Serpa - Serpa (Santa Maria)

Domingo, 12 Junho 2011 10:36 André Coelho
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Santa Maria, 1758
Memória Paroquial da freguesia de Santa Maria, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 34, nº 137, pp. 987 a 1028]

 


Resposta aos interrogatorios, que me forão remettidos.


Ao primeiro.


Na provincia do Alentejo, huma legua de distancia do Rio Guadiana para a parte
de Castella, onde antigamente chamavão: Bética: nos séculos dos Suévos, e Alaños, está
situada a Villa de Serpa a 39 graus, e 24 minutos de latitude, e a 13, e 28 minutos de
longitude ao suéste de Lisboa. Pertence no governo civil à comarca de Beja, e no
espiritual ao Arcebispado de Evora.


Ao segundo.


He ao prezente do Donatario regio, e huma das da Caza do Infantado. Tem sido
do dominio dos Reys mais vezes, que do dos infantes. O primeiro infante senhor della
foy D. Fernando filho do senhor Rey D. Affonço 2; depois o Jnfante D. João filho do
senhor Rey D. João 1, o Jnfante D. Fernando filho do / p. 988/ senhor Rey D. Duarte, e
seus dous filhos o senhor D. João, e o senhor D. Diogo; o Jnfante D. Luiz; o Jnfante D.
Pedro, que depois foy o senhor rey D. Pedro 2.; o Jnfante D. Francisco, e ultimamente o
serenissimo senhor Jnfante D. Pedro nosso senhor.


Ao terceiro.


Tem a minha freguezia do Salvador 548 vizinhos, e 21831 pessoas: a freguezia
da Matriz 555 vizinhos, e 22902 pessoas; desta sorte: a freguezia do Salvador tem de
pessoas mayores 1514, de pessoas menores, e ja de confição 209. de menores, que não
são de confição 460. A Matriz mayores 1600; menores, e de confição 220; menores, que
inda senão confeção 470, e fazem os numeros acima dittos nas freguezias, por todas.
que somão 4473 e por todos o numero dos vezinhos 1103.


Ao quarto.


A situação de Serpa he deste modo: o castello está em lugar eminente à
circunferencia de toda a campanha, mas de pequena altura: para a parte do Norte e Nornóroeste
he escarpado e despenha mais descida; desde Norueste a Nordéste pelo
simicirculo do Sul desce, mais insensivelmente, sendo para estas partes a mayor
povoação da villa, que excede muito os limites da antiga village do dito castello, que
[ como em seu lugar diremos] foy fabrica do senhor Rey D. Diniz; este desde Nordéste
a Noruéste he pela linha antiga do castello, e para as partes de Oéste, Sul, e Sueste se
desvia muito, formando nesse hambeto a villa fechada dos muros em planta direita, sò
com as insensiveis eminencias, que bastão a escorrer as aguas.
Tem a ditta planta de Serpa [alem deste castello, e villa fechada] extenção muito
mayor nos rebaldes; porque do castello, olhando a Suéste, ha hum rebalde grande
chamado: o outeiro: em campo pouco mais ellevado, que os outros rebaldes: daqui
correndo huma linha para Léste, e Lésnordéste continúa bairro ainda mayor: passando à
Nordeste thé Norueste pello Norte, outros bairros com diversa configuração, e athé
Oéste: só para o Sul, e Sueste não ha rebalde, seguindo-se à porta do muro chamada: da
Corredoura: o largo Rocio do nome de S. Roque pella hermida, que tem deste santo, e
ao lado direito delle terras cultivadas, e de olivaes. Vindo a planta da villa a ser
multiforme, e a espaços truncada; recebendo variedade de figuras irregulares a linha
imaginaria, que a circuir, e cauzando algum dezagrado na vista a divizão da villa, em
que se cortão as ruas, que havião continuar pello /p. 989/ pelos rebaldes, cuja devisão
faz o sobido muro, que he o mais alto da provincia. Desta Villa se descobre Beja a 4
leguas, Vidigueira a 5, Villa de Frades a sinco, e meya.


Ao quinto.


Tem fértil, e bom termo com a seguinte divizão: lançando huma linha divissoria
de Sul a Norte, tem seis leguas, indo sempre pelo rio Guadiana dividindo o termo desta
Villa do de Beja, e são deste modo as leguas: desde o sitio chamado: Pedra Furada: aos
moinhos dos Bugalhos 3.; dali ao direito da Villa legua, e meya; deste ao sitio defronte
da aldea de Brinches legua e meya; e do direito de Brinches thé junto ao Ribeiro da
Amoreira, huma. Lançando outra linha desde junto à foz deste Ribeiro thé à Ribeira de
Chança, onde começa o confim de Castella, seis leguas, e meya, que são: desde a ditta
foz thé ao direiro da Aldea das Pias duas leguas, e quarto; desse sitio thé ao direito da
Aldea de Valdevargo huma; e do direito da ditta aldea thé à Ribeira de Chança 3, e
quarto. Desde Chança, lançando outra linha sempre dividindo Castella de Portugal, thè
ao termo de Merthola seis leguas [como diremos na divizão da serra, e são: desde
Chança à Malhada da Penalva duas; desde a Penalva à hermida de S. Marcos 2, e dahi
onde começa o termo de Merthola huma; a quarta linha deste termo he, a que tambem
diremos na divizão da serra, e he de sinco leguas, deste modo: desde o principio do
termo de Merthola thè à Malhada do Pinheiro duas, e meya; desde aqui thé a Malhada
da Pedra Furada [onde começámos esta divizão, e agora a fechammos] duas, e meya.
Fazem por todas vinte e quatro, e meya em quadro, e de diametros imperfeitos, o
mayor de oyto, e os menores de quatro, e tres e meya.


Ao sexto.


Tem Serpa duas freguezias; huma no castello antigo, que he a da primeira
fundação da Villa no domínio catholíco \portuguez/, erigida pelo senhor Rey D. Diniz;
outra no rebalde fora do muro mais moderna; e parece, que foy igreja sojeita à Matriz
nos seculos anteriores; porque o tombo antigo das capellas da ditta freguezia do
Salvador, sendo seu, as tem tombadas à Matriz, dizendo sempre deste modo: capella
tombada na Jgreja Matriz, e suas anexas etc. Al- /p. 990/ Alcançalhe a averiguação
priores de quaze duzentos annos, e deste tempo para os mais antigos senão podem
facilmente descobrir; porque, como só ha livros de baptizados, cazados, e deffuntos com
individuações desde o tempo do Cardeal Infante D. Affonço, filho do senhor Rey D.
Manuel, irmão do Cardeal Rey, por ser elle o primeiro, que ordenou em Portugal,
houvesse com este estillo os dittos livros, fica como inexcrutavel a noticia individual
mais antiga do estado das jgrejas. No comprimisso das Malhadas da serra grande da
ditta Villa, que se acha na Camera della, falla já na jgreja do Salvador no ano de 1406
em tempo do senhor Rey D. João 1, mas não se decclara, se era jà freguesia esta igreja.
Tem esta Villa duas aldeas grandes; huma ao Norte, outra ao Leste; a da parte do
Norte chamase: Brinches: a do Leste: Aldea Nova: o numero dos seus vizinhos, e o das
freguesias menores, que as aldeas, irão na resposta ao interrogatorio 27: alem destas
duas aldeas, tem mais no campo 5 freguezias, que são: S. Iria: S. Braz: S. António
Velho: S. Anna: S. Estevão.


Ao settimo.


O orago da Matriz he Nossa Senhora com a invocação de S. Maria; o da outra
freguesia da villa: o Salvador do mundo: e para mais individual inteligencia as
descreverei, dizendo, quaes são os seus altares, e de que santos.
He o templo da Matriz magnifico, e por muitas circunstancias se colhe, que foy
fundado pello senhor Rey D. Diniz, por que na cornija da coluna, onde começa o
segundo arco da parte esquerda, estão abertas em pedra entre folhas de plantas as armas
dos Reys de Portugal orladas de castellos juntos, fórma, que tiverão as dittas armas
desde o tempo do senhor Rey D. Affonso 3. Thè ao senhor Rey D. João 1 e como não
he factivel, que fosse obra dos senhores Reys D. Affonso 4. D. Pedro 2 e D. Fernando,
porque não fizerão edificios nesta provincia, he certo, que foy fundação do senhor Rey
D. Diniz, e que como elle edificou tam sumptuoso castello, e soberbos muros nesta
Villa, edifficaria a Matriz, que está no mesmo castello; e sendo este Rey, quem no anno
de 1295 ultimamente a reduzio ao dominio dos Reys de Portugal, e se empenhou nas
grandezas, e sumptuozidades della, se infere ser a ditta igreja erecção sua, não podendo
ser doutro pella sobreditta inferencia da fórma das armas.
He, pois, o templo da Matriz de 37 paços de comprido, e 19 de largo, de trez
naves divididas por trez ordens de colunas, e /p. 991/ e arcos; cada ordem tem 4 arcos, e
sinco colunas; tem coro sobre a porta principal sem guardavento, ficando o templo sem
divizão thé a ditta porta. O coro descança sobre tres barretes de abobeda com aranhas
firmada en postres de cantaria quadrada, e 3 arcos, sendo o do meyo mayor; e mais
baixo com pouca volta, como hoje he a romana, e os dous de menor espaço, mais
levantados, e em meyo sirculo: as colunas das divizões das naves são duas em cada pé,
unidas com huma facha de pedra; ao do primeiro arco fazem hum corpo grosso com os
pedestaes dos arcos do coro, em que estão embotidos; os do ultimo fazem o mesmo com
os do arco da entrada da capellamor, e da parte do coro os segundos postres, que
seguem, tem 4 columnas em quadro, unidas com filetes grossos; os outros dous do
meyo de cada parte são só de duas colunas unidas: todas as cornijas estão miudamente
abertas com formas de pessoas, varios animaes, plantas, flores, e ramos. São as colunas
sò de treze palmos de altura; dellas para cima sobem arcos com bico de ponto sobido de
pedra de cantaria, e entre os arcos parede, que ainda dos bicos para cima sobe vara e
meya para a parte das naves dos lados, e para a do meyo tres varas, sendo o tecto da do
meyo, com essa differença, mais alto, que o dos lados. Da parte esquerda tem hum arco
à antiga para o ricinto da pia baptismal fechado com grades de pao, porta para o coro;
porta traveça para fora; porta de sacristia, e somente huma capella de talha dourada em
divididos nichos com os santos em vulto de esculptura S. Chrispim, e S. Chrispiniano.
Da parte direita debaixo do coro porta para o campanario, a que se sobe por escadas de
pedra em caracol; e no corpo da igreja desse lado trez capellas de talha dourada; huma
dellas, a do meyo, com grossa grade de ferro de dez palmos de alto fechada; a primeira
he de3 a segunda de4
A terceira das almas com hum grande painel de S. Miguel, e purgatorio; tem sacrario. O
arco da capellamor he gavado dos curiozos da arquitectura pella boa forma, que tem de
pedra com muitos filletes, meyas canas, abas, e frissos; nelle se fecha em grossas, e altas
grades de ferro a capellamor, e tendo primeiro hῦ atrio de quatro paços de comprido, e
oyto de largo, se sobe para o altar por quatro degraus de pedra vermelha com betas
brancas: tem as paredes azuleijadas com dous paineis cerceados de grossa talha
dourada, abobeda de aranha, e capella de talha, e ouro com /p. 992/ com tribuna funda,
avultado saccrario, trono sobido, e reconcentrado; tem duas janellas de grades de ferro,
que dizem para as duas capellas dos lados; e nesses lados duas portas no presbiterio para
as taes capellas collataraes. Na mesma frente da capelamor está hῦa capela de cada lado
funda, de arco menos e ellevado com seis paços em quadro, e abobeda de aranha: da
invocação de S. Bartholomeu a do lado direito, a do esquerdo de S. Tiago: tem no coro
huma janella guarnecida de cantaria com dous quadros de largo, e hum só de alto para
luz com gelozia de ferro: hum robusto campanario em quadro com remates de biccos
pyramidaes, e oyto janellas de sinos. A porta principal entre grossas colunas, e dous
avultados postres lavrados de cantaria; hum adro lageado de pedra faceada, de 25 paços
de comprido, e nove de largo. Tem notavel pulpito de marmore sobre pé delgado, e bem
aberto da mesma pedra: tem sacristia, outras cazas, e orificios precizos para huma
iregeja [sic] matriz: hoje tem o tecto caido.


