo
André. Tem outro do gloriozo São Luís assestido do patriacha São Francisco. Tem outro
da glorioza Santa Bárbara. Não consta de naves mas sim o teto (p. 1217) da bóbida, he
de abóbida fermada em dois arcos. Consta de três Ir, digo de duas Irmandades leigas, de
que toma conta o doutor provedor da comarca de Beja a saber, huma das Santas Almas,
outra do Senhor Jesus.
8 O párrocho desta parróchia he curato, aprezentação do Exlentíssimo (sic)
Reverendíssimo senhor Dom Frey Migel de Távora, Arsebispo de Évora. Tem de
côngrua e sustentação de trigos cuatro moyos e hum cuarteyro para guizamentos e hum
moyo de sevada pera sustento da sua cavalgadura.
9 Nada.
10 Nada.
11 Nada.
12 Nada (p. 1218).
13 Em a dita aldea chamada das Pias se acha erecta por comseção do
Exselentíssimo senhor Arsebispo huma ermida feita com toda a perfeição de abóbeda de
huã nave. O seu oraguo he o gloriozo Santo António, tendo tam somente hum altar
assestido do orago Santo António, São João, Nossa Senhora da Comseyção.
14 Não consta que seja de romague3 e assim oraguo desta parróchia a glorioza
Santa Luzia no dia da sua festividade e pello descurço do anno tem alguns dias que a
sua devoção os obriga.
15 Os frutos desta freguezia suporta a bondade della são trigos, sevadas,
senteyos, tremezes e não há mais.
16 Tem a dita aldea pertencente ao governo della nomeado tudo pella câmara da
vila de Moura, a saber: juis, a que chamão da vintena, escrivão, alquaide e dois
louvados os quais têm jurdição para emcoimar e condenar e o juis prender no tronco
athé remeça pera a cadea (p. 1219) de Moura, estando sugeitos às detreminaçoins das
justiças da dita vila de Moura.
17 Nada.
18 Nada.
19 Nada.
20 Os que têm dependências se valem do correio de Moura, cuio chega da
comarqua de Beia no dia sábado e parte no dia quinta-feyra distando sinco léguas da
sidade de Beia a Moura, donde chega.
21 Dista da sidade capital do bispado à sidade de Évora doze léguas a Moura e
de Moura à capital sidade de Lisboa, vinte sinco léguas.
22 Acha-se a freguezia atendendo Sua Real Magestade aos grandes discómodos
e roubos e mais penas que padesserão no tempo da guerra comseder-lhe a imzenção e
alojamentos pera soldados (p. 1220).
23 Nada.
24 Nada.
25 Há na dita aldea junto à hermida huma atalaya.
26 Na ruína do tarramoto do anno de mil e setesento e sincoenta e sinco, tanto na
parróchia como na hermida foy de pouco (...) e a que teve se acudio logo a repará-las.
27 Não há mais que dizer digno de memória deste premeiro emterrogatório.


Emterrogatório segundo pertencente às serras desta freguezia:
1 Nada.
2 Nada.
3 Nada. (p. 1221).
4 Nada.
5 Nada.
6 Nada.
7 Nada.
8 Nada.
9 Nada.
10 Nada.
11 Há só na mesma huma charneca, na qual se alementão cabras e bois e de
cassa coelhos e lebres e perdizes e de lobos com abundância.
12 Nada.
13 Não haver mais que dizer a este emterrogatório (p. 1222).


Emterrogatório tersseyro pertencente aos rios que ouver nesta freguezia:
1 Há na mesma hum ribeiro chamado da Moreyra, cuio tem a sua origem nesta
freguezia nos lemites de Val de Vargo, destância de huã légua.
2 De Inverno ou tenpo de chuva caudelozo e de Verão se seca , tendo na estrada
de Moura duas pontes a saber, huma chamada do mesmo rebeiro e outra do ribeiro da
erdade da Carreyra.
3 Junto à erdade da Terra da mesma freguezia se ajuntão os dois ribeiros e de
Inverno fazem rio caudelozo.
4 Nada.
5 Nada.
6 Corre este ribeiro do nassente pera o poente (p. 1223).
7 O tal rebeiro os peiches que cria são bordalos, pardelhas, alguns (...) estes com
abundância prencipalmente nos pegos nasedios (?).
8 São libertos pera quem os quer pescar em todo o anno.
9 Não tem senhorio que empeça a leberdade de os pescar.
10 Passa este rebeiro por marges munto abundantes de pam cem nelas haver
arvoredo de fruto ou silvestre.
11 Nada.
12 O dito rebeiro sempre comservou o nome com o mudar do ribeiro da
Moreyra.
13 Corre do nasente pera o ponente entra na Ribeira de Guadiana (p. 1224).
14 Nada.
15 Está respondido no emterrogatório tersseiro.
16 Tem este ribeiro distante desta parróchia três cuartos de léguas águas
nasedias das cuais se regão três pumares como também tem outro junto às suas marges
de donde a mayor cantidade de água da qual se utelizão os ditos pumares e moy hum
moynho. Em sertos mezes de Verão lhe pruhibem a moenda pera ficarem os ditos
pumares com mais abundância de água e com as ditas àguas na erdade do Pizanito
trabalhava hum pizão ao que hoie está arruinado.
17 Nada.
18 Não consta que estes pumares para uzarem das suas águas tenhão (p. 1225)
mais penção do que a comseção do enlustre segnado da vila de Moura, segundo me
asegurão.
19 Desde a sua origem athé a donde acaba tem três léguas, cendo a sua origem
nos fins da freguezia de Val de Vargo e pasando por toda esta e pela freguezia da Orada
fenaliza na rebeira de Guadiana.
20 Não tenho mais clareza nem notícias que poça dar sobre os emterrogatórios
que se me aprezentarão.


Exselentíssimo, Reverendíssimo senhor, remeto a vossa Exselência com aquela
emdevidual clareza que pude dar sobre os emt, digo, sobre os três emterrogatórios que
por ordem de Vossa Exselência me forão emtregues, dando satisfação a elles no tempo
emtimado de dois mezes e de (p. 1226) não hir com aquela edevidual clareza e o meu
affecto dezeiava e comferir com a vontade e gosto de Vosa Exselência, me ficará esse
dissabor, ficando serto o breu, o verdadeiro o séo. Guarde a Vossa Exselência dilatados
annos para nossa comsolação e aubmento da igreia cathólica, Santa Luzia, de Mayo dés
de 1758.
Exelentíssimo e Reverendíssimo Senhor
de Voça Exselência o mais enutel súdito
Manuel de Vargas Bravo

 

(1) domínio.

(2) situada.

(3) romagem.

 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa


in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2003, pp. 65-69.

Sobral da Adiça, 1758, Junho, 18
Memória Paroquial da freguesia de Sobral da Adiça, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 1, nº 32, pp. 247 a 256]

 


Adissa
Em observância da determinação do Exellentíssimo e Reverendíssimo Senhor
Dom Frey Miguel de Távora, Metropolitano Arcebispo de Évora, do Concelho de Sua
Magestade Fidellíssima, que Deos guarde, entrei a informar-me do que conthêm os
interogatórios que Sua Exellência Reverendíssima foi servido enviar-me e acerca das
suas circunstâncias o que pude averiguar he que:
[1] Na fértil província de Além-Tejo, no Arcebispado de Évora, na Comarca de
Beja, trez légoas para o poente da villa de Moura e huma légoa para a parte do meio dia
de Villa Verde de Ficalho, confinando pela parte do norte com a freguesia de Nossa
Senhora da Assumpção da aldea de Safara da qual dista huma légoa e com a freguesia
de Santo Aleyxo, de cuja aldea também dista outra légoa, se vê a aldea do Soveral
fundada em paíz montuoso, a qual he da minha freguesia.
Corre perto da aldea hum pequeno rio a que chamão Perna Secca de tão
pouco nome e tão pobre de cristalinas correntes, que tanto que o calor do estio custuma
empobrecer os campos dos vistosos matizes de que a formosa Primavera os esmalta,
perde o pequeno cabedal de que o áspero Inverno o tinha enriquecido. Sendo tão
humilde em seus princípios, que de huns pequenos regattos da herdade das Garalheiras
desta freguesia recebe as suas primeiras lusidas producções, trajando tão pobremente em
toda a sua extenção, que as árvores, de que pelas suas margens se veste são de ordinário
melancólicas e húmidos tamugeiros, athe que para fazer com mais gala a sua entrada no
rio a que chamão de São Pedro, aonde fenece, tendo corrido mais de meia légoa para o
poente, se enfeita airosamente de sombrios freichos. [3, 2] Tem cento e vinte e quatro
vezinhos que (p. 247) vem a ser pessoas maiores: tresentas e sincoenta e huma e
menores cento e secenta e sinco, em cujo numero entrão também os moradores das
herdades que tem a freguesia e he seu donatário, por ser termo da villa de Moura, o
Sereníssimo Senhor Dom Pedro, Infante de Portugal.
[6] O orago, que está fora do lugar na distância de hum quarto de légoa, he da
invocacção de São Pedro, a quem chamão da Adissa, tomando o nome de huma áspera e
alcantilada serra que pelas suas cavidades e pela variedade de histórias que della conta a
gente rústica da povoação, espalhadas pela maior parte da província, he huma das
célebres do Reyno.
[7] A igreja he de abbobada; não tem naves; tem trez altares: o altar mor, que he
de São Pedro e dous dos lados - hum de Nossa Senhora do Ó, imagem milagrosa a que
accode alguma gente da freguesia em alguns sábbados, e outro das Almas. Não tem
irmandades confirmadas e só de devoção há irmãos, que pedem para Nossa Senhora do
Ó e irmãos que pedem para as Almas com seus depositários.
[8, 9, 10, 11, 12, 13] He o parocho desta freguesia cura da appresentação dos
Exellentíssimos Senhores Ordinários. Tem de côngrua trez moyos e hum quarteiro de
trigo e hum moyo de sevada. Não tem beneficiados nem hermidas dentro ou fora do
lugar ; não tem convento de religiosos ou religiosas; não tem hospital , nem Casa da
Misericórdia.
[15] Recolhem os moradores da terra com mais abundância trigo, centeyo e
sevada. He terra de muitos montados, aonde há boa criação de porcos e de colmeas.
[16] Em quanto ao seu governo, tem hum juiz da vintena, que também o he da
freguesia de Nossa Senhora das (p. 248) Neves da Coroada com seu escrivão e alcayde
e dous louvados, tudo sujeito ao governo da justissa de Moura e hum capitão da
ordenança com sua companhia.
[19, 20, 21] Não tem feira , nem correyo, serve-se do de Moura que parte nas
quintas feiras e chegas nos sábbados. Dista da cidade de Évora, capital do Arcebispado
treze légoas e de Lisboa, capital do Reyno, vinte e seis légoas.
[22] Da sua fundação não consta com certesa e só achei huma escriptura lavrada
no anno de mil e quatrocentos e outtenta e sinco, em que se davão humas sesmarias do
Soveral a Diogo Vilhegas e a sua mulher Branca Casqueira, moradores em Moura e há
tradicção no povo que foi esta a primeira aldea do termo de Moura e não há nottícia que
della sahissem homens insignes em letras ou virtudes.
Por baicho da Igreja Parochial dous ou trez tiros de pedra, passa hum
pequeno rio, que ha partes aonde não tem mais que a largura de huma vara, que cria
bordalos e pardelhas o qual correndo para o norte cercado de verdes freichos e de
húmidos saissos, todo o anno concerva ágoa, com que faz moer alguns moinhos, a qual
he de tão estranha qualidade que gera pedras por muitas partes por onde corre e chamase
o ribeiro de S. Pedro.
Produzem as suas várzeas, que nem sempre se cultivão, muito fejão fradinho e
algum milho grosso, melões e melancias e fertilisando com as suas cristalinas
producções trez ou quatro pomares vai desembocar em hum rio de pouco nome
chamado Totalga, que principiando na Defesa da Negrita da freguesia de Santo Aleyxo,
vestido de importunos mosqueiros, adornado de sombrios freichos e cuberto de alguns
saissos, corre pela freguesia de Santo Amador, de São Pedro da Adissa e de Montalvo,
tendo huma formosa ponte junto à atalaya de Pica-Pedra, da qual se diz que neste anno
padeceo alguma ruína e fazendo também moer alguns moinhos, vai desembocar em
Ardila, famoso e célebre rio do termo de Moura.
[26] Não padeceo a aldea do Soveral ruína no terramoto do anno de mil e
settecentos e sincoenta e sinco.

