Seda, 1758, Abril, 12
Memória Paroquial da freguesia de Seda, Comarca de Estremoz
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 34, nº 97, pp. 761 a 774]
/p. 761/
Noticias que della se pedem, são as seguintes dadas pellos mesmos artigos da Comisão
A primeiro – Chamase esta povoacão a Villa de Seda; o seu nome antiguo foi Arminho;
e he tradicão antigua que estando o seu Castello tão bem chamado Arminho em poder
dos Mouros; e combatendoo os nossos portuguezes com todo o valor, e defendendose
os mouros com o mesmo, depois de grande porfia, o Capitão dos nossos lhe mandou
dizer que se persistão na resistencia, e elle vencesse tudo passaria a espada; e tendo o
que levou o recado negociado o fim pera que fora; subio ao muro, e disse em vox alta
pera os de fora não he necessario combater, mais a fortaleza porque já se dâ; e desta
palavra e pronunziando o a breve, e com brandura, he que teve origem o chamar se
esta Villa Seda, e perder o antiguo nome de Arminho; e assim o testifica e refere o
Doutor Antonio Gonsalves de Novaes na relacão que dadas couzas deste Bispado de
Elvas o fim da constituicão delle. Fica esta Villa na Provincia do Alentejo, pertençe ao
Bispado de Elvas, tem termo seu e proprio que chega a Villa da Ponte do Sor pera o
Poente, e são quasi quatro legoas e pera o Nascente se estende duas;
He da Comarca de Estremos que rege, e vizita o Provedor de Evora; e he por si
freguezia, e Matris de outras//
Ao Segundo – He esta Villa do Mestrado de Avis por doacão que fes aos Cavaleiros
della El Rey Dom//
/p. 762/
Affonco o Segundo, e na Jurisdicão da dita Villa esteve the o anno de 1427 = e em
trinta de Outubro El Rey Dom João o primeiro estando em Braga lhe fes, a merçe do
titulo de Villa com todas as proeminencias, e regalias que como a tal lhe sao devidas;
assim o refere o mesmo Novaes citado; e de prezente ainda pertence ao mesmo
Mestrado e Gram Mestre das tres Ordans Militares.
Ao 3º - Tem a Villa em si cento e quarenta e sinco vezinhos ou fogos; e fora em
montes, e herdades quinze; e pessoas na Villa quatrocentos e sinco; e nos referidos
montes e herdades sincoenta e nove, como tudo consta do Rol de Conficão do
prezente anno de 1758 =
Ao 4º - Esta situada em hum serro; do qual se descobre a Villa de Avis que dista tres
legoas, e a de Fronteira na mesma distancia; Evora Monte na de oito. O Castello de
Estremos na de sette, a de Alter do Chão na distancia de duas, Alter Pedrozo na de
duas e meyo, o Cratto, e a Torre da Igreja da Senhora de Flor da Roza na de tres; Aldea
da Matta na de duas;
Ao 5º - Tem termo seu, como fica dito, o qual//
/p. 763/
O qual tem dentro em si a freguezia, e aldea de São Pedro da Ervideira; e a freguezia
de São Domingos da Sarrazola, das quais he Matris a Igreja de Seda.
Ao 6º - A Igreja Matris desta Villa esta fora della, mas quasi contigua em hum alto, e
tem annexas a ella as referidas freguezias de São Domingos da Sarrazola, e São Pedro
da Ervideira, regidas cada huã por distinto Parocho freyres do Convento de Avis.
Ao 7º - O orago desta Matris de Seda de Nossa Senhora do Espinheiro; tem sinco
altares; a saber o altar mor com sua tribuna de entalhado em que esta a imagê da
Senhora em hum trono; o da Senhora do Rozario, outra da Senhora da Conceipcão,
outra das Almas; e outro novamente erigido de pedassos do retabalo velho do altar
mor, inda sem titolo, e nelle se intenta por o coracão de Jesu; tem huma só nave.
Tem quatro confrarias; a saber a do Sanctissimo Sacramento, a da Senhora; a das
Almas; e a da Ermida de São Marcos que esta no termo, e lhe he annexa.
