Memórias Paroquiais

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Arez, 1758, Abril, 28

Memória Paroquial da freguesia de Arez, comarca de Portalegre

[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 4, nº 68, pp. 403-407]

/p. 407/[1] O que posso informár sobre os interrogatorios que Sua Magestade foy servido remeter a Vossa Excelencia a respeito do que se procura saber désta villa de Aréz respondo a cada interrogatorio pellos seus numeros, o que achey hé da forma seguinte.

1[2] Fica esta villa de Aréz em a provincia de Alemtejo no bispádo e comarqua de Portalegre hé uma só freguezia sem pertencer a outra alguma, e tem termo seu.

2 Hé del Rey.

3 Tem oitenta vezinhos os quáis constam de cento e noventa e duas pessoas mayores, trinta e quatro menores e sincoenta e dous ennocentes.

4 Está situáda em hum pequeno alto do qual se nam descóbre povoaçám alguma.

5 O termo hé seu e nam comprehende lugar nem aldeya alguma.

6 A paroquia esta fóra da villa porem chegáda ás ruas da mesma de sorte que algumas acabam ao pé da igreja e nam tem a fréguezia lugar ou aldeya que lhe pertençe.

7 O seu orágo hé Nossa Senhora da Gráça, tem tres altares, o mór em que esta o Santíssimo Sacramentto e a imágem da ditta senhora e a de Sam Joam Baptista. Dous collaterais, o da parte do Envagelho, hé da Senhora do Rozário e nelle está a imagem da mesma senhora, mais outra imagem da senhora com o titúlo dos Remedios, e outra do gloriozo martir Santto Sebastião. O da partte da Epístolla tem tres imágens huma do glorio Apóstollo Sam Pedro, outra do gloriozo Sam Francisco, e da outra da glorioza Santa Luzia, este altar tem o titúllo das Almas porem he ornado do que preciza pella Confraria do Santíssimo Sacramento. Tem tres Irmandades, huma da Confraria do Santíssimo Sacramento, outra da Confraria da Senhora do Rozário e outra da Confraria das Almas, as quáis cada huma he admenistrada por hum reytor, escrivam thezoureyro, e dous mordomos que todos os annos sam eleyttos e servem os que /p. 404/ os que[3] sahem a máis vottos. Nam tem návez.

8 O párocho hé vigário, freyre professo da milittár Ordem de Christo aprezentado a el Rey Nosso Senhor como Gram méstre que hé das tres ordens militares e as suas provezoens se lhe expédem do Tribunal da Mesa da Conscia e Ordens e afirmadas pello ditto senhor. Tem de renda em cada hum anno dous moyos de trigo vinte mil réis em dinheyro sincoenta e dous almudes de vinho, e vinte e quatro arratéis de cera fina obráda com obrigaçam de dar meyo anno cera para as funçoins da igreja pertencentes ao parocho.

9 Nam tem benefficiados e somente tem hum thezoureyro clérigo in minoribus digo clérigo do habitto de Sam Pedro aprezentado pello Tribunal da Meza da Conscia e Ordens e tem de renda em cada hum anno hum moyo de trigo, seis alqueyres, vinte seis almudes de vinho com obrigaçam de dar vinho e hostias para as missas que se dizem na igreja, tem máis vinte e quatro arratéis de cera fina com obrigaçam de dar meio anno a cera que se gastár nas missas e máis funçoins da igreja tem sam tem mais seis mil reis em dinheyro por ensinár a doutrina christam tem mais seis tostoins por hir buscár os santos oleos a cidade de Porttalegre, e hum cruzado e dous arrateis de sabam para a lavágem da roupa da Igreja e mais hum arratel de incenço para as funçoins da mesma igreja.

10 Nam tem convento algum.

11 Nam tem hospital e somente huma caza térrea a que chamam Hospital mas nam tem camas nem paramento algum, e na ditta caza se acomodam alguns pobres passajeyros porem sustentance das esmollas que os fiéis christoens lhe dam e de algumas que lhe dá a Irmandade da Mizericordia de quem sam as dittas cazas. Nam tem admenistrador nem renda alguma.

12 Tem Irmandade da Mizericordia erétta na Ermida do Divino Espiritto Santto porem nam se sabe qual foy a sua origem por nam haver livros antigos, que prereceram como tambem os da igreja quando o inimigo invadio este reyno, e entrou em esta villa o anno de mil, septecentos, e quatro, e dos livros que há desde esse tempo a esta parte nam consta couza alguma e tem a ditta Mizericordia de renda annual reportados huns annos por outros quatorze mil réis e em qualquér destas couzas nam há couza notável.

13 Tem duas ermidas huma do Divino Espiritto Santo em a qual faley no interrogatorio assima próximo e tem tres altares. O princ[4] /p. 405/ o principal tem a imagem do mesmo Divino Espiritto Santto e o da parte do Envagelho tem a imagem do gloriozo Santo Amaro e o da parte da Epistola tem a imagem do Senhor Crucificado e está a dita ermida com as porttas dentro da villa e hé admenistrada pello provedor e mais irmãos da Mizericordia. Tem outra ermida do gloriozo Santo António que dista desta villa hum quarto de légoa e tem somente hum altár com a imágem do mesmo santto e hé admenistrada por hum reytor, escrivam thezoureyro e dous mordomos que todos os annos se elegem.

14 Nam tem romagens em dias certtos mas alguns devotos em dias incerttos lhe vam fazer romarias.

15 Os moradores desta villa os fruttos que recolhem hé de centeyo com alguma abundancia, trigo, vinho e azeyte destes tres frutos pouco.

16 Tem dous juízes ordinários, e camera que consta de dous vereadores hum procurador e escrivam da camera, e nam tem sujeiçam de outra terra.

17 Nam há que dizer a este.

18 Nam há memória do em este se refere e só sahio desta terra o Doutor Miguel Loppes Caldeyra Artur attual provedor da comarqua de Evora com beca de dezembargador.

