Portel - Monte do Trigo

Domingo, 12 Junho 2011 10:20 André Coelho
Versão para impressão

Monte do Trigo, 1758, Maio, 20
Memória Paroquial da freguesia de Monte do Trigo, comarca de Vila Viçosa
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 24, nº 206, pp. 1539 a 1546]


N. 206 /p. 1539/


Monte de Trigo termo de Portel


Freg.ª de São Julião de Monte do Trigo
termo de Portel


Freguezia de São Jullião de Monte de Trigo termo da Villa de Portel,
Arcebispado da Cidade de Evora.


O que se procura saber dessa terra1 he o seguinte


1 Em que provincia fica, a que bispado, comarca, termo, e freguezia pertence?
Respondo, que esta Aldeya de São Jullião de Trigo, fica na Provincia de Alemtejo,
pertence ao Arcebispado da Cidade de Evora, he da comarca de Villa Viçoza, he termo
da Villa de Portel, e pertence á freguezia de S. Jullião de Monte de Trigo

2 Se he del Rey, ou de donatario e quem o he ao prezente?
Respondo, que esta aldeya, he da Serenissima Caza de Bargança, porque fica no termo
da Villa de Portel, cuja Villa he da Serenissima Caza de Bargança.

3 Quantos vizinhos tem, e o numero das pessoas?
Respondo, que esta tem ao presente cento quarenta e oito vizinhos, as pessoas de
confissão, e comunhão, são trezentas trinta e quatro, as que só são de confissão, e não
tem capacidade para comungar, são quarenta e nove, e as que ainda senão confessão,
nem comungam /p. 1540/ nem comungam, sam cento e doze: a esta freguezia pertencem
tambem trinta e duas herdades, onde habitam lavradores, que as cultivam, e nestas
herdades assistem ao prezente duzentas sincoenta pessoas mayores, e oitenta menores,
que fazem por todas assim na aldeya como nas herdades annexas a esta freguezia, o
numero de cento e vinte e sinco pessoas, digo o numero de oitocentas e vinte e sinco
pessoas.


4 Se está situada em campinna, valle, ou monte, e que povoaçoens se descobrem della, e
quanto dista?
Respondo, que está situada junto a hum monte chamado Monte de Trigo por tradição
muito antiga; as povoaçoens, que della se descobrem, he a cidade de Evora, que dista
quatro legoas, he a villa de Evoramonte, que dista sete legoas, e he a freguezia de Torre
dos Coelheiros onde está hũa pequenna aldeya, que dista duas legoas.

5 Se tem termo seu, que lugares, ou aldeyas comprehende, como se chamam, e quantos
vizinhos tem?
Neste interrogatorio nam há que responder, porque as aldeyas nam tem termo, nem
comprehendem lugares.

6 Se a parochia está fora do lugar, ou dentro delle, e quantos lugares, ou aldeyas tem a
freguezia todos pelos seos nomes?
Respondo, que a parochia está junto ao lugar para aparte do Poente, e a freguezia nam
tem lugares, nem aldeyas.


7 Qual he o seu orago, quantos altares tem, e de que sanctos, quantas naves tem, se tem
jrmandades, quantas, e de que sanctos?
Respondo, que o orago desta freguezia, he Sam Jullião de Monte de Trigo, tem quatro
altares, hum he o de Sam Jullião, e neste assiste sempre o Sanctissimo Sacramento em
sacrário, para vizitar os en- /p.1541/ vizitar os enfermos nas suas necessidades, o
segundo he de Nossa Senhora do Rozario, o terceiro he do Senhor Crucificado, o quarto
he de Nossa Senhora das Neves, naves não tem mais que huma; as irmandades são três,
a saber a do Sanctissimo Sacramento, a de Nossa Senhora do Rozario, e a das almas do
purgatorio.


8 Se o parocho he cura, vigario, ou reitor, prior, ou abbade, e de que apprezentação he, e
que renda tem?
Respondo, que o parocho, he cura amovivel ad nutum, cuja apprezentação pertence aos
Excelentissimos Senhores Arcebispos de Evora, a sua renda são oito moyos de pão, seis
de trigo e dous de sevada: o benece, ou pé de altar he contingente, huns annos mais,
outros menos, renderá sincoenta mil reis certos cada anno.


9 Se tem benefficiados, quantos, e que renda tem, e quem os appresenta?
Neste interrogatorio, não tenho que responder, porque nesta parochia nam há
benefficiados.


10 Se tem conventos, e de que relligiozos, ou relligiozas, e quem sam os seos
padroeiros?
Respondo, que nesta parochia nem em o seu destricto ha conventos de relligiozos ou
relligiozas.


11 Se tem hospital, quem o adminestra, e que renda tem?
Respondo, que nam ha hospital, nem memoria que o ouvesse em outro tempo.


