Sabóia, 1758, Maio, 19
Memória Paroquial da freguesia deSabóia, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 33, nº 8, pp. 43 a 50]
Nótula histórica: Freguesia, com pouco mais de 200 km2, criada com toda a
probabilidade no ano de 1572, a partir da de Santa Maria (de que tomou o orago: Nossa
Senhora da Assunção), também na sequência das directivas do concílio de Trento, e
provavelmente a pedido dos moradores da área. Recebeu o nome de Sabóia, antigo
topónimo que remonta à Baixa Idade Média, referente decerto a um lugar próximo mas
diferente da actual aldeia. A origem do nome poderá dever-se, como quer a lenda, a
povoador, ou povoadores, originário, ou originários, da região alpina de Sabóia, aqui
chegado(s) nos longínquos tempos medievais, talvez até antes de concluída a
reconquista. A narrativa popular diz que um saboiano (mercador, clérigo ou mesmo
foragido, conforme as versões e sugestões) montou uma estalagem junto à estrada,
decerto a que vinha de Garvão para o Algarve, a “estrada de Sabóia”, que o foral
“velho” de Odemira cita.
O local da construção da igreja, elemento fundacional da aldeia (e da freguesia),
obedecendo ao critério da centralidade apenas no eixo norte-sul, parece ter sido
determinado por contraposição face à sede de freguesia de Santa Clara, do concelho de
Ourique e do senhorio da Ordem de Santiago. De resto, o seu sítio, sobre pequena
plataforma, junto do ribeiro do Ameixial, obedeceu à tipologia habitual de localização
destas igrejas rurais, mas escondeu a aldeia num esconso vale, um pouco mais afastado
da velha “estrada de Sabóia”. Numa área de povoamento disperso, a aldeia
desenvolveu-se, lentamente, próximo do templo, numa faixa de terreno pertencente à
Igreja dividida em foros para a construção de moradias.
Resposta dos interroguatorios da freguezia de Saboya, termo da vila de
Odemyra, Arcebispado de Evora
1 Esta freguezia pertense a Provinçia do Alentejo, e hé Arcebispado de Evora, e
termo da vila de Odemyra, Comarca de Beja.
2 Esta terra pertense a Croa Rial.
3 Esta aldeya de Saboya tem vinte e outo vizinhos, e sem pessoas pouco mais
ou menos emtre mayores, e menores, mascolinas e femininas.
4 Esta terra está situada em hum vale, e dela se não descobre terra alguma,
uteiros, e matos hé o que dele se descobre.
5 Esta aldeia, e sua freguezia pertense a vila de Odemira que hé a sua cabessa.
6 A parrochia está dentro do luguar, e consta a freguezia de duzentos e
sincoenta e seis fogos, que cada fogo hé hum vizinho, e tem mil pessoas pouco mais ou
menos, emtre mayores, e menores, mascolinas, e femininas; não tem mais luguares, nem
aldeyas senão a da parrochia, e toda a mais freguezia consta de montes de hum vizinho
os mais deles, e outros de dous vizinhos, e os menos são de tres ou quatro vizinhos, e os
mais deles são cobertos de cortissa,1 cujos nomes deles são os seguintes:
Monte dos Pachecos, Monte da Ladeira, Monte da Palhota, Monte da Varge,
Monte da Corte Sevilha, Monte da Corte Piquena, Monte do Selão, Monte do
Almarginho, Monte da Nave Redonda, Monte do Serro Janeiro, Monte das Taypas,
Monte da Corte Lobato, Monte da Quebradinha, Monte de Val de Bispo, Monte de Val
de Matos, Monte do Embarradouro, Monte do Val das Astias, Monte da Amarela,
Monte de Val da Silva, Monte de Val de Barrancos, Monte da Cortinha, Montes de
Torquinos, Monte de Val de Moinhos, Monte de Val da Freira, Monte da Defeza,