Jgreja do Salvador.


A Jgreja do Salvador he hum formoso templo de hῦa sò nave com forma
moderna ao uso do ultimo seculo passado, em que esta igreja se pôs na figura, que tem
hoje: he de abobeda de berço, e simalhas com grande ellevação, e hum occulo redondo
de rótula na frente: tem 35 paços de comprido, e dezesette de largo: as paredez são de
pedra, e cal com cunhaes de cantaria, e tam grossas, que formando as dos lados, sobre
que estriba a abobeda, trez arcos, figurão os pedestaes trez arcos de capella para dentro,
e no mesmo lugar trez para fora. Tem coro sobre a porta principal com trez arcos
firmados em colunas de pedra, ellevado guardavento de madeira bem obrada: tem
capellamor com arco pouco ellevado, porque não he ainda a do risco do templo, que a
pede mais avançada, e alta com cruzeiro, que ainda não tem: de cada lado forma trez
capellas chamadas à face, com muita magnificencia, e ornato; porque estão todas, au de
talha moderna dourada, ou de pedra fingida com dourados perfiis, sobrepojando as /p.
993/ as aduellas, e paramentos dos arcos para os lados; e para cima os quartões, relevos,
e remates, que sobem por fora, encumbrando os perfiis muito para sima dos mesmos
arcos: e tudo, o que não he adorno das capellas está pintado, sendo as paredes desde o
arrenque da abobeda [que he branca] para baixo colmadas, ou de talha de ouro, ou de
pedra fingida, ou de pintura; e pintado tambem o saguão por baixo do coro à entrada da
porta principal, onde tem cadeira de espaldas; he pintado também o coro.
A primeira capella, entrando, à mão direita he a de S. Francisco, e o tem em
grande painel pintado na acção do apparecimento de Christo. A segunda he a de S.
Catharina, que tem a mesma santa no meyo do altar, e no vão a Santissima Trindade
aberta em bustos de pedra fingida; de hum, e outro lado duas imagens em vulto de S.
Antonio em diversa acção. A terceira he a de S. Miguel, que o tem em tribuna; de cado
lado, e em peanhas altas S. João Baptista, e S. Lourenço. A primeira capella do lado
esquerdo, começando da porta, he a de N. Senhora da Graça, e a tem em peanha alta no
meyo; no fundo da capella diversos santos em paineis distintos. A segunda he a de N.
Senhora da Piedade, e está no meyo em peanha; dali para sima hum grande, e bem
esculpido crucifixo. A terceira he a do Espirito Santo, e o mostra em dillatado retabulo,
occupando todo o vão da capella, pintado em linguas de fogo sobre o Appostolado; hum
notavel crucifixo no meyo, e nos lados S. Jorge, e S. Domingos em vulto. Tem porta
traveça à parte esquerda perto da entrada da porta principal. Tem pia baptismal com
porta fechada, outra defronte para hum corredor, que dá expediente a diversos ductos, e
cazas. A capellamor tem na tribuna Nossa Senhora do Rosario, e nos lados em peanhas
S. Bento da parte do Evangelho, e S. Jozeph da parte da Epistula, ambos de grande
estatura em vulto. Tem boa sacristia; caza da Irmandade do Saccramento; caza de
Irmandade do Pe da Cruz, quintaes dezaffogados, e outras exterioridades necessarias
para diversos usos. Tem bons pulpitos de hum, e outro lado de pedra fingida, cubertas
as portas de senefas de talha dourada, e deste modo todas as mais no corpo da jgreja,
que tem o pavimento estradado. Há no lado direito do templo hῦ bom campanario de
alvaneria quadrado com quatro janellas de sinos, o remete he em pyramide com todo o
exterior da cupula azuleijado, quatro corucheos nos cantos, e simalhas. A igreja he
telhada ten- /p. 994/ tendo por fora grande simalha de gulas direitas, reversas, quadrado,
redondo, aba, e filetes. A porta he de pedra reffendida, e hum ellevado quartão fechando
letreiro, sobre o qual se levanta huma avultada cruz. Tem adro de escadas de alvaneria.
A freguesia da Matriz está hoje unida à jgreja do convento dos Paulistas por ter a
Matriz o tecto da nave do meyo caido, e o resto arruinado ha catorze annos; tendo
embaraçado a reedificação a contenda do seu Prior com o comendador della, em que se
nota como impiedade da parte do comendador a muita repugnancia, e não expedir
arbitrio prompto, ou lento para obra tam precisa em villa dos predicados, nobreza, e
merecimentos desta.
As irmandades destas duas freguezias são: da Matriz a das Almas, que he de
imemorial para a lembrança dos naturaes; mas tem comprimisso de treze capitulos, por
provizão do senhor Rey D. João 5. concedida no año de 1744. Tem a ténue renda de
vinte, e tantos, ou trinta mil reis em algumas pequenas propriedades.
A Irmandade do Santissimo Saccramento de imemorial com vulto correspondente
à grandeza da villa. Ha muitos annos, que são juizes perpetuos os senhores de Ficalho e
escrivão hῦa pessoa principal.
A de S. Bartholomeu. A do Nome de Jesus. A de S. Joseph.


Do Salvador.


A Jrmandade das Almas de imemorial, mas tem a formalidade de comprimisso
desde o anno de 1634, por provizão do senhor Rey Filippe 4. de treze capitulos. A renda
he ténue, e como a da irmandade da Matriz: agora tem hum legado de dezoyto mil
cruzados, em fazendas, que lhe deichou Sebastião Pallos Cançado, pessoa das
principaes deste povo.
A de S. Catharina com principio antigo, e de que não ha memoria. Achouse no
cartorio daquella freguezia hum auto de força, que fez o vigario da vara Gaspar Gomes
ao Prior Fr. Estevão Lopes sobre a elleição de juiz, e irmãos de S. Catharina no anno de
1588., de que se vê a sua antiguidade.
A do Espirito Santo. Da Santissima Trindade. Do Rosario. De S. João Baptista.
De Nossa Senhora da Graça. Do Pé da Cruz, irmandade nobre, he a dos Paços. De S.
Jorge. /p. 995/ S. Fr-


S. Francisco


A ordem terceira de S. Francisco: não me foy possível descobrir a sua erecção
nos chronistas, e escrittores daquella Provincia, e ainda de outras da mesma Relligião,
que nenhum trata do seu principio; e da Igreja do convento, em que está, \sò consta/ que
tem mais de cem annos. A irmandade de S. Antonio. De S. Barbara. De S. Ritta, com
grande devoção de todo aquelle povo.


No Convento dos Paulistas.


A jrmandade da ordem terceira de Nossa Senhora do Carmo. Desde o anno de
1735 se enfervorissarão os moradores na devoção desta Senhora, festejando-a no seu dia
thé ao de 1738, em que se erigio irmandade do Bentinho por patente, que alcançárão;
crescendo o fervor catholico, no anno de 1745 ellevarão a irmandade a ordem terceira
por patente do Provincial da Ordem do Carmo: os dous annos seguintes observou esta
Ordem os estatutos da de Lisboa, e neste tempo fizerão estatutos seus, que se
confirmarão por outro Provincial no anno de 1749. No de 1756 aslcançarão de outro
Provincial licença para pertenderem a confirmação da Sé Appostolica nos dittos
estatutos, e a consiguirão no de 1757 com as mesmas graças, indulgencias, e privillegios
da de Lisboa, e de toda a ordem terceira do Carmo, erecta, aut erigenda. He irmandade
notavel, porque não exime de si qualquer qualidade de sangue, que tenha o –
impedimentum regni – o que a faz de notavel concurso: apperfeiçoarão de ouro, e de
pedra fingida hῦa ellevada, e notável capella de primorosa talha, que lhe tinhão feito,
em que há muitas, e excellentes imagens, sendo a principal a de Nossa Senhora daquelle
titulo, huma das mais avultadas, e primurosas daquella provincia.
A de Nossa Senhora das Dores. De Nossa Senhora da Consolação. De S. Luzia.
De S. Francisco Xavier.
Alem destas, nas hermidas, e freguezias de campo /p. 996/ campo. A de Nossa
Senhora da Saude [que trataremos] e na mesma igreja a de S. Amaro, e a de S. Andre.
Na hermida de S. Gens, a de S. Luiz, e a de Nossa Senhora de Guadalupe.
A de S. Roque. A de S. Pedro. A de S. Sebastião. A de S. Braz. A de S. Marcos,
não fallando nas irmandades das duas aldeias, que, sem ellas, tem trinta e seis.
Na jgreja [que dizemos] do Musturinho, chamada antigamente: da Madre de
Deos: houve irmandade celebre. Achei hum compromisso desta confraria de doze
capitulos confirmado no anno de 1640 com estas pallavras: Approvo estes doze
capitulos do comprimisso da Confraria de Nossa Senhora da Madre de Deos sita na
Villa de Serpa, e asseito em nome do Senhor Arcebispo D. João Coutinho, e de seuz
sucessores esta jurisdição, a sojeição, e termo della feito pelos confrades acima, e atraz
escrittos, e assignados. Passe carta de erecção de confraria na forma ordinária. Evora 65
de Julho de 1640 = Antonio da Silveira. E o titulo de compromisso diz: Compromisso
da Confraria e Irmandade de Nossa Senhora Madre de Deos desta Villa de Serpa ora
novamente instituida no oratorio, e recolhimento das terceiras da ordem do Padre S.
Francisco no anno do Senhor de 1640 com todos os homens principaes da Villa
assignados. Hoje não existe esta confraria, e se erigio, e desvaneceo o recolhimento por
motivos, que não pude alcançar com certeza; existia na era de mil seiscentos e trinta, e
tantos, e na de seiscentos e vinte e tantos falha hum testamento das cazas, que se havião
dar para a sua erecção. No principio deste seculo se desfez.


Ao oytavo.


O paracho de huma, e outra freguezia chama-se: prior: são da apprezentação do
Mestrado de Aviz. Tem o prior do Salvador de renda trez moyos de trigo de trigo, dous
de sevada, 22000 reis em dinheiro. O da Matriz tem 3 moyos, e meyo de trigo, dous /p.
997/ dous, e meyo de sevada, e
22000 mil reis em dinheiro.


Ao nono.


Tem a parochia do Salvador dous beneficiados, a da Matriz quatro. São da
appresentação do Mestrado, e Ordem de Aviz. Os beneficiados do Salvador, e os de S.
Maria tem a mesma renda, que he: cada hum dous moyos de trigo, moyo e meyo de
sevada, e dez mil reis em dinheiro.


Ao decimo.