 

A famigerada serra tão célebre e digna de admiração (p. 249) pela intricada
vastidão das suas árvores, pela horrorosa solidão das suas brenhas, pela sua demasiada
grandesa, pelas vistosas eminências de que se coroa, pela dilatada cordilheira de montes
de que se adorna, sendo em toda a sua extenção Serra Morena se disfarça com variedade
de nomes, segundo as partes por onde se dilata, seguindo nesta parte a célebre variedade
dos Alpes, que com vários nomes, segundo as províncias por onde fazem a sua dilatada
extenção, a cada passo se transformão. Pois dividindo a Itália da França por mais de
outtenta légoas, em humas partes se chamão Ligusticos, em outras Rheticos, mais
adiante Peninos, logo Leponcios, athe que finalmente, entrando pelos povos Vindelicos,
se chamão as suas eminências Illiricas, Pannunicas e Macedonicas, acabando tanta
variedade na montuosa ilha de Thracia.
Da mesma sorte he a Serra Morena, cheia de dilatada cordilheira de montes, que
tendo já corrido parte do nosso Reyno, cortada quatro légoas para cá da villa de Portel,
das frescas e saudáveis ágoas do nosso Guadianna, vai pela xarneca da Ínsua da
freguesia de Alqueva athe chegar aos montes junto da freguesia de Nossa Senhora da
Conceição de Montalvo e mostrando-se ahi com vistosa eminência, sem a cortar rio
algum, se chama Serra Alta, mais adiante Serra de Belmeque ou de Possanque, logo
Serra do Álimo e perdido este nome, Serra da Adissa e, finalmente, Serra de Ficalho, e
com elle vai fenecer neste nosso Reyno na Ribeyra de Chança.
Que nascendo de huma cristalina fonte no lugar de Cortegana, Reyno de
Castella, espalhando copiosa chusma de cristaes, de que todo o povo bebe dá principio
ao celebre rio Chança, que dilatando tanta abundância de líquida prata pelo espaço de
quinze légoas se vai meter no Guadianna, famigerado rio da Hespanha, que dizem
nascer das montanhas de Castella a Nova e que depois de regar parte della passa a
Portugal, dividindo o Reyno do Algarve da Andalusia, athe entrar no grande mar
Occeano.
He Chansa muito abundante de barbos (p. 250) e peiche meúdo e hum quarto de
légoa antes de entrar no Guadianna que he onde chega a maré, tem em si mujes e
robalos e não he capaz de se navegar por se seccar em alguns sítios de Verão e ter vários
assudes de moinhos em toda a sua extenção.
São as ágoas do Guadianna e os seus salutíferos banhos efficassícimos para
algumas queichas. Pescão-se neste rio os estimadíssimos solhos, tainhas, eirós, sáveis,
lampreas, robalos, sabogas, barbos, enguias, savelhas e muito peiche meúdo. Principia
esta serra na minha freguesia em parte da Serra Alta e fenece em parte da Serra de
Ficalho que terá no meu districto toda a serra de comprimento trez légoas pouco mais
ou menos e de largura légoa e meia. Está ao longo da serra no nosso Reyno a villa de
Ficalho, pequena povoação e descendo do particular, que comprehende a serra no nosso
Reyno à notticia mais geral das suas circunstâncias.
Dizem que a Serra Morena são huns montes de Castella que correm do nascente
para o poente desde o rio Guadarmena athe os confins de Portugal e o rio Guadianna
entre Castella a Nova da parte do norte e Andalusia da do sul. A parte desta serra
que olha ao oriente se chama Navas de Tolosa, donde se passa para o porto de Muradal,
célebre pelo grande estrago que nelle fizerão os Reys de Castella e Navarra em hum
numeroso exército de mouros no anno de mil e dusentos e dose; antigamente se
chamava Serra Marina e hoje com pouca corrupção Serra Morena.
He no districto da minha freguesia muito famigerada a serra a que chamão da
Adissa pelas histórias que della conta a gente rústica da povoação, em cujas brenhas,
por se acharem fabricadas no coração do penhasco várias cavidades com sua fonte de
agoa frigidíssima, persume muita parte da vulgaridade serem os palácios de huma
moura encantada chamada (p. 251) Adissa e que concerva nelles grandes riquesas para
quem a desencantar, accrecentando a estes delírios outros, de que dentro das cavidades
de hum rio, guardado de huns negros ou gigantes encantados, aonde os que quizerem
lograr a persiosidade destes thesouros hande expirimentar certas aventuras, confirmando
isto com a tradicção de seus antepassados e das nottícias que dava hum monge que
habitava nellas, fazendo vida solitária, de que todas as madrugadas ouvia vozes que lhe
mandavão accender fogo e cuidar da sua obrigação, de que cheio de hum terror pânico
desamparou a cova e veio a fallecer dentro de pouco tempo; e que havia pessoas que
tinhão visto recolher para aquellas cavernas huma medonha cobra e que todo o que a
offendia tinha exprimentado desastrados successos, a que ajuntão outras histórias desta
qualidade, que eu tenho por fabulosas todas ellas. E assim deichada tanta fábula (ainda
que as refira por se fazer por ellas célebre a famigerada Cova da Adissa), mais próprias
da industriosa ficção poética do que da verdade sólida da história, passo a descrever das
cavidades da serra a cavidade mais famigerada.
Para a parte do oriente se vê huma cova a que chamão da Adissa, para a qual se
entra por humas escadas que ali fizerão os monges que a habitarão haverá quinze ou
vinte annos athe se dar em huma grande cova de figura quase esphérica, toda de pedra
formada nas entranhas do penhasco, tão grande que nella se pode alojar huma boa
companhia de soldados de pé, tendo de altura mais de dous piques. Adornão-lhe as
paredes várias pingas de ágoa, que suadas do rochedo e convertidas em branca pedra
parecem vieiros de mármore, de que ayrosamente se matiza.
Tem no meio esta cova huma pedra muito levantada, furada toda por baicho com
comunicação para outros buracos que forma em cima como huma planície da mesma
figura quasi esphérica a que huns chamão estrado (p. 252), outros palco a donde a gente
da serra e ainda da povoação fazem as suas danças pastoriz e dizem que nesta planície
podem baylar athe doze pessoas e dahi caminhando por hum buraco muito escuro se vai
dar em huma fonte de frigidíssima ágoa, que sahindo do centro do penhasco e recolhida
como em huma pequena pia, cabe dentro desta cavidade hum homem de pé. Não tem
outra luz mais que a que se lhe comunica da bocca do penhasco. He moradia de aves
nocturnas, crião nellas gralhas com as pernas e bicos amarelos.
Hum tiro de pedra desta cavidade se acha outra, que com curiosa averiguação
investigarão os seus segredos três homens deste povo, dos quaes dous ainda são vivos; e
por haver mais de vinte annos que penetrarão as suas intimidades, não têm particular
lembrança das suas dimensões, mais que huma notícia escura, que pode premittir a vida
de homens, que occupados nos exercícios rústicos não fazem lembrança de cousas
memoráveis.
Entrarão pois os investigadores desta profunda cavidade dependurados de huma
corda carreteira por hum bocal, como de hum poço formado no penhasco, que terá de
largura duas varas pouco mais ou menos, e continuando nesta porporcionada symetria
athe ao meio, do meio para baicho conservando sempre a figura circular he tão grande
que com dous piques se não chega de parte a parte.
Via-se para hum lado hum taboleiro argamassado de cal e area com alguas
caveiras e outros ossos humanos já mui carcomidos e em algumas cavidades pedaços de
grandes potes e entrando desta primeira cavidade para outras com vellas accesas à porta
de huma dellas os inquietou hum rijíssimo vento, que com furioso impulso os combatia
e os encheo de hum medonho susto; porem que deixado o terror pânico romperão por
muitos buracos que fazia o rochedo, furados huns para outros de comprimento pouco
mais ou menos de sinco ou seis varas e trez ou quatro de largura athe (p. 253) darem em
huma grande cova, como de huma grande praça e desta passando para outras covas, tão
pequenas como as primeiras, vendo-se em quasi todas ellas vários buracos entravão por
hum delles e dahi a hum quarto de légoa pouco mais ou menos virão a luz do sol por
huma rotura que fazia o penhasco e por ella sahirão.
Adornão vistosamente todas estas covas os mesmos fieiros de ágoa congelada,
que desfazendo-se com os dedos se faz em pó, que parece ser salitre e sendo todas estas
covas formadas por natureza ou por arte, na constante rebeldia do penhasco, he a
primeira cova toda formada do próprio rochedo, porem as mais, ainda que são da
mesma qualidade, com tudo o seu pavimento he cuberto de huma area finíssima.
Há na serra outra cavidade a que chamão caza movida, toda de pedra da figura
de huma caza, aonde se diz que se fazia nella forte hum homem que pelos seus insultos
andava refugiado às justissas; não tem outra porta mais do que a que por onde se entra e
poderão nella caber sette ou outto homens.
A mayor parte das ágoas da serra se somem na mesma serra, porque segundo se
entende, toda está minada e ha boccas de covas por toda a serra, que são tão fundas que
athe qui não ha nottícia que nimguém averiguasse a intimidade destas cavernas.
Ha também na serra na mancha de Fernão Telles desta freguesia hum edifício de
figura de hum pequeno tanque cavado no penhasco, que mais parece banho de mouros,
que obra da primorosa idea dos romanos, o qual recolhe as ágoas, que chovendo na
serra correm percipitadamente a encher aquella pequena cavidade (p. 254).
Tem-se descuberto nas abbas da serra em huma quinta que se faz nas campinas
da herdade do Álimo desta freguesia várias sepulturas com suas campas de pedra,
porém sem letras e outras sem pedras, mas todas estas sepulturas com hum vaso dentro.
como redomas, entre os quais se achou hum de vidro, outro de gesso e os mais de barro.
Não tem a serra neste districto fontes nem rios de propriedades raras , nem sei
que haja minas de metaes; verdade he que em alguns sítios da minha freguesia se achão
humas pedras soltas e da parte onde se acha huma pedreira destas com as raízes firmes
na terra, cujas pedras soltas, que as há em abundância, tirando mais a cor negra do que a
cor de chumbo, são mais pezadas do que as outras pedras ordinárias, pelo que parece
incluírem algum metal e se achão também várias fezes ou escumalhos de metal fundido,
que denota que houve antigamente neste districto fábricas de fundições, que seria do
tempo dos romanos, pois das minas de Hespanha, como dizem os nossos historiadores
tirava tantos interesses a ambicão de Roma ou o de outras nacções bárbaras, que
senhorearão o Reyno, cuja perda deu tanto que sentir aos nossos antigos Lusitanos,
custando-nos a expulsão dos Árabes tantas batalhas, que o augusto valor dos nossos
invencíveis monarchas portugueses e as destemidas heroycidades dos que com tanto
valor os seguirão em tão gloriosas emprezas fara memorável em todas as épochas o
nome portuguez.
Tem a serra donde se podem tirar pedras de cantaria e ainda de mármore e outras
de vária qualidade e com effeito em hum sítio desta freguesia a que chamão o Poço do
Judeo se achão ainda as minas abertas das pedras que se lavrarão para os ediffícios de
Moura para onde se levarão; e há quem diga que o portado (p. 255) da igreja das
religiosas de Santa Clara da mesma villa he de pedra tirada destas minas. Tem também
para a parte do norte a minha freguesia huma pedreira a que chamão de Bocca de Pão
donde se tirão excellentes moz de moinho.
Tem a serra em parte abundância da erva peonia e pelas abbas da serra e ainda
pelas hortas vaárias hervas medicinaes, como são a herva arcar, o escordio, o quinque
folio, a bertonica, a centaurea menor, a escorçoneira, a herva clina, a marcelina, o
gervão e a norsa e purgativas o Oreval e João Pires. Ha também na aldea em caza de
hum homem particular huma cisterna, cujas ágoas, dizem, que têm virtude especial para
curar o fluxo do ventre e que applicadas a alguns perigosamente emfermos conseguirão
os desejados effeitos das suas melhorias.
A qualidade da serra he quente, e secca. Produz muito trigo, centeio e sevada nas
partes onde se custuma fabricar de rossa, sendo os annos chuvosos e a maior parte della
he capaz de produzir todos estes géneros. Veste-se de muito mato, adorna-se de verdes
moutas de alecrim, cria muito zambujeiro, produz melancólicas matas de verso e he
muito abundante de medronhos. Pastão nellas bois, cabras, vaccas e ainda alguma parte
do anno porcos; he boa para as colmeas. Tem em si veados, lobos, javalis, raposas.
gatos cravos, genetas, techugos, linhovardos, coelhos e perdizes.
He o que pude saber e averiguar sobre o que pertende saber, para cuja
informação chamei as pessoas mais practicas do paíz. Vossa Exellência Reverendíssima
mandará o que for servido. São Pedro da Adissa, desouto de Junho de mil e settecentos
e sincoenta e outo annos.

