Memórias Paroquiais

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Odemira - São Teotónio

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São Teotónio, 1758, Maio, 10
Memória Paroquial da freguesia de São Teotónio, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 36, nº 51, pp. 321 a 325]

 


Nótula histórica: Mais uma freguesia criada em fins do século XVI, a mais
extensa do concelho, com 346 Km2, a partir de Santa Maria e do Salvador. O seu orago
é homenagem ao bispo D. Teotónio de Bragança, que, em viagem de ou para as Caldas
de Monchique, permaneceu num monte do lugar, o monte da Gaga, e incentivou os
moradores a tomarem a iniciativa de construírem a igreja para não serem obrigados a
cumprirem as suas obrigações religiosas na vila de Odemira, muito distante para grande
parte da população. A delimitação do território da freguesia, consequência do seu novo
estatuto, ter-se-á feito, ainda em pleno episcopado de D. Teotónio, que, por essa altura,
também esteve em Odemira onde terá tocado no assunto ao clero local. Nascia assim a
maior freguesia de Odemira, não nos lugares aparentemente mais povoados, como
Orada, Açoreiro e especialmente Amieira, mais “escondidos”, mas em local mais
central e próximo da estrada para o Algarve. Como, em todas as freguesias rurais de
Odemira, foi através da organização eclesial que se fundou uma nova entidade
territorial. E como normalmente aconteceu, foi reservado um terreno próximo da igreja,
para ser dado em foros para construção de moradias, ao preço módico de 100 réis, onde
efectivamente está implantada hoje boa parte, pelo menos a mais antiga, da povoação.


Desta aldeya, e freguezia de Santo Theotonio, o que sei e me informáram hé o
seguinte.

1 Esta aldeya, e freguezia de Santo Thetonio, fica na Provincia do Alemtejo e
pertence ao Arcebispado de Evora, hé do termo da villa de Ódemira, que hé a cabeça de
comarca da cidade de Beja.

2 Hé esta freguezia ao prezente de El Rey, e antigamente o foi dos Condes de
Odemira e a igreja hé anexa as duas matrizes de Santa Maria, e do Salvador da dita villa
do Real Padroádo.1

3 Tem esta freguezia trezentos e sincoenta, e hum vezinhos, e mil cento e trinta
pessoas.

4 Está esta aldeya situada em hum valle, e a sua freguezia, duas partes della hé
montuoza, e a outra parte hé charneca de campina, e desta parte se descobre o mar, por
ser costa combatida muito dos mouros no tempo do Veram, por nam ter fortaleza: desta
aldeya se nam discobre povoaçam alguma, e só dos Montes da Barca, e sua vizinhança
se descobre o lugar de Ódeceixe Reyno do Algarve, que dista da tal vizinhança hum tiro
de balla.

5 Nam tem termo esta freguezia sobre si, porque hé subjeyta ao termo da villa de
Ódemira, e nam comprehende em si lugares, nem aldeyas.

6 A sua parroquia está dentra (sic) da aldeya a hum ládo della, e fora desta nam
há mais lugares, nem aldeyas na freguezia.

7 O seo orágo hé Santo Theotonio, tem sinco altares hum hé o altar mayor, que
hé do Senhor Santo Theotonio, o colatral, da parte direyta hé da Senhora do Rozario, e o
da parte esquerda hé do Senhor Jezus, e desta parte tem outro altar, que hé do Senhor S.
Gregorio, e da outra parte tem outro altar, que hé do senhor S. Luis. A igreja hé de
huma só nave: tem tres irmandades huma hé a da confraria do Santissimo Sacramento,
por haver sacrario na dita igreja, outra hé da confraria das Almas do Purgatorio, e a
outra hé da confraria de Nossa Senhora do Rozario.

8 O párroco hé cura ad nutum; aprezentado pello Excelentissimo, e
Reverendissimo Senhor Arcebispo de Evora, e tem de renda quatro moyos de trigo que
lhe pagam os freguezes.