Tem esta villa dous conventos de frades; hum de Franciscanos da Provincia dos
Algarves, outro de Paulistas; o de S. Francisco com a invoccação antiga de S. Antonio,
que ainda hoje he o seu nome, foy fundado sò a expenças reaes pelo senhor Rey D.
Manoel no anno de 1502.: he do padroado real, ainda que tem seppultura, e armas na
capellamor delle a caza dos Mellos porteiros mores, por concessão do mesmo Rey ao
seu mestre sala Henrique de Mello, filho de Gracia de Mello Alcaidemor da mesma
villa. Foy caza de noviciado, e acha-se nelle hum rol da proffição dos noviços desde o
anno de 1608 thè 1617. Situado na quarta entre nordeste, e leste da villa, em pouca
distancia. Tem muitos privilegios d’ el Rey Nosso Senhor, e os monarcas antecedentes,
como se pode ver na chronica de Fr. Jeronimo de Bellem. He convento grande, com boa
igreja, cerca de hortaliças e frutos, e outras circunstancias mais.
O de Paulistas teve os seguintes princepios: na era de 1494 dous clérigos naturais
desta villa, chamados Martim Gonçalves, e João Manoel, havendo já monges da Serra
d’ Ossa no termo da villa, e naquelle sitio junto ao Rio Guadiana para a parte do
sudueste [a cujo lugar a união destes monjes chamados os pobres deo o nome de
Provença] fundarão caza chamada: Caza Nova de S. Maria da Consolação:
comprandolhe terras; e estes forão os fundadores daquella congreção, à qual poucos
annos depois concedeo o senhor Rey /p. 998/ Rey D. Manoel privilegio de poderem ter
fazenda, que lhes rendesse thé dez moyos de pão, e todos, os que erão concedidos aos
monges da Serra d’ Ossa.
Depois no ano de 1592, sendo este reyno do dominio do senhor Rey D. Filippe 2.,
e governador delle o cardeal Alberto, se determinou em huma visita do provincial da
Serra d’ Ossa mandar dezamparar alguns conventos por pobreza para accrescentar
rendas aos outros; isto por alguns annos, e que, passados elles, pudessem voltar ao
mesmo sitio os frades, ou a outro, se se lhes concedesse; passados outros annos,
pedirão, o provincial, e os monjes da Serra d’ Ossa [porque o musteiro do termo desta
villa foy hum, dos que se evacuarão] provizão ao senhor Rey Fillippe 3. na era de 1617
para, em lugar de voltarem para a ditta Provença, edificarem novo convento na ditta
villa, que o refferido rey lhez concedeo, e ajustados com a camera, e povo della,
edifficarão o pertendido convento nos annos, que se seguirão à mencionada era de 1617;
este convento era pequeno, e pobre athè ao fim do seculo passado, em que hum natural
da villa chamado, o Cappitam Manuel Fialho, mandou das Jndias de Castella, onde era
muiro rico hῦ donativo tam grande para a obra do convento, que se lhe erigio formoso
templo pelo risco da jgreja dos Paulistas da corte, ainda que menos grande, e menos
sumptuoso; bom coro, e hum dormitorio com officinas por baixo; está o mais do risco
por acabar. Tem jà hoje este convento hum tombo das suas capelas, e fazendas de muito
vulto, e he huma das boas cazas, que tem na província a sua relligião.


Ao undecismo.


Tem hospital muito antigo. No archivo da Mizericordia [à qual está hoje anexo,
como abaixo diremos] se acha hῦa provizão do senhor Rey D. Manoel passada no anno
de 1509, em que falla na Jrmandade de Nossa Senhora do Hospital, e que lhe concede
as perrogativas otorgadas pelos senhores Reys seus antecessores, donde se segue, que
em tempo de Reys anteriores ao senhor Rey D. Manoel ja havia hospital com
irmamdade, e de muitos irmãos graves; como se alcança desta e de outras mais
provizões, que fallão no mesmo hospital; e muitas das faz- /p. 999/ fazendas tombadas
nos livros da Misericórdia, forão deichadas a Nossa Senhora do Hospital, e não à
Misericórdia. A renda do Hospital hoje não he sua propria, porque a administra a
Misericordia, da qual são humas, e outras rendas, e nesta união, que se fez com provizão
do senhor Rey D. João 3 confirmada pellas do senhor Rey D. Sebastião, e os reis
seguintes, se extinguirão os sobreditos irmãos do Hospital, ficando em seu lugar, e
provindencias a Irmandade do Cento da ditta Caza da Mizericordia. Tem enfermarias
distintas de homens, e mulheres, onde se lhes, assiste com limpeza, e promptidão por
hospitaleiro, hospitaleira e mais pessoas precizas à sua providencia, em cazas da mesma
Mizericordia anexas à propria Igreja.


Ao duodecimo.

 

Tem Mizericordia com irmandade do cento, e mais de hum conto de reis de renda.
Os seus provedores antigos forão quaze sempre fidalgos da primeira grandeza, porque
nesta villa assistião as duas illustres cazas dos Mellos, huma dos senhores de Ficalho,
outra dos Porteirosmores; estes não rezidem nella hoje, porque os castelhanos na era de
1708 lhes derrubarão o Palacio no castello de dentro, quando o demolirão; os outros
Mellos ainda fazem nesta Villa interpollada assistencia com a da corte, e por esta razão
erão estes fidalgos os seus provedores; e depois o tem sido os homens da primeira
nobreza. Foy erigida pelo senhor Rey D. Manoel no ano de 1505. Tem muitos
privillegios e perrogativas, sendo hῦa das que gozão os mesmos, que a de Lisboa; e,
alem de outras graças, he a mais especial, a que lhe concedeo o senhor Rey D. João 3.:
que toda a fazenda, que naquella villa vagasse para a coroa, a dava à Mizericordia, e que
assim fosse sempre; concessão, que não está revogada, e por incuria, ou discuido dos
seus provedores, se não tem posto em acção esta graça, que teria feito avultar muito as
rendas da dita Mizericordia. Tem jgreja pequena, mas notavelmente adornada de talha, e
ouro, pedra fingida, e fino assulejo; com coro sobre a porta; caza de despacho, seleiros,
patios, e officinas necessarias para o seu uso, e do hospital anexo.


Ao decimo tercio.


Tem dés hermidas, nove fora, e huma dentro da villa. A primeira he de S. Roque
junto à villa no rocio do seu nome. He huma jgreja de abobeda de berço com simalha;
de 13 paços de comprido, e sette de largo. Tem hua capellamor mais baixa com abobeda
de barrete, e aranha, de seis paços em quadro: fora e na frente hum alpendre /p. 1000/
dre pequeno com abobeda de zimborio, e trez arcos. Por fora da igrejas trez estribos de
cada parte, e os remates com curucheos, e ameyas, sino sobre a porta, tudo obra
humilde, e só hῦ altar com trez imagens, no meyo hum crucifixo, de hum lado S.
Roque, e do outro S. Bras; porta para norueste.
A segunda he a de S. Pedro. Tem quinze paços de comprimento, sette, e meyo de
largo; abobeda de berço com simalha; quatro arcos distinctos na abobeda, por serem
ressaltados para fora os seus paramentos, e trez arcos de capella de cada lado, mas
cheyas thé ao ressalto, e cayadas, sem altares, nem santos; hum occulo redondo para luz
nas frente; atrio fóra da porta cuberto com abobeda de barrete, e pernas de aranha, hum
pulpito de alvanaria nelle a hum lado, e noutro janella de ferros para a igreja;
capellamor de seis paços em quadro, e nella porta para hua sacristia quadrada de sette
paços, e abobeda redonda de zimborio, com trez frestas para o campo. Por fora quatro
estribos de cada lado, agradaveis, porque tem mais grossura nos pedestaes, e trez vezes
estreitão com simalhas nas divizões, e cúpulas de corucheos altos abertos ao antigo:
toda a parede rematta em ameyas, humas de bicco, e outras chanfradas, o mesmo as
paredes da capellamor, que são mais baixas. No ponto mais alto da igreja tem para a
parte de traz hῦ torreão mayor, e para diante campanario de hum sino de huma sò face.
Tem huma grade de pão de altura de homem, e meyo, que feclha a capelamor [e não
tem com uzo outra capella] com a imagem de S. Pedro, e Nossa Senhora do Rosario;
pequeno paynel de talha dourada lhe forma a capella com S. Pedro pintado, e S. João
Baptista: toda a mais jgreja grosseiramente pintada. Tem caza de hermitão; e a jgreja
porte para o sudueste.
A terceira he a de S. Sebastião para a parte do nórueste em pouca distancia da villa,
como a de S. Pedro, do mesmo risco, e forma, que a tal hermida de S. Pedro; tem mais
paço, e meyo de comprido, mayor alpendre, mas menor sacristia, que he hum pequeno
recinto; no altarmor S. Sebastião, e hum retabulo, que enche a capella com divizões,
onde mostra a pintura os paços da vida do santo.
A quarta he a de Nossa Senhora dos Remedios, mayor que as tres precedentes, e a
mais proxima à Villa para a parte de Nor-Noroéste. Tem 19 paços de comprido, onze de
largo; jgreja moderna feita junto ao fim do seculo passado, toda lisa por fora, sino sobre
a porta, abobeda no exterior cuberta de cal, e telhas. He a tal abobeda de berço por
dentro com simalha; o corpo da jgreja simples sem capellas collateraes, e de ellevada
altura; a capellamor cheya toda de agradavel, custosa talha dourada, levantada /p. 1001/
levantada trez degraos ao pavimento da jgreja; ao lado direito hum Menino Jesus em
vulto, ao esquerdo S. Antonio, no meyo a imagem de Nossa Senhora com o menino nos
braços; saccristia de oyto paços em quadro com abobeda de barrete, e bom caixão; na
frente occulo grande para luz com gelozia; pulpito pintado junto da porta principal,
paineis avulços nas paredes de pintura fina; e no mais, igreja de bom asseyo: porta para
sul sudueste: caza de hermitão.
A quinta he a de Nossa Senhora da Saude, e talvez em toda a Provincia se não ache
mayor, nem melhor hermida de campo; fica alguma couza distante do Nordeste para
Leste, proxima ao convento de S. Francisco, que he pouco desviado da villa. Desta
millagrosa imagem, e da fundação do seu templo se tratta entre as couzas notaveis da
villa. He hῦa formosa, e sumptuosa igreja de 23 paços de comprido, e 13 de largo;
abobeda de berço com grande ellevação; desde o arranque da abobeda thé ao chão as
paredes cubertas de fino azulejo. Tem a capellamor de estillo magnifico, e agradavel;
porque he do tamanho de todo o corpo da igreja em largura, e a altura, devidindoa pelo
tecto sò o ressalto do arco, que a faz ser de notavel grandeza: todo este vão occupado de
excellente entalhado dourado aberto em quartões grossos; tribuna funda, larga, e alta;
sobe-se da jgreja para ella por sinco degraus espaçozos, sendo a escada de dous quartos
de largo, e os dous quartos exteriores ficão, a pé direito, sendo pedestaes, hombreando a
escada thé a altura do presbiterio; nelle em sima aos lados duas portas, a da parte da
Epistula para huma saccristia pequena, mas asseada com bom caixão, e janella para o
campo; a o outro lado para hum retrete, de que vem escdas do campo para a tal capella,
onde em trono está a notavel jmagem de Nossa Senhora da Saude com dous avultados
anjos em acção voante, pondolhe a coroa imminente à cabeça. Tem coro grande
azulejado sobre a porta, que he alta, moderna, e por fora rematada em pedras
reffendidas ao estilo dorico, sobre duas colunas abertas em meyaz canas estreitas, e as
cornijas miudamente debuxadas ao modo coríntio. Tem quatro grandes paineis de borde
grosso aberto em talha singindo notaveis pinturas; aos lados da porta duas janellas
gradeadas de ferro de dous quadros de alto cada huma, e sobre a porta outra; he o
pavimento da jgreja ellevado do chão do campo hum degrao /p.1002/ degrao. Nos lados
da igreja por dentro tem sò duas capellas, hῦa em cada hum; a do direito a de S. André
com o santo em vulto pintada por dentro; a do esquerdo de Santo Amaro com o santo do
mesmo modo. Por fora, e da parte esquerda tem hum retrete do comprimento da mesma
igreja estreito, com trez escadas dentro, huma para o coro, outra para a capellamor [a
que ja dicemos] outra para o pulpito. Tem bom sino em campanario de hum sò arco
sobre a porta. Nòs lados da frente tem duaz pyramides com figura, e forma de
campanarios, que podem ter sinos sobresaindo muito sobre a jgreja, rematando em bicos
pyramidaez quadreados: na parede das costas da jgreja tem outros dous da mesma
forma, e altura; nas paredes dos lados duas mais estreitas e do mesmo estillo, com
simalhas, onde estreitão a espaços, o que lhe faz vista gallante. Tem quatro cazas de
hospedaria, e cavalheirice; e a porta da jgreja para o sul.
A sexta he a de S. Gens. Tem doze paços de coprido, e seis de largo; abobeda de
berço, e simalha; sino sobre a porta; capellamor de seis paços em quadro, da altura da
mesma igreja, para a qual se sobe hum degrao, e para o altar outro: he esta de talha
dourada. A Senhora de Guadalupe com Menino Jesus na mão esquerda em vulto de
escultura sobre pequeno trono, coro[a]ndoa dous cherubins; da parte da Epistula S. Luis,
da do Evangelho S. Gens, ambos de gloria; dividida por grades de pao, e o assento
humildemente pintado. Tem saccristia de abobeda redonda com sinco paços em quadro,
e porta para hum quintal cercado, que tem duas cazas, em que vive o hermitão.
Alpendre na entrada de sinco paços em quadro com abobeda redonda, e pulpito de
alvaneria à direita: por fora da igreja estribos, e simalha. Tem a sette paços de distancia
para norueste huma attalaya em forma sircular, e hum campanario em sima: a porta da
hermida he para oeste.
A settima he a de S. Margarida. Igreja pequena, mas agradavel, de dez paços em
quadro com abobeda redonda de zimborio, e cúpula sobre ella aberta em quatro janellas;
sino sobre a porta: tem sò capellamor de sinco paços na mayor parte, e na menor quatro,
de abobeda de barrete: tem a imagem de S. Margarida, e de Santa Appolonia, ambas de
roca, e vestidos: de fora junto à porta pulpito de alvanaria. No exterior quatro
pyramedes nos 4 cantos accompanhadas de frances de tejolo, em quadro, a capellamor
com duas, também accompanhadas da mesma parede de tejolo.
A oytava he a de S. Marcos, na Serra, 5 leguas distante /p.1003/ tante da villa de
14 paços de comprido, e sette de largo, com tecto de madeira, capellamor de abobeda [e
não tem outra] com 4 paços em quadro; sino sobre a porta; de fóra pulpito; saccristia
quadrada tambem de 4 paços: tem na capella banqueta, em que está o Santo; trez cazas
rusticas de hospedaria; a obra da igreja por fora liza, sem ameyas, nem simalha; porta
para o poente.
A nona he a de S. Romão, e toda a hermida he huma capella em quadro de abobeda,
com degraus para hum altar. Esta igreja conserva-se na quinta da Provencia entre os
vestígios do pequeno musteiro dos monges Beguinos, e frades Paulistas, que tizerão
antes do convento da Villa.
A decima he a chamada: Musteirinho: e ja a não descrevo como hermida, ainda
que tem agradavel forma, e coro, capellamor com imagens, saccristia etc. porque hoje
he capela e particular das cazas de Gaspar Limpo Homem; mas com porta para a rua, e
sino sobre ella, que se tocca nas missas para ouvillas a gente do povo; era a jgreja das
recolhidas, que desvanecerão o musteiro, como em outra parte diremmos.