 

Parocho António Machado Borges Limpo

 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa

 

in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2002, pp. 91-98.

São João Baptista, 1758, Julho, 2
Memória Paroquial da freguesia de São João Baptista, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 25, nº 234a, pp. 1741 a 1760]

 


Resposta
Ao interrogatório que por ordem do Excelentíssimo e Reverendíssimo senhor Dom Fr.
Miguel de Távora, Arcebispo Metropolitano de Évora, do concelho de Sua Magestade,
que Deos guarde se mandou ao reverendo prior de S. João Baptista, matris da villa de
Moura sobre a matéria que contém em ordem à mesma villa naquela freguezia.

 

1.º A villa de Moura, que pella sua grandeza tem voto em cortes, alcançou
recomendação de notável e mereceo que El Rey Dom Denis lhe concedesse todas as
graças, foros e previllégios que cncedeo à corte e cidade de Évora. Está cittuada na
província de Alemtejo, na zona temperada setemptrional, quatorze graos desviada do
Trópico de Câncer, em trinta e seis graos e meyo e trinta e seis minutos do Equador, ou
linha equinocial. Neste sítio a edificarão os gregos thebanos, companheyros de Hércules
no anno da creação do mundo dous mil setecentos e quarenta antes da Encarnaçam do
verbo divino mil e duzentos e vinte e hum, dando-lhe pella sua grandeza o títullo de
cidade com o nome de Arouce a Nova. Didicaram-na os seos fundadores ao mesmo
Hércules e nella lhes levantaram soberba státua. Entre as várias revolluçoins que houve
naquelles tempos na Lusitânia conservou a pás muytos tempos, pella grande sabedoria,
prudência e capacidade de Marco Atterio Paulino, cidadam da mesma cidade e em
agradecimento a tanto benefício lhes levantam os naturaiz státua tam magnífica como
levantaram a Hércules. No castelo da villa se descobre hum padram em huma quina do
convento das relligiozas de Nossa Senhora da Assumpção com esta inscripçam: Julia
Agripina Neronis Caesaris matri nova civitas Arucitana. Desta inscripçam se vê que
sobre o mesmo padram levantaram os moradores státua à may de Nero para eternizarem
agradecidos nos sécculos futuros a memória de algum grande beneffício que lhe
devecem. Quando os mouros conquistaram as Hespanhas ficou senhor de muytos povos
de Alemtejo com o título de Alcayde hum mouro potentado chamado Boaçom, o qual
deu o senhorio desta grande povoaçam a sua filha Salúquia com o título de Alcaydesa.
Como a senhoria era moura e a cidade com o tempo perdeo o splindor. Primeyro trocou
o título e o nome: pellas ruínas do tempo ficou somente com o título de villa; por ser
moura a senhoria, ficou com o nome de Moura. Dizem outros que lhe ficou o nome de
Moura porque Dom Álvaro e Dom Pedro Rodrigues, cavalheyros que servirão de tronco
(p. 1741) à famillia illustre dos Mouras, foram os que a (res) gataram do poder dos
mouros, reynando em Portugal o grande Dom Afonço Henriques. Ambos os pareceres
(...) probabillidade igual, porque as armas da villa sam huma moura precipitando-se de
huma torre. E como os Mouras foram causa do precipício da moura ou da moura
(pre)cipitada, ou dos Mouras que foram cauza do precipício, (he) certo que ficou à villa
o nome de Moura. Pertence ao A(rce)bispado de Évora e a comarca de Beja, honze
légoas distante da cabeça da Diocese e cete da capital da comarca da (Or)dem de Sam
Bento de Aviz, governada por hum juiz da mesma ordem, que he o prior da matris da
villa, ao p(re)zente o reverendo Doutor Frey Theodózio Freyre Lameyra, varam singular
em letras e vertudes, freyre conventual da Ordem, comissário do Santo Ofício, vigário
geral (pro)vizor e juis das justificaçoinz de genere das duas villas de Noudar e
Barrancos, Nullius Diocesis. Em muitos lugare se tem feyto justíssimo acredor (?) de
mais avantejados e(m)pregos.

 

2.º De prezente pertence o domínio desta villa à sereníssima Caza do Infantado e della
he senhor actual o sereníssimo Infante Dom Pedro que Deos guarde.

