1758 Abril 20 - Vendas Novas Memória Paroquial de Vendas Novas, Montemor-o-Novo. [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 39, nº 125, pp. 711 a 716]
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Rellação do que se procura saber nesta terra comforme os interrogatorios seguintes, que remeto incluzos na forma da ordem de Sua Emcellência Reverendíssima.
Interrogatorios
1 Ao primeiro digo, que fica na Provincia, do Alentejo Arcebispado de Evora, Comarca da mesma Cidade, termo da Vila de Montemor o novo, Freguesia de Santo Antonio das Vendas Novas. 2 Ao Segundo digo, que he del Rey geralmente. 3 Ao terceiro digo que tem sincoenta e sinco vizinhos, e duzentas e quarenta e tres pessoas como consta. 4 Ao quarto que está situada em Monte, posto que mais bacho, que os outros que a cerção, de hum dos quais se descobre a dita villa de Monte mor o novo, da qual dista tres legoas e meya. 5 Ao quinto respondo, que o seu termo he ser Termo da mesma villa de Monte mor o novo, comprehende a menos parte da Aldeya ou Lugar, a que chamão das Vendas Novas, que d’estráda Real, que vay para Lisboa devide, este termo do da villa de Cabrélla; aonde pertence a mayor parte; consta de trinta e nove vezinhos, destes só déz pertencem a esta parroquia. 6 Ao seisto está a Parroquia fora do dito Lugar, dista delle meya Legoa, não tem a freguezia mais lugares, que a referida parte do dito lugar asima ou Aldeya chamada Vendas Novas. 7 Ao setimo digo he o seu orágo Santo Antonio das Vendas Novas, a que antigamente consta
/p. 712/ se chamava S. Fernando, tem tres altares, hum mayor, do dito Santo Antonio, aonde está tambem S. Pedro, e no meyo huma perfeita Imagem de Santo Christo, he Igreja pequena, que não tem naves, tem sim duas Irmandades, nos outros dois Altares Collateráis; huma do Rozario, em cujo altar áparte do Evangelho, está huma tão perfeita Imagem, da mesma Santíssima do Rozario, que se patenteya no meyo do dito altar por meyo de huma christalina vidraça, que leva as ademiraçõis, a quem a vê, e huma Imagem de S. João Baptista; outra, das Almas, em cujo altar, que está á parte da Epistolla no meyo, está huma Imagem de Sam Miguel, que se lhe collocou de novo, e de huma parte, está huma Imagem de S. Sebastião, e da outra huma, de S. Bras todas as ditas Imagens com Muita veneração e perfeição, como permite a pobreza da freguezia, este Altar das Almas, foi em algum tempo Altar de S. Pedro. 8 Ao oitavo he o Parrocho Cura, da Aprezentação do Excellentíssimo e Reverendíssimo Senhor Arcebispo de Evora, a renda, que tem são quatro moyos de pão, a saber dois moyos e quarenta alqueires de trigo, e ouitenta alqueires de sevada, chamado Bollo que os freguezes costumão dar lhe para sua comgrua. 9, 10, 11 e 12 Ao nono, decimo, onze, doze interrogatorios, não há que dizer nesta terra; porque não tem Beneficiados, nem Conventos, nem Hospital, nem Caza de Mizericordia. 13 Ao décimo terceiro digo, que não tem mais Ermidas, e
/p. 713/ sem titullo de Santo algum, do que huma Capélla publica interina, que Sua Magestade que Deus Guarde mandou fazer para a comodidade dos moradores do dito Lugar chamado das Vendas Novas, e os passageiros ouvirem missa, está dentro do mesmo Lugar, da parte desta freguezia, chama-se a Capélla Real do real Pásso das Vendas Novas, pois está no mesmo Pásso, pertence á Sua Magestade, o qual tem no dito Pásso, não só hum Almoxarife, a quem paga, mas tambem hum Capellão Seu, com obrigação de missa, quotidiana na dita Capella, por Suas Magestades, a quem dá o Seu estipendio, que \ignoro/ não tem mais, que hum Altar, no qual não está Imagem, alguma de Santos, senão só hum Retáballo, que foi antigamente da Capélla da Estalagem del Rei, com duas pinturas no mesmo, huma de S. João de Deus, e outra de Santo Antonio, no lugar da dita Estalagem se edificou o Magnifico e sempre ademiravel edificio do dito Real Pásso para as passagens de Suas Reáis Magestades. 14 Ao décimo quarto não tenho mais, que dizer senão, que não acodem a élla romagem alguma. 15 Ao décimo quinto digo, que os frutos desta terra são Landeyras Bollétas, Trigo Senteyo e Sevada, e os que os moradores recolhem en mayor abundancia, são Landeyas para os Pórcos, Trigo, e Senteyo. 16 Ao décimo Seisto não tem juis ordinario [...] nem Camera, tem sim juis da vintena, e Escrivão, que estão sujeitos ao governo das justiças da villa de Monte mor o novo. 17 Ao décimo Setimo digo, que não he Couto,
/p. 714/ nem Cabeça de Concelho, nem Honra, ou Behetria. 18 Ao décimo ouitavo não há que dizer nesta terra, porque não ha memoria de que nella florecessem ou della sahissem alguns homens insignes por virtudes Letras, ou armas. 19 Ao décimo Nono tambem, não ha que dizer, porque nella não há Feira, nem franca, nem Cativa. 20 Ao vigéssimo digo, que não tem Correyo, e se serve do Correyo da villa de Monte mor o novo, da qual villa aonde elle chega dista tres Legoas e meya. 21 Ao vigéssimo primeiro digo que dista da Cidade Capital do Arcebispado, ouito Legoas e meya, e da de Lisboa Capital do Reino dista onze Legoas e meya, ouito por terra e três por Mar, e mais meya por terra. 22 Ao vigéssimo segundo não tem privilégios alguns, nem mais antiguidades, do que as referidas, nem outras Couzas dignas de memoria, mais do que chamasse a Igreja de S. Fernando, antigamente, e o mais que se contem no setimo imterogatorio, e décimo terceiro. 23 Ao vigéssimo terceiro não há que dizer nesta terra, porque nem nélla nem perto délla há fonte alguma, nem lagoa, que seja célebre, nem suas agoas, teem qualidade alguma especial posto que boas. 24 Ao vigéssimo quarto não há que dizer nesta terra, porque não he porto de Mar. 25 Ao vigéssjmo quinto tambem não há que dizer nesta terra, por não ser murada, por não ser Práça de armas, nem nélla nem en seu districto, há Castélio algum, nem Torre antiga. 26 Ao vigéssimo Seisto digo, que por não haver nesta terra o que no interrogatorio vinte e sinco supra, se procura,