Ao decimo quarto.


Não são hermidas [excepto huma] a que accudão romagens de partes remotas, e
sò tem o culto, que a fé dos moradores lhes dedica nas festas dos seus respectivos dias.
A de Nossa Senhora da Saude, como imagem especialmente millagrosa, he procurada
de grande parte da provincia, e tem destincta festa todos os annos. Houve alem das dez
nomeadas, mais duas; a de S. Justa hum quarto de legua distante, ainda hoje em termos
de se repparar, porque não está de todo arruinada; e a de S. Martinho junto a huma face
exterior do muro para o leste, que se destruio na invazão dos castelhanos pella guerra
passada.


Ao decimo quinto.


He hua terra abundante de todo o genero de frutos, que ha nas melhores das
provincia; mas a mais especial do Reyno na producção do trigo, em que somente cede a
Beja [isto he] na extenção das terras, e numero de herdades, mas no seu tanto a respeito
da qualidade he melhor Serpa: chega nos annos abundantes a dar mil moyos de dizimo.
Este he o nervo do seu comercio, fazendo se nella extracção dos trigos para o porto de
Merthola, para o d’ El Rey, e mais portos do rio Sado, e para o Algarve [em] todos os
mezes do anno. He tambem a terra mais especial [ ]6 boa qualidade das azeitonas, e se
pervalece em fama nesta parte Elvas, /p.1004/ Elvas he certamente por ser cidade mais
distinta; porque não ha vidonho, nem qualidade de azeitonas em Serpa, que não seja
bom, e avultado, tendo de algumas especies, que se não achão em Elvas, e as desta
cidade todas ha com abundancia nos Olivaes de Serpa. As romaãs são tambem as
melhores da provincia, e as sinorias. Nos nabos, e couves não dece a Alvito, e Viana. As
uvas chamadas: negramole: são aqui tambem as mais particulares; e de todas as mais
frutas, e hortaliças muito abundante. Antonio Carvalho da Costa encarece por couza,
admiravel o numero das suas hortas: diz, que tem duzentas; não são hoje tantas, mas
mais de cento lhe numerei eu, em que entrão boas quintas de agua de pé.


Ao decimo sexto.


Tem juiz de fora desde os primeiros, que houve em Portugal pela mudança de
sisthema, que na ordem civil fez o senhor Rey D. João 2. E sò tem tido a appresentação
das justiças dos reys, ou Infantes: ao presente he do dominio do serenissimo senhor
Infante D. Pedro. Está sojeita à correição ordinaria da Ouvidoria de Beja por primeiro
dezembargo das justiças, como terra da sua comarca, e à provedoria da mesma comarca.
Tem camera, em que serve a primeira nobreza da villa, com cazas de despacho de boa
magnificencia, e vistoso aspecto, que occupão todo hum lado da frente da praça, e huma
varanda de grades de ferro avançada à gallaria a todo o comprimento della, obra do
anno de 1676 a expenças do povo, e nobres da villa, como consta de hum padrão de
armas embotido no frontespicio: e por baixo occupando todo este recinto sinco arcos
grandes obra mais antiga, e feita a prova de bomba, debaixo dos quaes estão assougues,
pescadoria, e corpo da guarda principal. Na ditta camera tem servido de escrivães
pessoas de muito calificada nobreza, e encorporadas na primeira grandeza deste Reyno,
como Pedro Quaresma Barreto Manoel, e outros. Tem contador e enqueredor, sinco
escrivães do judicial, tabelião todos tribunal da Alfandega de grande comercio, e
concurso, com juiz, escrivão, feitor, meirinho, guardas, porteiro etc. Tem juiz dos
horfãos, escrivão, curador letrado, porteiro etc. Tem juiz dos direitos reaes, escrivão etc.
Tem celeiro comum, e Monte de Piedade com prezidente, escrivão, depputados etc.
Tem alcaydemor; cappitammor; sargentomor de ordenanças, ajudante dellas; e muitas
companhias com cappitaes, e officiaes. Tem governador, official mayor millitar; grosso
destaccamento de infantaria7; meyo regimento de cavallaria; e teve, há huns annos, hῦ
regimento de jnfantaria, a que ainda hoje em Moura chamão o Regimento de Serpa;
Es-/p. 1005/ crivão dos mantimentos; assentista; almocharife dos armazens; vigario da
vara; escrivão dos residuos; meirinho dos clerigos; almotacés nobres; escrivão da
almotaceria; juiz, e escrivão das cizas. Juiz das coutadas; guardamor da saúde;
monteiromor das baterias da serra; procurador do Estado do Infantado; e todas as mais
especies de governo, que condecórão as villas notaveis; tendo tido a assistencia do
Senhor Infante D. Francisco muitos mezes, alguns fidalgos, e grandes senhores.


Ao decimo settimo.


Não he couto, cabeça de concelho, honra, nem behetria, mas villa notavel, como
em seus lugares dizemos.
Ao decimo oytavo.
He sem duvida Serpa a villa em todo o Reyno, que tem produzido mayor
numero de varões grandes nas letras, e nas armas abaixo das primeiras cidades do
Reyno: assim o affirma entre outros authores geographicos Antonio de Carvalho da
Costa, que não era desta provincia para o poder cegar a inclinação, e com admiração
reffere, que tem sahido desta villa em menos de dous seculos treze Bispos, e que no
seculo passado se achavão sinco de Serpa todos actualmente vivos, individuandoos
pelos nomes, e que sò no Collegio de S. Paulo de Cuimbra havia memoria de onze
collegiaes naturaes della, com outras especialidades, que naquelle author se poderâõ ver,
condecoradas com a falta de suspeita em contrario pella pureza dos seus escrittos, e por
ser doutra provincia. Os homens de mayor vulto, que pude averiguar são os seguintes.
- - - 8
1 Fr. Antonio de S. Joseph frade Jeronimo hum dos mayores homens de Hespanha:
morreo no anno de 1691. Pode-se ver o seu ellogio na Biblioteca Lusitana tomo 1. pag.
302.

2 D. Francisco Barreto fidalgo grave filho de Nuno Alveres da Costa Barreto, e de D.
Francisca Barreto. Foy Bispo do Algarve depois de grandes, e honrozos cargos; era
douto, e pio; erigio a capellamor da sua cathedral; fez hum palacio para habitação dos
bispos; hum recolhimento para donzellas, e teve outros muitos progressos; compôs, e
imprimio varias obras. Diogo Barbosa tom 2. letra F.


Antonio Lourenço, filho de Lourenço Rodriguez, e de Violante Lou- /p. 1006/
Lourenço; foy lente de varias cadeiras em Coimbra, ultimamente da de Prima de Leys.
Tomou em Coimbra a beca de colegial no Collegio de S. Paulo no anno de 1602; foy
compozitor de muitos livros, e hum dos mais avultados varões do seu seculo. O D. João
de Carvalho no Cap. Raynaud. Vet. Testam. Parte 1. N. 144, e 830.

4 Antonio de Magalhães Peixoto, filho de Francisco de Magalhães, e de D.
Madalena de Britto, muito insigne poeta; fez varias poesias, principalmente o poema da
conquista de Lisboa: florecia em 1647. Biblioteca Lusitana tom 1. pag. 318.

5 Gastão da Abrinhosa Leitão clerigo formado clerigo formado9 em Canones,
muito douto; accompanhou o senhor Rey D. Sebastião a Affrica, onde ficou ferido, e
captivo, e outra vez o cativarão, vindo de Roma para Portugal para se purificar da
impostura de sangue infecto, pella qual o tinhão privado de huma igreja das 3 ordens
millitares. Fez varias compozições; entre ellas a chamada: summario dos sucessos, e
alterações do Reyno de Portugal depois da perda do senhor Rey D. Sebastião: obra, de
que se approveitarão muitos historiadores. Biblioteca Lusitana tomo. 2. pag. 375.

6 Fr. Francisco de S. Diogo, chamado: o Pérola: filho de Manoel Quaresma
d’Almada, e de Brittes Vaz da Ordem Seraphica da Provincia dos Algarves, lente
jubilado, e pregador do senhor Rey D. Pedro, elleito Bispo de Cabo Verde, occupação,
que recusou por desinteresse, e humildade; compôs algumas obras. Biblioteca Lusitana
tomo. 2. pag. 140.

7 Gomes Vaz padre da Companhia, que entrou na relligião no Collegio de
Evora em Fevereiro de 1561; leo Plilosophia, e Theologia em Goa; fez muitas missões
aos gentios; foy Procurador do Collegio de Goa; superior da residência de Maláca:
morreo em Evora no anno de 1610; fez varias compozições. Faz memoria delle o Padre
Franco. Ann. S. J., paragr. 200. n. 4.

8 Lopo Vaz de Serpa, appellido, que tomou pelo amor, que tinha à patria; foy
muito estimado do senhor Rey D. Affonso 5. e por ordem do ditto rey traduzio, estando
na Villa de Monforte, da lingua latina na Portugueza a tomada de Constantinopla pel-
/p. 1007/ pelos Turcos. Nicolao Antonio Biblioteca Vetus Hispan. L.10. cap. 12. §. 706.