/p. 764/
Ao 8º - O Parocho desta matris de Seda tem o titulo de Prior, he aprezentado do
Governo Mestre das tres Ordens Militares pello tribunal da Meza da Consciencia, e he
da Ordem de Avis; tem de Congrua que lhe paga o Comendador da dita Villa do Celeiro
della e dizimos dois moyos e meyo de trigo; dois moyos de sevada, e de seleiragem do
dito celeiro moyo e meyo de trigo; e em dinheiro vinte mil reis. O pê de altar he muito
tenue e rendera the quinze mil reis.
Ao 9º - Tem esta matris dois beneficiados freires de São Bento de Avis, aprezentados
pello Grão Mestre das tres Ordens Militares, pella Meza da Consciencia tem de sua
Ordinaria e Congrua dois moyos de trigo, e moyo e meyo de sevada e des mil reis em
dinheiro pago tudo pello Comendador da dita Villa; são beneficios curados e nas
offertas dos officios levão ambos que entre si reparam a metade, e a outra a metade o
Prior, mas tudo isto vem a parar em couza muito tenue no fim do anno porque annos
ha que nemhum officio se fas.
Ao 10º - Não tem Convento algum//
/p. 765/
Ao 11º - Tem esta Villa huma Caza terrea e hum sotão a que chamão hospital, não tem
por si renda alguma, mas nos poucos gastos delle assiste a Mezericordia desta Villa por
cuja conta corre a sua administração.
Ao 12º - Tem Caza de Mizericordia, instituida no anno de 1583 = no primeiro de
Outubro por graça, e merçe do Senhor Rey Dom João como Grão Mestre e Governador
da Ordem de São Bento de Avis, e confirmada por El Rey Phelipe por provizão passada
em 20 de Setembro de 1600 = na qual se concedeo que os bens de huma Capella que
havia na dita Villa do Gloriozo São Bento, e erão administrados pellos Juizes, e
Vereadores, dahi em diante filassem os seus rendimentos pera a dita Meziricordia,
ficando esta obrigada a mandar dizer em cada hum anno trinta missas na Capella do
dito Santo pellas dos defuntos que deixarão os ditos bens, e proverem a dita Capella
de todo o seu necessario; o que tudo consta das provizões registadas no tombo da dita
Mizericordia f. 277 v f. 278. E informandome de todos os rendimentos que tera a dita
Mizericordia, tera oitenta athe noventa mil reis huns annos por outros em cada hum
anno.//
/p. 766/
Ao 13º - Tem esta Villa nove Ermidas, a saber a roda da Villa a de São Sebastião, 2ª a
de São Bento ja referida e que prove a Mizericordia; 3ª a de São Pedro; 4ª a do Espirito
Santo; 5ª de São Francisco; 6ª a de Santo Antonio em distancia de quarto de legoa; 7ª
a de São Bernabe, em distancia de huma; 8ª a de São Marcos Evangelista em distancia
de outra; 9ª e ultima a da Senhora dos Prazeres, em distancia de duas legoas, onde
chamão Alparrajão, no qual sitio houve antiguamente hum Castello ou Villa que foi
destruida em tempo dos Romanos, e os que das suas maos escaparão vierão fundão a
povoacão que hoje se chama Seda; refereo assim o citado Novaes;
Ao 14º - A Ermida de Nossa Senhora dos Prazeres referida foi antiguamente de muita
ro[ma]gem; e hoje ja menos frequentada; os que inda nos prezentes tempos alguas
vezes ahi vaõ são os moradores desta Villa de Seda; e com especialidade e maior
concurso vaõ no seu proprio dia, com seu pendro a fazer lhe festa e assim os da Villa
de Castel da Vide em oito de Setembro todos os annos inda que haja guerras; os da
Villa de Ponte do Sor tãobê alguns annos ahi vem, mas não tem dia certo; e dos mais
povos circumvezinhos algumas pessoas, mas raras vezes vão vizitar a mesma
Senhora.//
/p. 767/
Ao 15º - Os fruitos que esta Villa colhe em mais abundancia são trigos, e algum azeite.
