Memórias Paroquiais

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Odemira - São Luís

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São Luís, 1758, Maio, 28
Memória Paroquial da freguesia de São Luís, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 21, nº 157, pp. 1339 a 1342]


Nótula histórica: Freguesia criada em fins do século XVI, com cerca de 146
Km2 de área. O seu território foi destacado do da freguesia do Salvador, a que pertencia
desde a Baixa Idade Média. O nome de S. Luís remete para a influência franciscana na
região – ele foi adorado e teve festa em várias freguesias – e adequava-se a uma área
com abundância de gado, visto que é o santo preferencial a que se recorre para a cura
dos males dos animais. Uma lenda ainda corrente na região diz que a imagem de S. Luís
foi feita a partir de um bocado da imagem de S. Domingos, que o povo venerava no
cimo do cerro com o nome do santo. Conforme a narrativa, após o cumprimento de uma
promessa de um criador que levou um chibo ao santo e o amarrou à imagem, o animal
desceu o cerro com esta a reboque, o que provocou a sua destruição. Aparentemente
trata-se da substituição de um antigo culto, num santuário de altura, por um novo culto.
A presença de São Domingos, frequente no Baixo Alentejo a partir do século XIV,
poderá dever-se, como aconteceu com a de São Luís, à intensa missionação dos frades
pregadores nesta região, lembrando assim a complementaridade do esforço
evangelizador de franciscanos e dominicanos.1
O templo que deu origem à nova aldeia foi assim construído numa plataforma
mais baixa, com a serra de Cercal/S. Luís a poente, sempre com algum pendor para a
ribeira do Torgal, para onde correm alguns afluentes, posição análoga à maioria das
freguesias rurais de Odemira. A aldeia teve, porém, crescimento muito lento, como
podemos ver pela informação do pároco em 1758.


Emformação do que se procura saber da terra nos interrogatorios seguintes.

1 Fica esta freguezia na provincia do Alentejo, Arcebispado de Evora, Comarca
de Beja, e hé do termo de Odemira.

2 Consta-me, que há annos hé de El Rey, e ao prezente ahinda a pessuy.

3 Em esta aldeya ha dezacete vezinhos, e em toda a freguezia cento, e vinte, e

seis fogos; pessoas, de que se pode fazer menção quatrocentas, e trinta.

4 Está setuada em campina, junto a huma serra, e só se vê huma ermida, que fica
no termo de Collos distante légoa, e meya.2

5 Não tenho, que dizer no prezente interrogatorio.

6 A igreja está no lugar, e não tem mais aldeyas só sim montes pella freguezia.

7 O orago hé o Senhor S. Luis Bispo de Toloza, e só ha tres Altares hum do
dicto Santo, outro de N. S.ra do Rozario, e o outro do Sr. do Bom Fim, e não ha mais,
que a irmandade de N. S.ra por devoção de algumas pessoas.

8 Párocho, hé, ou cura, data do Ex.mo Sr. Arcebispo de Evora, e só tem de
côngroa tres moyos de trigo, e doze mil reis em dinheiro havido tudo da comenda.

9, 10, 11, 12 Não há, que dizer, pois hé freguezia de campo.

13 Nesta freguezia havia antigamente duas ermidas huma de S. Domingos, e
outra de Santa Catherina, esta tem só as paredes e a santa está há annos em a de S.
Domingos, que se amanhou a custa das confrarias da igreja principal, como determinou
o Sr. Arcebispo, por não terem os sobredictos santos couza alguma, e como não teem
rendas, não há, a quem pertenção.

14 À de S. Domingos algumas pessoas veem da mesma freguezia, ou perto em
romagem, não em dias determinados, senão quando podem.

15 Semeyão os lavradores trigo, milho, senteyo, sevada, fejoins, e algumas
hortaliças, mas trigo, e milho hé que hé a mayor abundancia.

16 Juis xamado de ventena, e escrivão hé que há nesta freguezia e o juis de fora
da villa de Odemira, e corregedor de Beja são as justiças que a governão.

17, 18, 19 Nada nos dictos interrogatorios.

20 Desta freguezia a Odemira ahonde ha correyo são três légoas.

21 Desta aldeya a cidade de Evora são 19 légoas, e a Lx.ª 24.

22, 23, 24, 25 Nada me consta, que tenha, que dizer.