9 João Bravo Chamiço, filho de Pedro Bravo, estudou Filosophia em Evora; foy
na Medicina muito insigne em Cuimbra; foy proprietario da cadeira de Anatomia, de
que tomou posse em Fevereiro de 1615. Delle trata Zacut. Hist. Med. L.2 hist. 4. Dub.
29.

10 O Padre Fr. Bernardino de S. Antonio filho de Marcos Affonço Cançado, e de
Maria Correa, relligioso de S. Francisco da Provincia dos Algarves; Bispo coadjutor dos
Arcebispos de Evora D. Diogo de Sousa, D. Fr. Domingos de Gusmão, D. Fr. Luiz da
Silva, e depois promovido a Bispo de Tangere; entrou na relligião em 1641; morreo em
1699. Fr. Pedro Monteiro Trat. dos Depp. da Jnquizicão de Evora. D. Manoel Caetano
de Sousa Cathal. hist. dos Bisp. de Portugal. pag. 122.

11 Outro Fr. Bernardino de S. Antonio filho de Sebastião Pallos, e de Jgnes
Alves, franciscano da Provincia dos Algarves, lente de Philosophia, e Theologia;
compositor de muitos, e notaveis sermões impressos; morreo neste seculo. Biblioteca
Lusitana tomo 1. letra B.

12 O Padre Lourenço de Aguillar; de catorze annos entrou na relligião da
Companhia, grande humanista, e poeta latino; leo na primeira cadeira de letras humanas
no Collegio de S. Antam de Lisboa, depois Philosophia no de Braga; faleceo de hum
accidente appopletico em S. Antão de Lisboa no año de 1676. Diogo Barbosa.
Biblioteca Lusitana tomo 3 pag. 23.

13 O Padre Gaspar Affonço da Companhia de Jesus muito virtuozo, quis morrer
martyrizado pela fé; sucedeolhe o prodigio de embarcar sette vezes com este intuito, e
apportou misteriosamente outras tantas com tempestades em diversas partes, do que
pertendia; voltando a Portugal leo Theologia Moral seis annos, fez inumeraveis mições,
e doutrinas; entrou na Companhia em 1569; morreo em 1618. Delle faz menção Franco
Annal. S.J. pag. 105.

14 Fr. Estevão da Conceição, relligioso da Ordem seráfica /p. 1008/ fica
da Provincia dos Algarves; depois de muitos cargos, e o de provincial foy elleito Bispo
coadjutor com o nome Massilitano do Arcebispo de Braga D. Fr Baltazar Limpo. Està
com o seu ellogio no cathalogo dos Bispos de Fr. Jeronimo de Bellem.

15 Manoel Alveres Carrilho; freyre professo da Ordem de Avis, hum dos mayores
tallentos do seu seculo; entrou na dita Ordem em Dezembro de 1624; doutorado nos
sagrados Canones em Cuimbra, e oppisitor r às cadeiras; foy agente em Roma dos
negocios deste reyno no tempo do Snr. Rey D. João4. subprior do Convento de Avis;
vigario geral, e governador do Bispado de Cuimbra, e depois vigário geral do de Viseo;.
abade de Rayva do Padroado Real, onde morreo; compôs varios livros. Biblioteca
Lusitana tomo 3. pag. 173

16 Manoel de Vargas da Costa, celebre philosofo e medico; compôs hum famoso
tratado da raiva dos caes danados; floreceo no tempo de Fr. António o Serpence. Faz
memoria delle João Franco Barreto na Biblioteca Portugueza.

17 Fr. Diogo de Mello; relligioso carmelitano fidalgo dos mais illustres de Portugal,
filho de Pedro de Mello, e de D. Luiza Pereira; tomou o habido no anno de 1563; foy
em Lisboa lente de Philosofia, e em Cuimbra de Theologia; muito douto; compôs, e
imprimio alguns sermões. Fr. Luis de Merthola, vida do veneravel Fr. Estêvão da
Purificação. cap.3. pag. 22. n. 10. e Fr. Manoel de Sá Memoria histórica dos Escriptores
de Portugal cap.19 nº142 athè 146.

18. Martinho Afonço de Mello Bispo da Guarda, filho de Francisco de Mello senhor
de Ficalho, e de D.Catherina de Castro, fidalgo da primeira grandeza deste reyno,
sobrinho do acima dito Fr. Diogo de Mello; foy dos mayores homens da monarchia em
siencia, virtudes, e piedade; não me dillato no seu ellogio, porque em muitos authores
se encontra com diffusão, como em Manoel Pereira da Silva Leal no Cathalogo dos
bispos da Guarda §4.

19 Fernando Boccarro; homem de grande literatura, e politicas; escreveo e dedicou
ao senhor Rey Filippe 3. hum tomo sobre o modo com que se podião remediar as
necessidades de Portugal, obra de muita estimação. Consta por hum testamento, e vem
na Biblioteca Lusitana tom.2 folha 19.

20 Fr. Antonio de Serpa, chamado: o Serpense; regeitou ser Bispo de Cochim;
compôs a celebre obra: Eucharistia Chronologia abipso munda perfiguras legis natura
de picta tenarreta: morreo /1009/ morreo no Convento de S. Antonio dos Olivaes em
Cuimbra no anno de 1664. Niculao Antonio na Bibliot. Hispan. tom. 1. pag.126.

21 Antonio Gomes; ensinou Latim em Faro; foy insgne Poeta Latino; entre as suas
obras he celebre a Tragedia intitulada: Daniel. Vivia pellos annos de 1596, e nos
seguintes em tempo do Bispo do Algarve Fernão Martins Mascarenhas. Bibliot. Lusit.
tom. 1. pag. 228.

22 Pantalião Rodrigues Pacheco; elleito Bispo de Elvas, quando pella guerra da
Acclamação se dillatou em Roma a approvação dos Bispos; foy hum dos juizes na
cauza, em que se anulou o matrimonio do senhor. Rey D. Affonco 6. falleceu em
Lisboa em Dezembro de 1667; e sem embargo que Diogo Barbosa Machado o faz
natural de Evora, consta ser de Serpa pelo testamento que se acha nos archivo da
Meziricordia desta villa. Bibliot. Lusit. Letra P.

23 Fr. Salvador de S. Bento; Relligioso Franciscano; grande Pregador; compôs a
notavel obra: Funiculus Eriplex: faz delle memoria Diogo Barbosa tom. 3. pag. 667, e
Fr. Jeronimo de Belem na sua chronica.

24 Sebastião Martins; grande jurista; muito douto em letras humanas, e Divinas;
compôs entre outras a obra, que intitulou: Alivio de trabalhos contra o arco intenso da
religião; dedicou-a ao lente de Escriptura jesuita Braz Viegas. Bibliot. Lusit. Tom. 4.
pag. 693.

25 Fr. Martinho de S. Angelo repputado por Santo pellos prodigios, e millagres, que
Deos obrou por elle. Vem no Agiologio de Jorge Cardoso: Diccionar. Letra M.

26 Fr. Jacinto dos Anjos: hum dos mais protencozos [sic] varões em Santidade, e
virtudes, que teve a Ordem Seraphica na Provincia dos Algarves; era pessoa grave, filho
de Manoel Quaresma d’Almada, e de Brites Vaz, irmão do Padre Fr. Francisco de S.
Diogo o Pérola; Bispo elleito de Cabo Verde, de que já trattámos; nasceo na era de
1611. Traz o dillatado ellogio dos prodigios da sua vida. Fr. Jeronimo de Bellem
Chronica da sua ordem.

27 Fr. Alcurcio de S. Pedro, da Ordem Serafica da Provincia dos Algarves; foy em
economias, e direcções hu assombro do seu seculo, e Provincial; compôs os 3 livros das
capelas do convento de /1010/ de Evora obra de grande admiração, e outras pellos annos
de 1651. Choron. de Fr. Jeronimo de Belem.

28 Fr. Estevão de S. Jeronimo; filho de Manoel Serejo, e de Maria Lourenço, da
Ordem Seraphica da Provincia dos Algarves; foy Custodio a Roma assistir ao Capitulo
Geral, varão de consumadas letras. Faz menção delle a Chronica da sua Relligião.

29 Fr. Luiz de S. Jeronimo; pessoa de grande literatura, e tallento, relligioso da
Ordem Seraphica da Provincia dos Algarves, onde foy alleito Provincial no anno de
1630; o primeiro, que ajuntou memorias da sua Provincia.e lhe fez archivo. Vem entre o
numero dos Provinciais daquella Provincia.

30 Fr. Francisco Quaresma; Franciscano da mesma Provincia; sendo Provincial, foy
elleito Bispo de Tangere [sic], e depois de Ceuta em 1543; depois na de 1571 se unirão
no seu tempo estes dous Bispados.

31. 32. S. Proculo, e S. Hilarião se acharão nos Agiologios de Jorge Cardoso na letra
P., e na letra H do seu Indice, naturaes de Serpa; ainda hoje se asignala o sitio das cazas,
em que morando no castello da dita villa, e se conserva a memoria do lugar, em que
padecerão martyrio junto à horta dos banhos, menos de quarto de legua da villa; forão
martyrizados no anno 110 depois de Christo.

33 João Lamprea de Vargaz; depois de outros cargos, Dezembargador do Paço; foy
hum dos que derão a sentença do divorcio do senhor Rey D. Affonco 6. Antonio de
Carvalho da Costa o traz na sua corographia na discripção de Serpa.

34 Pedro de Mello, senhor de Ficalho; depois de grandes empregos millitares, foy
cavalheiro de guerra.

35 Seu filho Francisco de Mello, também senhor de Ficalho; Mestre de campo
general, governador das armas da Provincia da Beira.

36 Roque da Costa Barreto; depois dos mayores cargos militres foy concelheiro [sic] de
guerra.

37 Fr. Bento de Serpa, actualmente vivo, pessoa de ellevado tallento, relligioso
capucho da piedade; depois dos melhores cargos, e o de Provincial, Procurador géral da
sua Relligião na Curia Romana. 38 /1011/

38 Fr. João de Serpa capucho da Piedade Provincial da sua Provincia.

39 João Vallente, Padre da Companhia; leo as cadeiras de Philosophia, e Theologia no
collegio de Evora; foy varão douto; em que ensigna na forma sylogistica.

40 O Padre Balthazar da Encarnação, ainda vivo no Mosteiro de Nosso Senhor da
Boa Morte da cidade de Lisboa, onde tem sido tam prodigioso nas virtudes, e progresos
da sua callificada vida, como he notorio à admiração deste Reyno.

41 Manoel Martins Preto, Corregedor do Civel da Corte; dos Ministros de mayor
sabedoria da sua serie; morreo junto ao prezente seculo.

42 João Vallente Mendes Dezembargador da Rellação do Porto, que morreo ha
poucos annos appozentado.

43 Luiz Martins Cançado Ministro tam virtuoso, e sabio, que o Senhor Rey D. Pedro
lhe mandava os despachos dos lugares, que havia servirem a sua caza, sem os irem
pertender [sic] à Corte; e morreo em hum do primeiro banco junto ao prezente seculo.

44 O Padre Manoel Rodrigues Vallente, Beneficiado na Sé de Evora e nella Mestre
[?]10 das Seremonias, tam insigne, que o senhor Rey D. João 5 o estimou com muita
especialidade, e o reconheceo, pello mayor homem deste Reyno naquella occupação.