Monte do Ameichial, Montes dos Rozais, Monte da Corte da Guama, Monte de Val de
Françiscos, Monte de Val de Touris, Monte dos Vales, Monte da Mouta das Porcas,
Montes de Carapeto, Monte de Val de Porco, Monte de João Martins, Monte de
Estombar, Monte da Brunheira, Monte do Caruncho, Monte do Pé do Serro, Monte da
Sarnadinha, Monte de Val da Rosa, Monte da Palmeyra, Monte dos Montinhos, Monte
dos Barreiros, Monte da Fos das Cazinhas, Monte da Malhada Fermoza, Monte dos
Topetes, Monte do Rico Homem, Monte das Arredoussas, Monte da Fos das Ribeiras,
Monte da Boeyra, Monte da Boeyrinha, Monte da Caza Telhada, Monte Ruivo, Monte
da Varge Longua, Monte do Pombal, Monte de Bem Cazado, Monte da Chayssa, Monte
do Azinhal, Monte do Zambujal, Monte Queimadinho, Monte da Castanha, Monte das
Pedras, Toutenique de Bacho, Monte de Val Longo, Monte de Val de Emxerto, Monte
de Val da Erva, Monte de Val da Grua, Monte das Marouteiras, Monte Sebereiro,
Monte da Relva, Monte de Val de Fontes, Monte de Toutenique de Sima, Monte das
Romeiras, Monte dos Ameirais, Monte da Caza Nova, Monte do Balhadouro, Monte
das Estacas, Monte da Fos das Estacas, Montes da Pedronas, Monte do Avijão, Monte
do Serro, Monte de Santa Clara, Monte de Afonço Annes.
Estes são os montes que comprehende a freguezia que todos fazem numaro de
outenta e quatro.
7 O orago desta igreja hé a Senhora da Assumpsão; tem quatro altares, o
primeiro hé da Senhora da Assumpsão, o segundo da Senhora do Rozario, o terceiro hé
do Senhor Jezus, o quarto hé das Santas Almas. A igreja não hé de naves. Tem outo
irmandades, e são as seguintes: a Senhora da Assumpsão, a Senhora da Conçepsão, a
Senhora do Rozario, o Senhor Jesus, as Santas Almas, o gloriozo São João, o gloriozo
São Pedro, o gloriozo Santo Antonio.
8 O párocho desta igreja hé cura, e tem de renda quatro moyos de trigo, e quem
aprezenta esta igreja hé o Senhor Arcebispo de Evora.
9 Esta igreja não tem beneficiados, e só a cura o párrocho dela.
10 Esta freguezia não tem conventos nem de religiozos, nem religiozas.
11 Esta freguezia não tem hospital.
12 Esta freguezia não tem Caza de Mizericordia.
13 Esta freguezia não tem ermidas nem fora nem dentro do luguar.
14 Esta freguezia como não tem ermidas, tambem não tem romages.
15 Os frutos da terra que os moradores colhem hé trigo, e senteio, e sevada, e
algum milho, e destes frutos ainda são pouco abundantes, por serem terras secas, e
ásperas, e ser uma serra braba.
16 Esta freguezia só tem juis, e escrivão da ventena, e está sujeita a câmara e ao
juis de fora da vila de Odemira, que hé a cabessa.
17 Esta terra não hé couto nem cabessa de conçelho.
18 Nesta terra não há memoria que dela floressessem, homens insignes, por
vertudes, letras, ou armas, e eu tambem o não sei.
19 Nesta freguezia não há feira, em todo o anno.
20 Nesta freguezia não há correio, e só se valem de proprios pera emviarem as
cartas pera qualquer outra terra.
21 As légoas que dista esta terra da cidade capital do Arcebispado, que hé a
cidade de Evora, são vinte e duas légoas, e da cidade capital do Reino, que hé Lisboa,
dista trinta légoas pouco mais ou menos.
22 Esta freguezia, e todo o este termo de Odemyra tem só o privilegio de não
paguarem os moradores deste termo, o dereito de portage, das fazendas que comprão em
outras terras fora do termo, e não sei que tenha outro privilegio, nem mais couzas dignas
de memoria.
