Mora - Cabeção

Terça, 07 Junho 2011 20:02 André Coelho
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Cabeção, 1758, Maio, 18
Memória Paroquial da freguesia de Cabeção, comarca de Avis
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 8, nº 12, pp. 67 a 72]

 


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Nº 12
Cabeção comarca de Avis


Exçelentissimo e Reverendissimo Senhor

Comprindo com os preçeytos de Vossa Exçelencia sobre a informaçam que se
me pede aserca da situaçam desta Villa de Cabeçam, e mais couzas, que no
interrogatorio, que da parte de Vossa Excelençia me foy entregue se conthem e que
achey, e pude descobrir he o seguinte =

1. He a Villa de Cabeçam da Provinçia do Alentejo deste Arçebispado de Evora e da
comarca da Villa de Aviz.

2. He esta Villa del Rey Nosso Senhor, como Gram Mestre da Ordem Militar de Sam
Bento de Aviz por estar no seu Mestrado.

3. Tem duzentos, e sincoenta, e quatro vezinhos, e nelles settesentas sesenta, e seiz
pesoaz obrigadaz ao rol das confiçonz.

4. Esta situada esta Villa em huma medeana costa da parte do Sul, della se descobrem
da mesma parte a Villa de Pavia distante huma legoa; a Villa de Arrayolos distante
quatro legoaz, mais â parte do nascente â Villa de Evora Monte em distançia de
sinco legoaz; âo nasçente â Villa de Estremoz em distançia de sette legoaz.

5. Tem seu termo, e nam tem em elle aldeya alguma.

6. A igreja matris he situada dentro da Villa.

7. O seu orago he a Virgem Nossa Senhora da Purificaçam, nam tem navez â Igreja;
mas he de abobeda, e em ella se acham sinco altarez, o altar mayor he do
Santtissimo Sacramento da parte da Epistola o altar da Senhora da Purificaçam
orago da caza, e o altar de Sam Francisco, da parte do Evangelho o altar da Senhora
do Rozario, e o altar das Almaz, todos tem confrariaz, menos o altar de Sam
Francisco.

8. O parracho tem titolo de prior he da àprezentaçam del Rey Nosso Senhor por
consulta da Mesa da Consciençia, e Ordenz tem de renda tres moyos, e quatro
alqueyres de trigo dois moyos de sevada: vinte almudes de vinho, duas arrobas de
sera tudo pago na comenda na mesma Villa, alem de vinte, e dois mil reiz pagos na
Mesa Mestral de Benavente, tem o seu pé de altar fara âo tudo [sic] duzentos, e
sincoenta mil reiz.

9. Nam tem beneficiados.

10. Nam tem conventoz.

11. Tem hum hospital nu de todo o necessario, e só serve de dormirem nelle algunz
peregrinos he da adeministraçam da Mezericordia desta Villa.
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12. Tem Caza da Mezericordia fundada no anno de mil quinhentos, e noventa e sette
com esmolas, que o zello dos moradores desta Villa souberam ajuntar, e tambem
destrebuhir, como consta dos seus antigos livros; tem sua Irmandade que se governa
pello compromiso da Mizericordia de Lisboa em posse de ser da adeministraçam
real, tem de renda duzentos mil reis pouco mais, ou menos.

13. Tem dentro da Villa, alem da Igreja Matris â Igreja da Mizericordia, huma Ermida
de Sancto Antonio; fora da Villa em pouca distançia da parte do Sul â Ermida
do Senhor Salvador do Mundo, a qual tem suas rendas, e foros, que cobra o
adeministrador da mesma capella, que he nomiado pella Meza da Consciençia, e
Ordens em vidaz; estas rendas, se devidem em tres partes â saber huma he para o
adeministrador, outra he para o capellam da capella, que tem obrigaçam de
dizer na dita Ermida missa o primeyro Domingo de Janeyro, e maiz quarenta pella
alma, e a mente de Fernam Vâs, a outra parte he pera a fabrica da capella,
tendo neçessidade, e nam a tendo o juiz da Villa com o seu escrivam, e
adeministrador, e capellam no primeyro Domingo de Janeyro a repartem pellas
viúvas, e orphas pobres da Villa, e seu termo.

14. Nam tem romajes de que se deva fazer mençam.

15. Os frutos da terra sam trigo, sevada, senteyo, milho grosso, e vinho em
abundançia, e sam excelentez.

16. Tem dois juizes ordinarioz, camera, que consta de tres vereadores, e hum
procurador, nam tem sojeiçam â outra qualquer jurisdicam, senam por
appellaçam, e aggravo.

