Memórias Paroquiais

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Odemira - Salvador

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Salvador, 1758, Maio, 29
Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 26, nº 4, pp. 33 a 40]


Nótula histórica: Uma das duas primitivas freguesias de Odemira, ocupava no início, grosso modo, a
parte norte do concelho. Tinha, no século XIII, menor importância económica e certamente populacional
do que Santa Maria, mas, depois da criação de novas paróquias, em fins do século XVI, os priores
reivindicaram para a sua igreja a condição de principal e categoria de matriz, que efectivamente, em geral,
lhe foi reconhecida. A freguesia ocupava no século XVIII uma área de cerca de 164 km2.


Do prior do Salvador da villa de Odemira sobre o que na copia se manda saber
da dita villa.
Esta villa de Odemira, que de antes só era o castello de Odemira foy dado a
Dom Pedro Salvador Bispo do Porto na era de 1245 a concentimento do mestre Dom
Payo Peres Correya, e Gonsalo Peres comendador de Mertola de concentimento do
Convento, com sua emtradas, e sahidas, as quais doaçois o Papa Innocencio 4
confirmou ao Bispo, a cuja instancia concedeo indulgencias aos que focem povoar estes
lugares, e defendellos dos Mouros em cujas fronteyras estavam, porem não durou este, e
outros mais, na sugeição da Igreja porque passados poucos annos, lhe foram tomados
pellos reis não bastando para lhe fazer restituição delles escrever o Papa Clemente 4
que se tornacem a Igreja por serem seus, e de sua jurisdição.

Ainda hoje comserva o sittio e nome do Castello, e se veem nelle os vestígios
de murado, ficando no mais alto da villa, e sobre o rio della, e tem ainda a igreja dentro,
que servia; que concerva o nome da Trindade, demolida toda por sima, mas com todas
as paredes, que são bachas, e pertence a esta minha matriz do Salvador e junto ao dito
Castello se comtinua a villa, que há noticia fora reedificada, ou ampliada no anno de
1256 que constava de quatrocentos vezinhos, que hoje terá somente sento e sincoenta,
com duas parrochias, que ahinda hoje tem o nome de matrizes, huma chamada a do
Salvador, e outra a de Santa Maria e com hum convento de frades franciscanos, que
tudo hoje existe, e lhe concedeo os foros de Beja.

Esta villa eram os Condes de Odemira donatários, e aprezentávão as justissas, e
não havendo socessão passou à Coroa, ahonde hoje existe.1

Esta villa de Odemira hé provincia do Alentejo, e arcebispado de Evora,
comarca de Beja.

Terá ao tempo prezente sento e sincoenta vezinhos a villa toda, e a minha
freguezia do Salvador tem 200 fogos, e 650 pessoas emtre mayores e menores.

Está esta villa situada em algum tanto plano, emtre huma serra algum tanto
montuoza, e della se não descobre povoaçois algumas.

Esta villa tem termo, e nelle quatro freguezias chamadas as parrochias, e
aldeyas ahonde estam as Igrejas Senhora de Assumpsão de Saboya, S.to Thiotonio, Sam
Luis e Senhora de Arreliquias.

Esta igreja do Salvador situada na freguezia da mesma villa, hé grande templo,
sem nave alguma, tem o altar mór, e dois colatrais, hum da Senhora do Amparo e outro
de São João Bauptista; tem huma irmandade de comfraria das Almas, com seo
cappellão, e missa quotidiana; e tem outra comfraria do Santissimo Sacramento. O
párrocho na sua aprezentação, se lhe dá o nome de reytor, porque como se unírão pellas
bullas appostolicas à Santa Sée Patriarchal da Cidade de Lx.ª ficárão em reytorias, assim
a dita Igreja do Salvador, como a outra de S.ta Maria, com duzentos mil reis de congrua
a cada hum dos reytores, ficando obrigada a Sancta Sée Patriarchal à premanencia das
igrejas, e todo o necessário para ellas; que manda pagar pello seu rendeyro dos dizimos;
e àpresentação quando havia os Condes donatarios apresentavão os Condes, e como
passou para a Coroa hé hoje àpresentação de Sua Magestade, e não tem beneficiados.