19 Nam há que dizer a este.

20 Nam tem correyo, e se serve pello estafetta da vila de Niza que dista desta huma légoa e vay levar as carttas desde a cidade de Porttalegre que dista seis légoas de huma e outra villa e as torna a ir búscar no Sábado e he no Domingo com ellas.

21 Fica esta villa distante da cidade de Porttalegre, cappittal do bispádo seis légoas e da de Lisboa cappital do reyno trinta e huma légoas.

22 Nam ha privilégios nem anteguidades nem couzas dignas de memória.

23 Nam há que dizer a este.

24 Nem a este.

25º Nem a este, nem a vigessimo, seisto, nem septemo.

/p. 406/ Enquanto aos interrogatorios de serra nam tenho que informar pella nam haver no termo desta villa.

No que tóca aos interrogatorios de rios respondo pella ordem delles digo.

Rio Nam tem esta villa e seu termo rio notavel algum, somente passa pello seu termo huma pequena ribeyra chamada Figueiró que nasce no sítio da Mouréllia entre os termos de Alpalham, e Castillo de Vide e finda no rio Tejo em o sitio dos Oleyros entre os termos de Vila Flor e Amieyra.

2 Nam hé a ditta ribeyra caudeloza nem perimoza seca no veram.

3 Nam há que dizer a este.

4 Nem a este.

5 Hé a ditta ribeyra de curso quiétto, e nam experimenta arrebattáda só quando há alguma tempestade ou invernada grande.

6 Corre de nascente a poente.

7 Cria álguns peyxes meudos, que se costumam pescar lá à cana, chamados huns barbos, outros bordallos e outras pardelhas.

8 As pescarias se fazem por divertimento quando cada hum quer.

9 Sam livres as pescarias.

10 As margens da ribeyra se costumam lavrar e semear de pam e nam tem arvoredos.

11 Nam há que dizer a este.

12 Conserva sempre o mesmo nome.

13 Morre em o rio Tejo em o sitio já ditto em primeyro interrogatorio.

/p. 407/ 14 Nam há que dizer a éste.

15 Tem hum pontam de pás com os alicerces de pedra, em o sitio chamado da Nave no termo desta villa.

16 Na mesma ribeyra e termo da mesma villa está hum lagar de azeyte em o sitio chamado da Billa e dous moinhos, hum em o sitio chamado o Fundo do Valle Longo e outro em o sítio chamado da Vergieyra.

17 Nam há que dizer a este.

18 Hé livre o uzo das suas ágoas

19 Tem a ditta ribeyra de comprimento tres légoas pouco mais, ou menos passa em pouca distancia da villa de Niza, e dista desta um quarto de légoa.

20 Nam há que dizer a este.

E hé o que posso informar e dizer sobre os interrogatorios.

Aréz 28 de Abril de 1758[5]

O vigário Frei Paulo Braz Giraldes [Assinatura autógrafa]

Transcrição: Ana Leitão

Revisão: André Coelho


[1] É necessário marcar a mudança de página.

[2] Dado que o sinal de ordinário não aparece no original, deve ser retirado.

[3] Repetido no original. Este género de ocorrência no original deve ser registada em nota de rodapé.

[4] Tal como no original.

[5] Sublinhado no original.

Estrela, 1758
Memória Paroquial da freguesia de Estrela (freguesia suprimida), comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 14, nº 98, pp. 677 a 680]

 


Em observância do preceito de V. Excelência Reverendíssima pela carta circular
que me foy notificada em 18 de Março de 1758 pelo Reverendo Manoel da Silva Borges
, escrivam da vigairaria da villa de Moura respondo aos interrogatórios nella insertos
pella forma seguinte:
Ao 1 que esta freguezia he Nossa Senhora da Estrella, termo da villa de Moura,
Arcebispado de Évora comarca da cidade de Beja.
Ao 2 que esta freguezia com todo o termo de Moura sam terras do Infantado e
pertencem ao sereníssimo Infante D. Pedro.
Ao 3 que esta freguezia tem trinta e sinco fogos, herdades com gente que nellas
habittam dezouto e seis que se não mora nellas, por estarem arruinadas. E tem pessoas
adultas duzentas e des e por velhas ou menores vinte e outo.
Ao 4 que está situada em outeyro e que della se descobrem a vila de Mourão,
que dista desta freguezia duas légoas e meya, a villa de Monsarás, que dista desta
freguezia três légoas e meya, o ronquam de Sua Magestade que Deos guarde, sitto na
freguezia de Sam Marcos do Campo termo da villa de Monsarás, que dista desta
freguezia huma légoa, a freguezia da Póvoa, termo da villa de Moura, que dista desta
freguezia huma légoa, o termo da villa de Portel. E perto desta igreja está hum alto que
descobre a ditta villa de Portel, que dista desta freguezia sinco légoas.
Ao 5 nada.
Ao 6 que a Paróchia está dentro da freguezia e tem junto a ella alguns vezinhos,
porque a principal parte consta de montes.
Ao 7 que o seu orago he Nossa Senhora da Estrella e tem (p. 677) quatro altares,
que sam o altar mor, onde estam Nossa Senhora da Estrella, a imagem de S. Pedro da
parte direita, a de Sam Joam Baptista da parte esquerda. Os collateraes, o da parte
direita Nossa Senhora do Rozário e o da esquerda Nossa Senhora do Carmo e outro de
Santo António. Não tem a igreja naves nem irmandade alguma confirmada senam a de
Sanctos (...) por devoção.
Ao 8 que o párocho he cura e da aprezentaçam do muito Excelentìssimo e
Reverendíssimo Senhor Arcebispo de Évora (...) o meu prelado e tem de renda três
moyos e (...) alqueires de trigo, para sua côngrua e sustento e para sua besta quarenta
alqueires de sevada.
Ao 9 nada.
Ao 10 nada.
Ao 11 nada.
Ao 12 nada.
Ao 13 nada.
Ao 14 nada.
Ao 15 que os frutos que nesta freguezia se recolhem sam trigo, sevada, senteyo e
mais meuças (?) mas (...) mais em abundância se colhe sam trigo, senteyo e sevada.
Ao 16 que esta freguezia nam tem juiz por estar subor(dina)da e sugeita ao juiz e
justiça do lugar da Póvoa termo de Moura.
Ao 17 nada.
Ao 18 nada.
Ao 19 nada (p. 678).
Ao 20 que nam tem esta freguezia correyo e se serve do correyo da villa de
Moura, que parte na quinta-feira e chega no sábado e dista esta freguezia da villa de
Moura duas légoas e meya.
Ao 21 que dista esta freguezia da cidade de Évora cabeça do Arcebispado, nove
légoas e de Lisboa, cabeça do Reyno vinte e seis e meya, a saber, vinte e três e meya por
terra em thé à Mouta e três por ágoa em thé à corte.
Ao 22 nada.
Ao 23 nada.
Ao 24 nada.
Ao 25 nada.
Ao 26 que esta igreja e algumas cazas desta freguezia padeceram algumas ruínas
de pouca concideração, mas ao prezente se acham redeeficadas.
Ao 27 nada.