/p. 715/ tambem não há que dizer nelle. 27 Ao interrogatorio vinte e sete e ultimo, do que se procura saber nesta terra, de tudo o mais que nella houver digno de memoria, ia fis menção, de que nella há o inclito e afamado Pásso real chamado das Vendas Novas tão Magnifico como ademiravel, tanto na grandeza de sua architétura, como nas ademiravens pinturas com que no interior se orna, prometendo ser mayor a Sua grandeza nas Obras que princiapiadas ficarão por acabar, padeceo alguma ruina no terremoto de mil e setesentos e sincoenta e sinco annos, em seus telhádos e pinturas e algumas ráchas nas paredes interiores, o que ainda não esta reparado; tem suas ágoas em abundancia, tanto em hum póço de que se servem os moradores, do dito lugar das Vendas Novas e passageiros publico de boa ágoa, ao pée do dito Pásso e defronte da parte de fóra, como em outro, que tem da parte de dentro, que Sua Magestade mandou comcertar empedrar e preparar, e em huma telha de ágoa, que córre de huma fonte que está da parte de fõra para dentro do mesmo Pásso, tem dentro de si dois grandes Pátios ou picadeiros, alem de outros muitos que tem pequenos, huma grande Cavalharisse de novo que acomóda mais de duzentos cavállos, pella qual se pode entrar e sair á Cavallo, com muita acomodação dentro em si, asim de Cocheiras, como de tudo o mais, que por necessario, e com toda a grandeza, divizão, e preparação dos quartos que são necessarios, com a sua devida distinção; tem suas terras
/p. 716/ da parte de fóra, que o cercão, tem o seu Almoxarife, com rezidencia nelle como ia dice, com seu escrivão, que não tem nelle rezidencia. por agora. Aos interrogatorios segundos, seguintes, do que se procura saber dessa Serra não há que dizer nesta terra, porque nella a não há. Aos interrogatorios ultimos, que se seguem do que se procura saber do Rio dessa terra, tambem não ha nella, que dizer, porque nella não há rio.
Finis
Declaro eu Padre Andre Gomes Gallego Parrocho desta freguezia de Santo Antonio das Vendas Novas da Villa de Monte mor o novo, que não tenho, mais que dizer, aos interrogatorios, do que se procura saber desta terra, na forma da ordem de Sua Excellencia Reverendíssima, do que o que nesta rellação tenho relatádo, que remeto fecháda com os ditos interrogatorios incluzos na forma da mesma ordem ao Reverendo vigario do districto. e por verdade me signei. Santo António das Vendas Novas. 20 de Abril de 1758
O Padre Andre Gomes Gallego
Transcrição: Jorge Fonseca
1758 Junho 6 - Santiago de Escoural Memória Paroquial de Santiago de Escoural, Montemor-o-Novo [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 14, nº 15, pp. 399 a 406]
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Fica esta freguezia de Santiago do Escoural na Provincia do Alentejo, pertence ao Arcebispado de Evora, Comarca da mesma cidade, e termo da villa de Montemor o novo. He Paroquia do Campo, sem Donatario, a principal freguezia do dito termo, e ainda das mais famozas do Arcebispado. Consta de duzentos, quarenta e dous fogos. Pessoas mayores outo centas e quarenta; menores cento e trinta; que vivem espalhadas por varios Montes, Pumares, e Aldeas de que se compoem a dita freguezia. As aldeas sam duas: a primeyra em que esta a Igreja Paroquial, chama-se de Santiago e consta de vinte, digo consta de secenta visinhos; a segunda Aldea chamada Biscaya, e consta de vinte visinhos, que todos entrão no referido numero de fogos, ou casaes de que consta a dita freguezia. He orago dela o gloriozo Apostolo Santiago, cuja sagrada imagem esta na Igreja Paroquial; tem esta huma so nave, Altares sinco, todos dentro do cruzeyro. No Altar mor esta em sacrario o Santissimo Sacramento; ao lado direyto huma imagem de Nossa Senhora da Esperança, ao esquerdo à do sobredito Apostolo, tem sua tribuna de entalho toda dourada, e no throno della emquanto o Sacramento não está exposto, esta huma imagem de Santa Anna. Dos quatro Altares colateraes, dous ficão a face: ao Lado direyto o de Santa Catherina em que esta huma imagem da dita Santa, como tambem as sagradas images de Sam Francisco de Borja Padroeyro do Reyno contra os terramotos, a de Sam Gregorio, e a de Sam Bras. Na face do lado esquerdo esta otro Altar de Nossa Senhora das Brotas com huma imagem da mesma Senhora, otra de Sam Joam Baptista e otra de Santo Antonio. Nos lados immidiatos a estes, estão otros dous Altares:
/p. 400/ na parede do Lado dereyto, o da Nossa Senhora do Rozario, em que esta a mesma May de Deos com seu bendito Filho na arvore de seus gloriosos ascendentes, como tambem Sam Bento, e Sam Pedro Martir. Finalmente a Cappella do lado esquerdo he das Almas tem no meyo do Altar huma imagem de Christo Crucificado Milagroza, e as de Sam Miguel, Sam Pedro, e Sam Sebastiam. Todas as referidas images desta Igreja estam em vulto, e estofadas de ouro. Tem a freguezia tres Irmandades: a primeyra do Santissimo Sacramento, a segunda de Nossa Senhora do Rosario, a terceyra das Almas. O Paroco desta freguesia tem o titulo de Cura, he da aprezentaçam do Excelentissimo Ordinario Prelado do dito Arcebispado. Nam come Dizimos; tem huma congrua de sete moyos de trigo, e quatro, e meyo de sevada, que lhe pagam os freguezes, por lhes dizer missa, e administrar os sacramentos. Alem do Paroco, tem esta freguesia hum Cappellam de missa Coditiana no Altar das Almas de huma Cappella, que nelle institui Constantino Borges de Carvalho: tem de renda o Cappellam quatro moyos de trigo, e dous de sevada, que lhe pagam Manoel de Myra, e Gaspar de Myra Lavradores desta freguezia, e administradores da dita Cappella aos quais pertence a nomeação do Cappellam da mesma. Tem a freguezia duas Ermidas: huma de Nossa Senhora do Rosario em huma Quinta dos Lobos e Gamas de Evora Cidade, junto á sobredita Aldea de Biscaya, na qual se venera hua imagem da mesma Rainha dos Anjos, que trouce Luis Lobo da Gama da Cidade de Evora com tão excessivo zelo, que se fes foreyro a Irmandade do Rozario do Convento de Sam Domingos da dita Cidade em tres mil reis cada hum anno, obrigando asim aos Irmaos
/p. 401/ daquella Confraria a lhe deyxarem trazer para a sobredita Ermida á referida imagem antiga daquelle Santuario para a sua Ermida, na qual a collocou em o primeyro Domingo de Outubro do anno de mil ceiscentos outenta e tres como refere o Santuario Mariano tomo 6. Lib. 1. tit. 99. pag. mihi 345. Ainda que na cituação da dita Ermida hove engano em quem informou o Autor; porque a Ermida sim fica á parte do Sul da Villa de Montemor, como tambem á freguezia; dista porem da dita villa so huma Legoa, e tres quartos de otra; e não duas Legoas e meya como affirma o Santuario Mariano: da freguezia dista hum quarto de Legoa a dita Ermida, e nesta em o mesmo dia, Domingo primeyro de Outubro, em que Luis Lobo da Gama collocou aquella Sagrada imagem he todos os annos solenemente aplaudida por seus nubelissimos descendentes a mesma May de Deos, e Senhora do Rozario. A segunda Ermida que tem a freguezia fica pouco mais de meya Legoa afastada da freguezia, ou Igreja Paroquial, na estrada, que vay della para a villa de Monte mor em huma Quinta de Manoel de Villa Lobos da dita Villa; o Orago deste he Sam Chrystovão, e o Padroeyro o dito Manoel de VilIa Lobos; mostra esta Ermida ser ainda mais antiga, do que a primeyra bem asim pella sua architetura, como pellas antiquissimas, e nobres cazas com sua Torre, que junto a ella estam na dita Quinta, e mostrão claramente ser tudo munto antigo, e feyto no mesmo tempo; não tem mais imagem, que a de Sam Christovam. Os frutos, que os moradores desta freguezia colhem em mayor abundancia, he senteyo; trigo e sevada menos; tem porem em grande quantidade Laranja da China, doce e azeda, Limão de todas as castas, Ameyxa, Maçam, e Pera, na mesma forma; por se compor esta freguezia de muntos Pumares, e Quintas
/p. 402/ de Regadio com muntas, e boas agoas de fontes, que nellas nascem, do que junto com certa propriedade da terra rezulta ter a mais saboroza fruta de todo o termo de Montemor, e particularmente a Laranja doce deste Pays he particular no gosto em todo Alentejo: motivos que fazem esta freguezia a mais amena, e deliciosa de todas as Paroquias do Campo do dito Arcebispado. Dista esta freguezia quatro Legoas da Cidade de Evora; da Corte e Cidade de Lisboa quinze; da vilia de Montemor o novo duas. No terremoto do anno de mil settecentos sincoenta e sinco padeceo ruina a Igreja Parochial desta freguezia, abrindo-se por todo o comprimento della á abobeda da mesma, cuja ruina ao prezente se acha reparada. A couza mais digna de memoria, que acho nesta Igreja he ser o pulpito della o mesmo em que, vindo a este Reyno o grande Sam Francisco de Borja no anno de mil quinhentos e secenta, pregou na Sé de Evora á rogo do Serenissimo Senhor Dom Henrrique Cardeal Rey, en aquele tempo Cardeal Infante, e ja Arcebispo daquella Deocese; o qual pulpito, fazendosse depoes otro mais rico para á Cathedral foy dado para a Igreja das Reiligiosas de Santa Monica da dita Cidade, donde depoes o comprarão os moradores desta freguezia: he tradição comunissima, ainda que não pode achar nos Livros da fabrica o anno em que se fes esta preciosa compra; mas uniformemente mo asentaram asim Logo que vim para esta freguezia ha des annos pessoas antigas noticiosas e dignas de credito da sobredita Cidade, e desta freguezia donde desde o tempo da compra se conservou por tradição de huns a otros, a memoria della. Está a freguezia rodeada de varias serras todas pequenas, em termos que por quer dos lados, so se ve a Igreja Paroquial, a Aldea della, quando se esta junto a mesma; da parte do Norte tem sua abertura entre as mesmas serras por donde he munto lavada [...] vento, e por isso mesmo sadia.