Tem esta villa o comvento dentro da mesma villa, de que erão padroeyros os
Condes de Odemira, que lhe concinárão rendas do Condado, vinte e quatro mil reis, que
passando à Coroa como se dice, se lhe manda ahinda hoje dar.2

Tem esta villa huma caza, que serve de hospital para alguns passageiros, sem
renda alguma, que admenistra a Santa Caza da Mizericordia, e em sima huma igreja
com invocação do Spirito Santo, que só tem huns lemitados rendimentos que a mesma
S.ta Caza admenistra, chamado o rendimento da Candeya, que há tradição, que o senado
da câmera concinera, e se acha ser erigido no anno de 1569; e a Santa Caza da
Mizericordia se erigio logo dahi a seis annos, e como as rendas são as mais em foros, e
retros de trigo, huns annos por outros com os mais juros e pertences que tem, se faz de
receita duzentos mil reis cada anno.3

Nesta minha freguezia do Salvador não há mais ermidas dentro na villa; e fora
distante meya légoa está huma cituada na xarneca, com imvocassão de São Pedro
ahonde vem algumas romages de per anno; e a Santa Caza da Mizericordia e a igreja do
Spirito Santo estão dentro na villa, e na minha freguezia do Salvador Matriz.

Nesta villa, ou seu termo há bastantes frutos de trigo, milho, senteyo, e sevada,
e bastante vinho, ahinda que não hé muito generozo;4 e tambem há muitos gados, e
colmeyas, pellas abundantes pastages.

Nesta villa há juis de fora posto por El Rey, o qual em auzencia do provedor de
Beja, e corregedor das villas anexas, vay ocupar o dito lugar; e o dito provedor toma
posse de corregedor nesta villa; tem concelho de El Rey; tem cappitão mor, sargento
mor, e guarda mor da saude.5

Tem esta villa feyra, mas limitada, que hé de tres dias, o primeyro a doze de
Setembro: franca.

Tem esta villa correyo, que chega a segunda feyra e parte ao sabado, e a terra
ahonde chega hé a villa de Mecijana, que dista desta villa seis légoas.

Dista esta villa da cidade de Evora capital do arcebispado vinte légoas, e de
Lisboa capital do Reyno vinte e seis légoas em que emtrão as que embarcado se vay na
passagem da Comporta para Setubal, e da Moita para a ditta cidade.

Esta villa há nella o direyto dos montados dado pelo Senhor Rey Dom Manoel a
esta villa no anno de 1510 dando o privilégio aos moradores, e vezinhos de dentro da
dita villa de não pagarem montado e poderem cortar huma légoa em roda da dita villa a
madeyra, que quizerem; e para mayor clareza ponho aqui o item, que comtem o
privillegio desta villa, do dito foral, que hé o seguinte:
Item os montados da dita villa e termo são nossos, e a recadação por conceguinte
por direyto real, por aquellas leis e regimentos, ordenaçõis ou sentenças por que agora e
em qualquer tempo ao diante se arrecadar o direyto do montado, que se paga no Campo
de Ourique et.ª; e os moradores e vezinhos de dentro da ditta villa não pagam o ditto
montado morando na dita villa a mayor parte do anno com toda a sua caza e domecilio,
os quais isto mesmo teem liberdade de cortarem verde no ditto termo, e teem mais
liberdade os sobreditos vezinhos, e todos os outros moradores, posto que vezinhos não
sejão de poderem cortar huma légoa em roda da ditta villa, toda a madeyra, que
quizerem, assim cortada pella rais, como em qualquer outra maneyra sem nenhuma
penna; e isto quanto monta ao nosso direyto, ficando resguardado ao concelho, e câmera
da dita villa de por sobre isto, as leis e posturas, que lhe bem parecer, as quais havemos
por bem, que se executem, como pelo dito concelho forem postas e ordenadas et.ª
E como as pastages e ágoas erão de El rey quem queria de fora mandar seos
gados pagando o direito a El Rey, ou a seo rendeyro o podia fazer e para ficarem
libertos e poderem os do termo cortar em suas erdades madeyra sem penna, ou licenssa,
requerêrão a El Rey que se fintacem as erdades, e mais terras da villa e termo, em
aquella quantia, que a Sua Magestade rendia para ficarem senhores e não poder vir
pessoa com gados por serem suas, o que assim alcansárão, e com efeito neste prezente
anno de 1758 se fes a dita finta, e de tal forma erão captivos que para qualquer moinho
ainda em fazenda, ou erdade sua propria havião de haver licença, e pagar conhecenssa
da ágoa.6

