São Brás, 1758
Memória Paroquial da freguesia de São Brás, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 7, nº 63, pp. 1199 a 1206]
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Nº 63 + S. Brás termo de Serpa
Excelentissimo, Reverendissimo Senhor
Respondendo aos interogatorios que Vossa Exelencia Reverendissima foi servido
mandar responder digo pela forma seguinte segundo
noticias que adqueri, e ciencia, que tenho;
1- Emquanto ao primeiro interrogatorio respondo que a freguesia
em que sou parocho hé chamada a de São Brás
fica na provincia do Alentejo Arcebispádo da cidade
de Evora, comarca da cidade de Beja, termo da
Villa de Serpa.
2 - Ao segundo digo que como esta freguesia fica no termo
da dita villa hé governada pelas suas justiças as quais
o serenissimo Senhor Infante Dom Pedro1 donatario
da mesma, aprezenta.
3 – Tem quarenta, e dous vesinhos, ou fógos. Cento, e noventa
pessoas;
4 – A sua situação hé em huma descida, ou ladeira, e de
todas as partes cercáda de outeiros della se descobre a sidade
de Beja que dista quatro legoas, e a Villa de Serpa
que dista meia legoa.
5 – Hé esta freguesia do termo de Serpa não comprehende
mais que sómente herdades, montes, e hortas, e os vezinhos
já declarados.
6 – Esta a parochia quasi no meio da freguesia não tem lugar ou alea2 alguma.
7 – O seu orágo hé São Brás tem a jgreja tres altares, o altár
mór com o ttitollo de São Brás aonde esta colocada
a jmagem do mesmo santo em o meio, a jmagem
de Nossa Senhora das Candeyas á parte direita, e a jmagem
de Santo Antonio de Lisboa á esquerda, o altár
de São Romão aonde está colocado o mesmo santo
e o altár das santas almas do purgatorio aonde esta
hum retabolo com a pintura das mesmas, e huma jmagem
de Christo crucificado não tem náves, hé jgreja
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jgreja muito pequenna o tecto hé de abobeda, não tem
jrmandade, e só hũns fregueses devotos das santas almas
pedem algumas esmollas pela mesma freguesia
nos Sabados para se fazerem sufragios pelas mesmas.
8 – O parocho hé cura posto pelo Excellentessimo e Reverendessimo
Senhor Arcebispo de Evora, e hé do habito
de São Pedro cuja congrua sustentação são dous
moios e meio de trigo, e trinta alqueres de sevada
para manter uma cavalgadura.
9 – Não tem beneficiádos.
10 – Não tem a dita freguesia convento algum.
11 – Não tem hospital.
12 – Não tem Casa de Mizericordia.
13 – não tem hermida alguma.
14 – A esta jgreja de São Brás vem muitas pessoas em
romaria ao mesmo santo mas não em dias detriminádos
mas sim quando o pede a sua devocão
ou obrigação das pessoas romeiras que ordinariamen[te]
vão nos Domingos, ou dias santos de guárda.
15 – Os frutos, que se recolhem nesta freguesia são trigo
centeyo, sevada, e alguns legumes como granos,
e xixamos, e algum azeite.
16 – Não tem juis, e hé governáda pelo juis de fora
da dita Villa de Serpa donde, como ja dice, he termo.
17 – Não hé couto, cabeça de concelho, honra ou behetria.
18 – Não há memoria que florecessem, ou della
sahissem homeñs insignes em virtudes, letras,
ou ármas.
19 – Não tem feira alguma.
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20 – Não tem correio, e se valem os fregueses do correio da Villa
de Serpa, que sae á Quinta feira pelo meio dia para
a cidade de Beja, que dista quatro legoas, a chega á Sexta
feira a mesma Villa.
21 – Dista da cidade capitál do arcebispádo, que hé Evora
dose legoas, e de Lisboa capitál do Reyno vinte, e quatro
ou vinte, e sinco.
22 – Não há nesta freguesia previlegios, antiguedades ou
cousas dignas de memoria.
23 – Não há nella fonte, ou lagoa celebre, e algumas fontes
que tem não tem espesial qualidade as suas agoas.
24 – Não hé porto de már.
25 – Como hé freguesia de campo devidida em herdades, montes e
hortas não hé muráda, nem tem castelo, ou torre, e
só tem huma atalaia chamáda dos máttos pera della
se vigiar o nimigo [sic] no tempo da guerra.
26 – Não padeceo esta freguesia muita ruina no terremoto
gerál de mil setecentos sincoenta, e sinco, e a jgreja abrio
algumas rachaduras, mas pequennas.