12 Se tem caza de Mizericordia, e qual foi a sua origem, e que renda tem?
Não tem caza de Mizericordia, por isso não há que dizer a seu respeito.


/p.1542/


13 Se tem algumas ermidas, e de que sanctos, e se estão, ou fora do lugar, e a quem
pertencem?
Nesta aldeya, e freguezia de São Jullião de Monte de Trigo nam há ermidas.

14 Se acode a ellas romagem, sempre, ou em alguns dias do anno, e quaes são estes?
Respondo, que como não há ermidas, também não há romages? [sic]

15 Quaes são os frutos da terra, que os moradores recolhem em mayor abundancia?
Respondo, que os frutos da terra, que os moradores desta freguezia recolhem, são trigo,
senteyo, sevada, e favas, porem sempre recolhem trigo em mayor abundancia.


16 Se tem juis ordinario, camera, ou se esta sugeita, ao governo das justiças de outra
terra, e qual he esta?
Respondo, que tem juis chamado juis da vintenna, cuja apprezentação pertence ao juis
de fora, e vereadores da Villa de Portel, a cujas justiças está sugeita esta aldeya.


17 Se he couto, cabeça de concelho, honra, ou behetria?
Respondo, que a este interrogatorio, não há que dizer couza alguma.


18 Se há memoria, de que florececem, ou della sahissem alguns homens
insignes por virtudes, letras ou armas?
Neste interrogatorio também não há que responder, porque nam consta que desta
freguezia sahissem homens das qualidades refferidas.


/p.1543/


19 Se tem feira, e em que dias, e quanto dura, se he franca, ou cativa?
Respondo, que nam tem feira, nem há memoria a tivesse algum dia.


20 Se tem correyo, e em que dias da semana chega, e parte, e se o nam
tem, de que correyo se serve, e quanto dista a terra onde este chega?
Respondo, que nam ha correyo nesta freguezia, servese do correyo da cidade de Evora,
que dista quatro legoas.


21 Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa capital do reyno?
Respondo, que esta freguezia dista quatro legoas da cidade capital do arcebispado, que
he Evora; e de Lisboa cidade capital do reyno, dista vinte e huma legoas.


22 Se tem alguns privilegios, antiguidades, ou outras couzas dignas de memoria?
Respondo, que nam tem privelligios, antiguidades, nem outras couzas dignas de
memoria.


23 Se há na terra, ou perto della alguma fonte, ou lagôa cellebre, e se as aguas tem
alguma especial qualidade?
Respondo, que nem nesta freguezia, nem perto della, ha fonte, ou lagôa, cujas agoas
tenhão especial qualidade.


24 Se for porto de mar, descrevase o sitio que tem por arte, ou por natureza, as
embarcaçoens, que a frequetam, e que pode admitir?
Respondo, que neste interrogatorio, não tenho que dizer, por nam haver porto de mar.


25 Se a terra for murada, digase a quallidade de seos muros: se for praça de armas,
descrevase a sua fortificação. Se ha nella, ou no seu destricto algum castello, ou torre
antiga, e em que estado se acha ao presente?
Respondo, que esta freguezia nam he murada, nem praça de armas, nem ha nella
castello, ou torre antiga, que se possa descrever.


26 Se padeceo alguma ruinna no terremoto de 1755, e em qué, e se esta já reparada?
Respondo, que nam padeceo ruinna no terramoto de 1755, por que dâmos graças a
Deos.


/p.1544/


27 E tudo o mais, que houver digno de memoria, de que nam faça o prezente
interrogatorio mençam.


Respondo, que nam há mais couza alguma digna de memoria para se descrever.


O que se procura saber dessa serra, he o seguinte.

1 Como se chama?

Em nenhum dos interrogatorios desta segunda parte do manifesto, posso dizer couza
alguma, porque esta freguezia, nem seu destricto comprehende serra, de cujas
propiedades se possa dar noticia.

O que se procura saber do rio dessa terra, he o seguinte.

1 Como se cham[a] assim, como o sitio onde nasce?
Nesta freguezia, nem em o todo de seu destricto há rio, a quem se possão acomodar as
propiedades do rio rigurno , que se procura no manifesto, porque so há humas pequenas
e limitadas ribeyras, que conservão aguas emquanto chove, e acabada a chuva , passa-se
a pé emxuto: estas ribeyras são duas huma chamada Azambuja, outra Pecenna, ambas
tem o seu nascimento na freguezia da Torre de Coelheiros termo da cidade de Evora.

2 Se nasce logo caudalozo, e se corre todo o anno?
Já respondi no interrogatorio antecedente, que so correm quando chove, e parão de
correr, quando deixa de chover.

3 Quantos emtrão nelle, e em que sitio?
Nestas mincionadas ribeyras, nam emtrão outras algumas, mas só sim alguns pequenos
regatos, que por senão fazer caso delles, não tem nome.