Ao 16º - Tem dois Juizes Ordinarios que se elegem por pelouro, e confirma o Ouvidor
de Avis por ser da sua Correicão; tem Camera com Vereadores, e Procurador sem
sujeicão a outra justiça.
Ao 17º - Não he Couto, nê Beetria, nem Honra e que entendo da doutrina de Cabedo
fl. 200 e do Elucidario de Bento Pereira nº. 1188, e tem Concelho regido pellos Juizes
Ordinarios e Vereadores desta Villa.
Ao 18º - Não achei noticias de que desta Villa sahisse homem ou pessoa insigne em
virtude armas ou letras; e so sahio della hum Frey Dioguo Cutella e chegou nos annos
atras a ser Provinzial dos terseiros de São Francisco de que foi religiozo, e ha poucos
annos morreo.
Ao 19º - Tem dia deputado pera feira que he des de Agosto, e he livre, mas hoje sem
concurso algum de gente que a ella venha.
Ao 20º - Não tem correyo, aos seus moradores, huns se//
/p. 768/
Servem do correyo de Alter do Chão que dista duas legoas, outros do de Avis que dista
tres, segundo portadores achão, por que não tem o Conselho, e Camera de Seda
estafeta.
Ao 21º - Dista esta Villa de Seda da cidade Capital do Bispado que he Elvas nove legoas,
da Corte e cidade de Lisboa vinte e sinco.
Ao 22º - Nada.
Ao 23º - Ha no termo desta Villa junto a Senhora e Ermida dos Prazeres huma fonte, e
outro posso junto a Villa no sitio em que antiguamente estiverão vinhas, dos quais
refere o Doutor Novaes citado, que a agoa da fonte he tão fria que se a noite lhe
lancão peixe, pella manham os achão mortos, e com os olhos extravassados; e que
com as agoas do posso se não coze carne; mas os moradores desta Villa inquiridos,
como não fazem de prezente experiencia das referidas fontes, so afirmão o mesmo por
tradicão.
Ao 24º - Nada.
Ao 25º - Teve antiguamente seus muros, ex Castello de que inda ha alguns vestigios e
pedassos de muro.//
/p. 769/
Ao 26º - Não padeceo, a Deos gracas, ruina algũa sensivel no terremoto do anno de
1755.
Ao 27º - Nada que se relate.
Nem tão bem do que se procura da Serra e couzas della, por que a não tem, mais o
que o Serro pequeno, em que esta situada.
Rio
Noticias delle são as seguintes:
Ao primeiro – Chamasse a Ribeira de Seda, corre distancia de tiro de bala por junto da
Villa, nasce do pê da cidade, e cidade de Portalegre.
Ao 2º - Corre somente de Inverno, e tem grossas enchentes; mas do consso [sic] pera
baixo corre todo o anno.
Ao 3º - Por baixo da Villa do Cratto em tiro de peça entrão nella duas ribeiras mais
pequenas, huma se chama Chozanal que nella entra pella parte do Norte, e outra
chamada Linhares que entra da parte Sul; por sima desta Villa em distancia de meya
legoa entra nella outra chamada Cugancas pella//
/p. 770/
Parte do Norte, e logo mais abaixo outra da mesma parte mais pequena que se chama
Alfeijolos; corre a ribeira de Seda para as partes de Avis; e perto desta Villa se mete na
ribeira chamada de Fronteira, e ahi ambas passão por onde chamão o Maranhão; mas
antes de chegar a meterse na ribeira de Fronteira em Avis entre nella outra junto a
Benavilla chamada a ribeira da Sarrazola que vem do Nascente; e proximo a Villa do
Cabecão quasi quarto de legoa pella parte do Sul entra nella a ribeira chamada Ter[a]
que vem de Pavia; e na aldea de Santo Antonio do Cousso pella parte do Norte entre
nella a ribeira do Sor; e da mesma parte na Villa da Erra entra nella outra do nome
desta Villa; e abaixo da Erra da parte do Sul entra nella outra chamada Odivor.
Ao 4º - No tempo de Inverno, e quando ha enchentes navegão por ella barcos de
Coruxe pera baixo.