 

3.º Tem a villa na freguezia desta matris de Joam Baptista oitocentos e vinte e oito
vezinhos, duas mil trezentas e trinta pessoas de sacramentos.

 

4.º Tem a planta no declívio de hum monte, cujas (ra)izes banha o piqueno rio Branhas,
célebre pellos muytos (po)mares, vinhatarias e ortas com que se adorna e pellos
m(uytos) lagares, asenhas e moinhos com que serve ordinariamente (o) povo em huma
légoa de carreyra desde a fonte de que n(asce) athe morrer com pouco cabedal no
perene rio Ardilla (para) a parte do norte em distância de meia légoa da villa. (Da) villa
se discobre a cidade de Beja em distância de sete lég(oas), a villa da Vidigueyra em
distância de sinco, as aldeyas (de) Amareleja e Safara em distância de três e a de Santo
A(leixo) em distância de quatro.

 

5.º He dillatado o termo da villa, de sorte que ocupa (...) légoaz da parte do oriente para
o occidente; para o nor(te) (p. 1742) e para o sul occupa somente duas. Comprehende
sete aldeyas e sinco freguezias. Sam as aldeyas a Póvoa, Amareleja, Safara e Santo
Alexo, Val de Vargo e Pias. Sam as freguezias a de Nossa Senhora da Estrela, a de
Santo Amador, da Senhora da Choroada, da Senhora da Conceyção de Montalvo e da
Senhora da Orada, das quais dirão seos párocos todas as circunstâncias que lhes
pertençam.

 

6.º Ficca a matriz dentro dos muros da villa, próxima dos mesmos para a parte do norte.


7.º O seu orago he Sam João Baptista. Templo magnífico que mandou edificar El Rey
Dom Manuel de glorioza memória. He o tecto de abóbeda repartido em três corpos
sustentados em oito ellevadas collumnas de cantaria, quatro por cada lado. Tem trez
portados magestozos, todos de mármore. Para o occidente fica o principal, os dois, para
norte e sul. Sam nove os seos altares: o mayor, quatro collateraes e quatro lateraes. No
meyo do mayor está a Senhora com o títullo de Madre de Deos, em hum formozo nicho
de talha sextavado, cuberto em huma cúpula de matéria semilhante, que remata em
huma choroa imperial. Ao lado do Evangelho está Sam Joam Baptista sobre huma
piquena pianha, que nasce do retábollo. Do lado da Epístolla está Sam Brás collocado
em semilhante lugar. O retábollo, camarim e trono sam magestozos, todos de talha, com
muytas targes e lizos, sendo todo o lizo pedra fingida. Sam os frizos e a talha tudo
dourado, que pela diversidade das matérias e bem ajustado dellas faz huma prespectiva
admirável. Dentro da capella está o choro, de que se servem os padres, deyxado outro
alto espaçozo e bastantemente cheyo de lus por sima da porta principal do qual não
uzam por não ser tam acomodado para as funçoins da igreja. No primeyro altar colateral
da parte do Evangelho está collocada Santa Catharina, virgem e mártir. Debaycho do
altar está huma caza de abóbeda a que se desce por quatro degraos de mármore, que
serve de jazido a Frey Diogo Vaz Paschoal, mercetíssimo prior que foy nesta matriz,
por cuja alma se cantava antigamente missa no mesmo altar todas as segundas feyras (p.
1743) do anno. Mas como a fazenda que deixou pa(ra) este efeyto se tem deteriorado
sensivelmente, de prezen(te) somente se canta nas segundas feyras cada quinze dias. No
segundo altar collateral do mesmo lado está collo(ca)da a Senhora do Rozário, imagem
prodigioza e em vulto, (es)tofada de ouro que na estatura, semetria das feyçoins (e) em
todos os accidentes, mostra na realidade ser o exempl(ar) que teve Salamam na idea
fallando da mulher forte.
Ao lado direyto está o Senhor dos Terços, em huma cruz (ma)gnífica, que todas
as noutes sahe com decência e gravidade nas maons de hum sacerdote acompanhado de
muy(ta) parte do povo naquella devoçam. Ao esquerdo está hu(ma) imagem antiga da
Senhora do Rosário vestida de rou(pa) e ornada com decência. Foy instituidora e
padroeyra (des)ta capella Dona Felipa de Moura, descendente dos m(esmos) Mouras
que resgataram a villa. Tem a mesma cape(lla) missa cotidiana pella sua alma. Deyxou
oito alqu(ei)res de azeyte para estar sempre a capella illuminada e os seos sucessores no
padruado da mesma tratam de (to)dos os ornamentos e aseyo della. He seu padroeyro
(ao) prezente o conde de Val dos Reys. Debayxo do altar (há) huma grande caza com
genella gradeada de ferro (para) o norte que servio de jazido à fundadora e está porém
(...) para todos seos sucesores. A primeyra capella late(ral) do mesmo lado tem no meyo
a imagem de Sam Ben(to) meu patriarcha e pay vestido em hum hábito de seda (...)
nossa hordem. Ao lado direyto está Santo António, (ao) esquerdo Sam Bento de
Pallermo. Debayxo do altar está o grave jazido de Pedro Calvo, sua mulher e filhos, he
huma bastante caza de Abóbeda. Foy esta capella (ins)tituhída pello mesmo Pedro
Calvo. Está sempre il(umi)nada e tem trez missas rezadas cotidianas pellas al(mas) dos
fundadores e em todas as terças feyras missa can(tada). Tem festa solemne de Sam
Bento no próprio dia do (san)to. Na segunda capella lateral do mesmo lado (es)tam os
dous santos Chrispim e Chrispinianno em (...). Ao direyto lado Sam George deffençor
do reyno. No (...) do a Senhora com seu preciozo filho na acção da (fu)ga do Egipto,
todas ellas tratadas com suma descênc(ia). na primeyra capella collateral da parte da
Epístola (es)tam as trez imagens de Jesus, Maria, José em (p. 1744) vulto todas,
stofadas de ouro. Na segunda capella do mesmo lado está o Corpo de Christo
sacramentado em hum sacrário excellente de talha, com fingimento de pedra, com os
frizos todos dourados, forrado por dentro de boa seda, guarnecida de ouro. Nelle está o
sacramento em depózito em cofre magnífico de pratta com capa cuberto de precioza
tella. Está no mesmo huma bulla de prata, sobredourada também com capa de tella, em
que está o sacramento para se destrebuhir diariamente aos fiéis e hir aos enfermos da
freguezia como viatico.
Por sima do sacrário está a Senhora das Neves, em nixo dourado, cuberta de
hum vollante (?). Ao lado direyto a Senhora da Conceyçam, ao esquerdo Santa Luzia
virgem e mártir. Todas estas imagens sam em vulto, de talha e stofadas de ouro. Por
bayxo da capella está o grave jazido de Ruy Lourenço da Sylveyra e sua mulher, em
huma caza de abóbeda com genella gradeada de ferro para o sul. Tem hum capellão
perpétuo com missa cotidianna e he hum freyre da mesma hordem de Avis. tem duas
missas cantadas todas as semanas nas segundas feyras e sábados e tem festa solemne
com sermam nas quatro solemnidades da Senhora: Natividade, Purificação,
Aprezentação e Encarnaçam. Está sempre illumminada e tem sinco mil réis todos os
annos para ornato e aseyo da capella, doze alqueyres de azeyte para a alampada, tudo
obra do ilustre fundador. Na primeyra capella lateral do mesmo lado estam collocados
os dous santíssimos coraçoinz de Jesus, Maria em hum vistozo retábullo de talha
moderna. Nos lizos tem fingimento de pedra com a talha e frizos dourados. Na segunda
está huma corpullenta e (res?)pectiva imagem de Christo Crucificado. Havia na mesma
capella missa cotidiana que não há de prezente porque tiverão descaminho as fazendas
que deyxarão os fundadores para este effeyto.
Há nesta igreja nove irmandades: A do Santíssimo Sacramento, dos Santíssimos
Coraçoins de Jesus e Maria, da Senhora Madre de Deos, da Senhora do Rozário, de Sam
João Baptista, dos Santos Chrispim e Chrispinianno e das Almas. As últimas duas
irmandades sam da Senhora dos Remédios, erecta no convento das religiozas do
Castello desta villa e da Senhora da (p. 1745) Charidade, erecta no Recolhimento do
Espírito San(to), ambas da jurisdição do juiz da Ordem. Todas estas irman(da)des fazem
suas funçoins solemnes no anno, que consiste(m) em festa solemne aos santos a que
serve e ofício com m(is)sa solemne pellos irmaonz defuntos de cada huma. E(n)tre
todas excede a das Almas que todos os annos passam (de) duas mil as missas que
manda dizer pellas mesma(s), por xigar o seu rendimento huns annos por outros quaz(e)
a dous mil cruzados. A expensas da Irmandade se a(l)cançou ser o seu altar
previllegiado, que he o segundo co(lla)teral da parte da Epístolla a honde está o
Santíssimo Sacramento. Além destas nove se erigio de novo na mesma igreja a
irmandade dos escravos do Senhor dos Terços, que tem feyto as suas funçoins com toda
a pompa, aparato (de) devoção possível. Há em todo o corpo da igreja duzentas e (ou)to
campas de mármore, mostrando ultimamente este famozo templo em todas as suas
partes que he produto de seu autor.

 

8.º Tem o párocho títullo de prior. He da aprezentação (de) El Rey como Gram
Mestre das hordens militares. E tem de rendimento ao todo duzentos e quarenta mil réis.

 

9.º Sam quatro os beneficiados que a servem, da mes(ma) aprezentação que o
prior e fará de renda ao todo cada (hum) de elles athe cento e vinte mil réis.