Esta villa tem rio de ágoa salgada, junto della, que vay embocar em o mar da
barra de Villa Nova de Milfontes, que por terra dista quatro légoas, e pelas voltas que
fas o rio, em rezão de hir por grande serra e muito amontoada fas cinco légoas de rio
athé se meter na barra; sobe este rio para sima da villa thé donde chega a maré, huma
légoa, que veem a fazer seis légoas thé a barra, e them o seu nacimento em Almodovar,
que dista por terra onze légoas desta villa, e pella ribeyra pellas voltas, que fas em
rezam de hir por serra amontuada, ou continuarce a serra para sima tres légoas, fas
quinze légoas, e comcerva esta ribeyra ahinda fora do destricto, o nome de ribeyra de
Odemira, e tem a ágoa della a propriedade de não criar sanguechugas, ou bixas, antes
os animais que as adquirem de outra parte em bebendo nella as lanção fora.
Entrão neste rio embarcaçõis athé a villa e as mayores, que admitte são de carga
de duzentos moyos de trigo, mas pellos altos, que o rio faz, não podem para sair levar
mayor, que a de sento e sincoenta moyos;7 e do que as embarcaçõis, ou barcos trazem
para a terra somente pagão o direyto da portagem, ou redizima.
Tem este rio huma barca, junto a villa para se passar à outra parte, a qual hé do
feitio de hum estrado grande algum tanto côncavo, com duas bicas de cada parte, que
emboca na terra, e hé acomodada de altura, em forma que pação nella as bestas
carregadas de huma parte para a outra, e a gente que vay a cavallo pode se quer emtrar e
sahir a cavallo sem lhe ser precizo o apearce; esta barca tem huma grande corda de parte
a parte do rio por onde corre hum tal páo ao modo de huma péga por ella em cujas
pontas se prende huma corda, que se ata a huma argola, que de parte tem a barca, para
que com a inchente, ou vazante, não possa hir mais para baixo, nem para sima, e com
baraços prezos em cada parte da terra, e nas argollas da barca, que por diante tem, e com
tal facilidade passa, que qualquer rapaz, se a barca não está em terra para nella se meter
dentro pucha pello barasso, que está prezo em terra e na argolla da barca, e tras a barca a
terra, e metendo ce nella pucha pello baraço que da outra parte está prezo na argola, e na
terra, e puchando por elle chega a outra parte, dando a hisso comodidade a largueza do
baraço que se puchou e ajuntou da outra parte, para não impedir o cursso.
Desta barca se não paga couza alguma porque para todos hé livre,
singularidade que se dis se não acha em outra parte, porquanto a tal barca, ou albargaria
della tem muitas rendas de foros, e retros, e juros, e conçerva sempre de tempo
immemoriavel seo rebanho de vacas com pastor a custa da mesma albargaria, e poderá
ter emtre tudo a valia de seis para sette mil cruzados, e se vay cada ves augmentando
mais, porque com as sobras se comprão mais rendimentos. À custa da mesma albargaria
se paga a hum homem, a que chamão barqueiro tendo caza da outra parte, com seo
serrado, para quando acontecer nas vazantes ficar em seco a deitar ao rio, ou para a não
deixar ficar daquella parte em seco, e para a alimpar, e tratar do mais que for necessário,
para a prontidão da mesma barca a toda a hora, de noite, e de dia. Hé desta barca, ou
albargaria admenistradador o senado da câmera, de que o Dr. juis de fora tem della de
ordenado seis mil reis por anno, e tem seo mordomo, ou depozitario.
Esta barca, ou albargaria, não se acha o seu principio, ou qual foy o seu
fundamento por mais que se tenha em livros antigos emvestigado, e se emtende teria seu
principio de alguma deixa, ou legado pio, e com a continuação se foy augmentando seo
rendimento como vamos vendo, ahinda nos tempos que há memoria.


Esta villa no terremoto de 1755 padeceo pouca ruina porque nem os templos
nem cazas perigarão, mas só sim algumas fendas, que com pouco se remediarão; e o rio
ahinda que sebio e se alterou alguma couza, comtudo não cauzou perda, nem molestia.

Sobre o que se procura saber da serra desta villa

Chama sse a Serra de Odemira tudo o que fica desta parte do rio, e da outra
parte se chama a charneca de Odemira.


Está esta villa de Odemira situada quaze em o meyo do seu districto e ocupa da
parte do norte ao sul nove légoas, e do nascente ao poente seis légoas, ficando da villa o
termo quaze em roda, nos fins a distancia de tres légoas excepto algumas pontas que
metem como a de athé a barra de Villa Nova de Milfontes quatro légoas, e para a
ribeyra de Odeceyxe reyno do Algarve, tambem quatro légoas, e para a parte ahonde
comfina com o termo da cidade de Silves reyno do Algarve, quatro légoas e meya.