/p. 403/ Das serras, so huma se fas memoravel, e se chama Serra de Monfurado; veo-lhe a propriedade do nome de se verem na mesma serra muntas covas, e algumas, que atravessão por bayxo delia, por cujo motivo lhe chamavam Serra de Montefurado, e curupto vucabulo se veyo chamar Serra de Monfurado: a princiapl concavidade destas, que nella se acha he huma, a que chamam a Cova Santa; por esta entra hum homem de ordinaria estatura direyto, e vay caminhando por bayxo da serra espaso de des, ou doze varas (segundo me aseverou pessoa fidedigna, que entrou e andou por ella) no fim da qual distancia se encontra huma grande pedra, que impede o Caminho, deyxa porem boraco, pello qual não cabe homem; mas por elle se deviza ser ainda a dita serra oca por diante. O motivo de charem digo de chamarem a esta Cova Santa, he por afirmarem ouvirão sempre dizer, que naquella Cova fora sepultada Santa Quitheria martirizando-a em defensa da fe na Vilia de Montemor, mas eu não pode averiguar a verdade do motivo desta tradição, que he antequissima nesta frequezia. Pouco afastado da dita Cova Santa otras covas na mesma serra, a que chamavam Covas infernaes, por serem munto horrendas, e cauzarem pavor ainda de dia a quem chegava a ellas, tendo receyo grande ainda os pastores de passarem por ali com o seu gado. Para estas covas veyo havera perto de sincoenta annos hum homem natural da Cidade de Evora officiai de Caldereyro chamado Joam de Deos, e trouce huma imagem pequena de Nossa Senhora, a que deo o titolo do Castello, e a colucou em hum nixo, que fes na gruta de huma daquellas covas, guarnecendo o nixo com cascas de aMejoas, donde principiaram hir logo em romagem varias pessoas, e a May de Deos a mostrar as maravilhas de seu poder.
/p. 404/ O dito Joam de Deos vivendo naquella cova em hum habito pardo de Donato, pes descalsos, cabeça descuberta, ainda quando sabia fora, comendo ervas cruas, e alguma fatia de pam que lhe davam de esmola, e fazendo otras muntas penitencias com edeficaçam grande de todos que o viam, mudou o nome a estas covas, e fes perder o medo, que o mundo tinha de chegar a ellas; agregaram se lhe pouco depoes tres companheyros: hum dos quais se chamava Joam pecador, otro o Irmam Xavier, vivendo todos, cada hum em sua cova, com a mesma penitencia, e edificação; mas o Demonio, que nam se descuida, sofrendo mal que aquellas covas se trocassem de infernaes em Santas, fes tam forte guerra ao mais velho, que finalmente o venceo, deixando Joam de Deos aquelle Ermo, e voltando ao seculo. Dos tres que ficaram entrou o Irmam Xavier por mais velho a ser, o que dominava os mais, e no tempo do seu governo, sendo na era de mil settecentos e dezouto, pouco mais, ou menos veyo para estas Covas de Monfurado o Irmam Balthezar da Corte e Cidade de Lisboa, e retirando-se pouco depoes o Irmam Xavier a fazer da mesma forma vida Eremitica em huma serra junto a Ribeyra do Sado no termo de Alcacere do Sal do mesmo Arcebispado em huma Ermida de Nossa Senhora da Conceyção, deixando os que ficarão nas covas na direção e obediencia do Irmam Balthezar, varam bem conhecido neste Reyno pella sua extraordinaria penitencia, e grande espirito, que tem mostrado nos seus sermoes sendo homem leigo sem estudos, e com espesialidade no sermam do Juizo, que deo ao prelo. O dito Irmam Balthezar mandou fazer de esmolas a Igrejinha, que hoje esta na dita serra, em que colucou a sobredita imagem de Nossa Senhora do Castello tirando-a do nixo em que a tinha posto e deixado Joam de Deos, e he a mesma que ainda hoje nella se venera, e pella qual a May de Deos tem obrado muntos milagres, e mandou tambem fazer naquella algumas pobres cazas para
/p. 405/ acomodaçam das munias pessoas, que deixando o mundo concorriam de varias partes do Reyno a fazer vida Eremitica debaxo da sua direçam naquellas covas, donde chegaram a juntarse quarenta. Elle foy o que fundou a Congregaçam dos Monges das Covas do Monfurado, que hoje existe na dita serra, descalsos com habitos pretos seguindo a regra de Sam Paulo primeyro Eremita, debayxo de protecção do senhor Infante Dom Antonio, que Deos haja em gloria, o qual aceitou ser Padroeyro Augusto da dita Congregação mandandolhe fazer pellos Reverendos Padres Neres seus estatutos para governo dos Congregados, os quais aprovou o ordinario, a quem the ao prezente esta sujeita a dita Congregação, e vivem os Monges della com toda a honestidade, e exemplar vida; e não ha pessoa que nam sahia edeficada entrando na Igreja, ou Convento destes Irmaos, vendo tudo pequeno, no meyo de huma serra, e debaixo das concavidades della, as covinhas tam pequenas que tem o comprimento de hum homem deitado, e de altura quanto caiba o homem em pé; a cama huma cortissa, a cadeyra hum trapacelo e sobretudo em cada Monge que se encontra, se admira o melhor retrato do desprezo do Mundo, e da perfeita penitencia. He o que posso informar das noticias desta freguezia; aos mais interogatorios respondo con o silencio, por nam haver que diga e sobre elles e o referido he so o que eu achey memoravel, e digno de credito, pella informação exacta, que neste particular tirey, de que fis a prezente, que asigney. Santiago do Escoural 6(1) de Junho de 1758(2).
