Odemira - Santa Clara a Velha

Domingo, 12 Junho 2011 09:58 André Coelho
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Santa Clara a Velha, 1758, Junho, 01.
Memória Paroquial da freguesia de Santa Clara a Velha, comarca de Ourique
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 11, nº 334, pp. 2999 a 2302]


Nótula histórica: Freguesia do concelho de Ourique, nos domínios da Ordem de Santiago, terá
sido instituída em finais do século XV, a pedido dos moradores da área, que construíram uma ermida e
pagaram a um ermitão, a fim de evitar as difíceis e demoradas deslocações à igreja matriz de Ourique. A
delimitação do seu termo ter-se-á efectuado por essa altura, ficando com uma área de cerca de 164 km2. É
inusual o sítio de edificação da igreja, em local plano, junto ao rio Mira e a um seu pequeno afluente e às
suas perigosas cheias. Mais singular, o facto de o templo ficar exactamente no limite do concelho de
Ourique e da nova freguesia, de tal modo que a linha delimitadora do concelho e condado de Odemira
passava a escassos metros da frontaria da igreja paroquial. O crescimento, lento, da aldeia – bem expresso
na memória abaixo transcrita – acabou até por ocupar, mais tarde, terra da freguesia de Sabóia, do
concelho de Odemira, o que obrigou, já no século XX, a desviar a linha delimitadora das freguesias
algumas centenas de metros para uma nova referência, a linha-férrea. Situação que fazia do templo um
autêntico marco e sentinela em terras espatárias defronte do condado de Odemira. Pela aldeia passava a
estrada que de Garvão e S. Martinho se dirigia ao Algarve, a “estrada de Sabóia” que o foral “velho” de
Odemira cita. Santa Clara haveria de passar para o concelho de Odemira, em 1836, por força da
legislação liberal que reordenou administrativamente o território.

Por ordem de Vossa Ex.ª, e Rm.ª recebi hum papel, e nelle incluzos sacenta
intorrogatorios para responder a elles, que supposto nesta freguezia não haver couza
digna, ou memoravel , contudo por satisfazer a minha obrigação, e aos preceytos de
Vossa Ex.ª, e Rm.ª a quem tanto apreceyo pella mesma ordem, e numero respondo ao
primeyro, e aos mais intorrogatorios.

1 Jás esta freguezia em a provincia de Alemtejo, Arcebispado de Evora, e
comarca da vila de Ourique.

2 Hé de Sua Magestade porque está sugeyta as suas justissas.

3 Consta esta aldeya de doze vizinhos, e a freguezia de duzentos, e trinta, e sete,
em que se achão seiscentas, e sacenta, e sinco pessoas, a saber do sexo masculino
trazentas, e vinte, e sete, e do femenino trazentas, e trinta, e outo emtre mayores, e
menores.

4 Está sita a aldeya em huma pequena planice, sem que della se devizem mais
que huns ásperos montes que a circulão.

5 Não compriende termo algum, lugar, ou aldea.

6 Fica a igreja a hum lado da aldea, com a porta principal para a parte do ocazo.

7 Hé Santa Clara de Assis fundadora da Segunda Ordem de Sam Francisco, hé
de arquitetura antiga, e tosca com sinco altares, o mor do orago, dois coletrais, hum de
huma imagem do Senhor Jezus Crucificado, outro da Senhora do Rozario, e nas duas
paredes mestras da igreja estão duas capellas côncavas, huma de nosso Pay Sam Pedro,
e outra do mais Ilustre Portugues Santo Antonio: as irmandades que hoje existem sam
as Almas, e Rozario: o Senhor Jezus, e Sam Pedro: Sam Luis Bispo, Sam Sebastião,
Santo Antonio.

8 Hé cura aprezentado pello Excelentissimo, e Illustrissimo Arcebispo
Metropolitano de Evora; com tres moyos e vinte alqueres de trigo, para cuja satisfação
sam fintados os freguezes. Hé tradição ser esta igreja em o céculo passado da Ordem de
Santiago como parece o declarava huma pedra que estava embutida no frontispicio da
igreja com as Armas de S. Tiago da Espada, a qual mandou tirar o reverendo cura
Manoel Martins Santos, meu antessessor.

9 Não tem beneficiados.

10 Não tem conventos.

11 Tampouco hospital.

12 E muito menos Misericordia.

13 Não há irmidas.

14 O mayor concurso que tem esta freguezia hé no dia doze, e no dia dezanove
de Agosto, no dia doze se selebra a festa da Padroeyra da igreja, Santa Clara a quem
todos os freguezes cordialmente vizitão neste dia com devossam, e no dia dezanove
tributão suas oblassois ao Illustrissimo Bispo de Toloza o Senhor Sam Luis.