9 Esta freguezia nam tem benefeciados.

10 Nam tem conventos.

11 Nam tem hospital.

12 Nam tem Caza de Mizericordia.

13 Tem huma ermida dentro em si, que hé do Senhor Santo Miguel, e dista desta
aldeya duas légoas, e esta pertence a esta igreja. Tem outra ermida que hé do Senhor
Santo Joam Baptista, que dista desta aldeya huma légoa, e pertence a Julianna Rapoza
veuva, por estar na sua herdade de Joam de Ribeyras.

14 À ermida de S. Miguel no seo dia vinte, e nove de Septembro de cada hum
anno comcorre muita gente a ella em romagem e nesse dia se fás naquelle citio huma
vigilia, que dura só esse dia e nam sei que em mais dias hajam mais romagens; e a
ermida do Senhor Sam Joam nam sei que haja romagens. Se nam a huma imagem da
Senhora Santa Barbara, que nella há, e isto hé em alguns dias do anno cujos nam sei por
serem raras vezes.

15 Os frutos da terra que os moradores desta freguezia recolhem em mayor
abundancia hé trigo.

16 Nam tem juis ordinario tem somente juis da venténa o qual está subjeito ao
governo do juis de fora da villa de Ódemira.

17 Nam hé couto, nem cabeça de concelho; honra, ou behetria.

18 Nam há memoria, que nesta freguezia florececem homens alguns insignes,
em vertudes, letras, ou armas.

19 Nam tem feira alguma.

20 Nam tem correyo, e só se serve do correyo da villa de Odemira, que dista
desta aldeya duas légoas.

21 Dista esta aldea da cidade de Lisboa trinta légoas, e da cidade capital deste
Arcebispado vinte e duas légoas.

22 Nam tem previlegios alguns, antiguidades, nem couzas dignas de memoria.

23 Nam tem fonte, nem lagoa celebre nem ágoas de especial qualidade dentro,
nem perto.

24 Nam tem porto do mar, e só dista desta aldea huma légoa o mar, que hé costa
brava combatida dos mouros, para a parte do poente, e desta parte cerca esta freguezia, e
hé inavegavel por ser costa de muito rochedo, e isto se entende ao pé de terra, que mais
dentro ao mar paçam embarcaçois para huma e outra parte do nacente para o norte, que
se avistam ao largo desta freguezia.

25 Nam hé murada, nem praça de armas, nem tem torre, ous (sic) castello.

26 Padeceo esta freguezia varias ruinas no terremoto de 1755 de leve
concideraçam, que estam reparadas, e a mayor e digna de memoria desta foi a da igreja
paroquial desta freguezia, porque todas as paredes da igreja abriram, em graves rachas,
estas se taparam, para evitar mayor damno, os telhados todos se destruiram, e para
conservar o forro, e madeyras se mandou cobrir de telha vam, e assim se acham, mas
nam livres de muitas goteyras da chuva, a capella das Almas se arruinou, mas já se acha
reparada a custa das suas esmollas. A capella mor toda se arruinou, e cahio por terra
toda a sua abóbeda, e a parede está a perigo de cahir por estar toda aberta, e pendente
para fora. A sanchristia abrio e lhe cahio huma parede; e com estas principais ruinas se
acha ainda hoje destruida, e sem capacidade para acomodar os freguezes, alem da
pequenez da igreja.

27 E nesta parte nam sei de mais noticia.

Ao respeito da Serra, o que achey hé o seguinte

1, 2 Tem esta freguezia huma serra, que se chama da Aráda, e principia na
herdade dos Algares, que dista desta aldea huma légoa, athé Santo Bertholameo tem de
cumprido sete légoas, e dahi continua athé se meter no Reyno de Castélla, cujas légoas
me nam souberam informar, e tem de largura meya légoa, esta serra nam tem braços,
nem della nace rio algum.

3 Terceiro nada há.

4 Quarto nada.

5 Quinto nada.

6 Sesto nada

7 Septimo nada

8 Há nesta serra, e freguezia ervas medecinais, a que chamam cardaloza, e erva
soldá. E hé cultivada de algumas couves, e a mayor abundancia hé de uvas, que se
cultivam, e nam tem mais plantas.