O Paroco Dr. Jozé da Cunha e Sylva
(1) Sublinhado no original.
(2) Sublinado no original.
Transcrição: Jorge Fonseca
1758 - Santo Aleixo Memória Paroquial de Santo Aleixol, Montemor-o-Novo [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 2, nº 43, pp. 291 a 298]
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Noticia verdadeira do que há em esta freguezia de Santo Alexo dada em resposta aos Interrogathorios a que me mandou responder o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Arcebispo deste Arcebispado de Evora.
Acomodando a resposta a qualidade desta freguezia Respondo que esta freguezia do morteficado e gloriozo confessor de Christo o Senhor Santo Alexo, fica na provincia de Alentejo: pertence ao Arcebispado, e Comarca da sempre Leal, e ilustre corte e Cidade de Evora: está cittuada em o termo da notavel villa de Montemor o novo , e he do dominio do Fedillisimo Senhor Rey de Portugal. Tem cento e nove cazais separados huns dos outros, em Herdades, Courellas, Pumares, Moinhos, e Pizóis, em que habittão ao prezente quinhentas e quatro pessoas: trezentas e outhenta duas mayores; e cento e vinte duas menores. Está a Igreja desta freguezia cituada no bacho de hum Outheiro, e metida emtre barrocas; razão porque se não descobre della Povoação alguma. Está distante para a parte do Poente, da Villa de Montemor, huma Legoa; da Cidade Capittal do Arcebispado, seis; e quatorze da Capittal do Reyno. He o Senhor Sancto Alexo, o Orago desta Igreja; a qual hé de huma so nave, e consta de tres altares: há na Capella mayor, no Lugar principal do qual, está collocada a Imagem de
/p. 292/ Nosso Senhor Jesus Christo crucificado: outro ao lado direito emtrando pella porta principal da Igreja, de Nossa Senhora do Rozario: e o outro lado esquerdo do gloriozo archanjo São Miguel. Ha somente huma Irmandade de Nossa Senhora do Rozario em esta Igreja: e o Paracho dela he Cura posto pello Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Arcebispo deste Arcebispado; ao qual independente da aprezentação de outra alguma pessoa pertence a provizão do Curatho desta freguezia; a qual tem o rendimento certo para o seu Cura - quatro moyos de Trigo, e dous de Cevada, par minus ve; que como esta renda esta destribuhída pellas fazendas, e caseyros da freguezia, cresce, e decresse este rendimento conforme o augmento, ou deminuição que ha cada hum anno em os caseyros. Ao contigente, não se pode, nem ahinda par minusve, lansar conta; por que alem de ser munto incerto e tenue, cada vez mais se vay diminuindo; que como os habittadores dos povoados vão arendando de barregam as herdades, e deitando fora dellas aos Lavradores rurais, que são os que dão algum lucro aos Parachos; seguesse a estes o damno não só do contigente; mas ahinda da renda certa do pão, que algumas pessoas dos Povoados lhes não querem pagar; e aos mizeravens Lavradores alem de outros damnos, o ponderavel de ficarem abatidos e cabidos da honra dos seus estados; por que dezacomodados das herdades, como não podem uzar de outro algum meyo porporcionado para se conservarem naquelle estado, que pellos seus ascendentes justamente tinhão adqirido, ficão totalmente cahidos e abattidos dos seus proprios estados. Seguesse tão bem das herdades de barregam o detrimento comum da falta de gados que se naõ
/p. 293/ criam em tanta copia, e do pão que se não semeya em tanta abundancia nas tais herdades; e consecutivamente a deminuição dos dizimos; que correspondem a falta do paõ, e dos gados. Os fructos desta terra são Bollotas, Centeyo, Trigo, Cevada, e pouca fructa, porque tem somente quatro Pumares; tres pequenos e esterilles, e so hum chamado da Terrinha, que da grossas, e deliciozas Maçáns, e Peras: e emtre estes fructos, os que se colhem com mais abundancia, são Centeyo, e Bollota. Estão sogeitos os moradores desta freguezia as justiças de Montemor, como habittadores do termo da mesma vila. Não padesseu esta freguezia ruina alguma no Terremotte de Novembro de mil settecentos sincoenta e outo digo sincoenta e sinco; e so o que em ella mais notavelmente sucedeu, he: que duas cruzes de pedra, huma de duas pessas, Pé, e brasso junto com o rematte, e segura huma a outra pessa interiormente com huma verga de ferro: e outra de tres pessas, pe, brasso, e rematte seguros do ditto modo; huma posta no alto do telhado no fronteespício da Igreja de altura de tres palmos e meyo, e de largura no brasso de dous palmos; e outra em bacho no adro de altura de sinco palmos, e de largura tãobem no brasso de dous e meyo; estando ambas collocadas com as faces ao Poente, e com os brassos direitos linha recta ao Norte, e os esquerdos ao Sul, com o Terremotho se voltarão os brassos de ambas de sorte, que ficarão com as faces voltadas para amtre o sul e o Poente, e com os brassos direitos subsquinados sobre o Poente, e os esquerdos sobre o Sul; o que numqua tinha sucedido com os mayores furacoins, e vendaváis, que emthe emthão, e agora tem feito.