15 Os frutos que se dão nesta freguezia, são trigos sevadas, e senteyos, e alguns
milhos, e legumes, como são favas, e fejão.

16 Hé juis da ventena criado pello juis de fora da villa de Ourique, a quem estão
sugeytas as cauzas síveis, e crimes desta freguezia.

17 Não hé couto, nem cabessa de concelho.

18 Nem pode saber, que desta freguezia sahissem homens insignes, nem os
ouvesse nella.

19 Menos feyra.

20 Não tem correyo, mais sim se governa pello correyo de Messejana donde
vem estafetas para a villa de Ourique sinco légoas distante desta freguezia.

21 Dista esta aldea da Catedral de Evora, e capital deste Arcebispado vinte
légoas, e da Corte de Lisboa capital deste Reyno vinte, e outo.

22 Não sey, nem tenho noticia de couza memoranda.

23 Muyto menos fonte, ou lagoa espissial.

24 Não hé porto de mar.

25 Não hé murada.

26 No lamentavel anno de 1755, em que este Reyno padesseo o grande
terremoto, não hove (alem do castigo geral) mais que huma pequena lezão na capella
mor da igreja, que fica para se reparar, e já se achão juntos alguns dos metriais, e os
oficiais ajustados.

27 O que mais hove digno de memoria nesta freguezia com pasmo, e admiração
das creaturas mais provectas, foi a grande cheya que no dia quatro de Janeyro deste
anno de mil, e setecentos, e sincoenta, e outo se exprimentou; em que sahindo a ribeyra,
que dista da aldeya sacenta, e tres passos do seu natural domicilio, com tanta braveza
buscou a povoação, que parecia querer devorar todos os seos abitadores: virão-ce estes
na mayor confuzão, e tratando huns de recuperar os seos bens, que já debaxo das ágoas
padessião total ruina, os outros com o párocho buscárão a igreja, e com preces, e
lagrimas pedião a Deus mizericordia, mas esta imbravessida com aquellas supllicas, que
talves não herão cordialmente verdadeyras, quis mostrar, que nem ao sagrado da sua
caza perdoavão, pois talando, e destruindo todas as searas que ficavão nas suas margens
em distancia de tres légoas, demolindo totalmente sete moradas de cazas desta aldeya,
emtrou ao vorax elemento pella igreja buscando os moradores que a ella se refugiavão,
e chegando ao supedaneo do altar mor parecia querer chegar ao mesmo tecto. Aqui com
valerozos clamores bradávão todos pella sua Padroeyra, e aquella Santa que com a
costodia nas mãos suspendeo a furia dos inimigos da fé, fes retroceder as ágoas com
tanto prodigio que dentro em tres horas se vírão no seo lugar natural da ribeyra. Hé o
que prezenciey mais digno nesta freguezia, e nella o mais memoravel segundo a
tradiçam dos velhos.

Serra

1 Não hé a desta freguezia de nome, são huns matos onde se crião gados vacuns;
laníferos e de cabello, e tambem abundantes de solmeyas (sic), e de cassa como são
animais serdozos, corsos, e perdizes, e coelhos.

10 Hé de temperamento adustissimo.

Rio

Não o tem esta freguezia, mas sim huma caudeloza ribeyra chamada Odemira,
tem o seu principio na freguezia de Santa Clara termo de Almodovar em hum monte
chamado o Fialho, e entra nesta em outro a que os moradores chamão Lobelha, e daqui
vem entrando com as suas soberbas ágoas por esta freguezia, passa a freguezia de
Saboya que hé termo de Odemira, e assim vay tranzitando athé se unir com as ágoas da
barra de Villa Nova de Milfontes, ten de longitude desde o seo nascimento athé a barra
de Villa Nova quatorze légoas; os peixes que nella há são pardelhas, e bordalos, e em
algumas partes, taynhas.

Estas são as noticias que a minha tosca espiculação pode alcançar desta
freguezia de Santa Clara termo de Ourique.

O seu cura, que por mercê de Vossa Ex.ª Rm.ª hoje existe e como a seu
dignissimo, e amabilissimo Prelado, beja reverente os pés

Manuel Antunes Esteves

 


 

Transcrição: António Martins Quaresma

in QUARESMA, António Martins, Odemira histórica: estudos e documentos. Odemira,
Município, 2006.

Etiquetas: Memória Completa António Martins Quaresma
Actualizado em Sábado, 18 Junho 2011 18:21