 

Em os segundos e terceiros interrogatórios respondo em summa.
Que esta freguezia tem muitas fontes nativas de boas ágoas, mas nam se lhes
sabe de especial virtude.
E que o ryo de Guadianna que passa junto desta freguezia menos de hum
qoarto de légoa, se tem observado que as suas ágoas sam digiritivas e boas para
conservar a saúde e fazem appetência de comer e que nos mezes de Junho, Julho e
Agosto tomam algumas pessoas banhos mandados applicar pelos médicos, com que
experimentam saúde (p. 679) nos seos males. Neste ryo se criam muitos peixes como
sam barbos, heirozes, bogas, bordallos, (...)1 e outros mais. Aqui entra neste ryo (...) a
rybeira de Alcarrache, que nasce em (...), villa de Castella, bispado de Badajoz (...) nove
légoas pouco mais ou menos, donde nasce thé que fenece neste ditto ryo, nesta
freguezia. Como também o Zebro, que nasce junto do (...) Carapetal, sito no lugar de
Amareleja, termo de Moura, perto de Estepa (?) que fenece neste ryo Guadianna, meya
légoa desta freguezia. E terá de comprimento duas légoas e meya mas só de Inverno
corre e nam he ágoa nativa, porém tem muitos pegos que conservam ágoa todo o anno.
Também esta freguezia tem muitos montados (que) emgordam mais de
novecentos enthé mil (...) porcos de vara, pouco mais ou menos (fora as corridas (...)). E
nas suas terras se criam muitos gados, como são gado vaccum, porcos, ovelhas e há
também por aqui porcos javardos, lobos, gamos, zorras, (per)dizes, coelhos, lebres em
abundância.

 

He o que posso informar a Vossa Excelência Reverendíssima, que Deos guarde
muitos annos. Estrella, 13 de (...) de 1758.

 

De Vossa Excelência Reverendíssima
O mais humilde e reverente subordinado
O P. Thomé Gomes Es(barra).

 

 

 

Transcrição: Marta Cristina Relvas Janeiro Páscoa

 

in PÁSCOA, Marta Cristina Relvas Janeiro, Memórias Paroquiais da vila de Moura e
seu termo. Moura, Câmara Municipal de Moura, 2002, pp. 28-30.