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Serra
Nesta freguezia, ahinda que toda he cheya de outeyros e penhascos, não há nella serra de que se possa dar noticia alguma das que da Serra se perguntão. E o que aqui me parece pertence, he; que os gados que nestes montes se criam, são; poucos Boys, poucos Porcos, menos Ovelhas, que estas não são para mattos, e munta Cabra, por serem estas ultimas o gado que com mais abundancia se cria nas chamecas.
Rio
No que toca ao Rio; pello meyo desta freguezia corre huma Ribeyra, que neste cittio se chama de Canha. Nasce na freguezia de Santa Sofia neste termo de Montemor, duas Legoas por sima da mesma Vila para a parte do Nascente em hum cittio chamado Alcava(1): não he caudelloza no seu nascimento, e o tem de dous Ribeyros e hum regatto que no ditto cittio se ajuntão; e como quando chega a esta freguezia tem ja emtrado nella grande quantidade de Ribeyros corre neste districto todo anno. Nesta freguezia corre conforme a altura, e planicia por onde passa; por que aonde a terra he plana, corre serena, e aonde he alta ou despentrada, corre arebattada. De inverno he caudelloza; e quando chove munto não se passa senão por duas Pontes parte de Cantaria, parte de Alvenaria, que tem junto a villa de Montemor; huma que se chama de Evora por estar no caminho por onde se vay de Montemor para a cidade de Evora: e a outra de Alcassere(2) por tão bem estar no
/p. 295/ Caminho por onde se caminha da dita Villa para a de Alcassere do Sal. Corre do Nascente para o Poente e os Peyches que em ella se criam são so os de Rio; munto Barbo e em mais abundancia Bordallos, Picóins, e Bogas. Pescasse nesta Ribeyra Livremente, e so por divertimento, que não he o Peyche que em dia se cria capas para se fazer contracto. Não conserva sempre o mesmo nome; por que conforme os sittios por onde passa tem diversa nomenclatura; e como corre junto de Montemor e de Canha, em Montemor tem o nome da mesma Villa; e nesta freguezia chamasse já a Ribeyra de Canha(3). Tem o seu fim em o Tejo aonde morre no cittio de Samora por bacho da Villa de Canha; e desde o seu nascimento the ao seu occazo julgo tera quinze ou dezasseis legoas de comprimento. Nesta freguezia tem actualmente levantados e preparados seis Moinhos e dous Pizoins; e perdidos, hum Pizão e tres Moinhos. Hum dos seis Moinhos, que está no cittio de Castellos Velhos, tem hum notável asude; por que he todo formado de rochedo natural; e com a Agoa que neste asude se ajunta moem juntamente dous Moinhos separados, e hum Pizão. Há em esta freguezia mais duas Assenhas preparadas, e hum Pizão perdido em hum Ribeyro chamado da Lagem por que tendo o seu principio na freguezia de São Matheus, deste termo de Montemor, continua logo o seu cursso por hum cittio chamado a Lagem(4). Da freguezia de São Matheus corre para a de Safira, e daqui para esta de Santo Alexo, aonde morre na ditta Ribeyra desta freguezia; e tem somente duas Legoas de comprimento: e corre de sobre o Nascente para a parte de Sul, para a parte do Poente. Ha mais em esta freguezia Outro Ribeyro chamado de Cumcos, por que tem o seu principio em hua herdade da freguezia de Safira chamada Cumcos de Sima, e tem o seu fim em outra herdade chamada Cumcos do Conselho da freguezia de Santo Antonio das Vendas novas aonde emtra e morre na sobreditta Ribeyra de Canha. He este Ribeyro ahinda que pequeno arebattado de Inverno, razão por que muntas pessoas tem nelle perdido as vidas. Tem de distancia o espasso de tres Legoas; e corre de emtre o Nascente e o Sul para a parte do Poente.
Finix
No que aqui vay escripto respondo ao que há, e não há do que se pergunta em os sessenta Interrogatorios que por evinar extenção não respondi a cada hum de per si explicando tão bem o que não há do que se manda dar notissia: Se as que aqui vão expressas não forem bem declaradas, rellevesse a Confuzão de quem as escreveu; que bem merece a desculpa de Confuzo quem habitta em hum ermo privado de comunicações com pessoas de juizo; e se parecerem poucas, são conforme a Esfera da freguezia; que para em tudo ser esteril
/p. 297/ athe de notticias: creasse porem, que todas são sem exzegeração verdadeyras, e seguras de se não poderem criticar com o ditto do Filiozofo = Mayora Vens monstra, vix capiunt fidem(5).
O Padre Antonio da Silva Bello
(1) Subinhado no original.
(2) Sublinhado no original.
(3) Sublinhado no original.
(4) Sublinhado no original.
(5) Sublinhado no original.
Transcrição: Jorge Fonseca
1758 Abril 26 - Santa Sofia Memória Paroquial de Santa Sofia, Montemor-o-Novo. [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 35, nº 205, pp. 1493 a 1494]
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Resposta do Cura de Santa Sofia, aos Interrogatorios pello que toca ao destricto da Sua freguezia.
