São Martinho das Amorreiras, 1758, Abril, 2
Memória Paroquial da freguesia de São Martinho das Amorreiras, comarca de Ourique
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 3, nº 79, pp. 591 a 598]
Nótula histórica: Era, em 1758, do concelho de Ourique e dos domínios da
Ordem de Santiago. A sua fundação remontará ao século XV, sendo assim a mais antiga
freguesia rural do seu actual concelho. Teria pouco mais de 150 km2. Foi anexada ao
concelho de Odemira pela primeira vez em 1855, voltou depois ao de Ourique, e acabou
por ficar em Odemira a partir de 1899. A sede da freguesia figurou, durante muito
tempo, nesta paróquia tri-nuclear – Aldeia das Amoreiras, Cunqueiros (ou Conqueiros)
e S. Martinho –, como o mais reduzido aglomerado populacional. A igreja paroquial foi
construída, possivelmente, sob critérios de antiga sacralidade do sítio e num contexto
em que os dois lugares de maior importância – Cunqueiros e (Aldeia das) Amoreiras –
pretenderiam para si esse privilégio. A força agregadora da igreja paroquial inverteu
lenta e tardiamente a situação demográfica, até que a sede de freguesia acabou por se
tornar o principal núcleo populacional. Entretanto, Aldeia das Amoreiras perdeu boa
parte da sua importância e Cunqueiros praticamente desapareceu enquanto lugar
relevante. Muito mais tarde, já no século XX, nasceria e cresceria Amoreiras-Gare, à
sombra de uma estação ferroviária da linha do Sul.
Noticiaz que S. Magestade Fidelissima manda descrever da serra de S.
Martinho, vulgo das Amoreyraz, comarca, e termo de Ourique, Arcebispado de Evora.
1 Esta serra chama-se de S. Martinho daz Amoreyraz, por ter dentro de sy a
igreja do mesmo sancto; e para differença de outraz, misticas, e circumvizinhaz, que se
devirsseficão pelloz orágoz das igrejaz, que nellaz se fundárão.
Tem duaz légoaz de circumferençia para todaz as partez, por estar a igreja
fundada no meyo della; pella parte do nascente hé o seo principio menos fragozo,
porque termina o Campo de Ourique; para o poente hé mais fragoza, porque tem serroz
muito altoz, que terminão em outroz semilhantes da freguezia de Sancta Clara, do termo
de Ourique, da freguezia de Nossa Senhora da Assumpção da Serra de Saboya, do
termo de Odemira; do norte parte com maiz ásperoz oiteyroz, divididos dos que vão
continuando na serra da freguezia de Sancta Anna, por huma caudeloza ribeyra no
tempo do Inverno, a que chamão de Odimira, por hir terminar no rio salgado da mesma
villa de Odimira; e pello sul, da mesma sorte confina esta freguezia, e sua serra com a
de Nossa Senhora de Reliquiaz dividida por alguns ribeiroz, que de Verão se passão a
pé enxuto.
Principia esta ribeyra, chamada de Odemira, junto do monte, onde se acha
fundada huma ermida de Nossa Senhora da Colla; e vay discorrendo por entre as
sobreditaz serraz, passa pellas freguezias de Sancta Clara, e Assumpção de Saboya; de
Verão com munto pouca corrente, mas de Inverno caudeloza, e com grandes pirigoz de
suas innun dações, e tirmina no dito rio da villa de Odemira, que dista quatro légoaz
desta serra; e em toda a parte tem o mesmo nome de Ribeyra de Odemira; della não
nascem rioz, mas sim para ella correm todoz oz ribeiroz, ou regatoz, que nascem desta
serra.
Pouco distante do povo, que circúla esta igreja, que consta de trinta moradores,
fica outra aldeya para a parte do nascente, a que chamão dos Cunqueiroz, de outros
tantoz vizinhos; e pella mesma parte, quazi meya légoa, está outra, chamada
Amoreyraz, que consta de 50 vizinhoz; e vay terminar com as freguezias de Santa
Luzia, e da villa de Gravão.
Junto ao povo da igreja há huma fonte a [593] a que chamão Fonte de S.
Martinho na orilha de hum serro, virada para o poente, sem que padeça em suas ágoaz
diminuição, ainda no mayor calor doz verões; não tem propriedade especial; porém não
consta cauze dores, nem cruezas; antes vivem com boa saude os que della uzão.
Para a parte do norte, virada para o nascente, na raiz de outro serro, está outra
fonte, pouco distante do povo da igreja, a que chamão Fonte do Prior (porque hum prior
a mandou abrir); desta há pouco uso; e parece que corre, ou nasce por meneraiz de
ferro, por deixar esta cór noz aqueductoz, e aonde fica detida alguma de suas ágoaz.
Para a mesma parte do norte, distante huma légoa, há outra chamada Fonte da
Indiabrada por estar junta ao monte deste nome (que antigamente era Ilha Brava) virada
ao nascente, de milhores ágoaz, como tem experimentado os médicos, que affirmão ser
maiz fina que a primeira.
Esta serra hé abundantissima de fontez porque tem regatoz todo o anno, que
nascem dos mesmoz serroz; cauza, por que está cheya de hortejos, árvores de fruta
dilicioza, como peras, amexas, pessegoz, larangeiras, e sedreiras; e não há cazal, que em
seo monte não tenha sua fonte, e hortejo; e oz maiz delles com suas vinhaz.