Nesta Serra de Odemira, e charneca se cria muita cassa, e a charneca hé mais
propria de cassa de lebres, que de outra; e aquella ribeyra que assima dicemos chamada
de Odemira hé mais propria de coelhos, e perdizes em muita quantidade, como tambem
pella mais serra, que damnificão muito as siaras sem se poderem vencer, por mais que
se matem; e tambem na serra há corssos, e javallis.

Sobre o que se pergunta saber do rio desta villa de Odemira

Chama se este rio o de Odemira, que tem seo nacimento em Almodovar, e
quaze todo o anno corre a ribeyra athé se meter em ágoa salgada da que sobe huma
légoa adiante da villa como se dice, e esta ribeyra na ocaziam de imnundaçõis hé muito
caudeloza e sahe muito fora de seus lemites, pellas muitas que nella se metem, que
arranca muitas arvores silvestres, e vay findar em Vila Nova de Milfontes, barra muito
áspera e dificultoza de emtrarem as embarcaçõis, que ja se dice podião emtrar, que so
admite sua emtrada com o mar mansso, em forma que alguamas vezes principalmente
no Inverno, estão muito tempo detidas sem navegarem.8 E corre do nascente para o
norte.


O peiche que mais há neste rio são huns chamados muges e negrõis, e bicas, e
de Verão morrem douradas de singular gosto, mas não dá muito peiche, porque o mais
só à cana se pesca, ou seja pella pouca coriozidade da terra, ou não haver quem viva de
suas pescarias, de redes, ou em rezão e ser de muitos altos e bayxos, e muitos páos no
fundo que empedem o lansso das redes, e só sim com o emgenho a que chamão tarrafa;
porem mais abacho em seos braços, que mete, ou esteyros se tapa, e morre muito peiche
de diverssas castas assim os que assima se dice, como também lingoados e salmonetes,
e canejas e cassõis pequenos, e no tempo de Veram, são mais proprias as pescarias, e
que mais morre o peiche, e não se paga couza alguma das tais pescarias, em todo o rio,
e só sim quando vem algum barco que de Villa Nova, da barra, ou de fora, tras peiche,
paga o direito da redizima.


Nas margens deste rio em alguamas partes levantam mais a margem, e nos
esteyros se múrão, para não emtrar a ágoa salgada e quebrando a terra dos juncais
aproveitam muita, que ao depois emdoça mais o seu salivo, de que colhem muita
sevada, e não tem arvores algumas silvestres ao pé donde hé salgado, ou honde chega a
maré.


Este rio ja se dice comessa na emtrada da barra chamada a de Villa Nova de
Milfontes, e não tem embaraço algum para ser navegavel, para as embarcaçõis, que ja
se dice podia admitir.


Neste rio da villa thé ao mar ocupa sinco légoas, e nella há seis moinhos de
ágoa salgada, que nas bocas de alguns brassos do rio se tem feito, sobindo a ágoa na
inchente, que ao depois fica pellas comportas detida, e emtão vazio o rio se abrem, e
com a ágoa detida pellos esteyros sahe com a violencia necessaria para fazer moer os
moinhos.


Os moradores da villa, e termo uzão livremente das ágoas para a cultura, sem
penção alguma.


O rio desta villa tem seu nacimento em o termo da villa de Almodovar, que
dista desta honze légoas, e pellas voltas, que fas, chegão a quinze, e desta villa thé Villa
Nova de Milfontes, ahonde sahe a barra, sinco légoas pellas suas voltas, e não passa por
povoação alguma.


A costa do mar desta villa de Odemira hé muito áspera de rochedos, que mal em
poucas partes admite ahinda no Verão algum pequeno barco sua emtrada, e poucas as
partes por honde de terra se pode descer ao mar, e não tem fortaleza alguma em toda
a sua costa, que hé de Villa Nova de Milfontes athé Odeceyxe reyno do Algarve, que
fas nove légoas em rezam de se emtender ser de sua natureza defencivel; mas à mayor
cautella, por haver mimoria, que já emtrárão alguns pirattas, tem huma companhia a que
chamão de guarda costa, que são dos mesmos paysanos, que obrigão aquelles, que mais
posses para isso tem, e com hum homem sempre de vigia a quem se paga, e vam
correndo a roda de dois, em dois, a tal companhia para em vendo alguma embarcassão,
que mal sospeitem, darem avizo, ou rebatte à villa, que logo se acode; mas isto hé só no
tempo do Veram, que de Inverno, e Primavera, e Outono se emtende escuzado, pella
rezão referida de parecer de sua natureza defencivel a costa.