Santa Sofia Parochial Igreja, cituada em hum valle, emtre a Cidade de Evora, e a villa de Montemor o novo, provinçia do Alentejo, perto da estrada que vem da Cidade de Evora para a dita villa de Monte mor, e para a Cidade de Lisboa; alcança a metade da freguezia ao termo de Evora; e a metade ao termo de Montemor, e neste está a Igreja Cituada; e nam se descobre della povoação alguma. Dista da Cidade de Evora duas Legoas, e tres quartos; e a villa de Montemor duas Legoas e hum quarto; e a Cidade de Lisboa dezassete Legoas e hum quarto pouco mais, ou menos. A sua data he do Exccellentissimo, e Reverendissimo Ordinario da Cidade de Evora. No he coliada, senão ad nutrem do mesmo Excellentissimo Ordinario. He de huma só nave, e tem quatro altares; Altar mayor, que he do Orago da Igreja de Santa Sofia; dois Collaterais, o da parte derejta de Nossa Senhora das Neves; o da esquerda de Sam Sabastião; e outra Capella de Nossa Senhora do Rozario. Tem duas jrmandades, huma de Nossa Senhora do Rozario, e a outra das Almas. O Parocho he Cura, a renda que tem, a que chamam Bollo, que lhe paguam os Lavradores,
/p. 1494/ e Fazendejros, Sam, quatro alqueres de trigo, e de sevada hum mojo e sencoenta e hum alquere; alem disto pagua cada cazejro hum alquere de trigo; e como estes Sam contingentes, huns annos são mais, outros annos menos; e muito por acazo chega tudo a sete mojos, mas sempre passam de seis mojos. O numero de fogos, pello que Consta do Rol dos Confeçados deste anno, sam setenta e nove; e das pessoas emtre mayores, e menores, sam trezentas e setenta e duas. Os frutos que colhem os moradores desta freguezia, que são Lavradores, com mais abundançia, sam, trigo, sevada, sentejo. Tambem há alguns pumares de fruta, como amejxa, peras, maçans. Tambem he fertil em partes de frutas de maloais. Não há couza memoravel na freguezia de que possa fazer expreção; nem mais que respender aos Interrogatorios jntimados. Santa Sofia 26(1) de Abril de 1758(2).
O Cura João Callado de Vila Lobos
(1) Sublinhado no original.
(2) Sublinhado no original.
Transcrição: Jorge Fonseca
1758 Junho 1 - Safira Memória Paroquial de Safira, Montemor-o-Novo. [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 33, nº 16, pp. 129 a 132]
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Resposta aos interrogatorios que por mandado do Excellentissimo Senhor Arcebispo de Evora o Senhor Dom Frey Miguel de Tavora meu Prellado, me forão entregues em esta Parrochia de Nossa Senhora de Safira do termo de Montemor o novo em os 11 de mar ço da prezente era: e como estou na certeza que a resposta hade concordar com a pergunta eu a darey naquillo que tiver de que e no que não tiver pasarei em silençio por não multiplicar palavras. Esta Parrochia fica na Provinçia do Alentejo, e do Termo da Villa de Montemor o novo donde dista duas legoas; he hoje da aprezentação do Prellado de Evora/digo hoje/ porque he tradição antigamente aprezentarém os freguezes, porque a requerimento seo foy desanexada da Matris da dita Villa pella grande falta que padecião de sacramentos pella distançia, isto há já annos, porque consta dos livros das vezitas ser ja vezitada por Ministros do Cardial Infante em o anno de mil quinhentos quarenta e quatro; mas por algum inçidente que houve entre os freguezes çederão nas mãos do Prellado, mas ficarão sempre com onuz de aparamentar de tudo para o qual se fas finta entre elles quando hé necesaria, e satisfazerem os emolumentos ao Parrocho, e a quem ajuda aos Sacramentos. Esta çituada em hum alto no meyo de huma Xarnequa, nem se descobre povoado algum, nem a ditta freguezia o tem, nem cazas ao pee mais que as da rezidençia do Parrocho, e do sanchristão, o matto desta charnequa, não alto, porque, de sette ou outto annos se queyma para semearem por terem os Lavradores pouca terra campa, e tem seos altos e bayxos. Principia o seu limite na estrada rial donde chamão a venda de bacho das Sylveiras para o Nascente, chega the as vinhas de Montemor, e para a parte do Sul terá outro tanto de distançia. Tem esta freguezia sincoenta e sette propriedades a que chamão erdades, courellas, e sesmarias de pesoas particulares, e nellas se incluem çento e vinte fogos, e cada huma das dittas propriedades não tem mais que duas, the tres cazas, e nellas asistem pessoas grandes quatrocentos e trinta; que se confessão ja, sincoenta e outto, e dos que ainda não estão obrigados aos preçeitos contei noventa the hoje; O orago desta Parrochia hoje não se conhece senão por Nosa Senhora de Safira/digo hoje/ porquer antigamente se intitulou A Senhora da natividade. Tem tres altares o mayor […] colatrais, naquelle esta o ditto orago, e no mesmo da parte, do Evan[...] ta o Senhor São Pedro, e no da epistola esta o Senhor São João Baptista.