E outras pessoas mais, de que prometto hum supplemento; porque, por agora, se
me não facelita folhear todos os livros precisos para esta individuação. Actualmente se
acham lendo em cadeiras, ou tendo acabado de ler, estes: Fr. Francisco Martins Coelho
da Ordem dos Minimos de S. Francisco de Paula na de Theologia no convento de
Lisboa. Fr. Iozeph N. da mesma religião na cadeira desta faculdade em Castella. Fr.
Jozeph da Mãy [sic] dos homãs [sic] Franciscano da Provincia dos Algarves, na de
Moral no convento de S. Antonio de Serpa. Fr. João Vallente da Costa conventual de
Avis na de Moral no memso convento. Fr. Manoel de Jesus da Ordem de S. Francisco
da Provincia dos Algarves, na de Theologia no convento de S. Francisco de Evora. O
Padre Francisco Xavier da Companhia de Jesus que accabou de ler Latim em Faro, e
está para ler Philosophia no Collegio de Evora. O padre Bartholomeu de Macedo, que
está no mesmo predicando. Fr. Domingos da Estrella Franciscano na de Phelosophia.
Fr. Leonardo [ ]11 da Ordem dos Carmilitas [sic] descalços /1012/ calços na de
Theologia em Roma, e os modernos, e antigos que dirá o supplemento


Ao decimo nono.


Tem feira franca de trez dias, que começão em 24 de Agosto, e continuão os dias
seguintes; e usão della desde o dia 23 do meyo dia para a noyte.


Ao vigessimo.


Tem correyo, que sahe da villa para a Corte, e outras partes [indo à Corte primeiro] na
quinta feira ao meyo dia, e recebe as cartas sesta feira à noyte por estafeta do correymor
[sic] de Beja, que dista quatro leguas desta villa.


Ao vigessimo primeiro.


Dista doze leguas da cidade de Evora, cidade Archipiscopal, a que está no espiritual
sojeita, e vinte e sinco de Lisboa.


Ao vigessimo segundo.


Gosa esta villa os mesmos privilegios da cidade de Evora, que lhe concedeo o senhor
Rey D. Diniz, quando a unio à Coroa de Portugal, e a restabeleceo do destrago [sic], que
padeceo na guerra dos Mouros, empenhando-se tanto com esta villa, que lhe erigio
muros os mais excellentes para ouzo daquelles seculos. Tem asento em Cortes no banco
settimo. No ano de 1674, por determinação estabelecida em Cortes, o senhor Rey D.
pedro 2., sendo ainda Princepe Regente, lhe concedeu a perrogativa de villa Notavel,
como consta de huma provisão registada no Tombo da camera della.
Não se podem averiguar outras isempções; porque sendo villa antiga, não tem
livros de registo na dita camera desde o seu principio no dominio Portuguez athé à era
de 1619; e ainda desde então, athé ao prezente, lhe faltão tambem noventa, e oyto annos
de registo; o que se pode attribuir às invasões dos castellanos nas ultimas guerras, ou ao
descuido dos seus moradores.


Ao vigessimo terceiro.


Não tem fonte de especial qualidade; nenhũa ha dentro da villa, e fora, ha huma, de que
bebe o povo a pouca distancia, e outro grande manancial de agua chamado o Poço bom
de grossas veas, nativas, e perenas, que por incuria dos moradores não he fonte corrente,
/1013/ podendo romperlhe facilmente a sahida: deste poço grande bebe a mayor parte da
villa, e seus rebaldes: ha muitas fontes pelo termo.


Ao vigessimo quarto.


Não he porto d emar, mas terra de certão a vinte, e tantas leguas distante delle.


Ao vigessimo quinto.


Bem enquadrinhada a forma que hoje tem Serpa, e as que teve anteriores, se
alcança, que sempre foy murada, e selhe descobrem trez diversidades. A primeira, e
ainda em tempo dos Romanos, foy a de huma village toda formada no mais alto da
villa, a que hoje chamão Castello Velho, cercada de hum paredão de nove, ou mais
palmos de largo construido de formigão de cal, e terra, sem pedras, e a espaços
avultando para o exterior torreóes redondos, sendo os dous para o Sul mais grossos,
como se observa nos arruinados vestigios. A esta obra accresceo huma barbacaã [sic]
de pedra, e cal com ameyas, tendo huma porta na entrada para o vão da barbacaã, e
outra mais acima que entra para o castillo [sic], chamadas: Portas do Sol: obra, que
claramente infere ser do senhor Rey d. Affonço Henriques; porque as armas tem a
forma antecedente à que lhe deo o senhor Rey D. Affonço 3., sendo ainda sem orla de
castellos juntos; e antes do senhor Rey D. Affonço 3. só podia fazer aquella fabrica o
senhor Rey D. Affonço Henriques; porque se tornou a dita villa a ganhar pelos Mouros
na vida do senhor Rey D. Sancho 1., e ainda que a reccuperou o senhor Rey D. Sancho
2., passou logo ao dominio de Castella athé ao senhor Rey D. Diniz, que ja tinha as
armas orladas de muitos castellos, como filho do senhor Rey D. Affonço 3. que lhe deo
esta forma; ficando por essas combinações evidente, ser do senhor Rey D. Affonço
Henriques a barbacaã de ameyas, e as duas portas do sol, como tambem o campanario
de trez janellas de sinos, que está sobre a porta, porque he rematte da mesma porta.
Demaneira, que a primeira forma foy a do ditto paredão de formigão, e torres, que ainda
hoje se conhece; a segunda a dita barbacaã adjunta no exterior pelo senhor Rey D.
Affonço Henri-/1014/ Henriques.
A terceira forma forma he dos muros altos de pedra, e cal os de mayor
tenacidade que tem este Reyno; porque a nenhũ poderoso instrumento de aço
obbedecem, como admirarão os castellanos na demolição, que lhes queriam fazer no
anno de 1708, sendo preciso minar torres, e muros por baixo do alicerce para
practicarem o destroço. Estes são obra do senhor Rey D. Diniz pelo dizerem todos os
historiadores, e pelas armas orladas de muitos castellos, que se achão na entrada do da
villa, e em outras portas. Esta terceira forma he a que hoje tem, como Praça; que como
villa he de muito mayor extenção nos rebaldes, que no povo murado; porque o povo
murado tem 2400 paços de circuito, e com os rebaldes 3900.
Tem os taes muros, e castello a descripção seguinte: Dentro da villa antiga, ou
castello vello para o Nordeste formou o senhor Rey D. Diniz, hum soberbo, primoroso,
e forte castello dos bons do reyno, e de seis torres, quadrado, com a entrada por huma só
porta, e tudo obra de cantaria nos cunhaes, e mayor parte, e nos centros tambem de
pedra cortada. Das seis torres era a mayor a chamada: da homenagem das celebres de
Portugal, que os castelhanos demolirão, e hoje conduzem a espanto, e repeito os
avultados troços, que estão desmoronados ao redor do recinto, onde se elleva ainda em
boa altura a primeira parte: e parmanece [sic] inteira, a que chamão: Torre da horta:
sumptuosa de 86 palmos de altura, e como he de quadrangulo de dous quadros, tem de
largura na parte mais estreita 33 palmos, na mais larga 76. Hua torre pequena redonda
ao lado direito da porta.
Em duas faces de Norte, e Nordeste do castelo se ellevava hũ grande palacio
dos Alcaedesmores, que no tempo da demolição padeceo total ruina. Tem o tal castello
dentro do terreiro hum poço de grande profundidade com boccal de pedra, e hoje no
lado de nascente hum armazem de polvora; cazas de corpo da guarda para o Sul; e ao
Leste no vão da torre da horta arsenal dos generos, epetrechos da armaria, e guerra.
O muro em quadro não metamaticamente, mas so transcendentemente
re-/1015/regular, nos cantos chanfrada a linha para a parte de dentro; e os muros [ora
mais ora menos] tem trinta e sinco palmos de altura, e nove de largo. Há nellas 5 portas:
a de Sevilha: da Corredoura: de Beja: Nova: de Moura: a de Beja, de Moura, e de
Sevilha, tem robustos torreões, ou castellejos dos lados, e os taes torreões mais altos dez
pes geometricos, de palmo, e quarto cada pé, que os muros; por aquella regra geral, que
diz quinto curcio das terras de Babilonia, a respeito dos muros, e outras, que ficou em
axioma para a arquitectura da fortificação antiga = Turres denis pedibus quam muiris
altiores sunt=.
He huma muralha do estillo de que se usavão no tempo do senhor Rey D. Diniz,
antes da invenção da polvora, com parapeito na ultima extrimidade, cheyo de céteyras,
sem mais obra exterior, que hum lintel de antemuro, ou barbacaã, e a espeços reductos
quadrados, e mais altos, a trez, ou quatro cada face exterior dos quadros do ditto muro.
Pellas partes do Norte, e Nordeste [como ja dice na resposta do interrogatorio quarto]
vay o muro por onde era o paredão da villa primitiva deichando para o Oéste, Sul,
Suéste, e Leste, o vão, que occupa a villa fóra do castello. Para a parte do Norueste tinha
este muro, alem dos torreões das portas, duas torres quadradas ellevadas à muralha, que
hoje estão embebidas no jardim, e cazas de Antonio Mello, senhor de Ficalho, com a
magnifica obra do aqueducto de arcos, que noutra parte diremos. Não tem este muro
[todo lizo no exterior] lanços avançados, ou retirados, forma, que imitte baluarte,
capacidade de fosso, nem figura, onde se possa introduzir deffença, que semelhea
rebelim contra escarpas, explanada, estrada cuberta, ornaveque, meya lua, ou outra obra
desta natureza; para deffender-se das tor-torres [sic] ambulatorias, com que antigamente
desde o campo descortina -vão/1015/ vão os muros tem altura notavel que para este
affeito se fazião no tempo antigo altos. Para a parte de Suéste fizerão os castelhanos
voar hum lanço de muralha junto a hũ canto do muro, e nesse lugar mandou fabricar o
senhor Rey D. João 5 hum baluarte de estillo moderno bipartido com dous angulos
extireores [sic], por aquella forma em que rematta a obra exterior, que chamão: cornea,
com terrepleno por dentro, e de fora fosso. A demolição do castello com esta do muro,
junto à porta de Sevilha às torres rachadas, e a muralha rocada em aberturas, são as
destruiçoes, que fizerão os castelhanos na ultima guerra.


Ao vigessimo sexto.


Não padeceo ruina notavel com o terremoto; só se esmorecerão alguns telhados,
pocas cazas velhas cahirão, abrirão algumas rechaduras as jgrejas, e cazas de mayor
vulto.

Ao vigessimo settimo.