 

10.º Há no destricto desta matriz douz conventos de relligiozos, hum de
relligiozas e hum recolhimento de terceyras (car)mellitas calçadas. O primeyro
convento de relligiozos (he) o de Santo António dos Capuxos, em pouca distância da
villa para o occidente, no princípio dos olivaes. Lançou (a) primeyra pedra o
Illustríssimo senhor Dom Frey Domingos de Gusmam, Arcebispo metropolitano de
Évora, (aos) dezoyto de Junho de mil e seiscentos e outenta e quatro (com) assistência
do clero seccullar, regullar, nobreza e povo (desta) villa. Os fundadores e padroeyros
deste convento foram douz irmaonz Pedro Ferreyra de Moraes e o Capitam (An)tónio
Ferreyra de Moraes, naturaes da villa de Portel (assis)tentes que forão na de Moura. De
prezente he padroeyro (p. 1746) o Capitam Rodrigo Loppes de Moraez, das famíllias
illustres que tem a villa. Todos elles têm na capella mayor do convento magnífica
sepultura. Em humas cazas grandes dos padroeyros que ficão em huma ponta da villa
para o occidente acestirão muyto tempo algunz relligiozos como em hospício, donde
administravão os sacramentos e servião de consollação aos moradores da villa. Porém,
ahinda que se conservarão muyto tempo neste lugar, depois de se habitar o convento
vieram a cavallo recolhendo-se para o seu convento de todo, por lhe ficar o hospício
muyto devassado dos muros. Tem a igreja três altares: o mayor e dous colateraes
tratados todos elles com todo o aseyo. Tem três dormitórios bem lavados dos ventos por
ficarem mais levantados que os olivais. Hum jardim aprazível para recreyo dos padres e
horta muytto bastante para a sua comunidade. Nelle louvão os padres incessantemente a
Deos com fervorozo spirito e edifficação do povo.
O segundo convento he o dos religiosos carmellitas calçados edificado pellos
cavalheyros de Sam João de Malta junto aos muros da villa para a parte do norte no
lugar em que estava huma devota ermida da Senhora da Lus, que hoje serve de capella
na igreja do convento, na qual está collocada Santa Anna. Quando El Rey Dom Afonço
Henriques conquistou esta villa aos mouros fez della doacção aos cavalheyros de Sam
João (...) rosolomitano, hoje chamados maltezes para que a deffende(ss)em como
património legítimo. E como os ditos cavalheyros tinham trazido da Pallestina alguns
carmellitas por missionários e padres spirituais, para lhes agradecerem a boa sociedade
lhes fundaram este convento pouco depois do anno de Christo mil duzentos e sincoenta
e hum para que nelle pudecem viver com o socego e recolhimento que o seu estado
pedia. Dotaram-no os seos fundadores com copiozas (re)ndas, as quais cresseram a
tanto por mercês dos príncipes (de) Portugal e devoção dos fiéis, que chegaram a ter
tantos (a)lqueyres de pam de renda annual, como horas tem o anno, (q)ue vem ajustar a
quanthia de cento e quarenta e seiz moyos de trigo, não fallando nas mais rendas de
dinheyro (e) differentes géneros, que cobrava o mesmo convento todos (p. 1747) os
annos, que herão copiozíssimos. De sorte que sustentava naquelle tempo quarenta e
dous relligiosos do choro, com a quantidade de relligiozos leygos e ser(vos ?) que pudia
huma comunidade tam avultada. Constantemente se vê que estam ao prezente as rendas
do convento mais deminutas, mas não tanto que não seja o convento dos mais ricos que
conservão os carmellitas em Portugal. Foy o primeyro convento desta hordem que vio
nosso reyno e de hum monumento antiguíssimo que anda na Chrónica da hordem.
Consta serem portuguezes dous dos carmellitas que vierão da Pallestinna na companhia
dos cavalheyros, hum chamado Frey José Bitriado, superior aos mais, e foy o que
cantou a primeyra missa que se cellebrou no dito convento. Outro Frey Jaques (...)mas
Caliabra, que pregou o sermam da mesma festividade.
O templo he magestozo e sustentado em doze columnas de mármore, seis por
cada lado. O tecto (he) de madeyra e dos trez corpos que forma a igreja o do meio he
todo estradado, o dos lados e o mais corpo de igreja sam lagiados, com cento e vinte
campas magníficas de mármore com as armas de seos donos e várias inscripçoins, entre
as quais se lê em huma (es)te epitáfio céllebre: Aqui jaz João de Abril que morreu por
se rir. Tem dez capellas com a mayor, (to)das ellas estam sempre ilumminadas e têm
missas (co)tidiannas pellos seos instituhidores, as quais têm m(agni)ficas sepulturas
para si e seos herdeyros em cada (huma) dellas e lhe deyxaram todos por estas pençoins
muytas (ren)das ao convento. Sam padroeyros da capella mayor Rodrigo de Sá capitam
e alcayde-mor que foy (des)ta villla e sua mulher, Dona Guimar (sic) de Noro(nha).
Tem no meyo da capella sepultura para si e seos (des)cendentes e de prezente anda o
padroado da me(sma) na Caza de Óbidos. Tem o convento douz claustros, hum alto e
outro bayxo, ambos com genellas para o norte, bastante dezafogo e bem lavadas dos
vem(tos). Sam douz os dormitórios e ambos elles sam g(ran)diozos: o mais antigo com
genella conventual para o ocidente, o moderno para o oriente. Tem (p. 1748) muytas
vezes sido caza de estados e de noviciado. Deste convento têm sahido varoenz
eminentes em letras e virtudes: O ilustríssimo Dom Frey Christóvão Moniz, bispo
titullar de Reona e coadjutor do bispado de Évora, quando delle hera perpétuo
administrador o sereníssimo Cardeal Infante Dom Afonço, Arcebispo de Lisboa. O P.
Mestre Frey Diogo de Sande que tem na Província honoríficos empregos. O Doutor
Frey Nuno Viegas. O Padre Mestre Frey Gonçallo Fialho que nesta Província fo(r)ão
provinciais. Outros muytos filhos asinallados sahirão deste convento, que pella multidão
fora importuno o número dos mesmos e de prezente não cessão de louvar a Deos e em
letras e virtudes são exemplares de todo este povo.
Na hermida da Senhora da Luz em que se edificou o convento havia huma
milagroza imagem da Senhora com o títullo da Lus, primorozamente lavrada, na qual se
conservava hum grandiozo sino do qual nem da ermida se sabe a origem pella muyta
antiguidade. Sabe-se (u)nicamente que antes de entrarem os mouros nas Es(p)anhas era
venerada a Senhora naquella ermida, sendo certíssima protectora nas suas adversidades.
Como os moradores deixaram a villa pella invazão dos mouros lastimando-se que a
Senhora e o sino viecem ao poder dos mesmos. Com a possível dessênsia esconderão a
imagem e o sino em hum posso que estava sem água naquelle tempo, a que depois
chamaram a Fonte Santa por força do (p)rodígio que ali se vio, nome que ainda hoje
conserva, ficcando perto da villa na estrada que sahe da mesma para a villa da
Vidigueyra, para que Deos descobrice este thezouro quando foce servido. Quando (os)
mouros deixarão as Espanhas purificaram-se os tem(p)los e querendo o céo que a
Senhora se venerace na sua caza por meyo de hum millagre maravilhozo descubrio
aquelle grande thezouro, encuberto de tantos annos. Passando por aquelle lugar ao
romper do dia (h)um virtuozo homem, ouvio debayxo do xam huma (b)em concertada
música. Certificou-se mais e advertindo que não hera illuzão voltou a dar parte ao bispo
diocesano que nesse tempo estava na villa. E vindo (o) prelado ao lugar acompanhado
de muytas pessoas (de) autoridade e ouvindo todos os circunstantes a mesma (p. 1749)
melodia, mandou cavar no sítio e a pouca d(e)ligência encontrarão a Senhora e o sino
sem que mais escutacem a música. Conduziram anbas as couzas em huma procissão
sollemne por todo o p(o)vo, sendo ultimamente a Senhora collocada com o sino na sua
ermida. E crescendo a ermida ao templo, grande(za) que vemos hoje, por superior
destino do céo trocou (a) Senhora o título da Luz pello do Carmello e he a Sen(ho)ra do
Carmo que está collocada no altar mayor (imagem) prodigioza em quem todos os
naturaes e o Rey (...) têm experimentado os favores mais avultados (e) em todas as
affliçoins deste povo he a mesma Senhora o seu mais seguro asilo. Há mil e tan(tos)
annos que esta Senhora se conserva neste povo e (se) admitir pintura artificial, se
conserva com tanta galla como se estivera sempre sahindo das maons dos anjos para
inveja da natureza e maravi(lha) do céo. O sino he o grande que se conserva hoje na
torre do convento, por meyo do qual obra a Senhora continuamente muytos prodígios,
afugenta(ndo) as tempestades e fazendo bem sucedidas nos seos (par)tos todas as
mulheres que em aperto (se)milhante a invocam com devoção.
Há nes(ta) freguezia hum convento de relligiozas domínicas que não têm inveja
aos melhores do reyno (no ...?) material da clauzura e formal da comunidade. Tem tam
copiozas rendas que somente com o(s) juros dos dinheyros que tem por diversas maonz
sustenta a comunidade com abundância. Foy edificado por Dona Ângella de Moura,
mulher (de) João Gramaxo e hera descendente daquelles mesmos Mouras que
resgataram a villa, a qual (fez) a fundação no anno de mil quinhentos e seten(ta) e três.
Sendo a mesma matrona padroeyra do convento que o deyxou abundante de
rendimen(tos). Vieram quatro relligiozas do convento de Nossa (Se)nhora do Paraízo de
Évora dar princípio à comunidade e com ellas se clauzurou a (p. 1750) padroeyra no
mesmo convento, por mercê de seu marido, no dia seis de Outubro de mil quinhentos e
setenta e outo, em cujo dia de tarde se fechou ultimamente a clauzura. He orago da caza
a Senhora da Assumpção, cuja primoroza imagem se venera na capella mayor da igreja.
O templo he magestozo. Tem quatro altarez, todos de talha primorozamente lavrada: o
mayor, douz collateraez e hum lateral, de cuja capella he padroeyro o conde de Val dos
Reys, administrando-lhe o percizo para o aseyo, com capellam perpétuo de missa
cotidiana. A hum lado desta capella última está erigido hum mausoléo soberbo de
mármore embutido na parede, com esta inscripção formal: Aqui jazem os cavalheyros
que resgataram e ganharam aos mouros esta terra em tempo de Dom Rolim. Tem douz
choros, hum alto e outro bayxo, ambos magníficos e está edificado dentro do castello da
villa. Padesceo quasi total ruína no grande terremoto do primeyro de Novembro de mil
setecentos e sincoenta e sinco, morrendo logo trez relligiozas entre as ruínas e muytas
que ficaram incapazes de viver, que acabarão a vida no convento das relligiozas de
Santa Clara da mesma villa, donde se recolherão, por ficar o seu convento inhabitável.
Porém o Excelentíssimo, Reverendíssimo Dom Frey Miguel de Távora, Arcebispo
Metropollitano de Évora, de cujas (sic) jurisdição sam as relligiosas, de tal sorte e com
tam magnífico e piadozo zello lhe reparou as ruínas, que desde os alicerces ficou em
breve tempo innovado todo o convento, a expensas do mesmo Excelentíssimo Prellado,
em termos que para elle voltaram as relligiozas sem susto no mesmo anno. Só entram
em este convento aquellas pessoas que sam de sangue quallificado. Antes de edificado o
convento, era aquella igreja matriz da villa e com licensa de El Rey Dom Sebastião se
edificou ali o convento. Ahinda hoje se conserva na igreja do convento hum capellão da
Ordem, da aprezentação (p. 1751) de El Rey, como Gram Mestre. E com atenção a isto,
sahe ahinda da igreja do convento a porcissão de corpus, não obstante ter-se a matriz
mudado para Sam Joam Baptista. Porém leva o sacramento o juis da Ordem, como prior
da matris.
O comendador paga todos os annos sinco mil para a fábrica da dita capella, por
ser da Ordem. Nelle vivem as relligiozas tam apartadas do sécculo, que não se
encontram na portaria senão as pessoas (fa)milliares ou outras que tenhão no convento
forçoz(as) dependências. Exercitando-se em actos de virtudes são emullação glorioza a
todos os moradores.
Há um recolhimento no destricto da mesma freguezia de que he orago o Spiritu
Santo, porém de(lle) com serteza não se poude saber a origem pella sua (an)tiguidade
demaziada. Consta porém por tradição que foy hospício de padres da Companhia com
obrigaçam de educarem nelle sinco meninos do choro para aseyo delle e mais serviço da
igreja. E depois de vários annos, por ser doentio o sítio foy dezamparado dos padres,
(de)pois servio de hospital, em que a Caza da Mizericórdia mandava curar os enfermos
pobres e em memória disto ahinda a Mizericórdia manda todos os annos (fes)tejar o
orago da Caza do Recolhimento e lhe paga certa pensam. E como os doentes também
naquelle lugar padeciam detrimento, mudou-se o hospital para a mesma Caza da
Mizericórdia, em que o vemos hoje. Viveram no recolhimento passados estes tempos
freiras franciscanas e de prezente acistem nelle terceyras carmellitas calçadas com
louvável exemplo, servindo a Deos.
11.º Tem a villa hospital com expensas reais adem(inis)trado pellos relligiozos
de Sam João de Deos do qu(al) e do convento dará mais exacta notícia o reverendo prior