/p. 130/ No colateral da parte do Evangelho esta no meyo Nossa Senhora do Rozario, a quem hé dedicado o ditto altar: a Sua mão direita esta o Senhor Santo Antonio, e na parede em hum nicho, está São Sebastião; ao outro lado esta Santa Barbara: no Colateral da Epistola, esta o Senhor São Miguel a quem hé dedicado como Protector das Almas, da parte da Epistola esta São Visente Ferrer, e em húm nicho na parede São Noutel, e na parte do Evangelho São Bartolomeu, e São Bras. Não tem mais que uma Nave: Tem duas Irmandades, huma do Rozario, das Almas outra. O Parrocho se chama Cura, hé de aprezentação do Ordinario de Evora; e não obstante tirar-se carta todos os annos, comtudo não hé annual, e não consta the hoje ninhúm ser amovido destes lugares, sem culpas, ou manifesta incapaçidade, no que este Prellado hé vigelantisimo. A renda da ditta, se chama bolo e hera por finta que fazião os freguezes, conforme a mayor ou menor erdade que trazião os Lavradores, porem como ouvese alguma alteração entre os fintores, veyo vizitar por mandado do Senhor Dom Theotonio de Bragança húm Ministro seu, em o anno de mil quinhentos outenta e nove, e mandou por evitar odios, e disçensões, que pagaçem os que trouçeçem Erdades de dous arados pagaçem, dobrado dos que trouçeçem de hum arado, isto hé, de cada arado quatro alqueyres de trigo, e dous de Cevada: os que não foçem Lavradores, e tiveçem dous bois, pagaçem dous alqueyres de trigo, e os que não tiveçem bois pagarião húm alqueyre, e sempre se observou a ditta vezita, e vinha a importar o ditto bolo em sinco moyos de trigo parúm minyo e Cevada çem alqueyres, e tudo cobrarão os meos anteçesores, e Eu tambem há trinta annos que asisto nesta Cura; porem como os Lavradores desta freguezia acompanhaçem outros de outras freguezias a huma queyxa que todos forão a Sua Magestade Fidelisima, que sendo elles filhos, e netos da Lavoura, pesoas que o não heram os lançavão fora das erdades, para as trazerem de barrega, como herão officiaes de carpinteiros, barbeiros, e tambem clerigos da Villa de Montemor com o intuito de segurarem os montados para os seos porcos, nem criarem outro algúm genero de animais que serviçem ao bem comum; entre aquelles entrava húm do mesmo [(...)] asima dittos, porem com os fumos de ter chegado a ser vereador, por [(...)] respeito, vendo não ter the hoje rezultado nada da ditta
/p. 131/ queyxa, e quasi como por vingança por ser dos mais ricos com toda a forssa vay tomando as Erdades a todos os que concorrerão para ella, e nesta minha freguezia Lançou fora de huma herdade chamada a chyminé húm Lavrador antigo de sincoenta annos de Lavrador da ditta a que o Excellentissimo Conde de Palma quis valer, pela numeroza familia do Lavrador ficar dezemparada, e o não pode conseguir porque o actual Juis Vereador hera amigo do pertendente da ditta erdade chamado Manoel Caettano Prattas, e nehúm delles o hera do dito Excellentissimo Conde, este Manoel Caettano não só tomou o expediente de não querer pagar as pensões da ditta Parrochia que estão postas nas erdades, nem quem serve a mesma, mas inda se fás conçelheiro aos que trazem barregãa, a que não paguem, e que o imitem, e depois que o homem tomou a grande erdade em esta freguezia, que há das religiozas do Convento de Montemor, me está devendo o bolo de dous annos, que são dezaseis alqueires de trigo e de cevada outto. por cuja cauza o demandei; e se este venser em não pagar e a imitação delle não pagarem todos os que trouçerem as erdades de barregaa; Hé Certo que Renderá menos a Igreja, e vira a não render nada postas as premissas. Munto bem conheço se ha de dizer que este modo de responder, est psalere extra chorum; porem dey resposta ao Interrogatorio do que rendia esta Parrochia e fiz mensão da cauzal porque ficava contingente o seu rendimento e Coram Deo que julgou a minha conçiensia que devia faze-lo asim, pelo grande prejuizo que se tem seguido daquelles que trazem erdades de barregaa, principalmente os que tem feito este Manoel Caetanno, porque depois que tomou pose da Erdade, mandou montar dous moços a cavalo, e todo, e qualquer gado, que pasava pela terra para outras o que há immemoravel costume, estes o hião conduzindo-os para o Curral de Montemor, donde não sahião sem pagarem cada húm de seos donos húm tanto de vasalagem ao ditto Manoel Caetanno, e como são couzas tão alheas da razão, e nunca the aqui visto, tem posto estes pobres homens em consternação, e muitas vezes por falta de huma notiçia se perde húm bom governo, a como por hum medico se perde, ou ganha huma conversão. O pão que os Lavradores daqui mais em abundançia colhem há centeyo.
/p. 132/ Tem esta freguezia Juis da Vintenna, e esta suieyta ao governo das justisas de Montemor o novo, onde há o correyo, que serve a todo o termo. Dista da Cidade Cappital do Arçebispado, sette Legoas, e de Lisboa Cappital do Reyno des. No terremoto de 755(1) [sic] não experimentou esta Parrochia consideravel ruina mais que no arco da cappela mor huma raxa, e outra em húm canto da parede a entrada da parte direita, e abalou o campanario do syno; que se fes de novo, e tudo se acha ja repado (sic). Os Lavradores que nam trazem as erdades de barregãa crião nesta Charnequa seos gados, como são bois ovelhas cabras; porcos; e tem suas colmeyas, donde tiraõ bastante mel, tem sua casa, coelhos, perdizes, e Lebres. Nesta charnequa não Longe da Igreja em sinco partes huns bocados de terra do tamanho de huma Eyra, em todos elles se ve serem calvos, não criar matto, nem erva, mais que amodo de carapinha de negro, enquanto a altura, mas munto vermelha, está introdozido serem lugares onde os Mouros fundião ferro, e com effeito verificase, por se acharem bocados do mesmo, pegados a pedra, que héra negra. Hé esta a resposta, que a minha incapaçidade pode descobrir para dar aos incluzos interrogatorios que m’entregarão em esta Parrochial de Nosa Senhora de Safira. O primeyro de Junho de mil setteçentos sincenta e outto.
O Padre Thomas de Vasconcelos Camello
(1) Sublinhado no original.
Transcrição: Jorge Fonseca
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