9 Nono nada

10 Hé do temperamento fresco, e humido, e pecam suas infermidades em sangue.

11 As criaçois dos gádos, hé de cabras, ovilhas, e rezes, e a caça hé de perdizes,
coelhos, e lebres.

12 Ao duodecimo nada.

13 Ao terciodecimo nada.

E nam há mais noticia desta parte.

No que toca ao rio desta freguesia foi informado do seguinte

1 Há huma ribeyra, que se chama a Ribeyra Grande.

2 Esta ribeira nace na Serra, ou Foya de Monxique, que devide o Reyno do
Algarve deste Reyno de Portugal, e por esta parte tem de cumprimento, quatro légoas, e
da largura hum tiro de pedra, e menos ainda, e principia na dita Foya, e vem a acabar no
Rio de Odeceixe.

3 Nam tem braços.

4 Ao quarto nada.

5 Ao quinto nada.

6 Ao sexto nada.

7, 8, 9 Ao septimo nada digo esta Ribeira Grande,2 no tempo do Inverno hé logo
caudaloza, e no tempo do Veram só trás ágoa com que moe hum moinho, nella nam
entram rios alguns, mais que os regatos, que correm dos montes no dito tempo. Nam hé
navegavel, nem capás de embaracaçois, hé de curso arrebatado em todo o tempo de
inchentes. Corre do nacente para o poente nella se criam pardelhas, burdallos, e eyrozes,
em igoal abumdancia, e se pescam no tempo da Quaresma tam somente, e em toda a
ribeira sam livres, e de nenhum senhorio.

10 As margens desta ribeira sam cultivadas de milho, e trigo, e feijõis, brancos
efradinhos, e os frutos mais, que tem sam seramenhos, algumas ameixieiras, e nam tem
mais arvoredos.

11 A undecimo nada.

12 Ao duodecimo nada.

13 Esta ribeyra vay acabar no Rio de Odeceixe, aonde entra e fenece no mar.

14 Ao decimo quarto nada.

15 Ao decimo quinto nada.

16 Ao decimo sexto, tem esta ribeyra o moinho do Besteiro e o moinho do
Rolam, e o moinho de Sima, e o moinho de Bayxo, e hum moinho, que de novo se anda
fazendo no sítio da Abobreyra desta freguezia tudo na dita ribeyra e fora disto nam tem
mais engenhos.

17Ao decimo septimo nada.
18 Ao decimo outavo os povos sem pençam alguma uzam das suas ágoas para a
cultura das margens da dita ribeira livremente.

19 Tem a dita ribeyra quatro légoas, e vem acabar no rio de Odeceixe, que paça
junto ao dito lugar, e nam tem povoaçam mais alguma, fora deste lugar, e vay acabar no
mar aonde fenece.

20 Nam tem mais couza alguma esta freguezia, que seja notavel de que poça dar
noticia.


S. Theotonio 10 de Mayo de 1758


O Pároco Jozé Ferreira da Fonseca

 


1 Tal como em S. Luís, relativamente a S. Salvador, a antiga ligação às freguesias primitivas deixou
vestígio nesta explícita dupla sujeição, que aliás tinha consequências em vários planos.

2 Trata-se da ribeira de Seixe ou Odeceixe, que corre entre a freguesia de S.Teotónio e terras algarvias.
Alguns dos topónimos, como Ribeira Grande, referida a um lugar junto à ribeira de Seixe, já no Algarve,
e alguns dos nomes, como Besteiro e Aboboreira, abaixo indicados, ainda existem e podem ser
encontrados nas cartas do Exército (escala 1/25 000), n.os 568 e 577. O pároco diz que a dita ribeira vai
acabar no rio de Odeceixe porque reserva este nome para a parte final do mesmo curso de água.


Transcrição: António Martins Quaresma


in QUARESMA, António Martins, Odemira histórica: estudos e documentos, Odemira, Município, 2006.

Actualizado em Domingo, 12 Junho 2011 20:40  

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