de Santo Agostinho, em cuja freguezia esta(o col)locados o convento e o hospital.
12.º Há nesta villa Caza de Mizericórdia. Fundou-se (p. 1752) no anno de mil e
quinhentos e setenta e nove, sendo Rey de Portugal o Cardeal Dom Henrique e
concorrendo o mesmo monarca com as expensas. He governada pella irmandade da
mesma Mizericórdia. Tem de renda huns annos por outros perto de setecentos mil réis e
cura todos os annos asima de duzentos e sincoenta pobres enfermos.
13.º Tem a villa trez ermidas no destrito desta freguezia, fora dos muros, todas
ellas de grande devoção para o povo: Santo António do Outeyro, a Senhora da Serra e
Sam Sebastiam. A de Santo António do Outeyro, com a qual o povo todo tem devoção
com mais speciallidade, ficca em pouca distância da villa para o Oriente sobre hum
monte elevado, rodiado de oliveyras por toda a circumferência. Pella rais do monte
passa o piqueno rio Branhas, ficando hum pomar piqueno da parte da villa, immediato
ao rio. E por ditos de homenz que têm discorrido a Ázia e virão este país, consta ser este
sítio piqueno mapa em que se reprezenta ao natural o Ollivate (?), o Cedrone o Horto,
que forão testemunhas dos altíssimos mistérios da nossa redempçam. Pertence o
domínio desta ermida à família dos Ravascos desta villa e na mesma ermida conservão
capellas de missa cotidianna. Desta capella he adeministrador ao prezente Gaspar
Limpo da mesma família e natural da villa de Serpa. A hermida de Sam Sebastiam foy
mandada edificar por El Rey Dom Sebastiam nos subúrbios da villa para o Occidente. A
Senhora da Piedade da Serra fica huma légoa em distância da villa para o norte. Com
devoção a frequenta o povo e que foy capelania curada em tempos antigos, pertencente
à hordem de Avis, he constante fama na villa.
14.º Destaz três ermidaz acode o povo com mais frequência à de Santo António
do Outeyro, em todaz as quartaz-feyras do anno, principalmente naz da Quaresma, em
que he mayor o concurso.
15.º Todo o terreno (p. 1753) do termo desta freguezia he fertillíssimo de
azeytes, vinhos, trigos e toda a mais espécie de gram, s(en)do copizas as colheytas que
fazem os moradores de todas estas quallidades de frutos. He abundantíssima de toda a
sorte de gados, por serem fertilíssimas e (di)latadas as pastagens dos seos baldios, em
que têm grandes entereces os naturaes.
16.º Tem juiz de fora e câmara com subordinação ao ouvidor e provedor da
cidade de Beja de que (he) comarcam a villa. E nella entram com jurisdição os ditos
menistros, que exercitão nas suas correyçoins e mais delligências particullares que lhe
sam recomendadas por Sua Magestade e pello sereníssimo Infante Dom Pedro, senhor
da villa.
17.º Nam he couto, cabeça de concelho, honra ou behetria.
18.º Tem sido berço lusido de varoinz excellentes em letras e virtudes e ahinda
que o descuydo (dos) naturaes tem sido perjudicial a muytos, que (en)tre os heroes de
Portugal mereciam lugar (des)tinto, deyxando-lhe sepultar os nomes no esq(ue)cimento,
ahinda conserva vivíssimas l(em)branças de muytos filhos, que desde a eter(nida)de
com as vozes da fama lhe estam dillatando a glória. Sam filhos desta villa o nunca assaz
louvado Dom Jozé Pereyra de Lacerda, dezemb(arga)dor da Rellação Ecleziástica de
Évora, deputado do Santo Offício, prior da parrochial de Sam (p. 1754) Lourenço de
Lisboa, prior-mor da Ordem de Santiago em Palmella, bispo do Algarve e cardeal da
Santa Igreja de Roma com o título de Santa Suzana, o qual, depois de assombrar a
capital do mundo com o seu talento, se recolheo ao reyno donde imprimio várias obras
jurídicas que mostrarão em todos os sécculos serem filhas daquelle heroe. O
Ilustríssimo Dom Frey Baltezar Limpo de Lacerda da Ordem do Carmo, que foy
arcebispo em Braga. Frey Baltezar Limpo de Lacerda, provincial da mesma ordem, o
qual imprimio várias obras em mil seiscentos e trinta e nove, em que mostrou
cabalmente egrégio do seu engenho. Frey Bento de Sampayo, que foy também
provincial dos mesmos carmellitas. Frey Diogo de Sande da mesma ordem, o qual
escreveo várias obras que não chegarão ao prello, por se abreviar a vida do seu autor. O
venerável Frey Estêvão da Purificação, que deu à luz várias obras, filhas da sua grande
capacidade, no anno de mil e seiscentos e dezacete. Frey Pedro Correya, franciscano,
que imprimio em (...) em mil e seiscentos e trinta e quatro. Garcia Soares Souto Mayor,
que também deu obras ao prello. Manuel Rodrigues Navarro, Clemente Rodrigues
Montanha, párrocho da freguezia de Santa Luzia das Pias, lente de moral no convento
de Palmella e prior da Anunciada de Setúbal, os quais imprimirão ambos. Sid de
Almeyda, dezembargador do Paço, Heytor de Pinna do Olival, dezembargador de
Agravos e procurador da Coroa. Miguel Jácome Esquível, reytor do Collégio da Madre
de Deos de Évora, dezembargador da Rellaçam Ecleziástica, juis executor da Caza do
Despacho (p. 1755), vezitador ordinário, Padre vigário geral de Beja e prior da igreja do
Salvador da mesma cidade. João da Costa Pimenta, reytor do collégio da Madre de
Deos; António de Almeyda, cónigo da Cé de Évora; Christóvão Lopes, cónego na Cé de
Lisboa; Vicente Vaz Ramos, vigário geral de Beja e prior do Salvador da mesma
cidade; Estêvão Pimenta, collegu(iado) da Purificação de Évora e prior da igreja de
Santo Agostinho desta villa; Frey Manuel da Ressurreição, prior de Santo Agostinho
desta villa, que também foy p(rior) em Santa Maria de Serpa; Gaspar Luís Branco,
Doutor em Theollogia, collegial da Purificação de Évora, reytor no Collégio da Madre
de Deos, lente de moral no convento de Palmella e prior da igreja de São Pedro da
mesma villa; Frey Francisco do Couto, que foy o último párrocho que teve a Ordem de
Avis na freguezia de Nossa Senhora das Neves, em distância de meya légoa de Beja.
19.º Tem esta villa feyra franca que dura por trez di(as) e tem princípio no dia
outavo de Septembro e (se rea)liza no dia décimo.
20.º Tem correyo próprio que sahe na quinta de men(hã) e depois de entregar as
cartas em Beja, cabeça da c(omar)ca em distância de sete légoas, chega a esta villa
sábado ao meyo dia.
21.º Este interrogatório vay respondido no número primeyro.
22.º Os foros e previllégios da villa vam também ditos na resposta do
interrogatório primeyro. Mas he d(igno) de memória ter havido nesta villa perto dos
(nos)sos séculos, homem que contra hordem da natureza, servio de ama para os seus
mesmos filhos cri(an)do-os aos seus peytos e mulher que desmentindo (pou)ca
actividade do sexo chegou a receber na face da igreja treze maridos e viveo pellos annos
de mil e (...)centos e vinte e outo (p. 1756).
23.º Há tantas fontes perenes nesta villa, que sendo sem número as fazendas de
pomares, hortas e quintas, que fazem este povo aprazível, fresco e abundante de toda a
sorte de frutas, mais que muytos outros desta província, he raríssima a fazenda que não
recebe o benefício das águas sem artifício algum. Entre as innumeráveis que há dentro e
fora da villa, he mais célebre a que rebenta no meyo do castello, mais bayxa que o
pavimento altura de três braços, com grosso bocal de mármore, à qual se desce por des
escadas de (i)gual matéria e conserva hum padram embutido na parede com inscripção
arábiga, que por estarem os caracteres consumidos com o tempo, não pode ler-se. Não
se sabe a sua origem, mas he tam céllebre que secando-se muytos annos os outros
aqueduttos (d)a villa sem excepção, esta fonte, e quantas della (i)manam nunca
experimentarão em suas ágoas deminuhição levíssima. Desta fonte corre a ágoa em tam
grande abundância que della se reparte em torrentes christallinas por vários aquedutos
que sahem em muitas partes. Hum delles rompe dentro do convento dos Castello, em
huma perene fonte que dá bastante ágoa para toda a comunidade. Outro sahe da praça
defronte de Sam Joam, por três canos de bronze e cahindo em huma grande pilheca de
mármore, desce a hum xafaris de matéria semilhante que serve as persizoinz do povo e
depoiz de regar hum delliciozo pomar da Irmandade das Almas den(tr)o dos muros sahe
dos mesmos, servindo a várias hor(tas) da villa. Por outro aqueduto sahe bastante
por(ç)am de ágoa da mesma fonte por trez canos de bronze na mesma praça defronte da
porta do Carmo, que sahe em hum grande cano de mármore e desce para hum grande
xafariz de semilhante matéria que faz a praça igualmente vistoza e aprazível. Também
sahe da fonte do Castello outra repartição de ágoa que rebenta no adro do Carmo por
hum cano de bronze e cahe em huma piquena pia de mármore de que corre para os
campos. Por sima da bicca está huma imagem de Nossa Senhora do Carmo sempre
illumminada em hum vistozo nicho com o resguardo, decência e gravidade possível. Há
outra fonte dentro (p. 1757) dos muros à porta de Sam Francisco que re(ben)ta por hum
bocal de mármore e desce a hum tanque (e) xafariz da mesma matéria. Fora dos muros
(se) discobrem mais duas fontes magníficas e perenes, h(u)ma fora da porta de Santa
Justa immediata aos muros para o nascente e outra na ladeyra do Moscam, (tam)bém
próxima da villa para a mesma parte, ambaz (ellas ?) vistozas com canos e xafarizes de
mármore. Por bayx(o) do balluarte de Santha Catherina para a parte do norte sahe outra
dos mesmos muros e dispenhando-se por hum cano copiozo serve a muytas hortas. No
caminho que vay da villa para Santo António do Outeyro re(s ?)ta outra por sima de
hum penhasco e precipitando (-se) pello mesmo por meyo de várias plantas e flores
fa(z) o sítio ameníssimo e refrigera os devotos do Santo.
24.º Não há na villa porto de mar.
25.º He praça de armas toda rodeada de muros. Por(ém) nas últimas guerras de
Portugal e Hespanha fi(ca)ram arruinados por muytas partes, têm-se reparado as
(ru)ínas quanto he posível e o mais suprem os melita(r)es infantes que continuamente a
vigiam. Tem quat(ro) baluartes principaes: o baluarte alto e o da Boa Vis(ta) que
defendem a villa para o sul, oriente e ocazo am(bos) elles fortalecidos com boa
artilheria. O baluarte de Sa(m) Sebastiam e o de Santa Catherina, igualmente sortid(os)
de artilheria, que defendem a mesma villa para o norte, nascente e poente. Tem três
baluartes menores, hum para o oriente, próximo aos quartéis, outro ao poente, por baixo
da porta de Sam Francisco e o último junto à matris da villa, que cahe para o norte, e
ahinda que com menos artilheria, sempre estam bastantemente sortidos para a defença.
Tem dous fortes fora dos muros, hum para o ocidente, fora da porta de Sam Francisco e
he o forte de Dom Pedro Massa. O(utro) para o sul, fora da Porta Nova para impedir o
(ser) atacada a villa por estas duas partes, por serem am(bas) mais acomodado sítio para
os ataques. He rodea(do) de hum excellente fosso que para o occidente e n(orte) a fas
mais defensável, rodeando-lhe os muros com (hum) ribeyro pelo ocidente e hum
despenhadeyro (p. 1758) medonho pello norte, que fazem a fortalleza inaccesível.
Dentro da villa tem belíssimos quartéis que acomodam hum regimento. Para o norte fica
a Porta do Carmo, para o sul a Porta Nova, ambas ellas magníficas com portados de
cantaria lavrada e portas (?) incontrastáveis. Para o nascente e poente ficam duas portas
menores, mas ambas ellas fortíssimas e bem acomodadas para servir-se o povo. No mais
alto da villa fica o castello que apenas conserva os vestígios da grandeza com que se
ornava. Estava todo cercado de hum jardim ameníssimo em que as fontes e os arvoredos
fazião hum gostozo labirinto para os sentidos. Na entrada do castello havia huma torre
grandioza que chamavam do Cavallinho. Para o occidente fazia a gallaria (sic) do
castello hum palácio excellente em que acestiam os governadores da villa. No meyo
huma pracça de armas bastantemente espaçoza e todo o mais circuito do castello
guarnecido de várias torres, porém tudo ficou arruinado na guerra da aclamação de Dom
Joam o quarto. Ficou sempre illeza a torre da homenagem que serve de trem (sic) para
todos os instromentos mellitares que tem a praça. E não chegou a ser minada pellos
castilhanos em atençam às relligiozas que padeceriam neste golpe o último estrago, por
ficar o convento nas raízes da mesma torre. Para a parte do Carmo tem outra grande
torre o castello. E levantando-se no ar metade da torre com as minas que lhe fizerão,
cahio sobre a metade que tinha ficado fixa, couza que todo este povo atribuhe a prodígio
da imperatriz do Carmo, porque cahindo fora do muro deyxaria o convento todo
arrazado. Nem ahinda no terremoto chegou a precipitar-se, porque a mesma mam a
deteve, padecendo ruína quazi todos os ediffícios da villa, ahinda os que prometiam
mais duração. Porém todos elles nesta villa com a boa delligência dos moradores se
acham inteyramente reparados.