Há nesta costa, donde chamão Lapa de Pombos9 huma emtrada, a qual distante
de terra bastante está ao modo de hum grande templo fabricado da natuteza de rochedo,
que terá de comprimento dezoito, ou vinte varas, e oito de largo, com huma boca larga
ao modo de alpendre algum tanto inclinada, mas não direyta para terra, e para o mar
não também direyta outra boca mais pequena ao modo de huma grande genella, que hé
necessário sobir mais assima para a ella se assomar, ou hir, e por sima bastantemente
como a altura de qualquer templo ordinário, ao modo de abóbeda da mesma rocha, com
admiração daquella obra da natureza, e de roda toda dezempedida de algum rochedo,
em forma, que quando enche o mar, tudo de roda ocupão as ágoas, e so fica aquella a
modo de abobeda descuberto, pello seo alto, em forma, que pode ali ficar muita gente,
quando o mar enche, e quando vaza se retirar, porquanto só estando vazio, admite sua
habitação, e hé vistozo pello empolado do mar desta costa quando enche emtrar pella
genella, ou pórtico as ondas e sahir o seo arrebatado pello pórtico largo, que acha
inclinado para a terra, e somente não hé agradavel o baycho desta grande obra da
natureza, por ser o seu assento de rocha de penedais. Quanto são as pessoas mais
prudentes, e discretas, que vão ver esta obra da natureza, tanto mais se admirão, que não
fica bem facil o descreverce sua maravilha, que só quem emtender, ver, e admirar,
poderá prudente descrever.


Sobre a cópia do que se manda proguntar hé o que pude saber, e achar noticias.


Matriz do Salvador de Odemira, 29 de Mayo de 1758


O prior Bartolomeu Lobo

 


(1) Os bens da Casa de Odemira, em Odemira, acabaram, temporariamente, incorporados na Casa Cadaval,
e a vila regressou ao senhorio régio. O direito e o dever de padroado passaram para a Sé Patriarcal de
Lisboa, e as “justiças”, isto é os vários oficiais municipais passaram a ser confirmados pelo rei, através do
seu tribunal do Desembargo do Paço.

(2) Trata-se do convento franciscano de Santo António.

(3) Embora o primeiro registo da Santa Casa seja de 15 de Agosto de 1570 (A.H.M.O., Livro de Eleiçoens
1569, fl. 1).

(4) O vinho de Odemira, de que há notícia de exportação para Lisboa, na Idade Média, é aqui considerado
abundante, o que o pároco de Santa Maria confirma, mas de qualidade medíocre. Inclusive posturas
municipais de c.ª de 1700 consideram os vinhos de Odemira incapazes de se transportarem para as
freguesias. Numa publicação já do século XX, os vinhos do Alentejo mais cotados nos lugares de
produção eram os seguintes: Arronches, 1900 réis, o duplo decalitro; Crato e Marvão, 1600 réis;
Arraiolos e Odemira, 1500; Reguengos e Borba tinham mais baixa cotação: 1150, o branco, 1200, o tinto.
Esta oscilação de preços poderia ser consequência, não só da diferença de qualidade, mas sobretudo da
relação oferta/procura em cada localidade (António Alberto Banha de Andrade, Vinhos do Alentejo,
Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1983, pp. 29 e 30 (separata de O Vinho na História
Portuguesa – Séc. XIII – XIX, Porto, Academia Portuguesa de História e Fundação Eng. António de
Almeida, 1983).

(5) O capitão-mor e o sargento-mor constituíam o oficialato superior das Ordenanças, e o guarda-mor de
saúde era a autoridade que superintendia todas as questões relacionadas com o controlo de epidemias,
designadamente fiscalizando os navios entrados no porto.

(6) A finta, isto é a colecta, tinha a vantagem, tanto para os moradores como para a fazenda régia, de não
estar sujeita a variações, e estabelecia uma reserva, para os moradores, de importantes recursos que
estariam a escassear.

(7) O moio equivalia a 60 alqueires, valendo o alqueire de Odemira 16,680 litros; portanto, cada moio
correspondia a 1000, 800 litros.

(8) Situação que já na primeira metade do século XVI está documentada.

(9) Hoje conhecida por Lapa de Pombas, a sul do Almograve, onde existe um pequeno porto de pesca
artesanal.

 


Transcrição:António Martins Quaresma


in QUARESMA, António Martins, Odemira histórica: estudos e documentos. Odemira,
Município, 2006.

Actualizado em Sábado, 18 Junho 2011 18:15  

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