Santa Ana de Bencatel
Vila Viçosa
[1758]
Memória Paroquial da freguesia de Santa Ana de Bencatel, concelho de
Estremoz, distrito de Évora.
(ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 7, nº 3, pp. 729 - 730.)
/p. 729/
N.3.
Freguezia de santa Anna de Bencatel termo Estremoz1
termo de Estremos, Arçebispado de
Evora.
Esta freguezia não só he do Arçe
bispado de Evora; mas tambem da mesma comarca
e a sua aprezentação pertençe ao exelentissimo senhor Arçebispo;
mas paga o paroco della, cada anno, quatrocentos
reis ao senhor doutor juis da ordem de Estremos;
a que se chama a reconheçenssa.
Está situada a igreja parochial
em hum monte não muito alto, e dele não se descobre
mais, que huma pequena parte da villa do Redondo: comfinna
com o termo da villa do Alandroal, e no mesmo
termo tem muitos freguezes: dista da mesma villa, meya
legoa: dista da villa do Redondo legoa, e meya: dista de
Villa Viçoza huma legoa, e no seu termo tem a mayor
parte dos freguezes: dista da villa de Estremos mais de
duas legoas: dista da villa de Borba legoa, e meya.
No termo de Villa Viçosa tem huma
aldeya chamada de Bencatel, a qual com seus
çircumvezinhos, tem setenta, e sinco fógos, em dis-
1 Letra diferente, poderá não ser da mesma época, visto Estremoz está escrito com Z e no restante texto
aparece com S.
tançia de meya legoa da mesma villa.
E ao prezente, toda a freguezia, tem
çento, e setenta, e dous fogos, entretando os da aldeya
supradicta: tem pessoas de confissão, entrando mayores,
e menores, trezentas, e trinta; a deste numero,
digo, quinhentas, e trinta.2
são setenta, e sete menores; que são os que ainda
não reçebem o sacramento da sagrada eucharistia.
O orâgo desta freguezia he
a senhora Santa Anna; tem a igreja parochial quatro
altares: no altar mayor tem a imagem da senhora Santa
Anna; de S. João Baptista, e de Santo Antonio: nos dous
colateraes, tem no lado esquerdo a imagem do senhor Jesus,
e no do lado direito a imagem da senhora do Rozario: tem
mais o altar da almas, sem correspondençia de outro,
e este altar fica da parte do lado direito: não tem naves;
por ser muito pequena.
/p. 730/
Esta freguezia está situada parte
della em campos, e parte em montes; mas pouco asperoso
todos fructiferos; especialmente de çenteyo, pois a mayor
parte della he terra de estevâes, que só por darem çenteyo,
e algum trigo galego.
O paroco desta freguezia, he cura.
He aprezentado pelo Exelentissimo Senhor Arcebispo de Evora.
Tem de renda, quatro moyos, e meyo de trigo, e vinte, e
oito alqueyres de sevada, e mais, huns annos por outros, rende
sinco, ou seis moedas de ouro. Não tem benefiçiados,
nen convento algum, nem hospital, nem Caza de Mizericordia.
Tem no termo de Villa Viçoza a ermida
de S. Pedro, e contigua a ella; a capella da Senhora
2 Correcção efectuada pelo paroco.
das Merçes: a de S. Pedro he da jurisdição do paroco;
e a da Senhora das Merçes, he da jurisdição do prior da Senhora
da Conceyção de Villa Viçoza; por huma antigua posse
em que se introduzio; por negligençia do paroco que
era nese tempo: todos os Domingos de Setembro
tem festa, romágens a Senhora das Merçes; e passado ese
tem [sic]3 não tem mais festas; mas sim algumas romagens
dos seus devotos. Esta ermida, e capellas estão
sitas na herdade de El Rey, que he do Ducado de Bargança
[sic], meya legoa distante de Villa Viçoza.
Nesta freguezia as terras dão
trigo, e çenteyo; mas mais trigo: são pouco ferteis de
sevada: dão de todo o genero de legumes, e sendo annos
de abundançia de agoas, tambem se colhem nella
bastantes feijões brancos, e fradinhos.
Nesta freguezia sómente há
dous juizes da ventana: hum no distrito de Estremos, e
outro no distrito de Villa Viçosa. Não he couto, nem
cabeça de conselho, honra, ou behetria.
Desta freguezia floreçeo o
capitão emgenheyro Manoel Lopes da Sylva, que ainda
que filho de pais humildes, foi muito grande nas armas,
engenho, e prendas, na guerra proxima passada; e por tal
muito bem conheçido, e estimado dos mayores ofiçiaes da
mesma miliçia; o qual há poucos annos faleçeo nesta
freguezia; estando reformado, com soldo inteiro de capitão
/p. 731/
Nesta freguezia não há feyra
nem tem correyo, e do correyo de Villa Viçoza que chega
na quinta feyra, he do que se serve.
Da çidade de Evora capital
deste arçebispado, dista sete legoas; e da capital do
3 Deverá entender-se “tempo”.
reyno, dista vinte, e duas, ou vinte, e tres legoas. Não
tem privilégios, nem antiguidades dignas de memoria.
Tem esta freguezia no termo
de Villa Viçoza, proxima a estrada que vay de Estremos
para o Alandroal; huma lagoa, ou nascente
de abundante agoa, com a qual moem dezanove
asenhas de emgenhos reaes. Tambem tem suas fontes
muito boas de excelente agoa de beber; mas não
dignas de exageração. Não he esta freguezia porto do
mar, nem terra murada; mas sim huma freguezia de campo.
Na ocazião do terremoto
do anno de 1755 alguma ruina padeçeu: porem
foi couza de pouca consideração, e que tudo esta remediado
ao prezente.
Não conthem esta freguezia
em si mais serra, que huns montes das abbas
da Serra de Ossa, e hum monte bastantemente alto
e aspero, chamado a Serra da Vigaria, a onde dizem
esteve [sic]4 o Caraçenna, general de Castella, na ocazião
da batalha de Montes Claros, que foi no
pláno, e raiz do dito monte.
Proximo ao dito monte
há admiraveis minas de marmores brancos, e azûes,
matizados de branco, sitos na herdade da Vigaria,
e do Barrinho, que são da caza do morgado
de Pixinhos, ou por outro nome dos Zuçenas: o dito
monte he inculto. Nele não há mais, que pedras,
e carrascos, e de sua qualidade he muito frio; e si
cria alguns coelhos, e perdizes. Deste monte e Serra
da Vigaria, não nasce rio algum; mas na raiz
delle, para a parte do nascente, tem hum poso
de boa agoa, e bastante.
Por esta freguezia, perto das a-
4 É possivel que falte a palavra “que“ entre “dizem” e “esteve”.
bbas dos montes da Serra de Ossa, cá para a parte do
nascente do Sol; passa a ribeyra de Busafesse, que
tem seu principio na freguezia de S. Tiago de Ryo de
Moynhos, e vay meterse na Guadianna, na herdade
do Aguilhão, a onde este Reyno confinna com Castella;
mas esta rebeyra custuma secarse, e deixar de correr,
em vindo o tempo do Verão; por conta de lhe terarem
as agoas, para regarem feijoaes na dita freguezia
de S. Tiago de Ryo de Moynhos: esta ribeyra
se compoem das agoas que sahem dos montes da
Serra de Ossa, das agoas dos nascentes da freguezia de
S. Tiago, e dos nascentes desta freguezia: corre de
Norte a Sul: cria boas pardelhas, e singulares bordallos,
e tambem algumas bogas: as suas margens
se cultivão, e dão muito trigo, e sevada: em toda
a parte conserva o mesmo nome.
Nesta ribeyra há muitos moynhos
de fazer farinha no tempo do inverno, e tambem
tem hum lagar de azeite, e huma ponte de cantaria
junto á villa de Terena: nunca ouvi
dizer, que de suas areas se tirasse ouro, ou prata.
Nunca ouvi dizer que deixassem de ser livres
as suas agoas, e pescarias.
Esta he a noticçia que posso
dar desta freguezia de Santa Anna, a respeito dos jnterrogatorios
que me forão entregues, por via do muito Reverendo
Vigario da vara da villa de Estremos; e em pude
verdade me a signei. Santa Anna de Bencatel.
11 5 de Abril de 1758.
Paroco o padre João Toscáno da Pálma.
Francisco Segurado
5 Sublilhado da época.