23 Nesta freguezia não há fonte, nem lagoa, que tenha ágoa de espiçial
qualidade, e só no luguar de Monchique que hé Bispado do Alguarve, que dista desta
freguezia sinco légoas, hé que há ágoas de banhos que teem espiçial vertude para
muntos achaques.
24 Esta terra não hé porto de mar, nem por ela passa rio algum, que nele se
possa naveguar.
25 Esta terra não hé murada, nem tem prassa de armas nem castelo, nem torre
de que possa dar notiçia.
26 Esta terra não padesseo ruina alguma, no terremoto de 1755, e tudo ficou no
mesmo estado antigo.
27 Eu não sei mais couza alguma digna de memoria que possa dar notiçia, alem
do que não faz menção o dito interrogatorio.
1 Esta serra chama-se a Serra de Odemyra.
2 As légoas que esta serra tem de comprimento são quatorze, ou quinze pouco
mais ou menos, e de largura des légoas pouco mais ou menos, e prençipia ó pé do mar
aonde chamão o Sardão que hé freguezia de Santo Tiotonio termo da vila de Odemyra,
e vay acabar junto, a cidade de Tavira que hé Reino do Alguarve.
3 Os nomes dos prinçipais brassos dela, hé a Foya de Monchique, que fica junto
ao mesmo luguar de Monchique, e hé a Serra da Mesquita que fica vizinha da mesma
Foya, e tudo hé Reino do Alguarve e hé a Serra de São Barnabé, que hé termo da vila de
Almodovar, deste Arcebispado de Evora, e hé a Serra de Tavira que fica no Reino do
Alguarve, e estes são os prinçipais brassos desta serra, de que tenho notiçia.
4 Dentro da serra não nassem rios, mas só sim alguns ribeirros de ágoa nativa.
5 Dentro desta serra não sei que haja vila senão somente a vila de Odemyra, e
os luguares que estão na serra, como ao longo dela são as freguezias da mesma vila, e
seu termo e a freguezia de São Martinho das Amoreiras, e a freguezia de Santa Clara a
Velha, e a freguezia de Santa Ana da Serra que são todas do termo da vila de Ourique; e
a freguezia de São Barnabé que hé do termo da vila de Almodôvar; e por outra parte a
freguezia do Marmelete, e o luguar de Monchique que tambem hé freguezia, e a
freguezia de Alferçe, e a freguezia de São Marcos, e a freguezia de do luguar de Alte, e
a freguezia de Selir, e a freguezia da Senhora da Conceissão que hé na Serra de Tavira,
e todas estas freguezias, e luguares são do Bispado do Alguarve.
6 Não sem (sic) que dentro da serra haja fontes de propriedades raras.
7 Não sei que dentro da serra haja minas de metais, ou canteiras de pedras ou de
ouros (sic) materiais de estimassão.
8 Não sei que na serra haja ervas medicinais, e a cultura dela hé daalgumas
lavouras, que delas se colhe alguns frutos como hé trigo sevada, senteio, e algum milho.
9 Não sei que na serra haja mosteiros, ou igrejas de romagem, ou imagens
milagrozas.
10 A qualidade do seu temparamento, hé frigida, e cálida.
11 Dentro da serra há criassois de toda a qualidade de guado ainda que hé pouco
abundante de criassois, e tambem se cria nela munta cassa, como são coelhos, e perdizes
e alguns porcos brabos, e corsos.
12 Não sei que tenha lagoas, ou fojos notaveis.
13 Não sei mais couza alguma digna de memoria. [49]
1 O rio desta terra chama-se o Rio de Odemyra, e o sitio daonde nasse, chamase
a freguezia de Santa Clara, a Nova termo da vila de Almodovar, e logo prinçipia ter o
nome, a Ribeira de Odemyra.
2 Não nasse caudalozo enthé a distançia de tres légoas, e desta distançia pera
bacho prinçipia a ser caudalozo, enthé ao seu fim, e o mais do anno corre na mayor
parte dele.