Indagando as couzas notaveis desta villa, que mais se podem admirar, achamos, ser
Serpa muito antiga, e, segundo os authores geográphicos, anteriores aos Emperadores
Romanos, no tempo, em que Roma se regia por senado, fundada pellos Turdulos
Celtiberos e por ella vinha huma das vias melhatares [sic], signal de ser colonia, ou
municipis; a via milhitar, que por esta villa passava, era , a que vinha por Evora, e Beja:
de muitas evidencias consta esta antiguidade, sendo a mais demonstrativa hum cipo, que
nota Fr. Bernardo de Britto, e traz rezando no livro 4 pag. 198 que diz, expressados os
breves de caracteres antigos na lingua latina: Fabia Prisca natural de Serpa/ cidadaã
Romana de vinte annos/ Cayo Geminio Prisco seu Pay/ E Fabia Cadillo su May puzerão
aquo esta memoria/ To/1017/ Tomou-a aos Mouros o senhor Rey D. Afonço Henriques
no anno de 1166, e tornando elles a recuperalla, de novo a reconquistou o senhor Rey D.
Sancho 2,. No ano de 1230, e passando para o dominio de castella, pellas invazões dos
imimigos destruida, a unio à coroa de Portugal o senhor Rey D. Diniz por concerto, e
troco de outras pracas, que cedeo a Castella, por Serpa Olivença e Ouguella, edificou
nella o sumptuoso, e forte castello, que ja descrevemos, e os robustos muros [ainda que
para os prezentes seculos irregulares] que hoje a fortalecem.
Hũa das couzas mais notaveis, que tem esta villa he a milagroza imagem de
Nossa Senhora da Saude no formoso templo da sua hermida, de que ja tratámos, sendo o
seu principio nesta villa hũa hermida de S. André no memso sitio, albergaria de
Lazaros, das que chamavão: gaffaria: como havia muitas no reyno, dedicadas ao memso
santo em terras grandes, o que se observa em Evora, Santarem, Torres Vedras, e outras,
para curar os gafos de lepra, mal que nos prezentes seculos se extinguio. Vivia nesta
hermida hermitão, e chegando-lhe à porta hum gentil peregrino, pediolhe licença para
pôr no altar huma imgem [sic] de Nossa Senhora que trazia; concedeolho o hermitão, e
colocando o dito peregrino a imagem, se pôs na acção de descançar; voltando o
hermitão à igreja, achou a imagem no altar, e não vio o peregrino, buscando-o com a
ajuda de outras pessoas, e as mais exaltas delligencias, não lhe foy possivel descobrir,
nem noticia delle.
Divulgado o millagre concorreo com alvoroço o povo, e invoccando a Senhora
[de quem ignoravão o titulo] para a saude nas enfermidades, a exprimentarão com
grandes prodigios; derãolhe então o titulo: da Saude: e como houve consenso das
proximas terras, e algumas distantes, o povo lhe dedicou igreja grande no lugar da
pequena hermida. He a iagem [sic] de roca com mais letras palmos de altura, hum
menino jesus nos braços. Tem gran-de/1018/ Tem grande, e grave irmandade; que a
festeja a 15 de Agosto chamada: a do terço: porque alcançarão da Sé Apostolica
indulgencias, e graças para os que cantarem pelas ruas com arvorado retabulo da
Senhora, o que pralticavão [sic] nos Domingos.
Tem mais a muito notavel imagem de Nossa Senhora da Consulaçãono
convento dos Paulistas [de cujo convento já tratamos] celebre nos millagres, e pela
muita fé dos moradores tem sahido esta imagem em prosução [sic] ao seu primeiro
Oratório da Provincia, huma pequena legua do povo, accompanhada de todo elle na
occasião da seccura, e falta de chuvas sempre com o efeito desejado; razão, porque tem
grande irmandade, em que entrão os estudantes, e a festejão na segunda feira depois da
Paschoela, dia dedicado aos prazeres de Nossa Senhora com excellente produção de
andores, e figuras, aque asiste por obrigação todo o senado da Camera. Ha tempo, que
pertende [sic] o povo ter esta senhora por padroeira, o que se tem deichado de verificar
por se lhe não destinarem ainda rendas para o seu culto; mas já por devoção a
appellidão Padroeira da villa.
Teve o seu principio no heremitorio [em que ja fallamos] dos pobres monges da
serra d’ Ossa no sitio da Provencia, muito antigo, porque, quando a Infanta D. Leonor
filha do Senhor Rey D. Pedro 1. e da Raynha Senhora D. Ignes de castro, deo val de
Infante aos pobres da Serra d’ Ossa, e licença para fabricarem oratorios fora da dita
serra, foy no anno de 1372, e como nos principios da era de mil quatrocentos, e tantos já
havia monges na Provincia de Serpa [como em seu lugar dicemos] são estas dos
primeiros, que sahirão da mencionada serra: quando os Padres heremitas de S. paulo se
mudarão para a villa que foy [como12 ja tratamos] no tempo do senhor Rey Filipe 3.
todas vezes [pello que diz a constante tradição] amanheceo mila-grosamente/1019/
grosamente a Senhora fugida da villa para a Provincia, e segurandoa os Religiosos com
votos, ficou da terceira vez; he imagem de roca, vestidos demais de quatro palmos de
altura, as mão saltas para o ceo, e com o titulo da Consolação foy sempre venerada.
Hoje a igreja de S. Paulo, em que a Senhora está na capellamor he notavel templo feito
ja neste seculo.
No termo da villa , duas leguas, junto a Aldea Nova está a igreja de S. Bento,
freguezia da mesma aldea, he a imagem do santo em vulto antiga, e de tantos milagres,
que de toda a Provincia lhe fazem romarias, e de muitas partes fora della; os moradores
de Serpa com os da aldea [que he grande] lhe fazem estrondosa festa, a que concorre a
gente de toda a comarca, e de mayor distancia. Tem hoje hum templo magnifico dos dos
notaveis da provincia. O Senhor Infante D. Francisco foy desta Corte em romaria a
vesitar o santo no anno de 1738 por promeça; e ha a devoção com este huma das
demais clara fama de toda a dita provincia.
Tem o termo da villa a trez leguas de distancia a mais protentosa cachoeira deste
Reyno; porque todo o rio Guadiana que he demias de cento, e quarenta leguas da
comprido, com pegos profundos, a que chamarão os historiadores =Thesouros de agua=
se lança de hum rochedo para baixo com mais de trinta pés de despenho perpendicular
em recinto tam estreito, que passa hum homem todo o rio de parte a parte com huma
larga passada, ou pequeno pulo; couza que se pode admirar por notavel em toda a
Europa; e diz a firme tradição, que huma mulher com hum cantaro de leite à cabeça o
passava todos os dias por ter a malhada das cabras de huma parte do Guadiana, e a caza
da asistencia da outra. He couza, que conduz a espantosa admiração a configuração de
formar brutas [sic]13 , que tem aberto nos rochedos o fervente embate das aguas: está
hoje a cova do penhasco mais funda, mas com a mesma estreitura que se vence no
pequeno pulo, que dicemos. A este despenho de aguas chamão: sabio pello agudo
estrondo, com que vozea, o salto do lobo pella brevidade do pulo.
He notavel Serpa no grande numero de hortas; e fazendo está admiração Antonio
de Carvalho da Costa na sua Corographia, lhe dá o numero de duzentas; ja hoje não tem
tantas, mas eu lhe contei mais de cento, em que entrão boas quintas de agua de-pé/1020/
pe, outras de nora: proximas à villa com huma dentro do muro tem sette, que a fazem
abundante de hortaliças, outras são mistas, ou contiguas com as mesmas cazas da villa.
A agua do manancial perene chamão o Poço bom: He excellente, liquida, leve,
pura, sem cor, cheiro, nem sabor;e como os moradores se desvanecem de sairem da sua
Patria tantos homens discretos, costumão dizer dos estudantes de bons principios, que
lhes basta criarem-se com agua do poço bom; e ha quem séria, e philosificamente asim
o discorre.
Hũa das couzas, por onde se vê ser esta villa notavel, e de avultado credito. He
pellas cazas de pessoas da primeira grandeza, que ha nella, como: cazas de Roque da
Costa Barreto; cazas do Almirante; cazas do Conde de Obidos; dos porteiros de
Lacerda; dos porteirosmores; dos senhores de Ficalho; de Joseph de Mello pessoa da
mesma familia, e de outras muitas graves.
A hermida [que já descrevemos] de Nossa Senhora dos Remedios, que se accabou
de edificar junto ao nosso seculo de 1700 por tradição se diz, ser ergida por uma
mulher que, vexada de certo aleive, prometera, ainda que pobre, edificar huma igreja a
Nossa Senhora, se a livrase dos perniciozos effeitos daquela falça impozição, a qual,
sucedendolhe asim, perigrinára, pedindo pellos Arcebispos, Bispos, e pessoas grandes
do Reyno, e que juntara cabedal, com que edificou aquella hermida; o que se deve
referir por couza das admiraveis de Serpa.
Hũa das obras mais admiraveis desta villa he o aqueducto, que nella fez o Bispo da
Garda [sic], Martinho Affonço de Mello para o jardim das cazas dos senhores de
Ficallho, que edifficou e são hum notavel palácio no castello sobre o mais alto lugar da
villa; e no mais baixo della abrindo hum poço, conduzia a agua ao jardim por huns
ellevados arcos sobre ella de outra tanta altura, reppartidos por todo o comprimento de
quaze hum lanço inteiro do muro, tendo só quatro lanços, ou faces destas o circuito da
muralha toda; extrahida a agua por engenho de cerras compridas em boccal da altura
dos arcos. He edificou magnifico, e de notavel vista.
No/1021/ No termo desta villa socede e se pratica [ ]14 hum acto pio de devoção, que
tem algumas circunstancias de notavel. Festejão S. Marcos na hermida, que dicémos,
sinco leguas da villa na serra grande, os irmãos do santo, todos os que tem malhadas na
ditta serra, e outras pessoas: na festa sahe o prior de S. Bento [freguesia da Aldea Nova]
da igreja d15 S. Marcos ao campo paramentado com capa de Asperges, e chama em
nome de S. Marcos hum touro bravo, que a gente da festa traz entre si a pouca distancia
do prior, lançandolhe agua benta, e o touro caminha para o sacerdote, ou obdecendo ao
preceito, como crê a bondade do povo, ou por opprimido da gente, que só lhe deicha
aquella coxia livre; vay seguindoo, entra na igreja, asiste a toda a missa socegado, e
cantalhe o Evangelho entre as portas: no fim da missa sáhe o touro entre a gente para o
campo: e sim he repparavel o socegado animal tam bravo naquella acção.

[ ]16



Resposta
Aos interrogatorios à cerca da serra


Ao primeiro.


Chama-se a serra desta villa: Serra de Serpa: a mayor porção, a mais desviada: Serra
grande: a mais pequena, e proxima: Serra pequena.


Ao segundo.


Toda a sobreditta serra se comprehende no termo desta villa: tem/1022/ tem a
seguinte divisão, e leguas. Desde o sitio chamado: Pedra Furada: aos moinhos dos
Bugalhos em Guadiana 3 leguas: desde os Bugalhos ao direito da igreja de S. João legua
e meya: desde este destritto thé à ribera de Chança 4 leguas: desde Chança thé à
malhada da Penalva 2: desde Penalva thé à hermida de S. Mascos, 3: desde S. Marcos
thé onde começa o termo de Merthola, 1: desde aqui thé à malhada do Pinheiro, 2, e
meya: desde o Pinheiro thé à Pedra Furada e meya, em cuja pedra Furada começámos a
medição; por todas são dezanove leguas, e meya de circunferencia tendo de diametro, os
mais compridos de sette, ou seis, e os de largura de quatro, ou mais; confina com a
Serra Morena, celebre na Hespanha.


Ao terceiro.


Como esta serra está toda dividida em malhadas, pelos nomes dellas se dividem
os sitios; sam muitas, como aqui individuarei. A malhada da Passarinha: a malhada da
Pacheca: a de Pero Lopito: Losneira: Neta: Pedra Furada: Cossa lobos: a do Pedro
Estevão: a do Rocha: a de Manteigueiros: a de Cortes: Borracheiros: de Estevão Luis:
Tarafeira: de S. João: Outeiro da mós: Clara Lopes: Perdigoa: de Niculao: Medeiros:
Val de Casca: Araujo: de Diogo de Lima: de Estevão Mouro: Viegas: de Raymundo: da
Ordem: do Porteiro: Sovral: Penalva: Torresilhas: Pae de Corna: de S. Marcos: da
Uzagra: por estes, e pellos nomes mais particulares de alguns valles, e oyteiros se
nomeão, e especificão os sittios da ditta serra.


Ao quarto.


Attreveção esta serra duas ribeiras; a do Limas, e a de Chança, ambas vão
desaguar em Guadiana: caminha a de Limas de Leste a Oeste com varios giros: a de
Chança de Nordeste a Sul; esta nasce em castella junto a Arraya; aquella nasce na
mesma serra entre a malhada da ordem, e a de Raymundo, chamados aqquelles lugares
proximos: simos de Limas: e ali começa na confluencia de varios ribeirinhos para o
Leste da villa: a qualidade dellhas dirémos em seus respectivos lugares.
Ao/1023/


Ao quinto.


Não ha villas, nem lugares nesta serra; e ao longo della só tem a Aldea Nova
[em que fallamos] e a pequena villa de Ficalho ao Leste de Serpa.


Ao sexto.


Não tem fontes com propriedades especiais.


Ao settimo.