17. Nam he couto, nem beheria [sic] etc.

18. Nam sey de homens grandes, que em ella florçessem, nem della sahisem.

19. Tem huma feyra captiva na Segunda feyra depois de Dominga quinta da Quaresma,
dura dois diaz.

20. Nam tem correyo, serve se do da Villa de Aviz, que lhe dista tres legoaz.

21. Dista da cidade de Evora capital do Arçebispado sette legoaz, da de Lisboa capital
do Reyno vinte legoaz.

22. Nam sey dos seus privilegios, porem Manuel Coelho Geografo, que no tempo do
Senhor Rey Dom Sebastiam escreveo sobre esta Provinçia diz = Cabeçam = foy
fundada pello Senhor Rey Dom Joam primeyro deolhe titolo de villa o Senhor
Rey Dom Sebastiam, e conclue: á qual os ditos senhores enrriqueseram com muitos,
e grandes privilegios.

23. Nam tem fonte, nem lagoa selebre.

24. Nam tem porto de mar.

25. Nam he murada, nem tem torres, ou castello antigo de que se deva fazer mençam.
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26. No terremoto do anno de mil settesentos, e sincoenta, e sinco padeçeo á torre da
Igreja Matris alguma ruina, que já em parte esta conçertada, à Igreja da Mizericordia
tambem teve alguma ruina, e ainda se acha no mesmo estado, a Ermida do Senhor
Salvador do Mundo padeçeo bastante estrago achaçe da mesma sorte que ficou, as
cazas da Villa alguma ruina tiveram, mas graças à Deos nam he couza de
consideracam.

27. Hâ no termo desta Villa uma grande matta de pinhal, que serca a Villa por todos os
lados; este pinhal he de Sua Magestade, que Deos guarde por ser antiguamente dos
Mestres da Ordem de Aviz, todos os pinheyros, que nasçem no termo desta Villa
sam de Sua Magestade, ainda que nasçam em terras dos particulares porque
com esta condiçam foram as ditas terras dadas âos moradores desta Villa pello
Senhor Rey Dom Joam o primeyro, quando a fundou por serem as ditaz terras suaz,
e com esta fundaçam facilitar os conçertos da sua real quinta, que neste sitio tinha,
otilizaçe Sua Magestade das suas madeyras para os trins desta Provinçia do
Alentejo, tem couteyro mayor, e couteyro menor, o menor asiste nesta Villa, o
mayor sam os ouvidores da comarca da Villa de Aviz, os quaes dam liçença
aôs moradores desta Villa para cortarem no dito pinhal as madeyras, que lhe
forem neçessariaz para os conçertos das suaz cazaz, e edificarem de novo por
provizons, que sua Magestade tem conçedido para isso a êste povo; os ditos
couteyros, âsim mayor, como menor tem seus soldos, e ordenados, que se lhe
pagam na Meza da Real Fazenda.

28. Nam ha no termo serra alguma, de que se deva dar notiçia.

1. Tem um rio chamado o rio = Raya = tem a fonte prinçipal na Atalaya dos Sapateyros
junto à cidade de Elvas.

2. No seu nascimanto, nam he muito caudeloso, mas vay se engrosando cada ves mais
com varios rebeyros, e ribeyras, que se lhe ajuntam, de Inverno he muito caudeloso,
e corre todo o anno.

3. Entra em esta rebeyra por bacho da Villa de Aviz a Rebeyra de Seda, que tem o seu
nasçimento na serra da cidade de Porto – alegre, huma legoa por bacho de Aviz
da parte do nasçente, se lhe ajunta o Ribeyro do Alcorrego, por bacho mais legoa, e
meya se lhe ajunta o Ribeyro do Almadafe, e junto a esta Villa da parte do Sul se lhe
ajunta a Re[beira]1 da Tera, que tem à sua fonte na serra de = Osà = por bacho de
Cabeçam2 legoas junto a Sancto Antonio do Couso, se lhe ajunta a esta ribeyra, a
ribeyra chamada do = Sor = e depois de unidas toma o nome de = Sorraya.

4. O mais do tempo dá vas, menos de Inverno nos seus enchentes, que as vezes duram
mezes, e em estes, se paça em barcas.

5. O seu curso em partes he arre- /p. 70/ arrebatado por cauza das suaz penedias; e em
outras he seremno.

6. Quando entra no termo desta Villa corre do Norte para o Sul, e vay devidindo o
termo desta Villa com o da Villa de Pavia digo de Aviz, e apenas entra a dividir o
termo desta Villa com o da Villa de Pavia. Corre do nasçente, para o poente.