3 Neste rio não entra mais rio algum, senão alguns ribeiros que o ajudão ser
mais acressido.
4 Da vila de Odemyra pera bacho hé que hé navegavel que já ao porto da dita
vila cheguão embarcassois grandes como são iates, e outras embarcassois similhantes.
5 O rio todo hé de curso quieto, e só ao entrar da barra de Vila Nova de
Milfontes, aonde ele se mete no mar hé que hé o curso mais inquieto, e arrebatado.
6 Corre do nassente pera o poente.
7 Este rio enthé aonde chegua a ágoa da maré tras peixes de diversas qualidades
que se crião no mesmo mar como são lissas rebalos douradas safios cassois salmonetes,
e aonde não chegua a ágoa da maré, que hé ribeirra, só tras pardeilhas, e bordalos, e
algumas lissas que custumão entrar com as cheias da ribeira, e tambem tras eirós.
8 Neste rio há pescarias em todo o anno, e principalmente no Verão.
9 As pescarias todas são livres em toda a parte do rio.
10 Cultiva-se as suas margens de trigo, milho e feijão, e o arvoreido que tem
todo hé silvestre.
11 Não sei que as suas ágoas tenhão vertude particular.
12 Sempre conservou o mesmo nome desde o seu nascimento, e não sei que em
outro tempo tivesse difrente nome.
13 Morre este rio no mar aonde chamão Vila Nova de Milfontes e não sei que
outro rio entre nele.
14 Não sei que tenha impedimento algum pera que não seja navegável, enthé a
vila de Odemyra.
15 Não sei que tenha pontes de qualidade alguma, em todo este rio.
16 Tem alguns moinhos dentro em si, e não sei que tenha mais engenhos.
17 Não sei que em tempo algum, nem no prezente se tirasse ouro das suas
areias.
18 Os povos uzão livremente das suas ágoas sem pensão alguma.
19 Este rio nasse da freguezia de Santa Clara a Nova termo de Almodovar, e vai
morrer no mar aonde chamão a barra de Vila Nova de Milfontes, e do seu nasçimento,
enthé aonde filiniza (sic) são quinze légoas pouco mais ou menos, e as povoassões por
onde passa são as seguintes: Santa Clara a Nova termo de Almodovar, e Santa Clara a
Velha termo da vila de Ourique, e perto do luguar de Saboya que hé freguezia do termo
da vila de Odemyra e passa pelo pé da mesma vila de Odemyra, e passa pelo pé de Vila
Nova de Milfontes aonde se vay meter no mar.
20 E não sei mais couza alguma notavel de que possa dar notiçia, fora do que se
faz mensão, nos ditos interroguatorios, e por ser verdade me assigno
Saboya 19 de Mayo de 1758
O párocho Manuel Afonço
1 Albert Silbert, Le Portugal Méditerranéen à la fin de l’Ancien Régime, 2.ª edição, vol. II, Lisboa, INIC,
1978, vol. II, p. 461, interpreta esta passagem como uma prova da utilização da cortiça na cobertura das
casas. Creio que não é incontestável a bondade dessa interpretação. Aqui, o termo monte poderá referirse,
extensivamente, à herdade e não à casa também assim designada. Neste sentido, a interpretação da
afirmação de que os montes, os mais deles, eram “cobertos de cortiça”, poderá ser a de que as herdades
eram repletas de sobreiros. Isto não obsta a que a cortiça fosse profusamente utilizada, desde tempos bem
antigos, em forros de casas, mesmo na alvenaria das construções, na protecção de muros de taipa
divisórios da pequena exploração, onde a havia, e, também, literalmente, como acha Silbert, na própria
cobertura de casas, além de, obviamente, na confecção dos mais variados utensílios, como está
comprovado por diversa documentação. Fica a questão em aberto, sem pôr verdadeiramente em causa a
interpretação de Albert Silbert.
António Martins Quaresma
in QUARESMA, António Martins, Odemira histórica: estudos e documentos. Odemira,
Município, 2006.