26 A igreja desta freguezia alguma royna padeceo nos cantos, e tilhado, e o
mesmo sucedeo a alguns lavradores em suas cazas, o que tudo está amanhado.

27 Não me consta, que nesta freguesia haja couza alguma, que seja digna de
memorias, só sim, se for o que está dicto.

Emformação do que se procura saber da serra nos prezentes interrogatórios.

1 Nesta freguezia tem a serra muytos nomes, e o principal he a serra de São
Domingos.

2 Tem a dicta serra de comprimento nesta freguezia duas légoas, e de largura
será ahonde for mais larga meyo quarto de légoa, e prencipia em hum monte xamado do
Val de Porcas, e acaba, em outro xamado a Maceyra Grande.

3 Da dicta say hum braço, que acaba junto a esta aldeya, a que xamão a Serra do
Coxo dos Cains.

4 Da dicta serra saem alguns regatos, e estes se ajuntão pera huma ribeyra, que
corre da parte do sul, e fenece pera a parte do pego em o rio de ágoa salgada.

5, 6, 7 Nada tenho que dizer nos dictos interrogatorios.

8 Em algumas partes, que são mais baxas, semeyão os lavradores senteyo,
milho, e trigo, e senteyo, he que mais dá, e isto em poucas partes.

9 Na dicta serra fica a ermida de S. Domingos, de que já falley no interrogatorio

14 supra.

10 Consta-me, que de Inverno hé muyto fria, e de Verão muyto quente.

11 Caça alguma há, como são corços, lobos, porcos montezes, e a mayor
abundancia são perdizes.

12, 13 Nada mais me consta, que haja.

Emformação do que se procura a respeyto do rio nos prezentes interrogatorios.

1 Nas estremaduras desta freguezia está, e vay huma rebeyra que nace da serra
nomeada nos interrogatorios supra, e xama-ce a dicta ribeyra o Trogal, e por outra parte
corre hum rio, que dá prencipio junto a Ourique, como nas dictas partes dirão com mais
clareza.

2 Só corre de Verão donde xega a maré, e nas demais partes quando xove, e de
Inverno.

3 Ahonde xamão o Algos fins desta freguezia se mete a rebeyra xamada o
Trogal, e assima nomeada no dicto rio de ágoa salgada.

4 Consta-me, que hé capás de barcos cacilheyros, ou outras embarcaçoins pouco
mayores.

5 Em todo elle com a maré hé de curço arrebatado.

6 Corre o dicto rio do nacente ao sul.

7 A mayor abundancia de peyxes, que me consta haver são mugens, e mais
algumas castas de outros peyxes, que entrão, e saem com a maré, como são roballos,
douradas, caçoins, canejas, safios, linguados, e mais alguns de que não faço menção.

8 No tempo de Verão algumas pessoas veem a pescar, e em todo o anno há
pescadores, que nelle matão.

9 Pesca no rio quem quer sem que pessoa alguma lho empeça.

10, 11 Nada me consta, que haja, nos dictos interrogatorios.

12 Sempre se xamã, e tem xamado o rio de Odemira.

13 Junto a fortaleza de Villa Nova de Milfontes se mete em o mar largo.

14, 15 Nada me consta, que haja.

16 Nesta freguezia só ha moynhos, que moem com ágoa salgada da maré.

17 Nada me consta.

18 Sem penção alguma, e livremente uza da ágoa quem quer.

19 Em a villa de Odemira hé o prencipio do rio, que hé de ágoa salgada, este se
acaba em Villa Nova de Milfontes, ahonde acaba em o mar largo.

E nada mais me consta, que haja, que dizer em esta freguezia a respeyto dos
enterrogatorios mencionados no papel, de que fuy entregue,

S. Luís hoje 28 de Mayo de 1758.

O Párocho Manuel dos Reys Magro

 

 


 

(1) LOUIS RÉAU, Iconografia del arte Cristiano. Iconografia de los santos. De la A a la F, 2 .ª edição em
castelhano, tomo 2, vol. 3, Barcelona, Ediciones del Serbal, 1997, p. 400.
(2) Trata-se naturalmente de Nossa Senhora das Neves, no lugar da Ribeira do Seissal.

 

 


 

Transcrição: António Martins Quaresma


in QUARESMA, António Martins, Odemira histórica: estudos e documentos. Odemira,
Município, 2006.

Actualizado em Sábado, 18 Junho 2011 17:51  

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