27 – Nada.
E no que respeita a serra respondo pela forma seguinte
1 – Chamasse esta a Serra de Serpa devidesse em duas pártes
chamádas huma Serra Grande, e outra Serra Pequenna
que divide o Rio de Limas que tem o seu principio
nas semalhas de Limas assim chamado, e contenua o seu
curso do nascente ao meio dia athé se meter no Rio
Guadianna para a parte do campo se chama Serra
Pequenna aonde há de couto malhadas de colmeias
das quais tres tem sesmaria3 propria do senhorio
da malháda, as mais pertence o seu destricto
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destricto ao concelho da Villa de Serpa, e só tem os senhorios
huma cerca, ou cercado em que estão as colmeas,
tem sinco legoas de comprido, e de largura
pelo rio de Guadianna abácho athé á fos de
Limas duas legoas para á parte do poente, e para
o nascente em humas partes terá huma legoa
e em outras meia legoa, somente.
Serra Grande
2 – A Serra Grande do Rio de Limas para dentro athé
estremár com o termo da Villa de Mertola
e Villa Verde de Ficalho tem de comprido sete
legoas, e de largura em humas partes tres legoas
e em outras duas.
3 – Os braços mais principais são chamádos a Malhada
de Niculáo, e a Malhada do Araujo.
4 – Nasce nella outro rio, que se compoem das agoas
que lanção os vales das Fontainhas, Milhano, Aba
banos, e Barranco do Pinheiro, e chamão a este
rio = Alfamár = o quál corre do sul ao meio dia
e vai findár no Rio de Limas pela parte debacho
da Malhada de Costa Lobos.
5 – Na estremadura para a parte do nascente estão
situádas a Aldea Nova, e Villa Verde de Ficalho
destricto da Villa de Serpa.
6 – Não tem fontes de propriedades raras, e as que
tem são poucas, e de poucas agoas.
7 – Não tem minas de metais, nem canteiras
de pedras, ou outros materiães de estimação.
8 - As plantas, ou arvores de que se compoem são
todas agrestes que prodús a mesma terra como são
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são de sobro, cascojo, aderno, madronho, zambujo e produs
tambem muitas ervas, e algumas medicinães como
hé o alecrim, e erva chamáda = arcár= que hé boa para
tirar inchaçõens, e faser de secar a parte incháda cozida
em agoa naturál não dão mais frutos as suas arvores,
senão alandias, murtunhos, madronhos, e peros
brávos, e em algumas partes com licença do senado
da Villa de Serpa cortão mato varias pessoas, semeão
nellas trigo, e centeio de que pagão da colheita de cada
seis alqueres hum que recolhe o seleiro real da mesma Villa.
9 - Há nella huma ermida chamáda de São Marcos da
Serra que hé anexa, e filial da jgreja de São Bento da Aldea
Nova, e no dia da festa do santo que se fás na dita
ermida acode muita gente em romaria deste Reyno
e do de Castella por estar situada na distancia de pouco
mais de meia legoa da araya neste da festa do santo
metem um touro bravo na dita ermida, e o levão
pela igreja adentro athé ao altàr aonde se hade cantár
a missa, e ahi posto o missál nos cornos do touro
canta o diacono o Evangelho, e depois de acabada
a missa sahé o touro mançamente, e depois de sahir
caminha com bastante bravura.
10 - A qualidade do seu temperamento hé cálida.
11 - Há na dita serra creaçõens de gádos manços como gado
vacum, cabras, carneiros que se alimentão das suas
pastagéns, e de gados bravos como são veados servas
e porcos javalis ou montezes por outro nome nella
se cria muita caça meuda de perdises e, coelhos
criaosse também nella lobos, raposos, ninhovardos
techugos, e gatos bravos; há tambem nesta serra
vinte, e seis malhadas as quais produzem bastante mel
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mél, e cera pela abundancia das flores dos mátos
de cuja sustancia se alimentão as abelhas que
são do madronho, urso, queiro, lentisco, tojo
alecrim, rosmaninho, e outras mais flores
de varias ervas.
12 - Não tem lagoas, nem fojos notaveís.
13 - Nem outra alguma cousa digna de memoria.
Rio de Guadianna
O maior rio que se acha devidindo o termo da
Villa de Serpa hua legoa de distancia para
a parte do poente chamasse Guadianna.
2 - Hé tradição que nasce das Manchas de Aragão
Reyno de Castelha, e nascer logo caudoloso não
corre todo \o anno/ pois se seca no tempo do estio ordinariamente
mas sempre ficão alguñs \pegos/ de
agoa em muitas partes que nunca se secão.