 

Os interrogatórios vinte e seis e vinte e sete ambos vão respondidos nos números
immediatos.

 

Não há no destricto desta villa cerra alguma, este motivo porque se não responde
aos interrogatórios que se (p. 1759) fazem nesta matéria. Para o sul sim tem (...) hum
pedaço de cerra fragozíssima em distância de h(u)ma légoa, a que chamam a Cerra Alta,
abundante de cassa de montaria: javardos, corsos, gamos, servos, (ra)pozas, lobos e
infinita cassa miúda. Porém esta não tem couza sélebre que faça precizar de resposta ao
prezente interrogatório. E quando a houvesse aos párrochos em cujo destrito ficca
dariam cabal resposta.

 

A respeyto de rios pouca matéria se discobre também nesta villa para responder
aos interrogatórios que (se) fazem em particullar semilhante. Sim, é cercada (de) rios
que a fazem igualmente amena e vistoza. (He?) de tam deminutas circunstâncias que
não conhe(ço) couza que sirva de admiraçam. Pella parte do O(ri)ente da villa corre o
piqueno rio Brenhas que tem huma légoa de carreyra, das raízes da Cerra Alta (...) que
nasce para o sul, athe morrer no mediano rio de Ardilla para o norte. Pella parte do
occiden(te) corre junto dos muros o piqueno rio da Roda que (de)pois de fazer a villa
aprazível com hum quarto de légoa de carreyra sepulta em Branhas todas as suas ágoas.
Ambos elles sam tam pobres de correntes quanto abundantes de arvoredos, lagares,
asenhas e moinhos, suprindo com esta circunstância a pobreza do cabedal. Em distância
de meya légoa ao norte corre (o) medianno rio de Ardilla, que tem seu nascimento nas
montanhas de Arouche e rayas de Portugal e com des légoas de car(rey)ra perde o nome
em Guadianna, no sítio do Ameyxial. Em (dis)tância de huma légoa para o occidente
corre o Guadianna, rio famigerado nesta província. Tem seu nascimento em (Hes)panha
de huma grande lagoa, nas manxas de Aragam e en(tran)do por Portugal discorre pela
mayor parte das terras da (fron)teyra e enriquecendo a todas com suas ágoas, vay perder
o nome no occeanno do Algarve na barra de Ayamonte. Este rio (...) de Ardilla sam
ricos de fazendas de asenhas e moinhos e abundantes de toda a sorte de peyxes de ágoa
doce: Eyrós, lam(preias), sarmoins, barbos, picoins, sarrellos, e infinito peche mi(údo).
O de Guadianna he perene, tem trez pescarias no seu des(tricto) que pertence a esta
villa. Têm nome de Caneyros e sam dos (...) senhorios particullares da villa. Fora
navegável a não (haverem ?) tantos asudes que o embaraçam. O de Ardilla corre
muy(ta) parte do anno, mas seca-se de Veram. E ambos estes rios só têm paridade neste
sítio para embarcaçoins de remo.