S. Bartolomeu, Vila Viçosa
VILA VIÇOSA, 1758, 20 de Abril.
Memória Paroquial da freguesia de S. Bartolomeu, concelho de Vila Viçosa, distrito de
Évora.
(ANTT, Memórias Paroquiais, volume 40, nº 271a, pp. 1665 – 1668).
/p. 1665/
VillaViçoza S.Bartolomeu
Obedecendo á ordem de Vossa Excelencia em que
me manda responder a huns interrodatorios
que com a mexma me forão entregues, digo que
esta Villa Viçosa hé huma das mais illustres
povoaçoens do Alem Tejo: nela residião os serenissimos
Duques de Bragança athé que com a aclamaçam
do senhor D. João 4 transferirão o seu assento para
a corte de Lixboa. Abunda de couzas muito
notáveis; mas como estas são do territorio
da jgreja matriz, ao reverendo prior della pertense
refferi-laz, descrevê-laz; pois eu cingindo-
me percissamente á minha freguesia, digo que
Tem esta freguesia de S. Bartolomeu
563 fogos, e 2073 freguezez, os quais são
curados por hum prior, que tem de congrua
tres moyos de trigo, dous de sevada, e vinte mil
reis em dinheiro, e dous beneficiados tem cada
hum de renda dous moyos de trigo, moyo,
e meyo de sevada, e dez mil reis. Tanto prior
como beneficiados são da appresentação de Sua
Magestade como governador e perpetuo administrador
da Ordem Militar de S. Bento de Aviz,
a cuja Ordem pertencem as jgrejas parochiaiz,
e comenda desta villa.
Não tem a freguesia jgreja
proprias [sic] e se está servindo há muitos annos
da jgreja da Misericordia sem que Sua Magestade
por mais contas, que desta falta lhe tem dado
os priorez da mesma tenha sido servido mandar
continuar à jgreja propria, que há muitos anos
se conserva só com os alicersez. Estão sitas
nesta jgreja paroquial tres jrmandades:
primeira do Santissimo Sacramento que alem das obrigações
gerais à similhantes jrmandades cuida do ornato do
altar, e culto de huma jmagem do senhor morto vulgarmente
chamada o senhor do descendimento; com o qual tem
/p.1666/
este povo huma extraordinaria fé, e devoção:
segunda das almas, que florece muito pella grande piedade,
e applicação dos jrmãos, que administrão os seos
bens conservando outo cappellaenz com missa
quotidiana e tendo a sua sachristia muito bem
provida de pratas e ornamentoz: terceira da Senhora
do Rosario; que não tem couza, que mereça particular
memoria.
A caza da Misericorda
hé das mais antigas deste Reino, e se entende
a erigirão os serenissimos Duques de Bragança,
que servião de provedores, emquanto residirão
nesta Villa e ainda hoje os provedores, e escrivãez
não são feitos por votos da jrmandade, mas ella
propoem tres para cada hum dos dois cargos, e Sua
Magestade escolhe qual lhe parece, particularidade
que não consta tenha outra algũa Misericordia.
Tem de renda 444.667 reis; e assim
hé a mais pobre de todas as circumvisinhas.
Nesta caza erigio a piedade dos serenissimos
Duques de Bragança hum hospital para
curar o mal venereo nas duas estaçoenz de
Primavera e Oitoneo, dotando-o para este effeito
com liberalidade propria de tão grandes princepez;
pois lhe consignándo em cada hum anno 406.070
reis sette moyos e meyo de trigo, e vinte quatro
alquirez de azeite, tudo pago no almoxarifado
desta villa vindo todas estas addicçoenz nas
folhaz, e sendo cobradaz por conhecimento do escrivão
da meza. Porem, depois do terremoto
de 55 nùnca mais vierão lançadas nas
folhas do almoxarifado as ditas addicçoenz com motivo
de se terem queimado no incendio daquelle
fatal dia os tituloz por onde se lançavão, suprimindo-
se por esta falta as curas do dito mal, com
grande perjuiço dos pobres, que morrem faltos de
/p. 1667/
remedio, não havendo em toda esta Provincia
outro algum hospital, em que se fação similhantes
curas.
Há nesta freguesia dois conventos
de religiosos, e dous de freiraz, daquelles hé
hum a caza professa da Companhia de Jesus, cujas
comunidade se compoem de oito sacerdotes, e dois
leigos; e o outro he de S. Paulo, que costuma
ter 22 athé 27 religiosos. De freiras hé
o primeiro o das Chagas do instituto do Patriarcha S.
Francisco que tem numero certo de 60, eo de Santa Cruz,
que proféssa a regra de Santo Agostinho, que não
tem numero certo de religiosas; e ao prezente se compoem
de oitinta, e tantas. Os tres primeiros
conventos tem por padroeyros os serenissimos Duques
de Bragança, e só o de Santa Cruz hé, que
não tem padroeyro algum. Hé o que se me
offerece dizer a Vossa Excelência. VillaViçosa em 20
de Abril de 1758 1 .
[Prior]2 da freguesia de S. Bartolomeo de Vila Viçosa Frei Antonio Xavier do Válle.
Transcrição: Francisco Segurado
Revisão: Fernanda Olival
1 Sublinhado da época.
2 Margem apertada e como tal ilegível no microfilme do ANTT.