Ao 5º - He de curso quieto em toda a sua distancia, e sô abaixo da Villa de Mora meya
legoa tem despenhadeiro onde chamão o furadorio.//
/p. 771/
Ao 6º - Corre do Nascente pera o Poente.
Ao 7º - Cria bordalos, barbos, pardelhas, bogas e quando chega a Villa de Mora, e
Cousso ja tem tainhas, salmoes, e saveis que sobem do Tejo.
Ao 8º e 9º - Tem huma pesqueira por sima da aldea do Santo Antonio do Cousso onde
chamão o Engal, e no furadorio por baixo de Mora outra, e esta se dis ser do
Excelentissimo Conde do Vimieiro e em toda ella mais, pesca livremente quem quer.
Ao 10º - As suas margens em a Villa de Mora são povoadas de vinhas, dahi abaxo
admitem suas margens muito agricultura de pão e no termo do Cratto, Alter do Chão,
Seda e Benavilla as suas margens em muitas partes tem montados de bolota.
Ao 11º - Nada.
Ao 12º - Esta ribeira de Seda chamouse antiguamente//
[p. 772]
Antiguamente Arminha dis Novaes cita do por ter seu principio na Serra da Aramenha
perto de Portalegre, onde foi aquella antigua cidade de Medobriga, athe logo por
baixo de Avis tem o nome ou Ribeira de Seda, e dahi vay tendo os nomes das terras
por onde passa que são Maranhão, Cabecão, Mora, Coruxe, e no Cousso se chama
Sorraya.
Ao 13º - Em Benavente entra no Tejo.
Ao 14º - Tem em primeiro lugar a falta de agoas que fas se não navegue pera sima de
Coruxe; e em segundo lugar abaixo de Mora hum despenhadeiro onde chamão o
furadorio.
Ao 15º - Tem junto ao Cratto hũa ponte na estrada que vay pera a Villa de Alter outra
logo mais abaixo onde chamão o moinho da Ordem; outra em meya legoa de distancia
por sima desta Villa da Seda, he obra mui forte, e de excellente archytectura, fabricada
de pedras de cantaria grandisimas tão unidas que parecem huma,//
/p. 773/
Sem se enxergar couza em que pudesse haver, tem seis arcos; os bordos de ambas as
partes são tão largos que Novaes citado na narração que fas da Villa de Alter do Chão e
dis que hum homem pode correr por elles a cavalos, como se conta aconteceo
passando por elle El Rey Dom Philipe 1, quanto entrou neste Reyno, e hia a fazer
cortes a Thomar; e acrescenta que ventura seria o seu author o mesmos officiaes que
fizerão hũa das tres vias militares que fale de Benevente athe Merida, e mandou fazer
o Emperador Antonino; esta ponte se chama a Monte de Villa Fermoza.
Ao 16º - Por sima da Villa do Cratto quasi huma legoa tem esta Ribeira de Seda hum
moinho, de fronte do Cratto, dois hum por baixo da ponte que vay pera Alter, outro no
caminho que vay pera esta, Villa de Seda, outro onde chamão o pego do cepo, mais
abaixo outro por sima da ponte asima referida de Villa Fermoza outro abaixo desta
Villa; e em a Villa de Cabecão e Mora tão bem dahi ha moinhos nesta ribeira.
/p. 774/
Ao 17º - Nada.
Ao 18º - Das agoas della uzão os seus moradores livremente.
Ao 19º - Desde do seu nascimento que he a Serra de Portalegre the Benavente, onde
se mete no Tejo esta ribeira, são vinte e duas legoas.
E passa perto da Villa do Cratto distancia de tiro de peça, e por junto desta Villa de
Seda, e dahi por baixo da de Benavilla, e Avis, pello Mara[n]haõ, Villa do Cabecão,
Mora, Santo Antonio do Cousso, Erra, Coruxe, e por fim a Benavente onde acaba.
Estas as noticias que pude descobrir sobre os interrogatorios da Comissão que com
esta remetido: Seda 12 de Abril de 1758
O Prior Frei Joze Martinz da Aprezentaçam
Transcrição: Ofélia Sequeira