 

He a matéria com que posso responder ao prezente interrogatório. Moura, 2 de
Julho de 1758.
Por moléstia do reverendo prior
O beneficiado Fr. Pedro de Leão e Lima Bastos

 

 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa


in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro,  Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2002, pp.47-62.

Santo Amaro, 1758, Junho, 10
Memória Paroquial da freguesia de Santo Amaro, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 3, nº 56, pp. 419 a 422]

 


Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor

 

Por ordem de V. Ex. R. recebeu o cura de Santo Amador termo da villa de
Moura huns interrogatórios, dos quaes remete suas respostas, dentro do tempo que lhe
foi detriminado pella mesma ordem, fazendo somente menção daquelles interrogatórios,
que tem que responder a elles.

 

Respostas são as que se seguem:

 

[1] Fica na província do Alentejo, pertence ao Arcebispado de Évora, comarca
de Beja, termo de Moura e freguezia de Santo Amador.
[3] Tem vinte e dous cazeiros vezinhos, juntos, herdades trinta e huma,
devedidas. As pessoas que se conservão de ordemnario em toda a freguezia, são
duzentas e sincoenta pessoas. He a ditta igreja do Excelentíssimo Reverendíssimo
senhor Arcebispo de Évora e de seus sucessores.
[4] Está situada a igreja, vezinhos, herdades, em montes; e as terras que mais se
cultivão em campina, de barros, de hum monte que está junto à igreja a que chamão os
Bispos. Da parte do poente se descobre para esta mesma parte a villa de Moura que
dista duas légoas; e para a parte do nascente se descobre a freguezia de Santo Aleixo,
que dista duas légoas; e para a parte do sul se descobre parte da freguezia da Coroada e
Monte Alvo que que distão huma légoa e para a parte do norte se descobre a freguezia
da Amareleja e parte da Póvoa, que distão huma legoa. Todas as dittas freguezias são
termo de Moura; e também da parte do norte athe o nacente se descobrem Villa Nova e
suas circumvizinhanças em Castella que distão sinco légoas e asim mais a villa de
Monsarás e suas circumvezinhanças, que dista seis légoas.
[6] A parochia está junta aos vezinhos e no meyo das herdades, que lhe fazem
duas fileiras, huma da parte do sul e outra da parte do norte.
[7] O seu orago he Santo Amador. Tem três altares, hum mayor e dous colatraes,
no mayor da parte do Evangelho está Santo Amador de glória e de fermoza estatura,
motivo porque o não levarão os castelhanos no tempo da guerra, em o meyo está a
Senhora da Assumpsão, de vestidos, bem ornada; e da parte da Epistolla está S. Luís
Bispo de vestidos bem luzido; no colatral da parte do Evangelho está em o meyo a
Senhora das Neves, da qual se intitula o ditto altar, he da glória, com perfeita
encarnação; e da parte do Evangelho do ditto altar está a Senhora do Carmo, de pequena
estatura, he de vestidos está perfeita ademiração (?); e da parte da Epistolla está Santo
André apóstollo, he da glória está munto aseado; e no colatral da parte da epistolla está
em o meyo hum cruxifixo de boa porporção bem feito e damasco encarnado,
comunicando as chagas a S. Francisco, que está da parte do Evangelho, no mesmo altar.
He da glória, figurado com bastante humildade a santidade e da parte da Epistolla está
Santo António, he da glória de rara figura e própria santidade com hum menino Jesus
nos braços. A igreja tem huma só nave, he toda de abóbeda, tem de comprimento vinte e
duas varas e de largo seis; na capella mor tem hum quadro novo, de madeyra todo
oleado (p. 419) com seu fermozo pavilhão no meyo com todas as molduras douradas.
Tem seu cruzeyro de madeira oleada, molduras douradas com dous confissionários a
face ao altar da porta principal que outra não tem. Está à parte esquerda a pia baptismal,
com suas grades de madeyra oleada feitas com (...) arte e com suas molduras douradas.
(...) que fazendo-se o quadro do altar mor e desmanchando-se o antigo, junto no remate
do altar em a parede se acharão princípios de humas letras e rompendo-se parte do altar
se descubrirão todas e dezião esta capella se fes na era de mil e duzentos, digo e
quinhentos e sasenta e dous e todas da letra redonda e bem feita; e dous meyos corpos,
hum de home da parte da Epistolla e outro de molher da parte do Evangelho e também
hum quadro de Santo Amador, já em partes desfeito entre dezerto e paizes (?) e tudo
pintado na parede e mostra-se por algumas experiências (...) do quadro como na obra da
alvenaria na reforma das paredes que se fizerão na ditta igreja ser antiguamente ermida
e depois fazer-se o corpo da igreja e o quadro, que se desmanchou. Também à porta da
igreja da parte de fora está huma pedra quadrada que mostra ser princípio de colunna,
que dizem viera de um sítio que se acha dentro desta freguezia, a que chamão o Villar
da Poupanna, junto a Val de Paraízo, donde se têm descuberto alguns edifícios, que
parece ter sido convento. Dista o ditto sítio, chamado Villar da Poupanna desta igreja
meya légoa dentro da mesma freguezia e fica da igreja para a parte do poente. Tem a
ditta pedra que bem si contacem, sinco letras grandes, que dizem o seguinte: LULUS.
8 O párocho he cura, que aprezenta o Excelentíssimo Reverendíssimo senhor
Arcebispo de Évora e seus sucessores. Tem de renda sinco moyos, impostos nas
herdades e hum alqueire de trigo mais a hum dos cazeyros.
15 Dos fructos que recolhem os moradores em mayor abundância são trigos, que
também colhem sevada, senteyo e bastante tremês.
16 Está sugeita ao governo da justiça de Moura de que he termo.
17 Toda esta freguezia he de particulares.
18 Na pia desta igreja se baptizou o Doutor Manoel Coelho Vivião, vigário da
vara da vila de Moura e confessor das freyras do Castello da ditta villa, vizitador
ordemnario e comissário do Santo Ofício.
20 Sirve-se do correyo da qual, digo, digo de Moura de que dista duas légoas.
21 Dista da cidade capital do Arcebispado doze légoas e de Lisboa capital do
reyno vinte e seis légoas.
26 No terremoto de mil settesentos sincoenta e sinco cahio o tecto da abóboda da
igreja sem fazer outro perigo algum e antes de hum anno se reparou com mais aumento.

 

Segunda parte:
1 Chama-se a freguezia da Barrada de Santo Amador, termo de Moura.
2 Tem de cumprido duas légoas e de largo huma légoa. Principia em Val de
Vinagrinho da parte do nacente e acaba na Defeza da parte do poente.
3 Parte do nacente com a freguezia de Safara, do poente com a matris de S. João
Baptista de Moura, do sul com freguezia de Coroada e Monte Alvo, do norte com
freguezia da Amareleja e Póvoa, todas termo de Moura.
4 Duas ribeyras passão correndo por esta freguezia, huma que se (p. 420) chama
Ardilla, que corre do nacente para o poente e outras a que chamão Toutaliga, que corre
do sul para o norte. Ardilla fenece em Guadiana e Toutalliga fenece em Ardilla.
[10] A qualidade e temperamento desta freguezia he cálido.
[11] Há criaçoins de gados, a saber, bois, ovelhas, porcos; a algumas herdades,
com montados, que poderão por todos emgordar trezentos porcos. Há coelhos, perdizes,
lebres, em terras que bem se devertem os coriozos, com galgos.

 

Terceyra parte:
[1] Huma das ribeyras que dice na segunda parte, que se chama Ardila,
nasce em Castella, no sítio a que chamão Medina delas Torres.
[2] Donde nasce, corre todo o anno.
[3] Outra nesta Ardilla, no sítio desta freguezia a que chamão Defeza, outra a
que chamão Toutaliga e perde este nome.
[4] A sobreditta Ardilla de Inverno he navegável em barcos pequenos, que de
Verão pouco corre.
[6] Corre de nascente a poente.
[7] Cria peixes, a saber: bogas, seramugos, bordallos, picoins, barbos que pezão,
como eu ouvi a pessoas dignas, vinte e hum arrattel; que de doze athe vinte há muntos e
muntos mais dos que dice atrás destes. Também se crião nesta ribeyra Ardilla huns
peixes a que chamão herós, de que se faz em notabilíssimas empadas e também se crião
huns animaes a que chamão lontras, que se parecem com gattos, como as herós com
cobras, aquellas cubertas de cabellos, pardas humas, outras pretas que se sustentão com
os bons e milhores barbos que se crião na ribeyra.
[9] No sítio desta freguezia são as pescarias da ditta ribeyra livres e em todo o
anno comuas a todos os que querem pescar.
[10] Poucas das suas margens nesta freguezia se cultivão, porque são fragozas.
Donde nasce conserva o seu nome, que he Ardilla e só o perde em Guadianna, no sítio a
que chamão Entre as Ágoas, que dista desta freguezia para a parte do poente duas légoas
e meya.
[16] Tem no sítio desta freguezia sinco moynhos.
[18] Livremente uzão todos de suas ágoas.

 

Dice.
Que conhecendo a minha incapacidade para o dizer, me sirva de desculpa a
obediência. O Ceo guarde a Excellentíssima pessoa de Vossa Excelência, tão
benemérita de huma dilatada vida, como de huma immortal fama. Santo Amador, 10 de
Junho de 1758.
Súbdito de Vossa Excelência
o Cura João Carrasco Alverca

 

 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa

 

in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2002, pp. 85-88.


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