Não tem minas de metaes, nem canteiras de pedras, ou materiais de estimação.


A oytavo.


Não tem particulares ervas madicinais, senão as comuas, que ha nos territorios
circum-vizinhos, entre as quaes se encontrão muitas, boas para o uso da medicina, mas
sem especialidades.
Nas partes, onde he menos aspera, se semea trigo, senteyo, e sevada, dando o
concelho da Camera da villa licença a seareiros para a semearem, sendo toda a serra,
terra do do17 dito concelho, e destas searas pagão a sexta parte, do que recolhẽ. Fazem
as taes searas, queimando o mato, a que chamão:roças: não dá outros frutos; produz
muito mel, e cera a grande quantidade de malhadas, que acima nomeámos.



Ao nono.


O temperamento he o memso de Serpa, e daquelhe districto, que he temperado,
que corresponde aos graos da sua zona; verdade he, que, pella aspereza dos matos, he
mais dezabrido a frio, ou a calma quando se destempêra o tempo para a demaziada força
destas qualidades. As aguas são liquidas, claras, suaves, leves, e saudaveis.


Ao decimo.


Por esta serra pastão muitas chibatadas, cabradas, e gado vacum; poucas
ovelhas, porque não ha nella herdades, senão algumas pequenas, que estão nos
primeiros confins, e poucos porcos, porque não tem defezas de azinhais, ainda que lhe
não faltão sovreiras, e algumas azinheiras; porem he grande a abundancia da caça
miuda: perdizes, coelhos, lebres, pombos bravos, galinholas, e outras muitas avez;
notavel copia de caça grossa:javalês, veados, cervas, corços lobos, rapozas alguns
gamos, gatos bravos, e /1024/ e techugos.


Ao undecimo.


Não tem lagoas, ou fojo notaveis, mas somente [alem das duas ribeiras, que já
dicemos] em todas as malhadas tem fontes, ou poços para o uzo dos que as guardão.


Ao duodecimo.


He serra notavel pela abundancia de caça, e foy algũs annos coytadada [sic]18
pelo senhor Infante D. Francisco, criando nesse tempo protentoza multidão; e he notavel
tambem na sua grandeza; porque facilmente se não acha serra tam grande
comprehendida toda no termo de huma só villa, ou cidade.


[ ]19


Resposta
Aos interrogatorios sobre os rios.


Ao primeiro.

Hũa legua junto desta villa passa o rio Guadiana, onde mais se appropinqua, e
por quaze duas do seu curso conserva esta distancia a thé que se desvia mais, ou para
baixo, ou para sima sempre devidindo20 o termo de Beja do desta villa, emquanto não
passa ao de outras terras. Da grandeza, e qualidades deste rio não trato aqui, porque em
muitas descrições geographicas se explica com exacta individuação. Enche esta villa da
notavel abumdancia de seus peixes, que nelle são de especial sabor, e suavidade,
mais/1025/ mais que os da mesma natureza e nome, que se achão em outras ribeiras, e
rios do Reyno. Das ribeiras de Chança, Limas, e Enxoé fallaremos logo.


Ao segundo.


He o Guadiana dos mais caudalosos de Hespanha, e todo o anno corre.


Ao terceiro.


Entrão nelle as duas ribeiras do termo desta villa, que ja dicemos na descripção
da serra; a de Chança, nascendo em Castella, divide pello seu curso este Reyno do de
Portugal, e a de Limas nascendo na serra, onde já dicemos, e passando pelo meyo [ ]21
della, a divide toda: alem destas duas, a ribeira22 de Enxoé que nasce no sitio Chamado
= Corte de Mecia Gil= no termo de Moura trez leguas de Serpa entre Leste, Nordeste,
procedendo elê de huma fonte, e depois de huma legua, junto a aldea de Val de Vargo
toma o nome de = Enxoé=, e passando huma legua por cima da mesma villa a Nordeste,
Norte, e Noroeste, decaindo a Oéste entra no tal rio Guadiana: he ribeira, que conserva
algũa agua nativa no Verão, e nos invernos tem muitos moinhos, levadas e assudes.


Ao quarto.


O Guadiana he navegavel catorze leguas desde a barra para cima, e não pode ser
mais pelos assudes de moinhos, e pella celebre caxoeira, de que tratámos; as outras [ ]23
trez não são navegaveis por pequenas.


Ao quinto.


O Guadiana he rio formidavel no curso, quando leva muitas aguas, porque desde
que entra em Portugal, corre entre terras montuosas, e despenhadas, mas, indo na sua
natural consistencia tem suaves romanços, e vagarozas correntes por cauza dos assudes
dos moinhos, que lhe fazem aformozar os pegos. Os outros são ribeiras menores, e só de
arrebatados cursos nas cheyas.


Ao sexto.


As/1026/ As tres ribeiras ja dicemos, donde nascem, e onde findão; o Guadiana
vem do Norte, e caminha para o Sul.


Ao settimo.


As duas ribeiras da serra, e a de Enxoé crião muitos peixes, e são: pardellas,
bordallos, bogas, piccóes, barbos, principalmente a de Chança, que tem hũa portentosa
abundancia. Guadiana he abundantissima de seus mesmos peixes, menos pardelhas,
criando outros pexinhos [sic] similhantes com alguma diversidade, a que chamão
saramugos; os seus barbos são muito grandes, e chegão os mayores a ter mais de vinte
arrates, muito saborosos [dom que tem este rio em todos os seus peixes] cria24 mais as
sebatelhas, escarpios, tencas, lampreas, sabogas, os celebres solhos, que em todo o
mundo os não géra outro rio; onde entra a maré tem bons muges, e saves, e por fim as
nunca bem encarecidas eyrós, que he, sem disputa [fallando destas de Guadiana] o
melhor peixe de todos os que se descobrem nos mares, e rios de todo o universo.


Ao oytavo.


Nas trez ribeiras pequenas não ha pescarias particulares, ainda que nellas se
pesca com canas, e varias especies de redes. No Guadiana ha humas, que chamão:
caneiros: feitas de paredes, e lastros de vergas tessidas, rotos os assudes, e embocados
com paredes de pedra; estas são de donos particulares, e rendem peixe para vender;
nestes caneirós se alcanção25 as celebres eirós, sendo raras, as que se pescão de outro
modo: os que ha para o fim do rio, são mayores, e demais robustez, chamãolhe: canaes:
nelles, entre os mais [?]26 peixes, se colhem os saves, e os solhos, que dicémos. Tem
outros modos de pescar comuns com varias redes, e ingredientes sendo primorozo o
modo de pescar à cana pella sutileza das sedellas, e delgadas pontas espiraes das canas,
tirando-se por tenue fio peixes de meya arroba the mais de vinte arrates.


Ao nono.


Ja/1027/Ja dice, que só os caneiros são as pescarias particulares, que as mais são
comuns.


Ao decimo.


As duas ribeiras da serra não tem mais cultura, que a de algũas searas junto
dellas, que ja dicémos; o memso he a de Enxoé: o rio Guadiana, como passa por terras
montuosas, em poucas partes sem arvoredos, senão breves margens, que semeão de
melães e melancias, sendo a frondozidade deste rio as plantas chamadas tarafeiras, e
sahineiras tessidas de vides bravas, de que se formão vistosas ilhotas, e lesirias; sendo
suavissima a vista das figuras, que os oyteiros bordão sobre as aguas com toda a
qualidade de matos verdes em diversas especies de flores, e muitas das margens entre os
rochedos alcatilados de boninas com inumeraveis distincções de alinhos, sendo as mais
especiaes os junquilhos amarellos. As outras ribeiras estão a espaços singidos de muito
frondosos loendreiros, e outras plantas.


Ao undecimo.


As aguas das trez ribeiras não tem virtude particular, que se lhe note, senão
serem de excelentes aguas. O rio Guadiana tem as suas tam saudaveis, que se observa,
abbreviarem [sic] a degestão dos comeres, e expedirem logo o appetite para outros,
sendo por Portugal famosa esta qualidade, o que obrigou a que se dicesse nadecima que
louva as obras de Antonio Pareira Rego, em que se repudião com deversas allusões os
rios grandes de Portugal =Guadiana saudaveis vear=.


Ao duodecimo.


Todas as quatro ribeiras acima dittas tem, e tiverão sempre o memso nome.


Ao decimo tercio.


As trez ribeiras pequenas morrem no Guadiana, como ja advertimos; e Guadiana
entra no mar, como se sabe pellas cartas geographicas.


Ao decimo quarto.


Ja dicemos nas couzas notaveis desta villa a celebre caxoeira que tem Guadiana
no seu temro, que he dezoyto legoas do mar. Para sima tem muitos assudes
ordinariamente na distancia de tiro de canhão huns dos outros, com minhos, pizões, e
outras fazendas; a ribeira de /1028/ de Enxoé, e a de Chança tem alguns moinhos,
assudes, e levadas.


Ao decimo quintto.


Tem a ribeira de Enxoé a entrada da villa hũa boa ponte de pedra, e cal, as outras
duas não, Guadiana não tem ponte naquelhe districto.


Ao decimo sexto.


Vay este respondido no decimo quarto, nem hum dos rios tem engenhos de
azeite, nem engenhos de extraher agua delles.


Ao decimo settimo.


Não ha noticia, que se tirasse ouro das suas areas.


Ao decimo oytavo.


Todos estes rios tem as aguas livres, e isentas em Portugal, só com a prohibição
de uzarem dellas, onde fação dano aos moinhos, pizões, ou mais fazendas, onde as tem.


Ao decimo nono.


Guadiana descreve-se nas geographias de Hespanha: Enxóe tem sinco leguas de
comprido; Limas seis; Chança em Portugal sette: as [ ]27 quatro ribeiras por nenhuma
povoação passão.


Ao vigessiimo.


Não tem couza notavel, fora, as que perguntão os interrogatorios, e se diz na
resposta delles.


[ ]28


Fr. Francisco Rodriguez Fernandes29 [Assinatua autógrafa] Prior da Igreja do Salvador
Prior Fr. Manoel Cançado da Costa [Assinatura autógrafa] Prior da Matris
*Poderá também ser Ferreira

 

 


 

(1) Sublinhado de origem.

(2) Sublinado de origem.

(3) Riscada a palvra “segun”. Segue-se cerca de meia linha em branco, como quem respondia quisesse ir
mais tarde completar os dados.

(4) De novo cerca de meia linha em branco.

(5) Sublinhado da época.

(6) Faltará uma palavra. Suporte dobrado ou cortado.

(7)

(8) No original há 3 traços a separar a enumeração que se segue.

(9) Encontra-se repetido no original.

(10)Há uma palavra rasurada, provavelmente enganou-se a escrever.

(11) Palavra curta indecifrável,

(12) Palavra truncada. Existe por baixo uma outra palavra rasurada.

(13) Deve querer dizer grutas.

(14) Palavra riscada.

(15) A consoante “d”aparece com um traço na parte superior.

(16) Existe um floreado antes de dar início ao questionário sobre a serra.

(17) Palavra repetida no original.

(18) Deve querer dizer: “Coytada dada pelo...”.

(19) Existe um floreado antes de dar início ao questionário sobre o rio

(20) Palavra semi-rasurada e corrigida em truncatura.

(21) Palavra rasurada. Provavelmente o início da palavra da frente.

(22) Palavra com “s” longo no final que aparece rasurado.

(23) Palavra rasurada e corrigida a seguir.

(24) Palavra resurada no fim.

(25) Palavra rasurada e corrigida em truncatura.

(26) Palavra com borrão, ou provavelmentefoi rasurada para correcção.

(27) Palavra rasurada e corrigida à frente.

(28) Floreado antes das assinaturas.

(29) Poderá também ser Ferreira.

 

 


 

 

Transcrição de Andreia Carvalheira e Domingas Segão
Revisão: Fernanda Olival

Etiquetas: Memória Completa Andreia Carvalheira Domingas Segão Fernanda Olival
Actualizado em Domingo, 03 Julho 2011 16:32