3 - No termo da villa de Serpa entra neste rio
outro chamado Enchoé prencipia no sitio
chamado Lagares termo desta Villa, e vem
correndo do oriente para o poente athé
entrar no Rio de Guadianna no sitio da
sua fós, que assim se chama, e desde o seu principio
athé ao fim tem quatorze, ou quinze
moinhos de moer trigo senteio, ceváda
no mesmo rio está huma ponte feita
de pedra e cál com seus arcos que vai da dita
Villa de Serpa para a aldea de Brinches
chamáda a Ponte de Brinches, e quazi
em toda parte estão as suas margéns cheias
de mato chamado loendro, e silvados.
4 - Não hé o dito Rio de Guadianna navegavel
e só neste termo em duas partes se passa
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se passa em barcas de huma a outra parte quando não dávão,
e em algumas partes hé de curso arrebatado.
5 - Como ja dice hé de curso arrebatado em muitas partes deste Reyno.
6 - Nesta freguesia corre em pouca distancia da mesma
para a parte do poente, e corre de Norte para o Sul.
7 - Cria este rio peiches em abundancia que se pescão
a canna, e redes como são bógas, bordallos seramujos
e barbos, e eirós mas destes a maior abundancia
hé de sáramujos que são os mais pequenos.
8 - Em todo o tempo do anno pescão os coriosos nelle a cana
e com redes.
9 - As pescarias tão livres nesta freguesia e só nella ha huma
chamada o Caneiro, que está no meio do rio aonde
morrem muitos peixes chamados barbos, e eirozes,
e outros mais que no dito rio se crião a qual
pescaria está nos asudes dos moinhos da Mizericordia,
e a tem aforado o Tenente Coronel da cavalaria
do Regimento de Serpa, e Moura Damião Borges
de Almeyda a Santa Casa da Mizericordia que hé
o direito senhorio, e esta só a pesca o sobredito pelo
foro que pága que são outo tostõens cada anno.
10 - As margens deste rio as mais dellas se não cultivão
por serém fragosas, e só em algumas partes mais convincentes
se semeão meloaís, milhos grosos, e feijão
mas destes frutos que se colhem paga quem
semea pensão a camara desta Villa o anno que
se semea, e ordeneriamente a pensão hé de gallinhas
e não tem as ditas márges arvores de fruto, e só tem
mato de tanugeiras, tarafeiras;
S. Bras termo de Serpa4
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11 – Tem as agoas deste rio particulár virtude para tomár
banhos os enfermos nos mezes de Julho, Agosto e Setembro
que pelos tomarem tem alivio em muitas queichas.
12 - Este rio sempre se chamou Guadianna, e não há
memoria tivesse outro nome em tempo algum;
13 - Morre no már occeanno, junto a Castro Marim.
14 - Tem levádas, e asudes que lhe empedem ser navegavel.
15 - Não pontes [sic] alguma neste Reyno.
16 - Tem na parte que pertence ao termo de Serpa des ou onze
moinhos de moer trigo, e dous pizõens de infortir
panos de lam, e não tem lagares de azeite nem
outro algum engenho.
17 - Não há memoria si terasse ouro de suas areas.
18 - Os povos usão de suas agoas livremente sem pensão.
19 - Não se podem morálmente numerár as legoas que
tem, nem noticias das povòaçõens por onde pássa.
20 - E não tem couza notavel este rio senão somente
junto ao seu fim a onde entra no termo de Mertola
poderem caber as suas agoas por hum lugár tão estreito
e apertádo que passa hum homem com hum púlo
e por esta razão lhe chamão o Salto do Lobo, e dahi
se despenhão estas agoas para hum pego chamado o pego
dos sáves aonde fazem pescaria, e matão muitos
e tambem outros peiches chamados lampreyas que só
os há, e se pescão neste sitio, aonde as pescarias são
de pessoas particulares da Villa de Serpa hé o que cei
e pude adquerir para satisfazer humildemente a Vossa Excelencia
Reverendissima a quem Deus guarde etc.
O parocho da jgreja de São Brás do termo da Villa de Serpa
O Padre Rodrigo Affonso Camácho
[Assinatura autógrafa]
(1) O infante D. Pedro referido no texto, era filho de D. João V, mais tarde casou com D. Maria I.
(2) Deverá entender-se “aldea”.
(3) Sesmaria – é um terreno não cultivado que se destribui a colonos ou cultivadores para o arrotearem num
determinado prazo de tempo.
(4) A letra diferente, mas da época.
Transcrição: Francisco Segurado
Revisão: Fernanda Olival