Ciladas, 1758, Maio, 2
Memória Paroquial da freguesia de Ciladas, comarca de Vila Viçosa
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 11, nº 326, pp. 2229 a 2238]


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N. 326 Ciladas termo Villa Viçoza1


Exelentissimo e Reverendissimo Senhor


Em cumprimento do mandado de Vossa Excelencia Reverendissima, e jnsinuação
do real servico de El Rey meu Senhor, que
Deos guarde, respondo aos interrogatorios com a noticia
seguinte.
1º. Esta freguezia de Nossa Senhora das Ciladas
esta cituada na Provincia do Alentejo, no Arcebispado
de Evora, na Comarca, e termo de Villa Viçoza da
serenissima Caza de Bargança [sic].
2º Esta freguezia comprehende cincoenta herdades,
e quinze hortas, que são de senhorrios particulares.
3º Tem sessenta e cinco vezinhos, ou fogos; e
nelles quatrocentos e dés pessoas.
4º. Está cituada esta jgreja em hum valle entre
dous montes: della se descobrem tão somente as villas
de Jurumenha, Olivenca, e Villa Viçoza: pela parte
do Poente dista de Villa Viçoza duas legoas; pela
parte do Nascente dista da cidade de Elvas duas legoas;
e pela parte do Sul dista da vila de Jurumenha huma
legoa; e pela parte do Norte dista da villa, e chamada Villa
Boim, huma legoa.
5º. Comprehende esta freguezia quatro termos, ou
parte de quatro termos; a saber, de Villa Viçoza, Villa
Boim, da cidade de Elvas, e da vila de Jurumenha: o
primeyro he do Arcebispado de Evora, e os ultimos tres são
do Bispado de Elvas; porque sendo esta freguezia mais antiga,
que o Bispado de Elvas, quando este se dezanexou do
Arcebispado de Evora, ficou esta freguezia no mesmo estado,
em que se achava: tem no termo de Villa Viçoza
vinte e sete fogos tão somente: e no termo de
Jurumenha tem nove fogos: no termo da cidade de Elvas
tem vinte e outto fogos, e no de Villa Boim hum.


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6º. A parochia esta cituada em hum dezerto, sem
mais vizinhança, que a do parocho, sacristão, e outro
vezinho; e nestes tres fogos se contão somente dés pessoas,
entrando nesta soma homens, mulheres, e meninos.
7º. O seo orago he Nossa Senhora das Ciladas, de cujo
nome a echemologia he, porque / seguindo a tradição / no tempo
dos sarracemos na serra de Coroados, ou Monte de Carvão os
christãos armárão humas ciladas, e fizerão emboscadas para
captivar hum grande comboyo de vitualhos, petrexos de
guerra, e mantimentos, que se encaminhava para áquelles; e
no tal conflito invocarão estes o patrocinio de Nossa Senhora,
fazendo voto de lhe fazer huma ermida, se sahissem
com victoria nas suas ciladas: e succedeo, que / favorecendo-
os Nossa Senhora / captivárão a preza, como intentárão.
E fizerão huma ermida pequena a Nossa Senhora com o singular
titulo das Ciladas. Esta jgreja por tres vezes
tem sido acrescentada, o que bem se conhecia dos alicerces
da mesma, quando no mês de Julho de 1748 lhe desmanchey
as paredes, e alicerces para efeyto de a fabriar
de aboboda, a qual obra principiey, e consumey de esmollas,
que os ---- pedi, e a juntey nesta freguezia, e suas vezinhanças
pelo amor de Deos, e da mesma Senhora. Tem
a jgreja huma só navem, e abobada de berco: antigamente
tinha seis altares; porem quando a reedifiquey, lhe ficârão
somente tres altares, porque, sendo jgreja pobre, não podia bem
paramentar santos, como tinha. E por este modo tem tres a
saber o altar mayor, em cujo trono esta a jmagem de Nossa
Senhora das Ciladas, e nas banquetas dos lados estão as jmágens
de São Pedro Appostolo, e de São João Baptista: hum
dos altares collateraes da parte direyta he de Nossa Senhora
do Rozario, em cujo trono se venera a jmágem da mesma Senhora,
e nas banquetas dos lados estão as jmágens de Nossa
Senhora dos Milagres, e de Santo Antonio de Lisboa: o outro
altar collateral he das Almas, em cujo respaldo se venera


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se venera huma jmágem de Jezus crucificado, e junto ao
calvario da crus estão pintadas duas almas do purgatorio pedindo
á soberana magestade o alivio daquellas penas; e aos fieis
os sulfragios para o referido fim. Nestes dous altares há
duas jrmandades; huma do Rozario, e outra das Almas, e ambos
ecelesiasticas, erectas authoritates ordinari.
8º. O parocho he cura, e em algum tempo foy da
aprezentação da Meza da Conciencia, assim como ainda he
a jgreja matriz de Vila Viçoza. E há tradição, que sendo esta
jgreja curada pelos freyres de São Bento de Aviz, em tempo
de guerras por falta de menistros , que havia na dita ordem, ou talves
por medo do jnimigo se pôz vaga, e sendo provida pelo
prelado ordinario, ficou mesmo intreor na posse de
a aprezentar: e nestes termos he da aprezentação de Vossa
Excelencia Reverendissima, e senhores Arcebispos metropolitanos
de Evora, et sede vaccante he da aprezentação
do Reverendissimo Cabbido da mesma Sée [sic]. A sobredita
tradição se confirma; porque athe ao anno de 1749
se conservou a estillo da serem aprezentados os sáchristães
desta jgreja pelo Reverendo Juiz da Ordem da villa
de Estremoz, e a ultima aprezentação foy em João Sutil feyta
pelo Reverendo Doutor Manoel da Costa, Juiz da ordem
de Avis, e prior da matriz da villa de Estremoz, e dentro de
seis mezes erão obrigados os taes sacristães tirar a sua provizão
da Meza da Conciencia. Jtem porque os parochos de
campo das freguezias extramuros destas terras vezinhas pagavão
ao sobredito juiz da Ordem dous alqueres de trigo cada
um anno duas galinhas, e lhe chamávão reconhecença2 ;
porem eu nunca lhe paguey nada em dezasete annos, que vou
contando de parocho, e os sáchristães, que tem havido ha
nove annos a esta parte são providos pelo Excelentissimo e Reverendissimo
Senhor Arcebispo. Assim o parocho, como o sáchristão
sam obrigados a tirar, e reformar a sua provizão por dia de