4 Se he navegavel, e de que embarcaçoens he capas?
Estas ribeyras, de que trato neste interrogatorio, não são navegaveis, nem tem
capacidade para embarcaçoens.

5 Se he de curso arrebatado, ou quieto em toda a sua distancia, ou em alguma
parte della?


/p.1545/


Respondo, que quando os annos são invernozos, que chovem aguas em abundancia, he
certo, que impedem passage, que logo permitem acabada a chuva.

6 Se correm de Norte a Sul, se de Sul a Norte, se de Poente a Nascente, se de
Nascente a Poente?
Ambas as ribeyras, de que aqui faço expressa menção, correm de Poente a
Nascente? [sic]

7 Se cria peixes, e de que especie são os que tras em mayor abundancia?
Alguns peixes cria, mas de inferior estimação, e os que tras em mayor abundância são
pardellas, bogas, e bordallos, também tras alguns barbos espicialmente azambuja porem
são poucos.

8 Se há nelle pescarias, e em que tempo do anno?
Em todo o tempo do anno se pesca com canas, e redes, advirtindo, que no Verão são
mais frequentes as pescarias das redes, e no Inverno as das canas.

9 Se as pescarias são livres, ou de algum senhor particular, em todo o rio ou em
alguma parte delle?
Em todas estas ribeiras, são livres as pescarias, sem que emtre senhor particular nellas.

10 Se se cultivão as suas margens, e se tem arvoredo de fruto, ou silvestre?
Não se cultivão as suas margens, porem em algumas dellas há algumas arvores
chamadas azinheiras, que dão bolotas.

11 Se tem alguma virtude particular as suas aguas?
As aguas das refferidas ribeyras, não comprehendem alguma particular virtude.

12 Se conserva sempre o mesmo nome, ou o começa a ter differente em algumas
partes, e como se chamam estas, ou se há memoria, de que em outro tempo tivesse outro
nome?
Sempre conservão o mesmo nome, e não há memoria, que em outro tempo o tivesse
differente

13 Se morre no mar, ou em outro rio, e como se chama este e o sitio em que entra
nelle?
Não morre no mar, mas sim na ribeyra do Dejebe, onde emtra no sitio do Barroco
Pardo.

14 Se tem alguma cachoeira, repreza, levada, ou açudes que lhe
embaracem o ser navegavel.
Neste interrogatorio, não há que responder couza alguma alguma [sic]


/p. 1546/


15 Se tem pontes de cantaria, ou de páo, quantas e em que sitio?
Nam tem pontes de cantaria, nem de páo, nem memoria as tivesse em outro tempo.

16 Se tem moinhos, lagares de azeite, pizoens, noras, ou outro algum emgenho?
A Rribeyra da Azambuja tem dous pizoens em que se infurtem pannos, e a da Pecenno
tem dous moinhos, que moem pam.

17 Se em algum tempo, ou no prezente, se tirou ouro de de [sic] suas areas?
Nam consta, que em algum tempo, ou no prezente, se tirasse ouro de suas areas.

18 Se os póvos uzam livremente de suas aguas, para a cultura dos
campos, ou com alguma pensão?
Como estas ribeyras, no tempo do Veram nam conservão aguas, não se pode usar dellas
para a cultura dos campos.

19 Quantas legoas tem o rio, e as povoaçoens por onde passa desde o seu
nascimento athe onde acaba.
As duas ribeyras, de que faço expressa memoria, tem duas legoas e meia desde o seu
nascimento, athé onde acabam, e em toda esta distancia, não há povoaçoens, mas tão
somente alguns montes, ou herdades, em que moram os lavradores, que as cultivão.

20 E qualquer outra couza notavel, que não vá neste interrogatorio?
Não pude descobrir alguma outra coisa notavel, que seja digna de memoria.
O Padre Jozé Lasso Gallego presbytero do habito de S. Pedro, e cura nesta
parochial Igreja de S. Julião de Monte de Trigo termo da Villa de Portel, por graça do
Exmº.e Reverendissimo Senhor D. Frei Miguel de Tavora, por merce de Deos, e da
Santa Sé Appostolica Metropolitanno Arcebisco de Évora; certifico, que estas são as
noticias mais fieis e verdadeiras, que pude descobrir sobre os interrogatorios do
manifesto incluzo, e por ser verdade tudo quanto nellas rellato, passei a ppresente que
asignei, Monte de Trigo 20 de Mayo de 1758.

 

O Pe. Jozé Lasso Gallego

 


(1) Antes de escrever a palavra terra, escreveu ‘te-‘ para mudar de linha.

 



Transcrição: Jacinta Canelas
Revisão: Fernanda Olival

Etiquetas: Memória Completa Jacinta Canelas Fernanda Olival
Actualizado em Terça, 28 Junho 2011 15:38