Junto do povo da igreja corre continuamente hum ribeyro, oriundo da sobredita
fonte do sancto, que unido com outros regatoz de outras fontinhas, dão água para
moerem sinco moinhoz, que vão ao longo do mesmo ribeiro, que se vay exhaurir na
Ribeira de Gravão, huma légoa distante.
Quazi no centro desta serra se acha fundada há maiz de trezentos annoz, a
igreja parochial de S. Martinho, que hé da Ordem, e Mestrado de S. Tiago da Espada,
provida pella Meza da Conciencia com hum só párocho com titulo de cappellão; tendo
já havido nella prior, e benefeciado, quando menos do que agora, o necessitava; porque
hoje tem quazi quatrocentoz fogoz, e chegarão a mil e quinhentas pessoas; 8> hé pago o párocho pella comenda de Ourique, que admenistra, e pessue o Ex.mo Conde de Unhão, com 150 alqueires de trigo; e 120 de sevada;1 dez mil reiz em
dinheiro, de que se lhe tira 800 reiz para subsidio do Collegio de Coimbra. 2
Nesta igreja, cuja vocação hé de S. Martinho Bispo, há sinco altares, o mayor,
douz collateraes, com as imagens de Nossa Senhora da Conceyção em hum, e Graça em
outro; outro interior do Rozario, em correspondência do de Nossa Senhora da Saude,
onde se achão collocados S. João Baptista, e S. Amaro. Com o sepulchro do Senhor
morto. No corpo da mesma igreja se fez há pouco tempo outro altar de S. Miguel das
Almas; onde se collocárão S. Pedro e S. António.
Há somente a confraria do Rozario, cujo rendimento (que pouco excede de seiz
moyoz de trigo) serve para sustentar, e acudir às despezas annuaes da igreja; porque
esta, nem huns 3000 de Fábrica, que pela bulla do SS.mo Papa Clemente 8.º se lhe
manda aplicar, athé qui os não cobrou jamaiz, por dúvidas dos comendadores. As mais
confrarias só o são no nome, e não nas rendas, porque são muito pobres; e este talvez
seria o motivo, porque o Ceo não infligio o castigo, e ruina do terremotto no primeiro de
Novembro de 55 neste templo; que na cappella mór só experimentou na abóbeda
offenssa, que dizem, não ameaça por hora grande ruina; porque se viesse a terra, como
outras muitas, tarde se reedeficaria; por não ter Fábrica da comenda, com que se
podesse levantar.
Nesta serra há munta cassa: pirdizes em grande abundançia; coelhos; mas lebres
poucas. Porcos javalizes, e corçoz alguns annos são maiz vistoz; loboz com maiz
frequençia, por conta de se crearem rebanhoz de ovelhas; porém maiz são os das cabras;
a cultura hé somente de trigo, senteyo, sevada; e em partes milhoz, e poucos legumes.
As maiz das propriedadez são de senhorioz particulares, onde D. Miguel Maldonado
tem a mayor parte.
Há nesta serra duas ermidas; huma de S. Bento na referida Aldeya das
Amoreyras, onde concorre pouca gente de romaria e outra de Santa Anica, distante da
igreja parochial huma légoa; na eminencia de huma serra para a parte do norte, virada
para o nascente, pouco frequentada; e se lhe não faz festa, por ser muito pobre; nem
consta quem erigio estas ermidas; suppõe-se, que a devoção destes moradores.
Esta igreja hé vizitada peloz juízes da Ordem da comarca de Ourique todos os
annos; e pelo ordenario do arcebispado de Evora, onde pertence seo territorio.
Os montes, ou serroz desta freguezia, são de pedraz, a que chamão pissarra,
munto branda, e facil de quebrar-se, e desfazer-se sem muita diligencia; não consta se
descobrissem nella mineraes em tempo algum; nem plantas, ou ervas mediçinaes de
mayor nota.
A qualidade de seo temperamento no Outono hé sugeita a febres, terçans, e
quartaans, mas não pirigozas, e há pessoas de 80, e maiz annoz.
Não há lagoaz, nem fojoz, torrez, ou castelloz; nem couza, que se possa
nottar; e digna de descrever-se maiz que o que fica ponderado.
S. Martinho das Amoreiras 2 de Abril de 1758
O Prior Rodrigo Jozé d’ Andrada Homem
(1) O alqueire de Ourique
(2) S. Martinho era então freguesia de Ourique, e pertencia à Ordem de Santiago. O comendador, isto é, o
donatário, era o conde de Unhão que recebia as rendas da respectiva comenda (em que avultavam os
dízimos), que, por sua vez, se obrigava a cuidar das obras da igreja e a pagar ao cura, aqui também
chamado capelão. Vê-se, porém, que os comendadores fugiam a cumprir as suas obrigações. S. Martinho
era também um caso algo diferente das outras freguesias, pois tivera prior e beneficiado, decerto devido à
sua dimensão e à existência de uma outra igreja, a da Aldeia das Amoreiras.valia 15, 480 litros.
Transcrição: António Martins Quaresma
in QUARESMA, António Martins, Odemira histórica: estudos e documentos. Odemira,
Município, 2006.