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dia de São João de cada hum anno. Os freguezes desta
freguezia pagão por sua destribuição, ou repartição de
bollo, ou sustentação do parocho quatro moyos de trigo,
e dous moyos de çevada em cada hum anno vencidos por
dia de São João ao cura.
Aos interrogatorios 9º, 10º, 11º, 12º nada.
13º. Dentro desta freguezia havião em algum tempo
duas ermidas; a saber huma na erdade do Pumar d´El Rey,
cujo orago era São Placido, e vulgarmente se chamava
= São Payo de Cabedal = por estar cituada no termo da
cidade de Elvas junto a huma erdade chamada = Torre
de Cabedal =, da qual todo aquele citio em circuito herdou
o appelido de = Covas de Cabedal =, o qual appelido
segundo a tradição nasceo, de que antigamente assistia na dita
torre, ou herdade seo dono, o qual possuhia grandes cabedais.
A outra hermida estava cituada na herdade das Pegas
do termo de Jurumenha, que he dos Freyres e Andrades, cujo
orago, dizem huns, que era São Sebastião, e que era Gomes,
affirmão outros. Ambas as ermidas se achão hoje profanadas
servindo de sotãos, e celeyros aos lavradores das mesmas erdades.
14º. Nada.
15º. Os moradores desta freguezia recolhem munto trigo,
cevada, centeyo, grãos, favas, feyjões, tremoços, e
mel; e nas hortas laranjas da xina, doces, e azedas, paccas de
figo e de abobora, e todas as mais hortaliças, tudo com abundancia,
como tambem nozes, e amendoas. E em todo o circuito, que
tem no termo de Villa Viçoza recolhem, e desfrutão munta bolota,
por serem todas as herdades de montado com bolettas muy
particulares por sua doçura, por cuja rezão nella costumão
engordar os porcos munto, em menos tempo, do que nos outros montados.
Aos interrogatorios 16, 17, 18, 19, 20 nada.
21º. Esta freguezia dista da cidade de Evora capital do Arcebispado
dés legoas; e da Corte capital do Reyno dista vinte
e seis legoas.
22º. Nada
23º. Na herdade da Camuje do termo da cidade de
Elvas, a qual herdade em algum tempo pertençeo a esta
freguezia, e hoje he da freguezia matriz de Villa Boim nasce
huma fonte de qualidade rara; porque em todo o tempo
do Jnverno se acha quazi seca, e não lança agoa para fora,
e no mês de Mayo rebenta, e em todo o tempo do verão,
e estio corre, e lança agoa em tanta abundancia,
que com ella se regão não só duas hortas, que há dentro
da mesma herdade, mas tambem muntos feyjoaes, com que
se occupão muntos homens regando de dia e de noute, sem
poderem gastar tanta agoa, que da tal fonte nasce, e
corre para fora; e se não se gastasse a agoa na referida
cultura, sem duvida seria bastante para fazer
moer assenhas, ou pizões; porem no fim do mês de Agosto
começa a diminuir de sorte, que quando chega o tempo
do Jnverno já não corre, e esta quazi seça.
As hortas desta freguezia todas se regão com as correntes
de suas particulares fontes, que se dis nascerem todas da serra,
e são agoas munto cristalinas, munto frescas de verão, sem cor,
sabor, ou cheyro algum. Junto á [sic] esta jgreja esta huma fonte
chamada as Fontainhas3, a qual deyta hum anel de agoa, nasce
de huma roxa de pedra, na fundura de huma vara, com tanta
forca, e violencia, que lançando-se-lhe huma pedra de mediána
grandeza, a faz fugir, e não consente, que fique no fundo naquelle
lugar, por onde sahe a agoa. No Pumar de el Rey do termo
de Elvas desta freguezia esta hum nascente de agoa, em tanta
quantidade, que no verão, e canicula se occupão tres, ou quatro
homens regando de dia, e somente não só o grande pumar da frutas
excelentes, e com especialidade laranjas da xina, mas tambem
feyjoaes de feyjão branco, que se cultivão naquella herdade:
havendo outros muntos nascentes, que (quazi)4 pertendem quazi
envejozos igualar-se com o sobredito na abundancia de suas
agoas. Quazi todas estas agoas são dioreticas, e provocão a
ourinar amendo; são delgadas, e por munto, que se beba dellas, não
se conheçe no estomago, nem costumão gerar opilações.


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Aos interrogatorios 24, e 25 nada.
26º. Esta jgreja parochial no primeiro terremoto do anno
de 1755 não experimentou ruina alguma, mas passados alguns
dias, hum terremoto, que houve de madrugada lhe causou algum
sentimento nos cantos em aquelle lugar, em que principião os
arranques da abobada, e lhe fes humas raxinhas, porem de tão
pouco perigo, que não necessitão de concerto, ou reparo algum.
27º. Constando esta freguezia de cincoenta herdades,
somente tem dezouto lavradores; e as outras trinta
e duas herdades andão de cavalaria, e destas se achão treze
herdades com as cazas, ou moradias derribadas, a fim
de que algum lavrador não pretenda morar nellas; algumas
forão destruidas no tempo da guerra, e outras tem sido derribadas
pelos mesmos, que as cultivão de cavalaria, em grave
damno e prejuizo da republica, e do bem cómum; porque
os lavradores, que trazem as herdades da cavalaria, não
as cultivão, nem lavrão, como erão cultivadas, e lavradas
naquelle tempo, em que em cada huma herdade morava
seo lavrador, e lavrava as suas folhas enteyras;
o que agora não fazem, nem cultivão, ou lavrão, a fim
de terem pastajes largas para criar ovelhas, e venderem
muntas láas aos estrangeyros, que as levão para o Norte.
E pela referida rezão está esta freguezia pouco aparelhada
para o tual serviço, pois não havendo nela
lavradores, por consequencia tambem não havera soldados
para a Companhia das Egoas, se por algum aconteçimento
for necessario, que se ponha prompta no tempo da paz,
ou em tempo da guerra, quod absit.