7. Cria peixes de varias qualidades, as tainhas, que sam os milhores, mas cria poucaz
nos lemites desta Villa: as heyrôs em abundançia, as grandes sam exçelentes: oz
barbos que sam singulares, cria desta espeçie com muita abundançia, e alguns de
extraordinaria grandeza. Os bordalos sam bons. As bogas que sam muitas. As
pardelhas sam bastantez.

8. Em todo o anno se pesca com cana, e reydes, e com ellas, se matam muitos peixes:
nos mezes de Abril, e Mayo sam as mais selebres pescarias, que nos correntes
desta rebeyra, se fazem a que chamamos do candeyo que he um instromento de
barro com sua aza por onde se lhe pega, nelle se leva lume com lavareda grande que
de grande lus, e se conserva com cavasas depós, que se tiram dos pinheyros. Huma
reyde de feitio de hum covám atada em dois páos, que fiquem bem manual a que
chamamos tezam; com estes dois instromentos em noute de escuro, dois
homenz hum que leva o candeyo, e hum cajado, outro leva o tezam, e cavaca para
de quando em quando reformar o candeyo para dar grande lux, entram em os
correntes da rebeyra, e andando nelles os peyxes prinçipalmente barbos huns a
dezovar, outros a comer apenas a lux do candeyo da nos peixes que quanto
mayores milhor se matam, para este peixe com os olhos fictos na lux do candeyo
sem se mover arma se lhe o tezam pella parte de bacho, e despois de armado o
homem que leva o candeyo com o cajado, que leva na mãm move o peixe ate o
meter dentro no tezam, e antào este o levanta, e se tira o peixe, se he grande porque
depois se ver sem lus faz deligençia por romper o tezam, mas nam lhe ande tocar na
cauda, que antam façilmente foje, e com este modo de pescar se matam muitos, e
muito grandes peixes; eu já os matey de vinte e dois, e vinte e quatro arrates cada
hum. Nos mezes de Fevereyro, e Março, se matam nas cascalheyras da ribeyra com
atarrafas bogas com muita abundançia, quando ellas dam.

9. As pescariaz sam para todos livres.

10. As suas marjes em partes, se coltivam, e dam excelentes trigos, milhos grossos,
melons, e feijons, e em partes consta de fragas, e terras que pellas suas p3 se nam
cultivam, tem algumaz arvores silvestres de pouca utilidade, e sim4.

11. Nam sey, que as suas agoas tenham virtude alguma.

12. Em a Villa de Aviz chamaçe a Rebeyra de Aviz, na freguesia de Sam Domingos do
mesmo termo chamaçe a Rebeyra de Bembelide, e entrando no termo desta
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13. [sic] desta Villa o Rio Raya, em se ajuntando com o Sor, se chama Sorraya athe
entrar no Tejo.

14. Os moinhos de moer pam que em ella hâ tem seus asudes de pedra, que
embarasavam o ser navegavel se tivesse agoas bastantes para isso.

15. Nam tem engenhos, mais que moinhos con que se moe o pam.

16. No nosso termo, nam tem pontes.

17. Nam sey que nas areias da ribeyra se tiraçe ouro.

18. Os povos nam se utilizam das suas agoas; porque nam tem engenhoz para o
fazerem.

19. Do seu nascimento ate o rio Tejo, aonde fenese podera ter vinte, e trez legoaz;
as povoaçons por onde passa a Villa de Aviz, Cabeçam, Mora, Villa Nova da

Erra, Cruxe, e Benavente.

20. Nam sey que haja mais alguma couza notavel, que deva escrever nesta certidam.

Isto he Senhor o que na verdade pude saber do que se pede e por verdade mandey passar
a prezente, que asigney Cabecam de Mayo 18 de 1758.


Fr. Domingos de Oliveira Bottelho
[Assinatura autógrafa]


/p.72/
[Em branco]

 


 

(1) Suporte cortado.
(2) Suporte cortado.
(3) Suporte cortado.
(4) Suporte cortado.

 

 


 

Transcrição: Ana Esmeralda Carvalho
Revisão: Fernanda Olival

Etiquetas: Memória Completa Ana Esmeralda Carvalho Fernanda Olival
Actualizado em Terça, 07 Junho 2011 20:14