Serra


1º Chama-se Serra das Alcarapinhas, e de
Vila Boim. Della dizem alguns experimentados que
he a serra mais alta, que há entre as duas Cortes de Lisboa,
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Lisboa, e Madrid.
2º. Tem tres legoas de comprimento, e he de pouca
largura, pois não chega a meya legoa, e em algumas
partes tem hum quarto de legoa de largura; principia
junto da villa de Villa Fernando, e acaba junto
das margés do grande Rio Guadiána.
3º. Nesta freguezia se chama Serra de Coroados,
e de Carvão, por passar pelas herdades destes nomes.
4º. De seo citio nasce o Rio Muves, que corre para
Guadiána.
5º No principio desta Serra esta a villa de Villa
Fernando e no meyo della a villa de Villa Boim, ambas
da serenissima, e preclarissima Caza de Bargança [sic].
Nesta Serra no termo da cidade de Elvas, e freguezia
matriz de Villa Fernando esta a celebre atalaya chamada
dos Sapateyros 5 junto da estrada real da Corte
para a cidade de Elvas.
6º. Fica respondido supra ao interrogatorio 23.
7º. Nada.
8º. A Serra toda se cultiva, e produs trigo, çevada,
e tem algum arvorredo de azinho, cria piorno,
arruda, salva, aljabão, marçella, tomilho, resmaninho,
pionia, abrotea, sebolos albarrães, erva semnó,
erva carroa, escabriola, gallo crista, ambretta,
manjerona, e néveda; e pelas fontes avenca, erva saboeyra;
e tambem erva coroa de rey, taliga, cardo arzol,
cardo raateyro, cardo corredor, cardo abrelho, cardo alvacilho,
lingoa de vacca, erva leyteyra, acrimância,
norsa, mercuriaes, e erva azeyteyra, e erva turca, escondio.
Erva barbasco, xouradinha, censaura menor, erva crina.
9º Nada.
10º. O temperamento da serra he damiazamente frio, em
algum tanto humido.
11º. Nella se crião ovelhas, cabras, bois, e porcos; a sua
cassa são lebres, coelhos, e perdizes.
12º., e 13º. Nada.


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Rio


1º. O rio, que corre por esta freguezia se chama Muves 6
que pareçe ser vocabulo corrupto, porque o seu nome antigá-
mente era Rio de Muros7, não só porque entra, e morre
no Rio Guadiána junto dos muros da Villa de Jurumenha,
mas tambem porque nos confins desta freguezia com a freguezia
de Santo Antonio da Terrugem passa o tal rio por
certo lugar, que mostra ter sido povoação antiga, em que
se descobrem alicerces de alguns edificios, e ainda em
hum cabeço do dito lugar se concerva hum monte, ou
herdade com o nome de Castello Velho; e como quer que
o rio passe junto do tal castello, e alicerces, ou muros desta
antiga povoação, e morra junto dos muros da dita
Villa de Jurumenha, se faz verosimil, que o seu nome
he o Rio de Muros, e não de Mures, como vulgamente
lhe chamão: nasce este rio da fonte dos Sapateyros,
e estrada real de Elvas para Estremos, e para a Corte,
pois he a tal estrada tão levantada, que ali se dividem
todas as agoas; correndo as agoas da parte do Sul para
Guadiana, e as agoas da parte do Norte para o Tejo:
fazendo-se esta divizão em hum pequeno espaço, que como
espinhaço da terra corta desta serra desde a Atalaya
dos Sapateyros athe a Serra de Ossa passando
entre Villa Viçoza e Borba.
2º. Nasce de varias fontes, e regatos, e não corre todo
o anno.
3º. Nada. 4º. Nada.
5º. He de curso quieto em toda a parte.
6º. Corre do Norte para o Sul.
7º. Cria peyxes, pardelhos, bordallos, e bogas, e das
duas primeyras especies he a mayor quantidade.
8º. Ha nelle pescarias em todo o tempo do anno; especialmente
para doentes.
9º. As pescarias são livres.
10º. Suas margés são cultivadas e em toda esta freguezia
tem munto arvoredo de azinho.


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11º. Nada.
12º. Vay respondido no 1º. artigo.
13º. Morre em o Rio Guadiana, em que entra pela parte
de sima junto dos muros da Villa de Jurumenha.
14º. Nada.
15º. Tem huma ponte de cantaria na estrada que vay da
Villa de Jurumenha para a cidade de Elvas: e nesta freguezia
lhe costumão os lavradores fazer pontes pao, ou
minhoteyras para passarem os gados a comer as pastagens
de suas herdades.
16º. Tem seis engenhos, ou moinhos com exercicio; e
hum, que he de el Rey meu Senhor, chamado moinho do Pintado
/ nome de seo inventor / se acha totalmente cahido,
e era hum dos engenhos mais fortes, e mais valentes, que
havia em todo o rio; porque esta no alto de huma roxa, em
a qual com munta facilidade abrio seo inventor huma
fenda, e fabricou moinho em tal altura, que com a
agoa, que delle cahe, podia fazer moer huma asenha antes
de chegar ao centro, ou estado das agoas do mesmo rio,
como ja em outro tempo teve, e estão levantadas parte das
paredes della.
17º. Nada.
18º. As agoas são livres, porem não se pode uzar dellas
por serem altas as barrancas do rio.
19º. Tem duas legoas e meya de comprimento; e passa
huma legoa distante de Villa Boim; e morre passando
pelos muros de Jurumenha, como fica dicto.
20º. Nada.
He a noticia que pude alcançar, e assim o certifico a
Vossa Excelencia Reverendissima que Deos Nosso Senhor guarde. Freguezia de Nossa
Senhora das Ciladas do termo de Villa Viçoza. 2 de Mayo
de 1758.


O Parocho Manoel Roiz da Silva.[Assinatura autógrafa]

 

(1) Letra diferente.

(2) sublinhado da época.

(3) sublinhado da época.

(4) palavra riscada.

(5) Sublinhado da época.

(6) Sublinhado da época.

 

Transcrição: Francisco Segurado


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